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Em louvor do soneto - Félix Pacheco

EM LOUVOR DO SONETO

Outros se percam no marulho intenso,
E a lira afinem pelo canto vasto.
Eu, no meu lindo cárcere, me basto,
E não no julgo estreito, mas imenso.

Nestes curtos grilhões nunca me gasto.
Digo tudo que quero e quanto penso,
Satisfeito das perfídias que venço,
E orgulhoso dos óbices que afasto.

Ha quem prefira os poemas dilatados,
Amplas visões em versos numerosos,
Onde a rima extravase em grandes brados.

Eu, porém, a outros moldes me remeto,
E nunca tive um gozo entre os meus gozos
Que não coubesse dentro de um soneto!

(Soneto de abertura do livro No limiar do outono, 1919.)

Félix Pacheco

O Poeta e o tempo - Félix Pacheco

O POETA E O TEMPO

São sempre iguais na idade os deuses e as quimeras.
O poeta é um deus também. Pertence-lhe o infinito.
Perdido na amplidão sempiterna do mito,
Fica de todo alheio ao desfilar das eras.

Sucumbam gerações no círculo restrito
E passem, no vaivém sem fim, as primaveras.
O poeta há de viver, para além das esferas,
Esquecido e imortal, todo entregue ao seu rito.

Eclíticas de sóis, movimentos dos astros,
Outonos e verões correndo atrás de invernos,
Tudo isso diz que o mundo anda também de rastros.

A própria formosura é vã nesses infernos:
O sepulcro dispersa em pó os alabastros.
Unicamente Deus e o Poeta são eternos.

(Mors-Amor, 1905.)

Félix Pacheco

Símbolo D'arte - Félix Pacheco

SÍMBOLO D’ARTE

Se o meu verso não fora o agonizar de um lírio,
E o suave funeral de um crisântemo roxo,
Diluindo-se, murchando, à vaga luz de um círio,
Entre o planger de um sino e o gargalhar de um mocho;

Se essas flores do mal, em pleno desabrocho,
Eu não sentira em mim, num êxtase e em delírio,
Meu orgulho de rei julgara vesgo e frouxo,
Pois a glória de um sol não vale esse martírio.

Se, na terra que piso, algum prêmio ambiciono,
É o deserto, a cabala, o claustro, a esfinge, o outono,
O almo encanto da noite e a augusta paz da morte...

E o meu símbolo d’arte, o ideal que me fascina,
É a tristeza a florir a graça feminina,
Como um farol pressago a iluminar o norte!

(Mors-Amor, 1905.)

 Félix Pacheco

Se soubesses - Félix Pacheco

SE SOUBESSES...

Ah se soubesses quanto choro ao vê-las,
Estas lembranças do passado extinto!...
São visões de necrópole que sinto.
Fugiu-me o sol, fugiram-me as estrelas.

Estes cartões terníssimos; aquelas
Cartas cheias de amor, nas quais não minto
E onde infantil e ingenuamente pinto
Inventadas, fantásticas querelas;

Se tu soubesses com que dor enorme
Estes papéis amarelados leio,
A mágoa que me oprime ao ver que dorme

Toda a antiga paixão de que te esqueces;
Se imaginasses o meu duro anseio
E visses o que sofro, ah! se soubesses...

 Félix Pacheco


Ânsia da Luz - Félix Pacheco

ÂNSIA DA LUZ

Há milênios talvez, ó grande sol fecundo,
Aqui me abandonaste, esquecido das eras.
Por que tardas assim? Por quê? Por quem esperas?
Que força te detém do outro lado do mundo?

Enquanto, sobre o teu plaustro de ouro, errabundo,
A antípoda feliz, cheia de azuis quimeras,
Percorres com amor, e espalhas primaveras,
Na longa noite atroz cada vez mais me afundo.

Em vão mergulho o olhar nas sombras do levante.
Não regressas jamais do hemisfério distante,
E eu sucumbo de frio e angústia aqui no inverno.

Sinto que cambaleio, e ando como que às cegas
O dia, a vida, a luz, ó sol, porque me negas?
Por que foges de mim, ó grande sol eterno?

Félix Pacheco


Mors-Amor - Félix Pacheco

MORS-AMOR

Veste a clâmide austera e grave do soneto
E vem cantar comigo, ó musa, o horror da morte.
Deixa que em cada poema a idéia vibra forte,
Mas como um luar de amor sob um velarium preto.

Deu-me Satã jovial um mágico amuleto.
Asrael marcará de hoje em diante o meu norte.
Hei de mudar em ti, num mal que me conforte,
O perfume de carne em riso de esqueleto

Tudo, tudo, por fim, mergulharei no abismo,
Todas as tentações funestas de tua alma
E a beleza fatal de teu corpo maldito.

De heptacórdio na mão, rindo do cataclismo,
Novo arcanjo revela, descreverei com calma
A Morte vitoriosa estrangulando o Mito.

Musa Decadente - Félix Pacheco

MUSA DECADENTE

Eis morto o redolente e constelado outono,
Que conservava ainda a glória do teu seio.
Triste, desolador, implacável e feio,
O inverno, ei-lo aí está, núncio do eterno sono.

Não mais no corpo ideal o majestoso entono.
Sem fulgores, o olhar, que do Olimpo te veio,
Não será, como outrora, indiferente e alheio
A quem contigo sofre o horror desse abandono.

Há de seguir-te sempre um sol de primavera.
Celebrarei no verso amoroso e vibrante
O baquear dos torreões do encantado castelo.

Teu inverno há de ter, como o outono tivera,
Ó helianto que murcha, ó astro agonizante,
O tumultuoso amor dramático do Otelo!

(Mors-Amor, 1905.)

Ofertório - Félix Pacheco

OFERTÓRIO

Cerca-te a nobre fronte uma auréola bendita,
Na nostalgia azul dos teus olhares leio
Uma Balada atroz com Lágrimas escrita.

És para mim, ó Mãe, o vigoroso esteio
Que sustenta de pé a velha e augusta Cripta,
A colunata de oiro erguida em frágil seio,

Para amparar a Torre Astral dos Meus Cismares,
E impedir que ela tombe, em pó desfeita, em ruínas.
A tua voz espalha, em ondas, pelos ares,

Suaves, doridos sons de aflitivas surdinas,
Enchendo o Oceano, enchendo os Céus, enchendo os Mundos
Como um Réquiem cantado através de neblinas.

Vieste para extinguir os tormentos profundos!
Vieste para apagar as velhas cicatrizes,
Para descortinar o Céu aos moribundos!

Vieste para aliviar a Dor dos Infelizes!
Vieste para espancar as Traves de Minh’Alma,
Para arrancar à Dor as rígidas raízes!

Arcanjo de asa branca e protetora espalma,
Emissário de Deus, ó Mãe, tu me trouxeste,
Como uma Bênção do Alto, a esplendorosa calma.

Abrandas a Agonia, exterminas a Peste,
Escravizas o Leão ao teu olhar piedoso,
E o Corvo teme, e o Tigre, a alvura que te veste.

Arcanjo, Santa, Lírio, Estrela, Sol glorioso,
Filtro que os Corações Humanos fortalece,
Tamareira que ensombra o deserto arenoso,

Mater! Suprema Força! Acolhe minha prece!

Félix Pacheco


Asas Perdidas - Félix Pacheco

ASAS PERDIDAS

Sobre as asas de um Anjo, asas de neve, espalmas,
Em pregrinação pelas altas esferas,
Subiste, a fruir no Azul eternas primaveras,
Infinitas manhãs luminosas e calmas.

Escutaste a canção misteriosa das Almas,
Que, chumbadas ao Pó, viveram noutras eras,
Percorreste o país do ouro e luz das Quimeras,
De brando Serafim sobre as asas espalmas.

Dessas asas ideais, voando por Outros Mundos,
Caíste, sombra de um Sonho apagado e disperso,
Nos abismos do Vácuo infinitos e fundos,

Rolando ficarás para sempre no Espaço,
Rolando e crendo ouvir, em ruidoso fracasso,
Contigo e sobre ti rolar todo o Universo!

Félix Pacheco