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Bons Tempos - Alphonsus de Guimaraens

Bons Tempos
Bons tempos da loriga e da cota de malha,
Quando vós, meus avós das montanhas do Minho,
Balestreiros viris, vermelhos do bom vinho,
Ao sarraceno infiel ousáveis dar batalha!

As loiras castelãs, cheirando a rosmaninho,
Diziam-vos: — "Que Deus, na peleja, vos valha!"
E o saio d′armas era a querida mortalha
Que vos ia cingindo o amplo torso de pinho...

Combates pela Cruz em campos do crescente!
Fidalgos, infanções, ou gente de mesnada,
Volviam para Cristo o olhar piedoso e crente.

E vós, guerreiros, quando a morte alucinada
Surgia, para vê-la erecta, frente a frente,
Inda erguíeis a heril viseira da celada...

Alphonsus de Guimaraens

Alquimista da morte - Alphonsus de Guimaraens

Alquimista da morte
Não me faleis de amor, nem das carícias
Com que a fronte do sol me atorçalastes...
As ilusões no mundo são fictícias;
As rosas pendem, sem cessar, das hastes.

Entre as pálpebras, em horas não propícias,
Morrem os olhos, onde os afogastes...
Só os astros brilham, como ideais delícias,
Eternamente, em perenais engastes.

Minh′alma vai seguindo, às vezes brusca,
Tranqüila às vezes; passa pelas portas
Como astro a que nenhuma luz ofusca.

Alquimista da morte, entre retortas
E cadinhos medievos, ando em busca
Da essência celestial das cousas mortas...

Alphonsus de Guimaraens

Soneto do Olhar - Alphonsus de Guimaraens

Soneto do Olhar
Que olhar de monja em longa penitência
O olhar daqueles olhos macerados!
Pairava-lhe talvez na morna essência
Uma alma carregada de pecados.

Para que mundos, para que existência,
Tão além desta vida, ei-los voltados!
Ó inacessível, mística dolência
De uns olhos a sonhar outros noivados...

Voz do passado, som que ressuscita!
Olhar tão cheio de palavras mortas
Daqui por certo que não pode ser...

Alma, para me ver, Alma bendita,
Põe-te de luto nessas duas portas
Com uma tristeza de quem vai morrer...

Alphonsus de Guimaraens

À meia-noite (Alphonsus de Guimaraens)

À meia-noite

A Aug. de Viana do Castelo

Cheguei à meia-noite em ponto.
O caso deu-se como eu conto.
Cheio de lúgubre mistério…
Pois ela disse: “Ao cemitério
Vamos à meia-noite em ponto.”

E eu respondi-lhe: “Conto, conto
Contigo à meia-noite em ponto.”

Como eu sabia, ela outro amante
Tivera em tempo não distante.
Era já morto: eu uma esposa
Tinha também sob uma lousa.
E ela sabia desse amante.

Jaziam um do outro distante
O amante dela e a minha amante.

Bem não chegamos, os ciprestes
Agitaram as verdes vestes
Como arrojando-se de bruços…
Que ais de tristeza e que soluços
Gemeram tão verdes ciprestes.

Gemia o vento pelas vestes.
Verdes dos vírides ciprestes.

Paramos de repente à porta:
Eu era um morta, ela uma morta.
Tal foi a cena branca e nua
Que nós, clareados pela lua,
Olhamos bem ao pé da porta.

Eu era um morto, ela uma morta,
Sem movimento junto à porta.

Diante de nós, em frente, diante,
O amante dela e minha amante,
Espectros vis num mesmo quadro,
Vinham vagar, hirtos, pelo adro,
Diante de nós, em frente, diante…

O amante dela e a minha amante.
Riram, passando para diante.

Alphonsus de Guimaraens