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Tenho fé! - José da Silva Maia Ferreira

Tenho fé!

Tenho fé na meiga aurora
No horizonte a despontar —
Quando junto a altivas rochas
Eu contemplo o argenteo mar.

Tenho fé n’uma estrellinha
Lá nos céus só a brilhar —
Quando em noite escura e feia
Vem-me a mente acalentar.

Tenho fé tambem na lua
Mesmo a pino a fulgurar —
Quando a sós e merencorio
Vou na lyra a descantar.

Mas quando diviso uns olhos
Negros — negros a mirar
Minha fé inda é mais pura
Porque nunca ha de acabar.

Porque uns olhos negros — negros
De tão doce e mago olhar
Tem mais brilho do que os astros
No firmamento a brilhar!

José da Silva Maia Ferreira


Amo o silencio da noite - José da Silva Maia Ferreira

Amo o silencio da noite

Amo o silencio da noite,
O azul escuro do céu,
As densas nuvens errantes,
E seu pranto que verteu:
Então a terra se calla
E o mar bravio cedeu
E o negro mocho agoureiro
O seu canto emmudeceu.

Amo o silencio da noite,
Quando suave instrumento,
Nest’hora faz olvidar
Agro — passado tormento;
Quando leve sussurrando
Fresca aragem, brando vento,
Apressurado nos traz
Algum novo pensamento.

Amo o silencio da noite,
Quando em lua prateada,
Modulando amenos versos
Os dirijo á minha amada:
E quando todos dormindo,
Só eu vejo dispertada
A minha sorte cruel
Minha sorte malfadada.

Amo o silencio da noite,
Lembrando antiga paixão,
Sonhando os sonhos de amor
Que gosou meu coração:
Oh! então sinto e lamento
Só ficar recordação
Dessa agora já volvida
Meiga, terna sensação.

Amo o silencio da noite,
Quando contemplo a dormir,
O somno de um innocente,
Que dorme sem o sentir:
Que só idéas fagueiras
Em sonhos lhe podem vir
E que dos males da vida
Não sentio o seu pungir.

Amo o silencio da noite,
Quando donzella formosa,
Meiga, triste e pensativa,
Na voz languida e mimosa,
Solta gemidos aos céos
Aguardando mui saudosa
Por seu bem, que em longes terras,
Vive vida tão penosa.

Amo o silencio da noite,
Quando de Deus Creador,
Contemplo o immenso poder,
Seu grande e infinito amor:
Então ufano quizera
Ser sublime trovador,
Que dedicára a meu Deus
Doces cantos de primor.

E já que a lyra não vibro
Com sonóra melodia,
Cantarei como cantou
Poeta d’alta magia:
«Como é bello este silencio
«Da terra todo harmonia,
«Que aos céos a mente arrebata,
«Cheia de meiga poesia:»

José da Silva Maia Ferreira

Leonor - José da Silva Maia Ferreira


Leonor

Linda Virgem do Amazonas,
Escutáe teu Trovador!
Oh! quem me déra nest’hora,
Na vossa voz de candor,
Ouvir á Bella das bellas
Repetir-me o seu amôr!

Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1849.

José da Silva Maia Ferreira

Fonte: pt.wikisource.org


Os teus olhos! - José da Silva Maia Ferreira

Os teus olhos!

Oh! que lume tão brilhante
E tão meigo e tão constante
Tem teus olhos a luzir,
Brilham mais do que as estrellas
As mais fermosas e bellas —
No firmamento a fulgir!

Não são negros côr da noite
Que desses eu já descri —
Não são garços — que esses mentem
Que por elles já morri!

Nem dos pardos a magia —
Que só dizem — simpathia —
Tem seu brilho e seu fulgor —
Não ha no mundo expressão
Que designe o seu condão
Quando só fallam de amor!

São da côr qu’exprime n’alma
O transporte em doce calma
São olhos que tem surrir!
O mundo não tem iguaes
Teus fulgores divinaes —
Sempre, sempre hei de os sentir!

Magos encantos revela
A tua imagem primorosa
Respiras o odôr da roza
Igualas uma deidade!
Alma d’Anjo! oh! tem piedade!....

José da Silva Maia Ferreira


O seu retrato! - José da Silva Maia Ferreira


O seu retrato!

Ó imagem d’encanto e primôr
Ó do mundo o meu unico idéal, —
Ó das virgens a — virgem d’amor,
Ó Deidade p’ra mim sem igual,

Recebe o meu canto
Qu’encerra só pranto
Despido do encanto
Do meigo trovar; —
Mas d’alma sentido
Por ella tão qu’rido,
No accento pungido
Que sabe exhalar!

És a imagem mais querida
Formada por Deus no mundo —
És o sorriso da vida
Mesmo em báratro profundo —
És a flôr mais primorosa
Sempre, sempre tão viçosa
Nesse teu desabrochar; —
Que nunca terás na vida
O nome d’emmurchecida
Porque nunca has de murchar!

Teu rosto exprime a doçura
Do lyrio no despontar,
Quando se ostenta vaidoso
Em seu ramo a baloiçar: —
E teus olhos quaes estrellas
Tem mais fulgôr do que ellas
No firmamento a brilhar —
Porqu’infiltram em minh’alma
Com transporte e doce calma —
—Quanto vale um casto olhar! —

Teus labios de rubra côr
São do mais bello carmim
Quando discerram mimosos —
Murmurando um terno — sim! —

Tem a subida magia
Que transporta e m’extasia
Mesmo na vida a carpir —
Porque esmaga esses profanos
Que se tornarem tyrannos
Descrendo do teu sorrir!

O teu niveo seio — é bello,
E da mais alta brancura,
Quando meigo arfa constante
A mais scismada ventura: —
Teus cabellos da côr do oiro
São do mundo o meu thesoiro —
Quando soltas a brilhar; —
Pois será sempre o teu rosto
O mais divino composto
Que na terra hei de adorar!

José da Silva Maia Ferreira

A minha terra - José da Silva Maia Ferreira

A minha terra (trecho do poema)

Minha terra não tem os cristaes
Dessas fontes do só Portugal,
Minha terra não tem salgueiraes,
Só tem ondas de branco areal.

Em seus campos não brota o jasmim,
Não matisa de flôres seus prados,
Não tem rosas de fino carmim,
Só tem montes de barro escarpados.

Não tem meigo trinar — mavioso
Do fagueiro, gentil rouxinol,
Tem o canto suave, saudoso
Da Benguella no seu arrebol,

Primavera não tem tão brilhante
Como a Europa nos sóe infiltrar,
Não tem brisa lasciva, incessante,
Só tem raios de sol a queimar.

(...)
Tambem invejo o Brazil
Sobre as aguas a brilhar,

Nesses campos mil a mil,
Nesses montes d’alem mar.
Invejo a formozura
Desses prados de verdura,
Inspirando com doçura
O Poeta a descantar.

Nada tem minha terra natal
Qu’extasie e revele primôr,
Nada tem, a não ser dos desertos
A soidão que é tão grata ao cantor.

E tu Poeta bem fadado,
Que na gentil Guanabára,
Á tua pátria tão cara
Tantos cantos tens cantado
Tambem recebe o meu canto
De amargôr e de pranto
Sem bellezas, sem encanto,
Por minh’alma a ti votado!

José da Silva Maia Ferreira


Saudade - José da Silva Maia Ferreira

        Saudade

Não sei que mão de ferro agudo alçada
Com força extrema me comprime o peito,
Não sei que dôr vigente me lacera
As fibras d’alma.

Escuto os homens que julgava amigos —
Envoltos no prazer do mundo ingrato —
Mostro-lhes minha dôr — a causa inquiro —
Voltam-me o rosto!

Escuto as aves no albor do dia
Em verdes campos cantando amores
Contemplam d’amargura o meu sorriso
E ávidas fogem!

Então procuro as grimpas das montanhas
Onde outr’ora meus echos ressoavam
Vibrados pela lyra em que tangia
Canticos suaves!

E meus echos não são repercutidos
Agora que a saudade os vibra n’alma
— Saudade?! — Ai! tu és meu soffrimento
N’alma o sinto!…

José da Silva Maia Ferreira