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Grande Amor - Cruz e Sousa

Grande Amor 

Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça...
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.

Eterno espasmo de um desejo etéreo
E bálsamo dos bálsamos da graça,
Chama secreta que nas almas passa
E deixa nelas um clarão sidéreo.

Cântico de anjos e de arcanjos vagos
Junto às águas sonâmbulas de lagos,
Sob as claras estrelas desprendido...

Selo perpétuo, puro e peregrino
Que prende as almas num igual destino,
Num beijo fecundado num gemido.

Cruz e Sousa

A morte - Cruz e Sousa

A morte

Oh! que doce tristeza e que ternura
No olhar ancioso, afflicto dos que mórrem...
De que ancoras profundas se soccórem
Os que penétram nessa noite escura!

Da vida aos frios véos da sepultura
Vagos momentos tremulos decórrem...
E dos olhos as lagrimas escórrem
Como pharóes da humana Desventura.

Descem então aos golphos congelados
Os que na terra vagam suspirando,
Com os velhos corações tantalisados.

Tudo negro e sinistro vae rolando
Bárathro a baixo, aos echos soluçados
Do vendaval da Morte ondeando, uivando...

Cruz e Sousa


Alma fatigada - Cruz e Sousa

Alma fatigada

Nem dormir nem morrer na fria Eternidade!
Mas repousar um pouco e repousar um tanto,
Os olhos enxugar das convulsões do pranto,
Enxugar e sentir a ideal serenidade.

A graça do consolo e da tranquillidade
De um céo de carinhoso e perfumado encanto,
Mas sem nenhum carnal e mórbido quebranto,
Sem o tedio senil da vã perpertuidade.

Um sonho lyrial d'estrellas desoladas,
Onde as almas febris, exhaustas, fatigadas
Póssam se recordar e repousar tranquillas!

Um descanso de Amor, de celestes miragens,
Onde eu góze outra luz de mysticas paisagens
E nunca mais presinta o remecher de argillas!

Cruz e Sousa


A grande sede - Cruz e Sousa

A grande sede

Se tens sêde de Paz e d'Esperança,
Se estás cégo de Dor e de Peccado,
Valha-te o Amor, o grande abandonado,
Sacia a sêde com amor, descansa.

Ah! volta-te a esta zona fresca e mansa
Do Amor e ficarás desafogado,
Has de ver tudo claro, illuminado
Da luz que uma alma que tem fé alcança.

O coração que é puro e que é contricto,
Se sabe ter doçura e ter dolencia
Revive nas estrellas do Infinito.

Revive, sim, fica immortal, na essencia
Dos Anjos paira, não desprende um grito
E fica, como os Anjos, na Existencia.

 Cruz e Sousa


Olhos Pretos, Sonhadores - Cruz e Sousa

Olhos Pretos, Sonhadores
 
Olhos pretos, sonhadores 
Ó celeste Carolina, 
Como são esmagadores 
Olhos pretos sonhadores, 
Como vibram dos amores 
A noss'alma cristalina, 
Olhos pretos, sonhadores, 
Ó celeste Carolina.
 
Cruz e Sousa
 

O Coração - Cruz e Sousa

O Coração

O coração é a sagrada pira
Onde o mistério do sentir flameja.
A vida da emoção ele a deseja
como a harmonia as cordas de uma lira.

Um anjo meigo e cândido suspira
No coração e o purifica e beija...
E o que ele, o coração, aspira, almeja
É o sonho que de lágrimas delira.

É sempre sonho e também é piedade,
Doçura, compaizão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura.

Uma harmonia que dos anjos desce,
Que como estrela e flor e som floresce
Maravilhando toda criatura!


Cruz e Sousa

Luar - Cruz e Sousa

Luar 

Ao longo das louríssimas searas 
Caiu a noite taciturna e fria... 
Cessou no espaço a límpida harmonia 
Das infinitas perspectivas claras. 

As estrelas no céu, puras e raras, 
Como um cristal que nítido radia, 
Abrem da noite na mudez sombria 
O cofre ideal de pedrarias caras. 

Mas uma luz aos poucos vai subindo 
Como do largo mar ao firmamento — abrindo 
Largo clarão em flocos d’escumilha. 

Vai subindo, subindo o firmamento! 
E branca e doce e nívea, lento e lento, 
A lua cheia pelos campos brilha...
 
Cruz e Sousa
 
 

Cruz e Sousa - Piedade

Piedade

O coração de todo o ser humano
Foi concebido para ter piedade,
Para olhar e sentir com caridade,
Ficar mais doce o eterno desengano.
 
Para da vida em cada rude oceano
Arrojar, atravez da immensidade,
Táboas de salvação, de suavidade,
De consolo e de affecto soberano.
 
Sim! Que não ter um coração profundo
É os olhos fechar á dor do mundo,
Ficar inutil nos amargos trilhos.
 
É como se o meu ser compadecido
Não tivesse um soluço commovido
Para sentir e para amar meus filhos!
 
Cruz e Sousa
 
 

Bondade - Cruz e Sousa

Bondade

É a bondade que te faz formosa,
Que a alma te diviniza e transfigura;
É a bondade, a rosa da ternura,
Que te perfuma com perfume à rosa.

Teu ser angelical de luz bondosa
Verte em meu ser a mais sutil doçura,
Uma celeste, límpida frescura,
Um encanto, uma paz maravilhosa.

Eu afronto contigo os vampirismos,
Os corruptos e mórbidos abismos
Que em vão busquem tentar-me no Caminho.

Na suave, na doce claridade,
No consolo, de amor dessa bondade
Bebo a tu'alma como etéreo vinho.

Cruz e Sousa

Ansiedade - Cruz e Sousa

Ansiedade

Esta ansiedade que nos enche o peito,
Enche o céu, enche o mar, fecunda a terra,
Ela os gérmens puríssimos encerra
Do Sentimento límpido, perfeito.

Em jorros cristalinos o direito,
A par vencendo as convulsões da guerra,
A liberdade que abre as azas e erra
Pelos caminhos do Infinito eleito.

Tudo na mesma ansiedade gira,
Rola no Espaço, d'entre a luz suspira
E chora, chora, amargamente chora...

Tudo nos turbilhões da Imensidade
Se confunde na trágica ansiedade
Que almas, estrelas, amplidões devora.

Cruz e Sousa


Cruz e Sousa - Perfeição

Perfeição 

A Perfeição é a celeste ciência
Da cristalisação de almos encantos,
De abandonar os mórbidos quebrantos
E viver de uma oculta florescência.

Noss'alma fica da clarevidencia
Dos astros e dos anjos e dos santos,
Fica lavada na lustral dos prantos,
É dos prantos divina e pura essência.

Noss' alma fica como o ser que ás lutas
As mãos conserva limpas, impolutas,
Sem as manchas do sangue máo da guerra.

A Perfeição é a alma estar sonhando
Em soluços, soluços, soluçando
As agonias que encontrou na Terra!


Cruz e Sousa

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Poemas de Cruz e Sousa - Abrigo celeste

Abrigo celeste

Estrela triste a refletir na lama,
Raio de luz a cintilar na poeira,
Tens a graça sutil e feiticeira,
A doçura das curvas e da chama.

Do teu olhar um fluido se derrama
De tão suave, cândida maneira
Que és a sagrada pomba alvissareira
Que para o Amor toda aminh'alma chama.

Meu ser anseia por teu doce apoio,
Nos outros seres só encontra joio
Mas só no teu todo o divino trigo.

Sou como um cego sem bordão de arrimo
Que do teu ser, tateando, me aproximo
Como de um céu de carinhoso abrigo.


Cruz e Sousa


Demônios - Cruz e Sousa

Demônios

A língua vil, ignívoma, purpúrea
Dos pecados mortais bava e braveja,
Com os seres impoluídos mercadeja,
Mordendo-os fundo injúria por injúria.

É um grito infernal de atroz luxúria,
Dor de danados, dor do Caos que almeja
A toda alma serena que viceja,
Só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria!

São pecados mortais feitos hirsutos
Demônios maus que os venenosos frutos
Morderam com volúpia de quem ama...

Vermes da Inveja, a lesma verde e oleosa,
Anões da Dor torcida e cancerosa,
Abortos de almas a sangrar na lama!


Cruz e Sousa

Alma ferida - Cruz e Sousa

Alma Ferida

Alma ferida pelas negra lanças
Da Desgraça, ferida do Destino,
Alma,[a] que as amarguras tecem o hino
Sombrio das cruéis desesperanças,

Não desças, Alma feita de heranças
a Dor, não desças do teu céu divino.
Cintila como o espelho cristalino
Das sagradas, serenas esperanças.

Mesmo na Dor espera com clemência
E sobe à sideral resplandecência,
Longe de um mundo que só tem peçonha.

Das ruínas de tudo ergue-te pura
E eternamente, na suprema Altura,
Suspira, sofre, cisma, sente, sonha!

Cruz e Sousa

Cruz e Sousa - Deusa Serena

Deusa Serena

Espiritualisante Formosura
Gerada nas Estrellas impassiveis,
Deusa de fórmas biblicas, fléxiveis,
Dos effluvios da graça e da ternura.

Assucena dos valles da Escriptura,
Da alvura das magnolias marcessiveis,
Branca Via-Lactea das indefiniveis
Brancuras, fonte da immortal brancura.

Não veio, é certo, dos paúes da terra
Tanta belleza que o teu corpo encérra,
Tanta luz de luar e paz saudosa...

Vem das constellações, do Azul do Oriente,
Para triumphar maravilhosamente
Da belleza mortal e dolorosa!


Cruz e Sousa

Cruz e Sousa - Floresce!

Floresce!

Floresce, vive para a Natureza,
Para o Amor imortal, largo e profundo.
O Bem supremo de esquecer o mundo
Reside nessa límpida grandeza.

Floresce para a Fé, para a Beleza
Da Luz que é como um vasto mar sem fundo,
Amplo, inflamado, mágico, fecundo,
De ondas de resplendor e de pureza.

Andas em vão na Terra, apodrecendo
À toa pelas trevas, esquecendo
A Natureza e os seus aspectos calmos.

Diante da luz que a Natureza encerra
Andas a apodrecer por sobre a Terra,
Antes de apodrecer nos sete palmos!

Cruz e Sousa

Luz da Natureza - Cruz e Sousa

Luz da Natureza

Luz que eu adoro, grande Luz que eu amo,
Movimento vital da Natureza,
Ensina-me os segredos da Beleza
E de todas as vozes por quem chamo.

Mostra-me a Raça, o peregrino Ramo
Dos Fortes e dos Justos da Grandeza,
Ilumina e suaviza esta rudeza
Da vida humana, onde combato e clamo.

Desta minh'alma a solidão de prantos
Cerca com os teus leões de brava crença,
Defende com so teus gládios sacrossantos.

Dá-me enlevos, deslumbra-me, da imensa
Porta esferal, dos constelados mantos
Onde a Fé do meu Sonho se condensa!

(Cruz e Sousa)

Cruz e Sousa - Asas abertas

Asas abertas

As asas da minh'alma estão abertas!
Podes te agasalhar no meu Carinho,
Abrigar-te de frios no meu Ninho
Com as tuas asas trêmulas, incertas.

Tu'alma lembra vastidões desertas
Onde tudo é gelado e é só espinho.
Mas na minh'alma encontrarás o Vinho
e as graças todas do Conforto certas.

Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
Que vai tudo florindo e fecundando
E sobe aos céus como sagrado incenso.

Eis a minh'alma, as asas palpitando
Com a saudade de agitado lenço
o segredo dos longes procurando...

 Cruz e Sousa

Alucinação - Cruz e Sousa

Alucinação 

Ó solidão do Mar, ó amargor das vagas,
Ondas em convulsões, ondas em rebeldia,
Desespero do Mar, furiosa ventania,
Boca em fel dos tritões engasgada de pragas.

Velhas chagas do sol, ensangüentadas chagas
De ocasos purpurais de atroz melancolia,
Luas tristes, fatais, da atra mudez sombria
Da trágica ruína em vastidões pressagas.

Para onde tudo vai, para onde tudo voa,
Sumido, confundido, esboroado, à-toa,
No caos tremendo e nu dos tempo a rolar?

Que Nirvana genial há de engolir tudo isto -
— Mundos de Inferno e Céu, de Judas e de cristo,
Luas, chagas do sol e turbilhões do Mar?!

Cruz e Sousa

Feliz! - Cruz e Sousa

Feliz!

Ser de beleza, de melamcolia,
Espírito de graça e de quebranto,
Deus te bendiga o doloroso pranto,
Enxugue as tuas lágrimas um dia.

Se a tu'alma é d'estrela e d'harmonia,
Se o que vem dela tem divino encanto,
Deus a proteja no sagrado manto,
No céu, que é o vale azul da Nostalgia.

Deus a proteja na felicidade
Do sonho, do mistério, da saudade,
De cânticos, de aroma e luz ardente.

E sê feliz e sê feliz subindo,
Subindo, a Perfeição na alma sentindo
Florir e alvorecer libertamente!

Cruz e Sousa