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Deus - Luís Delfino

Deus

Deus existe? — ou é Deus somente um nome vão?...
E bato às portas de oiro e de opala da aurora,
Donde o sol — velho leão — noite e estrelas devora;
E às estrelas da noite em louco turbilhão...

Ao mar, ao vento, ao raio, ao tempo, ao abismo em fora,
Ao argueiro, e à montanha, às lavas, e ao vulcão,
Ao passado, ao porvir, ao berço, à cova.. Embora!...
Cala-se a natureza ou me responde: — Não.

Subo à minha alma então: chamo-a, interrogo-a... Nada...
E ela fica a oscilar, no abismo pendurada,
Vendo o espaço afundar-se em outro espaço sem fim...

Só entre o torvelim dos caos em labirinto,
Como com seu bordão na areia um cego, — o instinto
Sobre a poeira dos sóis grava um trêmulo — Sim.

Luís Delfino

A cova - Luís Delfino

A cova

Faz mais larga essa cova, estúpido coveiro;
Pois não vês que são dois buscando o mesmo leito?
É preciso que caiba um longo travesseiro,
Para dormirem face a face, e peito a peito.

Virei deitar-me em tempo: hoje não, não me deito
Sem que nos braços meus a carregue primeiro:
Quero cobri-la bem, pôr-lhe o tronco direito;
Que é muito longo sempre o sono derradeiro.

Guarda do cemitério, o jardineiro aí fica,
Quero roseiras só, quero muitas roseiras;
Que ardam rosas em que seu corpo multiplica.

Que os pássaros aqui cantem horas inteiras:
Que esta leiva, em que está da terra a flor mais rica,
Seja o teu ninho, amor, quando um ninho, amor, queiras.

Luís Delfino

A mãe das mágoas - Luís Delfino

A mãe das mágoas

Parece a imagem da inocência; é vê-la
Chorosa adrede, e derramando em fráguas
Serpes de oiro de lágrimas; esmago-as:
Ressurgem: uma só não há prendê-la.

A intriga tece, sabe concebê-la:
Tem a perfídia das profundas águas;
É a mãe, que amamenta as grandes mágoas;
É a luzerna, parecendo estrela...

Ri de mim minha austera consciência,
Sei que este amor é tortuoso espinho,
Que tem em si uma letal essência.

Mas... não posso viver sem seu carinho:
Ela caiu-me dentro da existência,
Como uma vespa dentro do meu vinho...

Luís Delfino

Cópia - Luís Delfino

Cópia

O sol... o sol e o céu, e a revoada
Dos colibris cantando o etéreo canto...
(Abres os olhos com tão grande espanto?
Dize-me: deles não conheces nada?)

Vamos: o cedro, a fronte, a rendilhada
Mesquita, em cima a meia lua, o santo
Emir, à voz do muezin lançada
Do minarete, o lânguido quebranto

Das almeias, jardins, sultões ferozes,
Emas, corcéis, miragens, albornozes,
Tigres, leões, e a luz, que de oiro os tinge...

Tenho da Ásia uma cópia em ti somente:
Tu és todo esse amplíssimo Oriente...
Mesmo o deserto, e a ruína, e o vento... e a esfinge!...


Luís Delfino

O forte - Luís Delfino

O forte

A Machado de Assis

O varão forte mutilado a meio
É qual Deus, que o escultor em pé levanta,
Nessa atitude respeitosa e santa
Que a pedra guarda no divino seio.

O bárbaro pisou-o sob a planta;
Lançou-o o tempo ao chão, qual fraco esteio;
Mas o mármore — um dia — ergue-se, e canta
Belo, como das mãos de Fídias veio.

Basta que caia a gota de água em cima,
E que um raio de sol a enxugue instantes,
Para irromper a sonorosa rima

Do coro dessas linhas cintilantes;
E no meio da luz, que o beija e anima,
O Deus de pedra inda é maior que dantes.


Luís Delfino

Queixa - Luís Delfino

Queixa

Mulher, confias muito em tua eternidade:
Pensas que hás de prender nas mãos a primavera,
Que as rosas da manhã durarão, que não há de
Ter para ti o tempo o rugido da fera,

Que entre as garras mutila a carne sem piedade,
E os lírios brancos do rosto gentil lacera:
Entre um beijo e um sorriso aí ruge a mortandade
Dos sonhos de oiro, que cria em nós a quimera!...

Hão de fugir de ti, como ao inverno que chega,
Em longas cordas vão fugindo as andorinhas:
Cobrirão lençóis d'água o cadáver da veiga...

E então te lembrarás das lindas canções minhas,
Cheias daquele meigo olhar da noite meiga,
E para as quais o teu olhar de sol não tinhas.


Luís Delfino

É preciso morrer - Luís Delfino

É preciso morrer

O que consola a dor de amar é ser amado:
Mas ser amado só, sem dúvida ou cansaço;
Poder dormir um sono inteiro no seu braço,
Viver do leite do seu corpo perfumado.

Aquecer-se na luz do seu olhar doirado;
E não ter outro céu, e não ter outro espaço,
Senão o que ela tem, senão esse pedaço
De chão que pisa, ou chão que vem de ser pisado.

Vivi de um sonho, sei; — vivi duma quimera;
Ela não pode amar-me: ela me diz: — Espera:
Porque não quer matar-me, e não, dizer tem medo.

Mas... preciso morrer já de qualquer maneira,
À sombra dela, como a da mancenilheira,
Ou esmagado sob o seu divino dedo...


Luís Delfino

Só - Luís Delfino



Dizes talvez de mim: — Quem me procura?
Que quer? num tom impaciente e rudo;
Eu busco em ti a flor da formosura;
E em como havê-la, humildemente estudo.

Vou arrastando o meu amor insano
Por maus caminhos, por urzais, e abrolhos,
Por tudo que faz dor, ou perda, ou dano.

Então meu verso espuma sobre escolhos:
Meu verso imenso como o imenso oceano,
Só refletiu o negro dos teus olhos;

Dos mundos estrelados de ventura,
Que deles vêm, iluminando tudo,
Tu só me deste a grande noite escura,
E o abismo enorme, ilimitado e mudo...


Luís Delfino

A calúnia - Luís Delfino

A calúnia

Fere a negra calúnia a fronte mais divina,
Como o céu mais azul o furacão invade;
E mais vezes o raio, o vento, a tempestade
As altas construções e as montanhas fulmina;

Porém, quando passado o mau tempo, ilumina
Seus frontões colossais o sol da imensidade,
À rocha no alcantil, na catedral à ruína
Dão-lhe à eterna grandeza a eterna majestade.

Ao fogo é que se arroja o bronze mutilado,
Que ferve, flui, e lança ao molde preparado
O herói que se levanta em meio à multidão.

Para o escultor erguer a criação mais bela,
Golpeia o monte, e espreme o mármore, e o modela
A pancadas de malho e a golpes de alvião...

Luís Delfino


O coração - Luís Delfino

O coração

Tenho cá dentro em mim um pássaro que salta,
Que não repousa, que não dorme noite e dia:
Quem dentro do meu peito acaso o prenderia?
Por que não canta nunca? e o que quer? que lhe falta?
 
De que estranho tormento ele vive? o que exalta
Sua existência, que não me deixa, e porfia?
As asas, que ele estende em mim, estenderia
Ao mais profundo mar, à montanha mais alta.
 
Se o cárcere rompesse, em que abismo medonho
De rojo cairia, o céu todo inda estando
Muito aquém da ambição que o devora: suponho...
 
Nesse vórtice louco acabas, miserando...
Ó coração, tu és um hóspede enfadonho;
Quando, abutre, hás de em mim não mais fartar-te? Quando?


Luís Delfino

Deus, razão, bondade - Luís Delfino

Deus, razão, bondade

Razão imensa, que no céu cintila,
Dominadora de homens e de cousas,
Em teu poder magnânimo repousas,
Enquanto a dor me gasta e me aniquila.
 
A tua imagem lépida e tranqüila
Mostrar, ó grande benfeitor, não ousas;
Só através do mármore das lousas
Poderemos um dia descobri-la.
 
Quando o sol, como alâmpada se apaga
Ao morto, e o morto é pavorosa chaga,
Quando é já podridão, não vê, não pensa;
 
Quando as rosas a terra, que ele engorda,
De cróceas rosas sorridentes borda
Tu te mostras, então, Bondade Imensa!!...


Luís Delfino

O mal - Luís Delfino

O mal 

Eu não imploro nunca aos deuses superiores:
No meu orgulho sei que rirão de piedade;
Eles conhecem bem a pobre humanidade,
E a jaula onde está preso o cão de nossas dores.

Ninguém sai de si mesmo, e sai dos seus horrores,
Somos isto: não há mudar na eternidade:
Há para nós em tudo uma cumplicidade;
Levas contigo o mal sem fim, para onde fores.

O mal, obra que acusa um grande pensamento,
O mal, que prende o céu à terra, o mar ao vento,
O mal, do qual um deus foi exímio escultor;

Que é deus mesmo, — e será? eu dentro em mim pergunto, -
Que encosta o dia à noite, e o pranto ao rir põe junto,
O mal único, o mal, que é todo o mal, — é o amor.


Luís Delfino

Tudo é passado - Luís Delfino

Tudo é passado

Há em mim, há em ti um desgraçado,
O que vive e não vive: em vão forcejo
Por ver durar alguma cousa; vejo
Que em relâmpagos o mundo é arrastado.

Minuto em breve raio iluminado,
Um beijo dado; — o que ficou do beijo?
O beijo não: recordação, desejo
De dar outro, que morre apenas dado.

Uma boca de sombra engole tudo;
Rumor de pranto, endechas de alegria
Vêm, já deixando em torno o espaço mudo.

Como se esvai uma hora de agonia,
O fio de oiro, ai! rompe em soído agudo,
E acaba... acaba o mais formoso dia!...


Luís Delfino

Perdão - Luís Delfino

Perdão

Quando das nuvens do meu ódio ensaio,
Jove um dia, a faísca que fulmina,
E às mãos juntando raio sobre raio,
Agarrado de um astro em fogo à crina.
 
Um pouco desço da mansão divina,
E no vil com crotais ardentes caio,
Eu digo às chamas, que soltei: — Deixai-o:
E o meu perdão a cólera domina:
 
E a harpa doce de Hesíodo sobraço,
E os deuses canto, irmãos do poeta, e a ode
Feita de luz e amor, dando alma ao espaço,
 
Todo meu coração, que é bom, sacode:
Há, nesse instante, um leito em flor que faço,
E aí, sem sustos, dormir o crime pode...


Luís Delfino

A um miserável - Luís Delfino

A um miserável

Nunca vendi a minha pena honesta,
Bufarinheiro de um jornal corrupto:
Onde o sol anda a rir de festa em festa,
Onde há luz a cantar, trabalho e luto.
 
Quem toma o nome e a máscara de um bruto,
Mais qualquer cousa inda a perder lhe resta?
Melhor fora, tremendo e resoluto,
Ser um ladrão que a larga estrada infesta,
 
Ou no oceano da vida tresmalhado,
Correndo mar e mar, audaz corsário;
Ser um herói do crime, enorme, odiado,
 
Mas um herói!... E tu, por vil salário,
Queres roubar-me do meu nome honrado,
Sem que enchas de oiro teu vazio erário?!...


Luís Delfino

A primavera - Luís Delfino

A primavera

A hora, que chega, vê que é tempo, e deixa
A solta a mata, filha predileta:
E logo o verde rolo da madeixa
Desata ao vento, que ela aspira inquieta.

No vento um silfo oculto o afago enceta,
Ninhos e aromas, que nas mãos enfeixa,
Põe-lhe no seio e trança: a pobre é queixa,
Queixa em cio, como alma azul de poeta.

Toda carícia, ardor, canções, perfume,
Geme de gozo, como se a beijasse
Boca cheia de beijos de algum nume.

E a erguer-se na alva a arfar, se crê que nasce
Noiva tímida ao sol, e ante o seu lume
Nua, em flores e renda esconde a face...


Luís Delfino

A voz do oceano - Luís Delfino

A voz do oceano

Tu estas ouvindo!... — Eu sei que tu estás ouvindo
A voz, que vem do abismo, a voz, que te seduz:
Que rubor em teu rosto!... Amor, teu rosto lindo
Tem hoje sobre a neve estranho véu de luz.
 
Do pego de tua alma um eco está subindo,
Som vago e triste, como a solidão produz:
Que fala o coração no inquietamento infindo,
Que vida te aconselha, e aonde te conduz?

A tua consciência é como um vento solto
Por sobre um mar, que foi azul, e está revolto,
Que na encontrada mó dos rijos escarcéus,

Ora te faz descer a um báratro profundo,
Ora te arranca e leva acima enfim do mundo,
Para, apenas, mostrar-te a escuridão dos céus!...


Luís Delfino

A loba - Luís Delfino

A loba

É o amor uma loba; — os sóis devora;
Anda a estrugir com sua voz medonha
De noite à lua; e vela, e dorme, e sonha
Leitos de opala, como os tem a aurora!

A dor terrível pelo olhar lhe chora
Ante a extensão indômita, enfadonha,
Onde a caça esplendente arfando mora,
Sem que numa somente as garras ponha.

Olha inda o céu da gruta à borda, e um grito,
Em vez dos dentes, crava no infinito;
Crava um último olhar furioso e louco.

O amor é assim; — a famulenta loba,
Que os sóis, se pode, morde, apanha, rouba,
E enche os seios p´ra os dar, e inda acha pouco.


Luís Delfino

O mal geral por Luís Delfino

O mal geral 

Vou tendo horror dos homens e das cousas...
Fui colher hoje rosas à balseira,
E entre os dedos vi sangue a vez primeira:
Em vez de aromas, tuas garras pousas,

Pousas as garras, flor, de tal maneira,
Que, como fera, tu morder já ousas!
E inda o teu corpo augusto e quente cheira:
E inda beijam-te a boca as mariposas...

No ar anda um qualquer veneno oculto
Que põe na terra e céu o espanto e o enleio,
Que não dá paz ao ninho, ao lírio indulto...

Será do mal, que em tudo deu, que vejo
O andar rindo em teu riso um vago insulto,
E o ter cada olhar teu punhais no meio?!...


Luís Delfino

Febre - Luís Delfino

Febre

Quando a vejo passar, taça límpida e cheia,
Que nenhum lábio humano até hoje tocou,
Sinto que febre intensa a minha alma incendeia,
E ardo por lha tomar, no delírio em que estou.

E ela passa por mim do meu mal tão alheia,
Sem saber da emoção que um louco atrás deixou;
E quero acometê-la, e sinto uma cadeia,
Que em meu leito de angústia em voltas me cerrou.

Eu tenho fome, vem, fruto do paraíso;
Eu tenho sede, em vão grito: formosa, vem;
Virá contigo, eu juro, o perdido juízo.

Do cíato, que o aroma impoluto contém,
Quero beber o céu, à sombra do teu riso,
E Éden novo e melhor ter eu nele também!...

Luís Delfino