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O amanhecer das criaturas - Lêdo Ivo

O amanhecer das criaturas

O dia forma-se
de quase nada:
um seio nu
por entre pálpebras,

o sol que raia
e a luz acesa
no arranha-céu
que a aurora lava.

A mão incerta
deixa na rósea
carne dormida
o gesto equívoco.

Tudo é lilá
na luminosa e vã
partilha.

No dia imenso
nascem tesouros:
curvos, redondos.

O pão à porta,
depois o leite,
e o erguer dos corpos.

Lêdo Ivo


Lêdo Ivo - A Mudança

A Mudança

Mudo todas as horas.
E o tempo, sem demora,
muda mais do que fia.

Mudo mas permaneço
bem longe das mudanças.
Como uma flor, floresço.
Sou pétala e esperança.

Mudo e sou sempre o mesmo,
igual a um tiro a esmo.
Como um rio que corre.

Sem sair de onde estou,
de tanto mudar sou
o que vive e o que morre.

Lêdo Ivo



A proximidade - Lêdo Ivo

A proximidade

Dentro de casa ou no jardim
estou sempre perto de mim.
Jamais de mim me distancio
seja no calor ou no frio
nas montanhas ou junto ao mar.
Eu não permito que o rio
leve meu barco na corrente.
O meu barco leva o rio
como o vento leva a semente.

 Lêdo Ivo


Girassol

Girassol

Em minha mão fechada cabe o dia,
o fogo aleatório dos instantes
e o silêncio que espalham os amantes
quando termina a festa e nada resta

da luz petrificada entre as montanhas.
Em minha mão aberta cabe a sombra
largada pela vida que me espera
além do inverno, quando a primavera

devolve ao caule a rosa fenecida
e o que foi volta a ser, e toda perda
retorna como um lucro imerecido.

A minha mão sustenta um girassol.
Sou sobra e o excesso, como o vento
ou como a luz incômoda do sol.

Lêdo Ivo