Mostrando postagens com marcador medo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador medo. Mostrar todas as postagens

Lúcia - Arthur de Salles

Lúcia

Lúcia chegou, quando do inverno o tredo
Vento agitava o coqueiral vetusto.
Vinha ofegante, e pálida de susto,
E trêmula de medo...
.
Ah! quanto beijo e quanto riso ledo
Deu-me o seu lábio, rúbido e venusto!
Quanto divino sentimento augusto,
Quanto infantil segredo!
.
Lúcia partiu... E aquele riso doce
Lúcia levou! A casa transformou-se
Num sepulcral degredo.
.
Se o vento agita o coqueiral vetusto,
Inda a recordo: pálida de susto
E trêmula de medo...

Arthur de Salles

Frei Caneca - Não posso contar meus males

Não posso contar meus males

Não posso contar meus males,
Nem a mim mesmo em segredo
É tão cruel o meu fado,
Que até de mim tenho medo.

GLOSA

Dos homens sendo a paixão
Incêndio voraz no peito,
Sempre tem funesto efeito,
Se não rebenta o vulcão.
Eis porque, meu coração,
Pouco falta, que me estales;
Porque nos montes, nos vales,
Em deserto, ou povoado,
Não posso soltar um brado,
Não posso contar meus males.

Horrenda sorte, e funesta,
Escasso fado mofino,
Até me roubas, malino,
O alívio que me resta!
Tudo que sinto me atesta
Que os do Cocyto ainda excedo;
Porque não tendo eles medo
De contra Deus blasfemar,
Não posso de mim falar;
Que até de mim tenho medo.

Ver o pólo negro arder
Em raios abrasadores;
Feros Notos berradores
Dos montes cedros varrer;
Todo o mundo estremecer,
Dos trovões ao rouco brado;
Da terra o centro rasgado
Nações inteiras sorvendo,
Quanto ver isto é horrendo!
É tão cruel o meu fado.

O peito d'antes sereno
Centro de amor e ternura,
Agora é morada escura
De males mil, com que peno.
Vós p'ra quem um fado ameno
Aponta com áureo dedo,
Fugi de mim, porque cedo
Mudar-se vereis a sorte;
Pois o meu mal é tão forte,
Que até de mim tenho medo.


Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Carlos Drummond de Andrade