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Marcelo Zacarelli - Esposa da Solidão

Esposa da Solidão

Felicidade que me esqueces
De um falso juramento;
Jurei amar a ti saudade
Prometendo casamento.

És viúva de um sorriso antigo
Que morreu em falsos lábios;
Quando a ti te dei abrigo
Desgraçado embriagado.

Felicidade que me aquece
Fidelidade sem tormento;
Jurei amar a ti maldade
No meu sangue violento.

És quem furta a alegria
Vontade no peito prostituída;
És quem luta saudade vadia
No peito doído à dor extraída.

Felicidade que me roubas
Que me arromba o coração;
Jurei amar a ti saudade
Só não esperava nesta tarde
Me casar com a solidão.

 
Marcelo Zacarelli


Rufião - Marcelo Zacarelli

Rufião

Cansada da labuta
Tu vens prostituta
De mais um dia de luta
Perigosa e astuta, de pouca conduta;
Diminuto ao juízo lacônico
Transparente ao sorriso irônico;
Tu vens prostituta
Descansar nos braços deste louco.

Do quilombo tu retornas
Da ferida nos teus seios
Explorada, insaciada, escrava do desejo;
Como um querubim expulsa do céu
O rosto de vergonha coberto com o véu
Desesperada á procura de um beijo
Tu vens prostituta
Em busca de abrigo.

Fantoche dos caprichos da vida
Da hipocrisia nos teus sentimentos
Manipulada pelo efeito da bebida
Tu encontras prostituta
Derrotada em teu próprio fingimento

Na fealdade dos teus atos
Nas histórias e relatos
Continuas teu sustento.
Crucificada no madeiro social
Quando pra ti mesmo, prostituta...

Somente tens feito o mal
Sem álibi e sem direito
Tu caminhas descalça
Pela estrada do preconceito
De pouca moral e razoável dinheiro
Tu vens prostituta
Aos meus braços sedentos.

Em meu leito embriagado e sóbrio
A nudez do meu corpo te espera
Mesmo vestida de impureza e lamento
Tu vens prostituta, tu vens prometendo...
Mulher de poucas palavras, de muitos segredos!
À noite é testemunha dos teus pecados
O dia dos teus sofrimentos
Não chores mais prostituta
Cuido-te da grana e dos teus sentimentos.

Marcelo Zacarelli



Alma das Flores - Marcelo Zacarelli

Alma das Flores

As flores estão de luto
Pois o inverno está chegando
Há um clamor absoluto
Dentre as pétalas reclamando;

As flores estão de luto
Vem o vento assoviando
Num soprar longo e bruto
A beleza carregando;

As flores estão de luto
De partida a tua alma
Primavera foi tão curto
Golpe duro que se acalma;

As flores estão de luto
De rosto caído dormidas ao chão
No mais singelo dos absurdos
Vazando perfume do seu coração;

As flores estão em festa
Pois o inverno está passando
Um corpo de vida
À semente lhe empresta
No mês de setembro

Marcelo Zacarelli


Emulação - Marcelo Zacarelli

Emulação

Esplendida dama, suntuosa no vestir;
Deslumbrante no falar, astuta no agir,
Com este seu comportamento de posse
Mulher exacerbada de caráter pérfido
De carinho precioso, sentimento doloroso!
De bagagens esplendidas, estranhas e feridas...
A lealdade e a má índole da vida,
Caminho irreal, estrada verídica...
Contrariando a mística feminina,
És você menina doida varrida;
Importuna nos teus conceitos
Tu pleiteias sem direito,
Manipulada por qualquer incentivo
Subornada aos desejos de qualquer estímulo
Teu semblante de bruxa pouco assusta
Teu corpo franzino de pouco juízo
Menina hilária descompromissada da vida
De aspecto lúgubre e notável histeria
Diante do espelho de reflexo obsessivo
Continuas hesitante no teu juízo possessivo
Incitas o mal em tua bola de cristal
Entre a mais perfeita bruxa, infernal!
Esplendida dama de feitiço maleável
Acorrenta o coração
De um homem indesejável;
Até quando mulher será despretensiosa
Só não te aturo calada
Prefiro a ti fogosa.

Marcelo Zacarelli


Marcelo Zacarelli - Minuta

Minuta

Da imagem imortal e traços imperceptíveis,
Desenho sem medo a plenitude do semblante,
Pois encontrei na silhueta do teu rosto,
Inspiração total para descrevê-la;
E ao perfilar a linha imaginária dos teus lábios,
Minha boca teve sede,
De tão incólume e intocável
Um enigma a ser decifrado pelos amantes da ilusão,
E ao reclinar-te para uma pintura,
Empresta-lhe à beleza a um quadro
Minhas mãos quase trêmulas
Disfarçam tamanha apreensão,
A fragrância do teu corpo nu
Incorporou sobre a tinta a desvairar-se
Dentre aos mortais pincéis da imaginação;
Até mesmo Picasso ignoraria tamanha imperfeição,
Quanto mais um humilde poeta,
Ao descrevê-la em minha folha de papel,
E tentar esculpi-la na magnitude
Do teu ser seria loucura;
Alguém em sã consciência não exitaria,
Talvez se contentasse com pequeno preencher
Que me veio de presente da face oculta,
Chego a sonhar com tua imagem
Que me toma por assalto em meu leito;
Mas na pretensão deste momento
Era real o testemunho dos meus olhos;
Apenas um rascunho desdenhado
Da beleza do teu rosto,
Beleza sem igual imortalizada e sortida
No quadro de um poeta ambicioso.


Marcelo Zacarelli


Unha do Pé - Marcelo Zacarelli

Unha do Pé

É José, assim não vai dar pé...
Nem sabes que vergonha é
Comer a unha do pé;

Famia de pouca crença
É a tar famia de barnabé
De entre os santos desconhecem
O pai de Jesus, José;

É José, preto veio da umbanda
Do terreiro do mane
Lá dos cantos de aruanda
Troca à meia de chulé;

Bem sei José, brasileiro humilde é...
Que bem cedo ta de pé
Pois a roça te espera
Na colheita de café;

Tenha boas manias, José...
No largo da praça da sé
Nem sabes que vergonha é
Comer a unha do pé.

Marcelo Zacarelli


Marcelo Zacarelli - Madeiro em vão

Madeiro em vão

Ao pé da cruz lamúria e ostentação
Hipócritas curvados ao nazismo
A irônica coragem do iconoclatismo
Diante do madeiro obedecendo ao alcorão.

Ao pé da cruz a valentia do pecador
A ordem e progresso constitucional
Não esclarecidas da bandeira nacional
Da corja dos políticos em estupor.

Ao pé da cruz a lembrança do calvário
hipocráticos da impunidade
Que fazem estéticas da humanidade
E mancha o sagrado manto sudário.

Ao pé da cruz o olhar do cristo incrédulo
Do mentor da justiça à esquerda crucificado
Do que rouba o pão à direita mutilado
Das feridas sobre o pulso do fincado prego.

Ao pé da cruz as lágrimas de Maria
A sociedade alternativa de Pilatos
Seguidores envergonhados de seus atos
Do ignorado cristo crucificado todos os dias.

Ao pé da cruz tristeza e lamentação
O desperdício de sangue no madeiro em vão
Servirão de aviso pelo cristo sofrido
Aos predestinados filhos da condenação.

Marcelo Zacarelli


Jornaleiro Amigo - Marcelo Zacarelli

Jornaleiro Amigo

Jornaleiro sim
Que vende notícia
Da ilustre revista
Se bem ou se mal
Que vende jornal
Que conta mentiras

Jornaleiro por opção
De bom coração
Não tão bom de pulmão
Um fumante confesso
De opinião e brasileiro
Com sua banca situada
Na avenida amador Bueno;

Nascido de minas
Mais preciso de guaxupé
Companheiro de Ondina
Que tomou por tua mulher
Jornaleiro honesto
Que Deus o tenha

Seu Aldo de todos
Do alto da penha;
Jornaleiro amigo
Saudoso avô
Á que mal lhe pergunte
Por que à morte te chamou.

Marcelo Zacarelli


Marcelo Zacarelli - Poesia órfã

Poesia órfã

De peito aberto,
Paloma teu coração
Sinto teu pulsar por perto
Quando desces
A comer em minhas mãos.

És livre, sobre voa sem destino,
Pelas notas da canção
De composição deste desatino
Descalça na letra de uma solidão.

De peito ferido,
Repousas neste galardão
À noite te assalta
A procura de abrigo
Amanheço contigo em busca do pão.

Meus olhos saltam em desespero,
Quando te misturas à imaginação
Se não te vejo reclama meu peito
Singela Paloma com toda razão.

Onde estás, pequena pomba,
Que desertas minhas mãos
Na candura do teu vôo
A letra desta poesia tornou-se órfã.

Marcelo Zacarelli



Liberdade - Marcelo Zacarelli

Liberdade

Liberdade; pra viver...
Pra se conhecer mais vezes
Até as praças que são mais verdes
Nos olhos destes japoneses.

Túneis e metrô...
Pessoas aos milhões
Parecem correr pela contra mão
Semáforos não o impedem
O dia a dia da liberdade de expressão.

Nem Paris parece tão bela
Desse nosso Japão brasileiro
Das meninas corriqueiras
De furtado (conselheiro)
Dos amantes da Rua Galvão Bueno.

Minúsculo órgão
Desta grande metrópole
Teu sangue corre
Nas veias desta tua mãe;
Que te alimenta o sonho
De cresceres em liberdade.

(Homenagem a São Paulo 450 anos.)

Marcelo Zacarelli