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Poema - Emílio Moura

Poema
Renasces em ti mesma e por ti mesma.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.

A poesia só me visita para que te realizes,
para que eu te sinta e te compreenda.

Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam?

Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.
De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.

Emílio Moura


Emílio Moura - Aqui termina o caminho

Aqui termina o caminho

Os sinos cantando, as sombras, todas se diluindo
dentro da tarde. Dentro da tarde, o teu grave pensamento de exílio.
Por que ainda esperas? Aqui termina o caminho,
aqui morre a voz, e não há mais eco nem nada.

Por que não esquecer, agora, as imagens que tanto nos perturbaram
e que inutilmente nos conduziram
para nos deixar, de súbito, na primeira esquina?
Essa voz que vem, não sei de onde,
esses olhos que olham, não sei o quê,
esses braços que se estendem, não sei pra onde...

Debalde esperarás que o eco de teus passos acorde os espaços que já não tem voz.
As almas já desertaram daqui.
E nenhum milagre de espera,
nenhum.


Emílio Moura

Emílio Moura - Soneto a Carlos Drummond de Andrade

Soneto a Carlos Drummond de Andrade

A hora madura envolve-te e palpita
nela o que ora te oferta, ora recusa:
posse do que és, na solidão recôndita,
graça de amar, ressurreição dos mitos.

Claros enigmas riscam céus distantes.
Falam-te as coisas pela voz que é o próprio
sentimento do mundo e pela meiga
sombra gentil que ressuscita a infância.

Ouço-te andar nas lajes desta rua,
que nem sei se é de Minas ou de alguma
pátria remota que ao teu canto se abre.

E amo-te a voz multiplicada em ecos:
verbo dócil à força íntima e pura
que à máquina do mundo se incorpora.


Emílio Moura

Emílio Moura - Aqui termina o caminho

Aqui termina o caminho

Os sinos cantando, as sombras, todas se diluindo
dentro da tarde. Dentro da tarde, o teu grave pensamento de exílio.
Por que ainda esperas? Aqui termina o caminho,
aqui morre a voz, e não há mais eco nem nada.

Por que não esquecer, agora, as imagens que tanto nos perturbaram
e que inutilmente nos conduziram
para nos deixar, de súbito, na primeira esquina?
Essa voz que vem, não sei de onde,
esses olhos que olham, não sei o quê,
esses braços que se estendem, não sei pra onde...

Debalde esperarás que o eco de teus passos acorde os espaços que já não tem voz.
As almas já desertaram daqui.
E nenhum milagre de espera,
nenhum.

Emílio Moura

Canção - Emílio Moura

Canção

Que consciência dividida
me faz ser dois e, em seguida,
me torna um só, mas sem vida?

Quem me trouxe a este degredo?
Quem me jogou desde cedo
em labirintos de medo?

Que sombra, estigma ou segredo
se grava, trêmulo, a medo,
em minha face plural?

Quem te conta o que não digo
e dorme sempre comigo
sono de pedra e de cal?

Emílio Moura

Emílio Moura - Poema

Poema

Mal surgiste, teu caminho
ficou traçado, era aquele!
De nada valeram gestos,
palavras ou vãos desígnios.
Era aquele! E, já submisso,
humildemente seguiste,
com frágeis pés vigorosos,
(pisavas o ar, chão de nada,
do que julgavas que fosses,
ou então fosse teu sonho,
gravado em cristal e nuvem.
Não, não era. Era o que o vento
bordava no ar, projetando-se
no bojo do nada, ou no âmago
de uma aurora inexistente.
Contudo, humilde, seguiste.
E, espetro apenas, mais nada,
ainda arquitetas (inútil!)
além do tempo e do mundo
outra aurora, outro caminho.


Emílio Moura

Libertação - Emílio Moura

Libertação

Sou um poeta quase místico:
A vida é bela quando é um êxtase.

Ah! Não ter um pensamento, um só pensamento no cérebro,
não vigiar a vida, a vida inquieta, a vida múltipla da sensualidade,
mas vivê-la, de olhos cerrados, num silêncio cheio de ritmos;
não ouvir as palavras frias que mudam o destino,
ou que o fazem semelhante a um autômato;
e saber a toda hora,
saber sempre,
que a vida é bela quando é um êxtase.

Emílio Moura