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Soneto do Efêmero - Waldemar Lopes

Soneto do Efêmero

Sangaram os mulungos no ermo encantado
frágeis flores de brasa. O canto insone
— pobre pássaro rouco no ar crispado —
voa da concha azul do grafafone.

Sobre a face das almas desce o cone
de sombras, antes que, no ilimitado
reino interdito, a vida se abandone
à lógica do tempo. E ladao a lado

o homem e as coisas: a arca subjetiva
— onde se funde o dúplice lamento,
— onde tudo ao mudável se reduz

e os ontens e amanhãs, matéria viva
dos seres, desintegram-s no vento
como as almas, o canto, os mulungos.

Waldemar Lopes

Soneto de janeiro - Waldemar Lopes

Soneto de janeiro

Os cânticos, as vozes, a memória
do futuro. No efêmero da aliança
entre o amanhã e o agora se relança a
frágil rede de equívocos. A glória,

o amor, o tédio, a ira, a insegurança:
ó matéria do ser, breve e incorpórea!
Nas almas fustigadas de esperança
a atônita alegria, transitória

dádiva do mistério: ínfimo instante
sopro de eternidade no ar perplexo.
Sobre os doze degraus do calendário

urde-se a trama: côncavo/convexo
é o caminho de espelhos, posto diante
do homem, para o imprevisto itinerário.

Waldemar Lopes

Waldemar Lopes - Soneto das nuvens e da brisa

Soneto das nuvens e da brisa

Os pássaros nostálgicos... Errantes
mágicos do crepúsculo, soprando
das longas asas trêmulas o brando
vento da tarde; e logo, em céus cambiantes,

alvos blocos de pluma vão distantes
e efêmeras imagens modelando:
sereias e hipocampos, entre o bando
de carneiros, e rosas, e elefantes,

cães e estrelas, dragões, ou aguçadas
torres, na superfície roseoviva
por onde voga, acesa, a caravela

e as longas asas captam, retesadas,
a poesia da tarde, fugitiva,
mas eterna no instante em que foi bela.

Waldemar Lopes

Waldemar Lopes - Soneto da insônia

Soneto da insônia
Na emanação da noite o leve peso
das sombras ancestrais. Vozes tardias
em vago marulhar, talvez desprezo
às turvas ambições, seiva dos dias.

E sobre o ser profundo, vivo-aceso,
o lume das vigílias. (Nas sombrias
urnas do tempo há de ficar defeso
o enigma das mortais mitologias

imunes à esperança.) Agora é essa
onipresença onírica, ou apenas
a ácida indiferença à vã promessa:

em seu ambíguo reino indefinido
a consciência noturna sofre as penas
da vida, o rude esforço sem sentido.

Waldemar Lopes

Waldemar Lopes - Soneto da esperança

Soneto da esperança
Tempo de azul e não. Desencantado
reino do que não foi, mundo postiço,
ontem feito de agora, hoje passado:
na essência do não-ser o instante omisso.

(Margaridas da tarde, onde o seu viço?
Choro de água nos ares, lento e alado
caminho cor de sonhos? Insubmisso
mar sem datas, desfeito e recriado?)

Suaves rechãs por onde a mão do vento
esculpia no verde a sombra exata
e as imagens que o olhar já não alcança.

Aventuras tão-só do pensamento:
arco de azul, a tarde era a fragata
supérflua, para o exílio da esperança.)

Waldemar Lopes