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Canção do Exílio - Gonçalves Dias

Canção do Exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossa, várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias

Gonçalves Dias Biografia resumida, poemas e poesias

Gonçalves Dias nasceu em Caxias, Maranhão, em 1823. Era filho de português com uma índia. Estudou direito na faculdade de Coimbra, Portugal. Para matar a saudade do Brasil, escreveu o famoso poema "Canção do exílio", um dos mais populares de nossa literatura. Foi o escritor que mais louvou os índios, como mostra o épico "I-Juca-Pirama", um belo exemplo do romantismo. Gonçalves Dias Morreu tragicamente no litoral brasileiro, quando regressava de navio, de uma viagem à Europa, em 1864.

Mais poemas de Gonçalves dias

Agora e sempre
Ponham-me embora na crestada Líbia,
Ou lá nas zonas em que o gelo mora
Ali tua alma viverá comigo
Ali teu nome!

Ponham-me em terras que leões só ceiam,
Nas altas serras que o condor habita;
Ali ainda viverá contigo
Minha alma ardente.

Faminto e triste na região deserta,
Co’os pés em sangue de esfarpada estilha.
Cortado o rosto de gelado vento,
Mádida a coma:

Ali aos urros do leão sedento,
Aos crebros gritos do condor alpestre,
Ardendo em chamas d|este amor sem termo,
Direi? Eu te amo!

Duros ferrolhos de prisão medonha
Escute embora sepultar-me em vida;
Embora sinta roxear-me os pulsos
Férreas algemas;

Embora malhos de tortura infame
Quebrem-me os ossos no medroso equúleo:
Agudos dentes de tenaz raivosa
Mordam-me as carnes:

Nas feias sombras de cruel masmorra,
Nos duros tratos da tortura bruta,
Quer só comigo, quer em meio às gentes.
Direi: Eu te amo!

Mas nunca o gelo, nem a frágua ardente,
Nem brutas feras, nem crueza humana
Farão que eu sofra mais agudas dores,
Nem mais penadas!

Reclina-se outro em teu nevado seio,
Cinge-te o corpo em divinais carícias,
Beija-te o colo, beija-te o sorriso,
Goza-te e vive!

E eu no entanto esforço-me com dores!
Praguejo o inferno que nos pôs tão longe,
Louco bravejo, misero soluço...
Desejo e morro!

Gonçalves Dias


Poema de Gonçalves Dias - Amanhã

Amanhã

Amanhã! — é o sol que desponta,
É a aurora de róseo fulgor,
É a pomba que passa e que estampa
Leve sombra de um lago na flor.

Amanhã! — é a folha orvalhada,
É a rola a carpir-se de dor,
É da brisa o suspiro, — é das aves
Ledo canto, — é da fonte — o frescor.

Amanhã! — são acasos da sorte;
O queixume, o prazer, o amor,
O triunfo que a vida nos doura,
Ou a morte de baço palor.

Amanhã! — é o vento que ruge,
A procela d'horrendo fragor,
É a vida no peito mirrada,
Mal soltando um alento de dor.

Amanhã! — é a folha pendida.
É a fonte sem meigo frescor,
São as aves sem canto, são bosques
Já sem folhas, e o sol sem calor.

Amanhã! — são acasos da sorte!
É a vida no seu amargor,
Amanhã! — o triunfo, ou a morte;
Amanhã! — o prazer, ou a dor!

Amanhã! — o que val', se hoje existes!
Folga e ri de prazer e de amor;
Hoje o dia nos cabe e nos toca,
De amanhã Deus somente é Senhor!

Gonçalves Dias

Não me deixes! - Gonçalves Dias

Não me deixes!
Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
"Ai, não me deixes, não!

"Comigo fica ou leva-me contigo
"Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;
"Mas não me deixes, não!"

E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
"Ai, não me deixes, não!"

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
"Ai, não me deixes, não!"

Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
"Não me deixaste, não!"

Gonçalves Dias

Gonçalves Dias - O canto do guerreiro

O canto do guerreiro
I

Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não geram escravos,
Que estimem a vida
Sem guerra e lidar.
— Ouvi-me, Guerreiros,
— Ouvi meu cantar.



II


Valente na guerra,
Quem há, como eu sou?
Quem vibra o tacape
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me;
— Quem há, como eu sou?



III


Quem guia nos ares
A frecha emplumada,
Ferindo uma presa,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada
onde eu a mandar?
— Guerreiros, ouvi-me,
— Ouvi meu cantar.



IV


Quem tantos imigos
Em guerras preou?
Quem canta seus feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me:
— Quem há, como eu sou?



V


Na caça ou na lide,
Quem há que me afronte?!
A onça raivosa
Meus passos conhece,
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céu.
— Quem há mais valente,
— Mais destro que eu?



VI


Se as matas estrujo
Co’os sons do Boré,
Mil arcos se encurvam,
Mil setas lá voam,
Mil gritos reboam,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
— Quem é mais valente,
— Mais forte quem é?



VII


Lá vão pelas matas;
Não fazem ruído:
O vento gemendo
E as matas tremendo
E o triste carpido
Duma ave a cantar,
São eles — guerreiros,
Que faço avançar.



VIII


E o Piaga se ruge
No seu Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frechados,
Os campos juncados
De mortos são já:
Mil homens viveram,
Mil homens são lá.



IX


E então se de novo
Eu toco o Boré;
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal eles se escoam
Aos sons do Boré.
— Guerreiros, dizei-me,
— Tão forte quem é?

A infância - Gonçalves Dias

A infância

Belo raio do sol da existência,
Meninice fagueira e gentil,
Doce riso de pura inocência
Sempre adorne teu rosto infantil.

Sempre tenhas, anjinho inocente,
Quem se apresse em teus passos guiar,
E uma voz que o teu sono acalente,
E um sorriso no teu acordar.

Enlevada nos sonhos jocundos
Voz etérea te venha falar,
E visão d′outros céus, d′outros mundos,
Venha amiga tua alma encantar.

Leda infância gentil! e quem não te ama?
Quem tão de pedra o coração não sente
Aos teus encantos meigos mais tranquilo?
Quem não sente memórias d′outras eras
Travarem-lhe da mente ao recordar-se
Aquele gozo puro e suavíssimo
De vida, que jamais não tem logrado?
Recordações de um mundo adormecido
Lá lhe estão dentro d′alma esvoaçando,
Como arpejos de música longínqua!
E a mente nos seus quadros embebida,
Por mágica ilusão enfeitiçada,
Como outrora, talvez somente veja
Na terra — um chão de flores estrelado,
E nos céus — outro chão de flores vivas!

II

Afagada e bem vinda e querida
Travessuras cismando infantis,
Nos caminhos floridos da vida
Vai mimosa, imprudente e feliz!

É sua vida um contínuo festejo,
Sonhos d′oiro só sabe sonhar,
Toda ela um afã, um desejo
D′outros jogos contente brincar.

Puro riso o semblante lhe adorna,
Logo pranto começa a verter,
E depois outro riso lhe torna,
E depois outro pranto a correr.

Tão perto jaz a fonte da amargura,
Da fonte do prazer! — porém tão doces

Essas lágrimas são! — tão abundantes,
Tão sem causa e simpáticas gotejam
Numa tez de carmim, num rosto belo!
Quem as vê, que sorrindo as não enxuga?
Mas não todo consumas o tesouro
Único e triste, que ao infeliz sobeja
Nas horas do sofrer; no tempo amargo,
No qual o rosto pálido se enruga,
E os olhos secos, áridos chamejam,
Será talvez bem grato refrigério
Uma lágrima só, em que arrancada
A força da aflição dos seios d′alma.
Mas tu, feliz, sorri, enquanto a vida,
Como um rio entre flores, se desliza
Macio, puro, recendendo aromas.

III

Belo raio do sol da existência,
Flor da vida, mimosa e gentil,
Fonte pura de meiga inocência,
Leve gozo da quadra infantil!

Quem fruir-te outra vez não deseja,
Quando vê sobre a veiga formosa
A menina travessa e ruidosa,
Borboleta que alegre doudeja?

A menina é uma flor de poesia,
Um composto de rosa e jasmim,
Um sorriso que Deus alumia,
Um amor de gentil serafim!

Folga e ri no começo da existência,
Borboleta gentil! a flor dos vales,
Da noite à viração abrindo o calix,
O puro orvalho da manhã te guarda;
Inda perfumes dá, que te embriagam,
Inda o sol quando aquece os vivos raios,
Nas asas multicores cintilando,
Com terno amor de pai, em torno esparge
Pó sutil de rubis e de safiras.
Folga e ri no começo da existência,
Humano serafim, que esse perfume
São das asas do anjo, que se impregnam
Dos aromas do céu, quando atear-se,
Roaz fogo de vida começando,
Quanto havemos de Deus consome e apaga.

IV

Porém tu, afagada e querida,
Com requebros donosos, gentis,
Vai contente caminho da vida,
Belo anjinho, mimoso e feliz!

E do bardo a canção magoada,
Quando a possas um dia escutar,
Há de ser como rota grinalda,
Que perfumes deixou de exalar!

E esta mão talvez seja sem vida,
E este peito talvez sem calor,
E memória apagada e sumida,
Talvez seja a do triste cantor!

Gonçalves Dias


Gonçalves Dias - Recordação

Recordação

Quando em meu peito as aflições rebentam
Eivadas de sofrer acerbo e duro;
Quando a desgraça o coração me arrocha
Em círculos de ferro, com tal força,
Que dele o sangue em borbotões golfeja;
Quando minha alma de sofrer cansada,
Bem que afeita a sofrer, sequer não pode
Clamar: Senhor, piedade; — e que os meus olhos
Rebeldes, uma lágrima não vertem
Do mar d'angústias que meu peito oprime:

Volvo aos instantes de ventura, e penso
Que a sós contigo, em prática serena,
Melhor futuro me augurava, as doces
Palavras tuas, sôfregos, atentos
Sorvendo meus ouvidos, — nos teus olhos
Lendo os meus olhos tanto amor, que a vida
Longa, bem longa, não bastara ainda
por que de os ver me saciasse!... O pranto
Então dos olhos meus corre espontâneo,
Que não mais te verei. — Em tal pensando
De martírios calar sinto em meu peito
Tão grande plenitude, que a minha alma
Sente amargo prazer de quanto sofre.


Gonçalves Dias

Solidão - Gonçalves Dias

Solidão

Se queres saber o meio
Por que as vezes me arrebata
Nas asas do pensamento
A poesia tão grata;
Por que vejo nos meus sonhos
Tantos anjinhos dos seus:
Vem comigo, ó doce amada,
Que eu te direi os caminhos,
Donde se enxergam anjinhos,
Donde se trata com Deus.

Fujamos longe das vilas,
Das cidades populosas,
Do vegetar entre as vagas
Destas cortes enganosas;
Fujamos longe, bem longe,
Deste viver cortesão!
Fujamos desta impureza,
Só vês cordura por fora;
Mas nunca o vício que mora
Nas dobras do coração!

Fujamos! Que nos importa
Rodar do carro que passa,
Esta orgulhos vã glória,
Que se resolve em fumaça?
Estas vozes, estes gritos,
Este viver a mentir?
Fujamos, que em tais lugares
Não há prazer inocente,
Só alegria que mente,
Só lábios que sabem rir!

Fujamos para o deserto;
Vivamos ali sozinhos,
Sozinhos, mas descuidados
D′estes cuidados mesquinhos;
Tu o azul do espaço olhado
E eu só a rever-me em ti!
Quando depois nos tornarmos
À terra serena e calma,
Aqui acharei tua alma,
E tu me acharás aqui.

Ou corramos o oceano
Que d’imenso a vista cansa;
Dormirei no teu regaço
Quando o tempo for bonança,
Quando o batel for jogando
Em leve ondular sem fim.
Mas nos roncos da procela,
Nossos olhos encontrados,
Nossos braços enlaçados,
Hei de cantar-te, inda assim!

Ou se mais te praz, zombemos
Das setas que arroja a sorte;
Vivamos nas minhas selvas,
Nas minhas selvas do norte,
Que gemem nênias sentidas
No seio da escuridão.
Não tem doçura o deserto,
Não têm harmonia os mares,
Como o rugir dos palmares
No correr da viração!

Tu verás como a luz brinca
Nas folhas de cor sombria;
Como o sol, pintor mimoso,
Seus acidentes varia;
Como é doce o romper d’alva,
Como é fagueiro o luar!
Como ali sente-se a vida
Melhor, mais viva, mais pura
Naquela eterna verdura,
Naquele eterno gozar!

Vem comigo, oh! Vem depressa,
Não se esgota a natureza;
Mas desbota-se a inocência,
Divina e santa pureza,
Que dá vida aos objetos.
Feituras da mão de Deus!
Vem comigo, ó doce amada,
Que são estes os caminhos,
Donde eu enxergo os anjinhos,
Que tu vês nos sonhos meus.

Gonçalves Dias

Poemas de Gonçalves Dias - No Jardim

No jardim!
Lembra-te o Jardim, querida!
Lembra-te ainda da vida
Aquela quadra florida,
Que ali passamos então!...
— Duas salas, um terraço,
Poucas flores, muito espaço,
Muita luz; mas a melhor,
— A flor do teu coração,
A luz do teu santo amor!
Não tinha a casa pintura,
O chão não tinha cultura:
Paredes nuas, ladrilho,
Tudo singelo, sem brilho...
Ninguém diria a ventura
Que ali se pudera achar!
É porque ninguém sabia
Que tu ali vinhas ter
A cada romper do dia
Como um raio de alegria!
É que o sol no seu morrer
Seus raios ali mandava,
Como que nos céus fixava
A história do amanhecer!
— Que o ciclo da nossa vida
Da terra oscilava aos céus,
Na luz do amor teu, querida,
Na luz mandada por Deus!


E depois, se vinha a noite.
Fossem trevas ou luar,
— Como em sonhos prazenteiros,
Como em mágicos luzeiros,
Do infinito pelos campos
Se ia minha alma a vagar!
— São menos os pirilampos
No bosque — à noite! — as estrelas
Nem tantas são, nem tão belas
Como os doces devaneios,
Desejos, temor, receios,
Daquele ameno cismar!
Vivia! estava desperto!
Eu contigo me entretinha;
Tu ali estavas — bem perto,
A voz te ouvia que vinha
De amor minha alma inundar!
Mais formoso que tal sonho
Era só meu acordar,
Vendo teu rosto risonho,
Vendo nele do meu sonho
A imagem se desenhar!
— Ouvindo-te a voz macia
Baixinho pronunciar
Frases de amor, de poesia,
Que ninguém pudera achar!


Crê-me! a infanta portuguesa,
De Inglaterra a princesa,
Laura, Elvira, Beatriz,
Nos cantos de ilustres bardos
Só — foram grandes: tu, não!
Distinta por natureza
No sentimento rainha,
A poesia te vinha
Sublime, estreme, feliz,
Traduzida em gesto brando,
Ou d'alma plena brotando
Do abundante coração,
Ampla, caudal como um rio,
Como pérolas em fio
A granizarem no chão!


Aquelas vivem eterno
Na história do seu amor!
Em trono de luz sentadas,
C'roadas de resplendor!
Mas, quem dirá o que foste!
O que és ainda — talvez!
Se estas pobres folhas soltas
Nem chegarão a teus pés?!

Gonçalves Dias

Gonçalves Dias - Meu anjo, escuta

Meu anjo, escuta
Meu anjo, escuta: quando junto à noite
Perpassa a brisa pelo rosto teu,
Como suspiro que um menino exala;
Na voz da brisa quem murmura e fala
Brando queixume, que tão triste cala
No peito teu?
Sou eu, sou eu, sou eu!

Quando tu sentes lutuosa imagem
De aflito pranto com sombrio véu,
Rasgado o peito por acerbas dores;
Quem murcha as flores
Dobrando sonho? — Quem te pinta amores
D′um puro céu?
Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguém te acorda do celeste arroubo,
Na amenidade do silêncio teu,
Quando tua alma n′outros mundos erra, —
Se alguém descerra
Ao lado teu
Fraco suspiro que no peito encerra;
Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguém se aflige de te ver chorosa,
Se alguém se alegra com um sorriso teu,
Se alguém suspira de te ver formosa
O mar e a terra a enamorar e o céu;
Se alguém definha
Por amor teu,
Sou eu, sou eu, sou eu!
Gonçalves Dias


Delírio - Gonçalves Dias

Delírio

Quando dormimos o nosso espírito vela.
— Ésquilo


A noite quando durmo, esclarecendo
As trevas do meu sono,
Uma etérea visão vem assentar-se
Junto ao meu leito aflito!
Anjo ou mulher? não sei. — Ah! se não fosse
Um qual véu transparente,
Como que a alma pura ali se pinta
Ao través do semblante,
Eu a crera mulher... — E tentas, louco,
Recordar o passado,
Transformando o prazer, que desfrutaste,
Em lentas agonias?!

Visão, fatal visão, por que derramas
Sobre o meu rosto pálido
A luz de um longo olhar, que amor exprime
E pede compaixão?
Por que teu coração exala uns fundos,
Magoados suspiros,
Que eu não escuto, mas que vejo e sinto
Nos teus lábios morrer?
Por que esse gesto e mórbida postura
De macerado espírito,
Que vive entre aflições, que já nem sabe
Desfrutar um prazer?

Tu falas! tu que dizes? este acento,
Esta voz melindrosa,
Noutros tempos ouvi, porém mais leda;
Era um hino d′amor.
A voz, que escuto, é magoada e triste,
— Harmonia celeste,
Que à noite vem nas asas do silêncio
Umedecer as faces
Do que enxerga outra vida além das nuvens.
Esta voz não é sua;
É acorde talvez d′harpa celeste,
Caído sobre a terra!

Balbucias uns sons, que eu mal percebo,
Doridos, compassados,
Fracos, mais fracos; — lágrimas despontam
Nos teus olhos brilhantes...
Choras! tu choras!... Para mim teus braços
Por força irresistível
Estendem-se, procuram-me; procuro-te
Em delírio afanoso.
Fatídico poder entre nós ambos
Ergueu alta barreira;
Ele te enlaça e prende... mal resistes...
Cedes enfim... acordo!

Acordo do meu sonho tormentoso,
E choro o meu sonhar!
E fecho os olhos, e de novo intento
O sonho reatar.
Embalde! porque a vida me tem preso;
E eu sou escravo seu!
Acordado ou dormindo, é triste a vida
Dês que o amor se perdeu.
Há contudo prazer em nos lembrarmos
Da passada ventura,
Como o que educa flores vicejantes
Em triste sepultura.

Gonçalves Dias

A História - Gonçalves Dias

A História

Triste lição da experiência deixam
Os évos no passar, e os mesmos atos
Renovados sem fim por muitos povos
Sob nomes diversos se encadeiam:
Aqui, além, agora ou no passado,
Amor, dedicação, virtude e glória,
Baixeza, crime, infâmia se repetem,
Quer gravados no sócco de uma estatua,
Quer em vil pelourinho memorados.
Eis a história! — rainha veneranda,
Trajando agora sedas e veludos,
Depois vestindo um saco desprezível,
De imunda cinza, apolvilhada a fronte.

Se as virtudes do pobre não tem preço,
Também dos vícios seus a nódoa exígua
Não conspurca as nações; mas ai dos grandes,
Que trilham senda errada, a cujo termo
Se levanta a barreira do sepulcro,
Onde se quebra a adulação sem força.
Se virtuoso, as gerações passando
As cinzas lhe beijaram; se malvado
Cospem-lhe afrontas na vaidosa campa,
Jamais de amigas lágrimas molhada.
E qual do Egito nos festins funéreos,
Maldizem bons e maus sua memória,
Lançando à face da real múmia
Dos crimes seus a lacrimosa história.
Talvez, porém, um infortúnio grande,
Um exemplo sublime de virtude
Cobre dourada página, que aos olhos
Pranto consolador do peito arranca.

Eis a história! — um espelho do passado,
Folhas do livro eterno desdobradas
Aos olhos dos mortais; — aqui, sem mancha,
Além golfeja sangue e sua crimes.
Tal foi, tal é: retrato desbotado,
Onde se mira a geração que passa,
Sem cor, sem vida, — e ao mesmo tempo espelho,
Que há de ser nova cópia à gente nova,
Como os anos aos anos se sucedem.
Ondas de mar sereno ou tormentoso,
As mesmas na aparência, que se quebram
Sobre as da areia flutuantes praias.

Gonçalves Dias

A um poeta exilado - Gonçalves Dias

A um poeta exilado

Tão bem vaguei, Cantor, por clima estranho,
Vi novos vales, novas serranias,
Vi novos astros sobre mim luzindo;
E eu só! E eu triste!

Ao sereno Mondego, ao Doiro, ao Tejo
Pedi inspirações, — e o Doiro e o Tejo
Do mísero proscrito repetiram
Sentidos carmes.

Repetiu-mos o plácido Mondego;
Talvez em mais de um peito se gravaram,
Em mais de uns meigos lábios murmurados,
Talvez soaram.

Os filhos de Minerva, novos cisnes,
Que a fonte dos amores meigos cria,
E alguns de Lísia sonoros vates,
Sisudos mestres;

Ouvindo aquele canto agreste e rudo
Do selvagem guerreiro, — e a voz do piaga
Rugindo, como o vento na floresta,
Prenhe d’augúrios;

Benignos me olharam, e aos meus ensaios
Talvez sorriram; porém mais prendeu-me,
Quem sofrendo como eu, chorou comigo,
Quem me deu lágrimas!
Eu pois, que nesta vida hei aprendido
Só cantar e sofrer, não vejo embalde
Ao canto a dor unida, — e os repassados
Versos de pranto.

Do triste poleá choro a desdita,
Choro e digo entre mim: “Pobre Canário
Que fado mau cegou, por que soltasse
Mais doce canto;

Pobre Orfeu, nestes tempos mal nascido,
Atrás dum bem sonhado pelo mundo
A vagar com lira — um bem que os homens
Não podem dar-te!

Se quer esta lembrança a dor te abrande:
A vida é breve, e o teu cantar simelha
Vagido fraco de menino enfermo,
Que Deus escuta.

Gonçalves Dias

Gonçalves Dias - O mar

O mar

Oceano terrível, mar imenso
De vagas procelosas que se enrolam
Floridas rebentando em branca espuma
Num pólo e noutro pólo,
Enfim... enfim te vejo; enfim meus olhos
Na indômita cerviz trêmulos cravo,
E esse rugido teu sanhudo e forte
Enfim medroso escuto!


Donde houveste, ó pélago revolto,
Esse rugido teu? Em vão dos ventos
Corre o insano pegão lascando os troncos,


E do profundo abismo
Chamando à superficie infindas vagas,
Que avaro encerras no teu seio undoso;
Ao insano rugir dos ventos bravos
Sobressai teu rugido.
Em vão troveja horríssona tormenta;
Essa voz do trovão, que os céus abala,
Não cobre a tua voz. — Ah! donde a houveste,
Majestoso oceano?


Ó mar, o teu rugido é um eco incerto
Da criadora voz, de que surgiste:
Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas
As vagas compeliste.
E à noite, quando o céu é puro e limpo,
Teu chão tinges de azul, — tuas ondas correm
Por sobre estrelas mil; turvam-se os olhos
Entre dois céus brilhantes.


Da voz de Jeová um eco incerto
Julgo ser teu rugir; mas só, perene,
Imagem do infinito, retratando
As feituras de Deus.
Por isto, a sós contigo, a mente livre
Se eleva, aos céus remonta ardente, altiva,
E deste lodo terreal se apura,
Bem como o bronze ao fogo.
Férvida a Musa, co'os teus sons casada,
Glorifica o Senhor de sobre os astros
Co'a fronte além dos céus, além das nuvens,
E co'os pés sobre ti.


O que há mais forte do que tu? Se erriças
A coma perigosa, a nau possante,
Extremo de artificio, em breve tempo
Se afunda e se aniquila.
És poderoso sem rival na terra;
Mas lá te vás quebrar num grão d'areia,
Tão forte contra os homens, tão sem força
Contra coisa tão fraca!


Mas nesse instante que me está marcado,
Em que hei de esta prisão fugir p'ra sempre,
Irei tão alto, ó mar, que lá não chegue
Teu sonoro rugido.
Então mais forte do que tu, minha alma,
Desconhecendo o temor, o espaço, o tempo,
Quebrará num relance o círc'lo estreito
Do finito e dos céus!


Então, entre miríadas de estrelas,
Cantando hinos d'amor nas harpas d'anjos,
Mais forte soará que as tuas vagas,
Mordendo a fulva areia;
Inda mais doce que o singelo canto
De merencória virgem, quando a noite
Ocupa a terra, — e do que a mansa brisa,
Que entre flores suspira.

Gonçalves Dias

As duas amigas - Gonçalves Dias

As duas amigas

Já vistes sobre a flor de manso lago
Duas aves brincando solitárias,
Já pousadas na lisa superfície,
Já levantando vôo?

Já vistes duas nuvens no horizonte,
Brancas, orladas com listões de fogo,
A deslumbrante alvura cambiando
Ao pôr de sol estivo?

Já vistes duas lindas mariposas,
Abrindo ao romper d’alva as longas asas,
Onde reflete o sol, como em um prisma,
Belas, garridas cores?

Nem as pombas que vagam solitárias,
Nem as nuvens do ocaso, nem as vagas
Borboletas gentis que adejam livres
Em vale ajardinado:

Tanto não prazem, como doces virgens,
Airosas, belas, com sorrir singelo,
Da vida negra e má duros abrolhos
Impróvidas calcando.

Quanto há no mundo d’ilusões fagueiras,
De perfume e de amor, guardam no peito,
Quanto há de luz no céu mostram nos olhos,
Quanto há de belo — n’alma.

Como um jardim seu coração se mostra,
Seus olhos como um lago transparente,
Sua alma como uma harpa harmoniosa,
Seu peito como um templo!

Mas um fraco arruído espanta as aves,
Uma brisa ligeira as nuvens rasga,
E uma gota de orvalho ensopa as asas
Das leves mariposas.

Desgarrdas voando as aves fogem,
Dos castelos dos céus perdem-se as nuvens,
Nem mais adejam borboletas vagas
Sobre o esmalte das flores.

Pois quem resiste ao perpassar do tempo?
Depois que derramou grato perfume
Sobre as asas dos ventos que a bafejam,
A flor também definha.

Mas um nobre sentir que se enraíza
No peito da mulher, que menos ame,
É como essência preciosa e grata,
Que se lacrou num vaso.

Repassa-o: depois embora o esgotem,
Leves emanações, gratos eflúvios
Há de eterno verter da mesma essência,
Talvez porém mais doces.

Gonçalves Dias

A uns anos - Gonçalves Dias

A uns anos

14—Janeiro

No segredo da larva delicada
A borboleta mora,
Antes que veja a luz, que estenda as asas,
Que surja fora!

A flor, antes de abrir-se, se recata;
No botão se resume,
Antes que mostre o colorido esmalte,
Que espalhe o seu perfume.

E a flor e a borboleta, após a aurora
Breve — da curta vida,
Encontram as manhãs da primavera
E a luz do sol querida.

Dc graças cheia, a delicada virgem
Da vida no verdor,
Semelha à borboleta melindrosa,
Semelha à linda flor.

Tudo se alegra e ri em torno dela,
Tudo respira amor;
Que é a virgem formosa semelhante
À borboleta e à flor.

Para estas o sol breve se esconde,
Passam prestes os dias;
Enquanto em cada aurora, em cada ano
Tu novas graças crias!

Gonçalves Dias

 

Menina e moça - Gonçalves Dias

Menina e moça
É leda a flor que desponta
Sobre o talo melindroso,
E o arrebento viçoso
Crescendo em flóreo tapiz;
É doce o romper da aurora,
Doce a luz da madrugada,
Doce o luzir da alvorada,
Doce, mimoso e feliz!

É bela a virgem risonha
Com seus músicos acentos,
Com seus virgens pensamentos,
Com seus mimos infantis;
Como quanto enceta a vida,
Que à luz sorri da existência,
Que tem na sua inocência
Da mocidade o verniz.

Vinga a flor a pouco e pouco,
Cada vez mais bem querida,
Tem mais encantos, mais vida,
Tem mais brilho, mais fulgor:
De cada gota de orvalho
Extrai celeste perfume,
E do sol no raio assume
Cada vez mais viva cor.

Assim à virgem mimosa,
Pouco e pouco, noite e dia,
Mais viva flor de poesia
Do rosto lhe tinge a cor;
E um anjo nos meigos sonhos,
Do seu peito na dormência
Derrama o odor da inocência,
Um doce raio de amor!

Porque tudo, quando nasce,
Seja a luz da madrugada,
Seja o romper da alvorada,
Seja a virgem, seja a flor;
Tem mais amor, tem mais vida,
Como celeste feitura,
Que sai melindrosa e pura
Dentre as mãos do criador.

Gonçalves Dias


Como eu te amo - Gonçalves Dias

Como eu te amo

Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,
O orvalho numa flor, nos céus a estrela,
No largo mar a sombra de uma vela,
Que lá na extrema do horizonte assoma;

Como se ama o clarão da branca lua,
Da noite na mudez os sons da flauta,
As canções saudosíssimas do nauta,
Quando em mole vaivém a nau flutua,

Como se ama das aves o gemido,
Da noite as sombras e do dia as cores,
Um céu com luzes, um jardim com flores,
Um canto quase em lágrimas sumido;

Como se ama o crepúsculo da aurora,
A mansa viração que o bosque ondeia,
O sussurro da fonte que serpeia,
Uma imagem risonha e sedutora;

Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

————

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,
Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas.

————

De mim não saberás como te adoro;
Não te direi jamais,
Se te amo, e como, e a quanto extremo chega
Esta paixão voraz!

Se andas, sou o eco dos teus passos;
Da tua voz, se falas;
o murmúrio saudoso que responde
Ao suspiro que exalas.

No odor dos teus perfumes te procuro,
Tuas pegadas sigo;
Velo teus dias, te acompanho sempre,
E não me vês contigo!

Oculto e ignorado me desvelo
Por ti, que me não vês;
Aliso o teu caminho, esparjo flores,
Onde pisam teus pés.

Mesmo lendo estes versos, que m'inspiras,
— "Não pensa em mim", dirás:
Imagina-o, se o podes, que os meus lábios
Não to dirão jamais!

————

Sim, eu te amo; porém nunca
Saberás do meu amor;
A minha canção singela
Traiçoeira não revela
O prêmio santo que anela
O sofrer do trovador!

Sim, eu te amo; porém nunca
Dos lábios meus saberás,
Que é fundo como a desgraça,
Que o pranto não adelgaça,
Leve, qual sombra que passa,
Ou como um sonho fugaz!

Aos meus lábios, aos meus olhos
Do silêncio imponho a lei;
Mas lá onde a dor se esquece,
Onde a luz nunca falece,
Onde o prazer sempre cresce,
Lá saberás se te amei!

E então dirás: "Objeto
Fui de santo e puro amor:
A sua canção singela;
Tudo agora me revela;
Já sei o prêmio que anela
O sofrer do trovador.

"Amou-me como se ama a luz querida,
Como se ama o silêncio, os sons, os céus,
Qual se amam cores e perfume e vida,
Os pais e a pátria, e a virtude e a Deus!"


Gonçalves Dias

Desesperança - Gonçalves Dias

Desesperança

Que me importa do mundo a inclemência
E esta vida cruel, amargada?
Desde que os olhos abri à existência
Um vislumbre de amor não achei!
Nem uma hora tranquila e fadada,
Nem um gozo me foi lenitivo;
Mas no mundo maldito em que vivo
Quantas ânsias, meu Deus, não provei!

Já bastante lutei com meu fado!
Quando outrora corri descuidoso
Atrás de um bem, não real, mas sonhado,
Transbordava de sonhos gentis:
Eu julgava que a um peito brioso
Ou que a uma alma que fácil se inflama
Por virtudes, por glória, ou por fama,
Era fácil aqui ser feliz.

Via o mundo através dos meus prantos
A sorrir-se pra mim caroável,
Refletindo celestes encantos,
Que era visto d′um prisma através:
Hoje trevas em manto palpável
Me circundam, — nem já por acerto
Vejo triste nos prantos que verto
Luz do céu refletida outra vez!

Que me resta na terra? — Estas flores
Afagadas do sopro da brisa,
Disputando do sol os fulgores,
Balançadas no débil hastil!
Estas fontes de prata, que frisa
Brando vento, — estas nuvens brilhantes,
Estas selvas sem fim, sussurrantes,
Estes céus do gigante Brasil;

Nada já me renova a esperança,
Que jaz morta qual flor ressequida,
Só me resta a querida lembrança
Que o martírio se acaba nos céus:
Foge pois, ó minha alma, da vida;
Foge, foge da vida mesquinha,
Leva a tímida esperança, caminha,
Até parar na presença de Deus.

Que estes gozos de etéreos prazeres,
Que esta fonte de luz que ilumina,
Que estes vagos fantasmas de seres,
Que cismando só posso enxergar;
Que os amores de essência divina,
Que eu concebo e procuro e não vejo,
Que este fundo e cansado desejo,
Deus somente t′os pode fartar.

Vai assim a medrosa donzela,
Pura e casta na ingênua beleza,
Buscar luz à remota capela,
Branca cera na pálida mão:
Tudo é sombra, silêncio e tristeza!
Mas ao toque do fogo sagrado,
Arde em chamas o círio apagado,
Já rutila brilhante clarão.



Gonçalves Dias

As flores - Gonçalves Dias

As flores

Tu que com tanto afã, com tanto custo,
Estudando, inquirindo, e meditando,
De estranhos climas transplantaste aos nossos
As flores várias no matiz, nas formas,
Modesto horticultor, dos teus desvelos
Este só galardão recebe ao menos!
Recebe-o: também eu gosto das flores,
Folgo também de as ver num campo estreito

De estranhas terras revelando os mimos
E as galas d′outros céus: — aqui perfumam
Nossos jardins de peregrina essência!
Melhoram-se talvez, que as não contristam
Raios tíbios do sol, nem turvos ares,
Nem do inverno o furor lhes cresta o brilho.

Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Em vós inspirações o bardo encontra,
Devaneios de amor a ingênua virgem,
À abelha o mel, a humanidade encantos,
Odores, nutrição, bálsamo e cores.
Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Linda virgem no albor da vida incerta,
No meio das vivaces companheiras,
Em forma de capela as vai tecendo
Para cingir com ela a fronte e a coma,
Que os anos no passar não enrugaram,
Nem as cans da velhice embranqueceram.
Resplendor de inocência, onde casados
A açucena, e os jasmins aos brancos lírios
Um só perfume grato aos céus envia;
Meiga coroa de angélica pureza,
Ornamento da vida — que se rompe
Ou quando os membros delicados vestem
O grosseiro burel da penitencia,
Ou do noivado as galas! — lá se acaba,
Por fim aos pés do tálamo ou num tumulo!
Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Quantas vezes, nas horas da ventura,
A falaz sensação d′um peito ingrato
Não julgamos eterna, imensa, infinda!
Ali nossos anelos se concentram,
Nossa vida ali jaz: — cifra-se inteira
Num brando volver d′olhos, num acento,
Que a ternura repassa, inspira, exala!
Um gemido, um suspiro, um ai, um gesto,
Valem tronos e mais, — o mundo e a vida!
Mas esvai-se a paixão!... que fica? Apenas
Um saudoso lembrar de eras passadas,
De cismadas venturas não fruídas,
Às vezes uma flor!... — Flor dos amores,
Quando extinta a paixão, porque inda existes?
Espinhos de uma rosa emurchecida
Porque sobreviveis às folhas dela?
Mais firme, mais leal, mais vivedoura
Que a volúvel paixão, a flor mimosa
Talvez irrita a dor, talvez a acalma.
Emblemas do prazer, do sofrimento,
Mensageiras do amor ou da saudade,
Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Geme a fresca odalisca entre ferrolhos,
Importuna presença a voz lhe tolhe
Do não piedoso eunuco; — a estátua negra
Respeitosa e cruel lhe espreita os gestos:
Chora a guzla mourisca ao som dos ferros,
Lastima-se a cadeia ao som dos passos,
E a humana flor definha entre outras flores;
Mil ouvidos a voz lhe escutam sempre,
E cingidos de ferro, crus soldados
De entorno ao mesto harém velam sanhudos!
Ruge, fero soldam! — treplica os bronzes
Da masmorra cruel: — a planta humilde,
A escrava que recatas tão cioso,
Zomba dos feros teus! Muda e singela
Através das prisões, dos teus soldados,
Passa a modesta flor! Vai n′outro peito,
Mistérios não sabidos relatando,
Contar do infausto amor as provas duras,
Os martírios da ausência, as tristes lágrimas
Que chora — ao reiterar protestos novos!
Bem-fadadas do sol, do amor benquista,
O orvalho as cria, as lágrimas as murcham:
Meigas flores gentis quem vos não ama?

Quem tem o coração a amar propenso,
Quem sente a interna voz que dentro fala,
Delicado sentir d′um brando peito,
Alma virgem que os homens não mancharam,
Quem sofre ou tem prazer, ou ama, ou espera
E vive e sente a vida, esse vos ama:
Encantos da existência em quanto vivos,
Do revés, do triunfo companheiras,
No berço, no docel, no mudo esquife,
Sempre amigas fiéis vos encontramos.
Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Modesto horticultor, dos teus desvelos
Este só galardão recebe ao menos;
Paga-te sequer de ver mais bela,
Mais vaidosa, melhor, do sol na terra
A flor modesta, produção sublime
De estranhos climas transplantada ao nosso.

Gonçalves Dias