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Tarefa - Geir Campos

Tarefa

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

Geir Campos


A árvore - Geir Campos

A árvore


Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências – que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos –

demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo,
E dize-me: há esperança para o Homem?

Geir Campos

A armadura - Geir Campos

A armadura

A antiga fé, que ao gesto te obrigava
e te animou para a aventura e a guerra:
era do corpo, que tornou à terra?
ou da alma que esse corpo alimentava?

Se era a do corpo, a tua lei — descansa:
deixa minar-te aos poucos a ferrugem,
deixa que as plumas e o metal se sujem
ao pó que no ar do mostruário dança.

Porém se a carne era somente o engaste
dessa vontade que vestiste um dia
com tanto brilho, tanta galhardia,

que esperas ainda para, num violento
gesto, voltar à vida que deixaste?
Já a tua inércia é um acontecimento.

Geir Campos

Geir Campos - Poema-bilhete

Poema-bilhete

Amigo, este meu canto não é manso
nem de manso cantar seria a hora.
Reviro as páginas da História e vejo
que, se em cada uma existe alguém que chora,
razão de pranto mais que em todas elas
sobeja na que se rascunha agora:
com cães de armas por toda parte à espreita,
entre miras vacila e se apavora
o gado humano, sem saber se a luz
que se desdobra no horizonte é mais
reflexo de tarde ou clarão de aurora
ou mais fogo de bomba maquinada
por um gênio às avessas que decora
o alfabeto do inferno e que, por ele
bem soletrando a morte, a vida ignora...

Sabendo e amando a vida, o verso enrija-se
e o canto é como quem finca uma escora
contra o a-b-c do diabo, contra o cão
do gatilho suspenso, contra o fogo
que no céu se desdobre e ali não seja
reflexo de tarde ou clarão de aurora.

Geir Campos

O Santo exemplo - Geir Campos

O Santo exemplo
Quando o centurião te interrogar,
nega sempre: não tens
de que te envergonhar...
Faz como o pescador da Bíblia fez:
nega uma vez, duas, três,
até o galo cantar!
Sobre a pedra da tua negação,
quantas igrejas se edificarão?

Geir Campos

Acalanto - Geir Campos

Acalanto

Exaustos de fotografar a vida
em seus sessenta aspectos por minuto,
adormecem os olhos no aconchego
de crepúsculo antigo e sempre novo:
as imagens do dia, prisioneiras
entre as dobras das pálpebras, discutem
argumentos possíveis para um sonho.

Geir Campos

Viagem - Geir Campos

Viagem

Meu sapato cambaio tem algo de navios
Entre as ondas imóveis do capacho, adernando
Como se as meias, postas só de um lado, pesassem
Mais do que ao vento largo todo um velame pando.

Na pele da mulher que é porto sobre os lençóis,
Raro se tranquiliza meu corpo marinheiro
E com a sonda vai assegurando o roteiro
Nas praias onde não piscam os olhos dos faróis:

E descubro, enrolando meu novelo de milhas,
Tesouros que os piratas não deixavam nas ilhas.

Geir Campos

O pai ao filho em face do Cristo - Geir Campos

O pai ao filho em face do Cristo

Não direi maravilhas
para que não duvides
num mundo assim pandemônio tornado:
antes, diria, era uma vez um homem
capaz de muito amar (inclusive mulher)
e que de amor tentou falar a uns bárbaros
mas percebendo que não o entendiam
serviu-lhes numa cruz a própria carne
e deu-lhes de beber o próprio sangue
e o que tinha a dizer trançou em fábulas
nem todas ainda agora debulhadas
e assim passou por deus na terra — um homem
desses que passam pensando em mudar a estrada.

Geir Campos

Cantar de amigo - Geir Campos

Cantar de amigo

O claro pão
que repartimos
dá-nos um título:
companheiros.

A indagação
que aprofundamos
faz de nós, artesãos,
camaradas.

O olhar sem visgo,
a voz precisa,
o gesto mundo,
eis-nos: amigos.

Quantos, que marcham pela vida
como quem carrega uma estrada,
terão amigo, companheiro e camarada?

Geir Campos

Lição - Geir Campos

Lição

Sai desse livro, meu filho, e dá um pulo cá fora:
olha esta rua
onde boiada não passa
nem passa boi
mas moreninha do cabelo cacheado
passa e passa morena e passa branca e passa branco
numa lição de cores brasileira
humanizando o azul da tarde franca.
Agora vai naquele muro e caligrafa este exercicio:
"Abaixo o Homem Sanguessuga do Homem!"
Depois, querendo, volta a ler teu livro.

Geir Campos


Do Amor - Geir Campos

Do Amor

Se deveras não cabe, entre criaturas
modeladas em barro e ao barro adstritas,
mais do que o essencial esfarinhar-se
(durando, gastam-se as coisas mais duras)
— às criaturas será sempre estrangeira
a força que as redime, se as atrita,
queimando auroras sobre grãos de poeira.

Geir Campos

Da profissão do poeta

DA PROFISSÃO DO POETA

A Paulo Mendes Campos

Da Identificação Profissional

Operário do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma limpa, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.

Do Contrato de Trabalho

Fui chamado a cantar e para tanto
há um mar de som no búzio do meu canto.
Embora a dor ilhada ou coletiva
me doa, antes celebro as coisas belas
que movem o sol e as demais estrelas
— antigos temas que parecem novos
de tão gratos ao meu e aos outros povos.

Da Relação com Vários Ofícios

Meu verso tine como prata boa
pesando na confiança dos bancários;
os empregados no comércio bem
sabem como atender aos que encomendo
e recomendo mais do que ninguém;
aos que funcionam em telefonia
com ou sem fio, rádio, a esses também
sei dizer à distância ou de mais perto
a cifra e o texto no minuto certo;
para os músicos profissionais,
sem castigar o timbre das palavras
modulo frases quase musicais;
para os operadores de cinema
meu verso é filme bom que a luz não queima;
trilho também as estradas de ferro
e chego ao coração dos ferroviários
como um trem sempre exato nos horários;
às equipagens das embarcações
de mares ou de lagos ou de rios
meu verso fala doce e grave como
doce e grave é a taboca dos navios;
nos frigoríficos derrete o gelo
da apatia, se é para derretê-lo,
meu canto a circular nas serpentinas;
à boca da escotilha ou nas esquinas
do cais, o meu recado é força viva
guindando a atenção dos homens da estiva;
desço cantando aos subsolos e às minas
onde outros operários desenterram
o minério de suas artérias finas;
a outros, que dão sua têmpera aos metais,
meu canto ajuda feito um sopro a mais
aflando o fogo em flâmulas vermelhas;
aos colegas que lidam nos jornais
boas noticias dou e, mais do que isso,
jeito de as repetir e divulgar
quando o patrão quisera ser omisso;
à gente miúda, pronta a ser maior,
passo lições de um magistério puro
e o que é dever escrevo a giz no muro;
para os químicos sei fórmulas novas
que os mártires elaboram nas covas...
e a todos que trabalham vai assim
meu canto sugerindo meio e fim.

Do Horário do Trabalho

Marcadas as minhas horas de ofício,
de dia em sombras pelo chão e à noite
no rútilo diagrama das estrelas,
só quem ama o trabalho sabe vê-las.

Dos Períodos de Descanso

Seja domingo ou dia de semana,
mais do que as horas neutras do repouso
confortam-me os encargos rotineiros;
meu descanso é confiar nos companheiros.

Do Direito a Férias

Nunca me participam por escrito
ou verbalmente os ócios que mereço,
mas sempre gozo bem o merecido:
pois o ócio não é ofício pelo avesso?
É quando fio o verso; depois teço.

Da Remuneração das Férias

Em férias tenho a paga de saber
lembrado o verso meu por quem o inspira;
é como se outra mão tangesse a lira.

Do Salário Mínimo

Laborando entro os pontos cardinais,
de norte a sul, de leste a oeste, vou
cobrando aqui e ali quanto me basta:
o privilégio de seguir cantando.
(Imposto é cuidar onde e como e quando.)

Do Expediente Noturno

Trabalho à noite e sem revezamentos.
Se há mais quem cante, cantaremos juntos;
sem se tornar com isso menos pura
a voz sobe uma oitava na mistura.

Da Segurança do Trabalho

Mesmo no escuro, canto. Ao vento e à chuva,
canto. Perigo à vista, canto sempre;
e é clara luz e um ar nunca viciado
e sol no inverno e fresca no verão,
meu canto, e sabe a flores se é de flores
e a frutos se é de frutos a estação.
Só não me esforço à luz artificial
com que a má fé de alguns aos mais deslumbra
servindo-lhes por luz o que é penumbra;
também quando o ar parece rarefeito
a lira engasga, o verso perde o jeito.

Da Higiene do Trabalho

Não canto onde não seja o sonho livre,
onde não haja ouvidos limpos e almas
afeitas a escutar sem preconceito.
Para enganar o tempo ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas, não canto...
Canto apenas quando dança,
nos olhos dos que me ouvem, a esperança.

Da Alteração de Contrato Etc.

Meu ofício é cantando revelar
a palavra que serve aos companheiros;
mas se preciso for calar o canto
e em fainas diferentes me aplicar
unindo a outros meu braço prevenido,
mais serviço que houver será servido.

Geir Campos

Questões de tempo - Geir Campos

Questões de tempo
Quem perguntará por mim
quando a última passar
com seu facão?
Que mulher grave desfalecerá
vendo apagados meus olhos
na multidão?
Que homem de bem guardará
o adeus meu
seco na palma da mão?
Quem lembrará minha voz
coral ausente
em qualquer canção?
Quem se pagará a herança
inteira ou em pedaços
do meu indivisível coração?
E a quem a flor
de raiz em mim
fará os acenos do não?

Geir Campos

Poética - Geir Campos

Poética

Eu quisera ser claro de tal forma
que ao dizer
— rosa!
todos soubessem o que haviam de pensar.
Mais: quisera ser claro de tal forma
que ao dizer
— já!
todos soubessem o que haviam de fazer.

Geir Campos

Alvoroço - Geir Campos

Alvoroço

Dizem que quando a ponta de um espinho
agride alguma célula da pele,
as células do tecido vizinho
aprestam seus núcleos em torno dele.

talvez o mesmo efeito se revele
se em lugar de agressão for um carinho
a arrepiar algum ponto da pele
— um beijo, por exemplo, não espinho.

Carinho ou agressão chama a correr
alvoroçadas reservas do ser
a tais toques de alarma ou de desejo.

Talvez não seja mais que uma impressão
mas — toda vez que vou beijar-lhe a mão,
sinto-a vir por inteiro à mão que beijo...

Geir Campos

1ª Cantiga de acordar mulher - Geir Campos (Poema-poesia)

1ª Cantiga de acordar mulher

Vagueio além de seu sono
com alma de marinheiro
feliz de chegar a um ponto
sem previsão de roteiro,
mais tonto de o descobrir
que de lhe ser estrangeiro.
Teu continente a dormir
— pouso de barco ligeiro —
pára os relógios num tempo
avesso a qualquer ponteiro:
nem sei se o fico vivendo
ou se te acordo primeiro.

Geir Campos