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Catulo da Paixão Cearense - Ontem ao luar

Ontem ao luar

Ontem ao luar, nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste o que era a dor de uma paixão.
Nada respondi, calmo assim fiquei,
Mas fitando o azul do azul do céu
a lua azul eu te mostrei.

Mostrando a ti, dos olhos meus correr senti
uma nívea lágrima e assim te respondi.
Fiquei a sorrir por ter o prazer
de ver a lágrima dos olhos a sofrer.

A dor da paixão não tem explicação
Como definir o que só sei sentir?
É mister sofrer, para se saber
O que no peito o coração não quer dizer

Pergunta ao luar, travesso e tão taful,
De noite a chorar na onde toda azul,
Pergunte ao luar, do mar à canção
Qual o mistério que há na dor de uma paixão

Se tu desejas saber o que é o amor e sentir
O seu calor, o amaríssimo travor do seu dulçor,
Sobe o monte à beira mar, ao luar,
Ouve a onda sobre a areia lacrimar,
Ouve o silêncio a falar na solidão do calado coração
A penar e a derramar os prantos seus,
Ouve o choro perenal, a dor silente universal
Que é a dor maior... que é a dor de Deus...
Que é a dor maior... que é a dor de Deus...

Catulo da Paixão Cearense

Um boêmio no céu - Catulo da Paixão Cearense

Um boêmio no céu
(O boêmio com temor à São Pedro)

Meu Pai, será um crime imperdoável
Perguntar-vos por onde vaga o Monstro,
O Judas, vendedor do Pai Divino?

Queres que eu seja franco?
Nem eu mesmo
Posso informar-te sobre o seu destino!

Através de seu cérebro bizarro
Que pensas desse tigre, dessa hiena?!

Eu lhe voto rancor, ódio profundo,
Mas lamento, Senhor, sua desgraça,
E desse vil herói chego a ter pena!
Senhor, ouso dizer, humildemente
Á vós que renegastes Jesus Cristo,
A vós, que o grande Mestre bendiz
que não existe coração perverso,
mas coração feliz ou infeliz.

Vós deveis ser a Judas muito grato,
Perdoar de coração esse bandido,
O maior dos maiores condenados,
Que ficam para sempre relembrados,

Esses homens fecais feitos de pús,
Pois se foi certo que vendeu a Cristo,
Também foi certo, que, ao beijar-lhe a face,
Lhe deu glória universal da cruz!

Sem esse grande miserável... Judas,
Existiria Deus... mas não, Jesus.


Catulo da Paixão Cearense


Catulo da Paixão Cearense - A flor do maracurjá

A flor do maracujá

Encontrando-me com um sertanejo
Perto de um pé de maracujá
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo
Porque razão nasce roxa
A flor do maracujá?

Ah, pois então eu lhi conto
A estória que ouvi contá
A razão pro que nasci roxa
A flor do maracujá

Maracujá já foi branco
Eu posso inté lhe ajurá
Mais branco qui caridadi
Mais brando do que o luá

Quando a flor brotava nele
Lá pros cunfim do sertão
Maracujá parecia
Um ninho de argodão

Mais um dia, há muito tempo
Num meis que inté num mi alembro
Si foi maio, si foi junho
Si foi janero ou dezembro

Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrer
Numa cruis crucificado
Longe daqui como o quê

Pregaro cristo a martelo
E ao vê tamanha crueza
A natureza inteirinha
Pois-se a chorá di tristeza

Chorava us campu
As foia, as ribera
Sabiá também chorava
Nos gaio a laranjera

E havia junto da cruis
Um pé de maracujá
Carregadinho de flor
Aos pé de nosso sinhô

I o sangue de Jesus Cristo
Sangui pisado de dô
Nus pé du maracujá
Tingia todas as flor

Eis aqui seu moço
A estoria que eu vi contá
A razão proque nasce roxa
A flor do maracujá.

Catulo da Paixão Cearense

Os olhos dela - Catulo da Paixão Cearense

Os olhos dela

Eu sou capaz de confessar
Aos pés de Deus
Que eu nunca vi em mundo algum
Uns olhos como os teus
Eu não sei mesmo
Como os hei de comparar, não sei
Eu já tentei cantar
O teu divino olhar

Depois de tanto versejar
Debalde em vão
Depois de tanto apoquentar
A minha inspiração
Cheguei à triste conclusão
De que eu só sei sofrer
E o que teus olhos são
Não sei dizer

Deixa-te estar que quando eu morrer
Irei verter os prantos meus nos céus
Hei de contar em segredo a Deus
As travessuras desses olhos teus
Hei de mostrar ao Senhor Jesus
Ao Pai nos céus, apiedado
Meu coração crucificado
Nos braços teus de luz

Os olhos teus são lágrimas do amor
Os olhos teus são dois suspiros de uma flor
São dois soluços d´alma
São dois cupidos de poesia
Que sinfonia tem o teu olhar
Que até às vezes já nos faz chorar!
Ai, quem me dera me apagar assim
À luz do teu olhar!

Os olhos teus
Quando nos querem castigar
Parecem dois astros de gelo
Que nos vêm gelar
Mas quando querem nos ferir
Direito o coração
Eu não te digo não
O que os teus olhos são

Pois quando o mundo quiser
De vez findar
Basta acendê-lo com um raio
Desse teu olhar
Que os olhos todos das mulheres
Que mais lindas são
Dos olhos teus
Não têm a irradiação

Catulo da Paixão Cearense

Trovas - Catulo da Paixão Cearense

Trovas

Se me sorris, quando passas,
a minh’alma prasenteira
viçosa, fica sorrindo,
como a rosa na roseira.
Mas se passas, sem me olhares,
o meu coração, pequeno,
sente a magua de uma rosa,
pisada pelo sereno.

Quando te vejo, em meu peito
brota uma flor de impiedade
no lugar em que inda há pouco
soluçava uma saudade.
Mas se partes, se te ausentas,
voltam logo mais acesas
as borboletas da noite
das minhas velhas tristezas.

Os teus olhos de esmeralda
têm, nos brilhos singulares,
as seduções das florestas
e a verde atrcção dos mares.

Quando foges do meu lado,
minh’alma anciosa te espera,
como a roseira, sem rosas,
a volta da Primavera.

Se vejo as tuas roseiras
por essas manhãs cheirosas,
tenho a ilusão de estar vendo
um grande incêndio de rosas.

Aproximei-me do bosque
para ouvir os passarinhos
e os passarinhos, voando,
abandonaram seus ninhos.
Se tento ouvir das quimeras
os cantos, com que me iludo,
fogem todas, apressadas,
e o coração fica mudo.

Meu coração é uma fera,
é um leão esfomeado,
que, a rugir, vai devorando
o cadáver do Passado.

Do teu anel primoroso
a pedra viva, encarnada,
é um grande pingo de sangue
n’uma flor amorenada.

Pedi! Chamei por teu nome!
Tu te fizeste de mouca!
Dei-te um beijo, e então ficou-me
um mel de fogo na boca.

Uma Vênus tão somente
existe nos céus serenos
e em teu rosto alvinitente
vejo sempre duas Vênus.

Se a paixão deu-te um desgosto,
tens uma cura ligeira:
procura, à tarde, ao sol posto,
a sombra da laranjeira.
Se n’alma sentes ciúmes,
com teus olhos rasos d’agua,
o aroma da tua magua
mistura com os seus perfumes.
Mas, se esse arbusto impiedoso
não te acolher complacente,
vai assentar-te, saudoso,
à beira de uma corrente.
Afina o teu instrumento,
serenamente sombrio,
canta e afoga o pensamento
nas águas fundas do rio.

No jardim, quando, formosa,
colheste a rosa amarela,
perguntando o cravo à rosa: —
Quem é? — Disse a rosa: “É ela.”
E o cravo, sem teu afago,
de tal maneira chocou-se,
que sobre as águas de um lago,
desfolhado, suicidou-se.

Morto, eu peço-te esta esmola,
peço, em nome de Jesus,
que partindo esta viola,
faças d’ela a minha cruz.

Vive o homem doido e vario
por ter mais ouro na mão,
e eu seria um milionário,
se encontrasse um coração.

Quando suspiro a teu lado,
não julgues que é brincadeira,
pareço um mocho pousado
na rosa de uma roseira.

Se me volves do sobrado
um teu olhar divinal,
vejo um lírio debruçado
sobre um verde pantanal.

Nestas campinas, agora,
a relva, cheirando a flor,
tudo, tudo, tudo chora!...
Se alguém canta, é a minha dor!
Um sabiá doce e ameno
nos seios da tarde fria,
rorejado de sereno,
descanta uma Ave-Maria.

As tuas mãos candorosas
e o teu rosto, ó feiticeira,
parecem mesmo três rosas,
e tu — o hastil da roseira.

Trindade do coração,
em que minh’alma descansa,
é minha religião: —
amor, saudade e esperança.

Qualquer frase acerba e dura
que ela me atira, eu sorrio:
pois encerra tal doçura
que parece um elogio.

O cego implora, chorando,
um pouco de luz, de pão;
e eu vivo a ti mendigando
um farrapo de ilusão.

Tão cruel é minha sina
que eu vivo esta vida austera,
como uma flor na campina,
de luto na primavera.

Do inverno adoro os rigores!...
Minh’alma, que nada espera,
nada tem que ver com as flores,
nada tem com a primavera.

Porque em lugar de um poeta
não me fez Deus um banqueiro?
Tu viverias repleta,
não de versos... de dinheiro.

Canto a tarde, o dia inteiro,
canto a noite de luar,
pois que a fama de violeiro
só Deus me pode tirar.
Neste sertão não respeito
nem viola nem cantador!
Comigo é preciso jeito!
Não podem com a minha dor!
Se vocês estão folgando,
é porque não sabem, não,
como o ciúme está sambando
cá dentro do coração.

Podem brincar à vontade,
ao som do canto dançar!...
Gosto de ver a saudade
lacrimejando a sambar!

Na tua branca janela,
bate o luar de marfim!
Eu quero crucificar-me
nas flores do teu jardim.
Se és minha cruz, sou teu Cristo!
Hei de cumprir meu fadário!
Na tua branca janela
é onde está meu calvário,
No teu jardim toda a noite
choro estas trovas fagueiras!...
Rezo n’ele, como Cristo
no Jardim das Oliveiras.
No teu canteiro de rosas
também sinto maus odores!
Será talvez o cadáver
de um coração entre as flores!?

“Quais são as cores do beijo?”
ela a mim me perguntou!
— Os teus — lhe disse — são verdes!
Maduros — os que eu te dou.

No meu livro de orações
guardo uma rosa sombria,
que das preces do meu livro
é a mais bela Ave-Maria.

A dor mandou que eu chorasse,
para alívio dos pesares,
mas já não tendo mais lágrimas,
estou chorando cantares.

Muita imagem lá na igreja
sorri, com um sorriso etéreo!
Mas quando sais lá da igreja,
a igreja fica tão triste
que parece um cemitério!

Não tenho mais uma lágrima
no cofre do peito meu!
Quantas pedras preciosas
o coração derreteu!

Quis contar a minha vida
das flores à mais formosa,
mas de pronto arrependi-me,
fiquei com pena da rosa.

Tu partes hoje, querida!...
Muito a noite já chorou!
Para te dar os adeuses,
até o sol madrugou.

No luar deste silèncio,
d’esta noite abençoada,
parece andar pelos ares
uma trova enfeitiçada.

Todo o azul do firmamento,
quando em meus olhos te miras,
corre doido em tuas veias,
como um bando de safiras.

Juntando os lábios à terra,
teu nome eu disse baixinho,
e quando o dia brotava,
brotou da terra um espinho.

No deserto do teu peito,
dia e noite perfumados,
se levantam, veludosos,
dois montes acaboclados.

Quando me negas um beijo,
sacodes os meus pesares,
como o vento das procelas
na branca areia das praias,
sacode a espuma dos mares.

O meu amor, que é de fogo,
não dá flores entre o gelo...
O coração das mulheres
é escasso para contê-lo.

Esses teus olhos formosos
de um azul límpido e leve,
são como dois beija-flores
n’um ninho feito de neve.

Tu remoças dia a dia,
e eu vivo mais alquebrado:
dá-me o beijo prometido,
para eu morrer descansado.

Quando passas pela estrada,
acendendo mil desejos,
atrás de ti vais deixando
um doce cheiro de beijos.

Tu queres crucificar-me?
Abre os braços! Forma a cruz!
Dá-me o fel que tens nos lábios!
Morrerei, como Jesus.

Quando passas pelas rosas,
soluçando os teus odores,
eu ouço os jardins rezando
um Padre-Nosso de flores.

Saias ontem da igreja,
depois da missa acabar,
e eu gritei: — olha uma Santa,
fugindo do seu altar.

Eu tive um sonho esta noite,
que não me sai da lembrança:
sonhei que eu via a Saudade
chorando aos pés da Esperança!
Depois eu tive outro sonho
de oposta desigualdade:
sonhei que eu via a Esperança,
chorando aos pés da Saudade!

Não há maior desventura
neste mundo desgraçado,
que ver um bardo, um poeta,
por uma mulher formosa
deveras apaixonado.
Mas não há coisa mais bela,
para quem é sonhador,
do que vê-lo inebriado
pelo sorrir de uma flor.

Prefiro a Dor ao Prazer,
por esta razão somente:
todo o Prazer vai-se embora,
toda a Dor fica com a gente.

Não há nada neste mundo
que mais me possa inspirar
que um cemitério de noite,
sonhando à luz do luar.

Quando mais com uma ferida
tu me feres... eu não choro!
É mais uma boca aberta,
para eu dizer que te adoro.

Tu és feia, mas contudo,
vejo em ti muita poesia:
se teu rosto é um lírio murcho,
tua alma é uma Ave-Maria.

A Primavera é tão boa,
preza tanto as nossas dores,
que até mesmo o cemitério
enfeita todo de flores.

Tu bem sabes toda a história
deste amor, hoje desfeito:
nasceu dentro de minh’alma
e sepultou-se em teu peito.

Quem dormir sobre teu peito
uma noite bem dormida,
há de acordar no outro dia
com a ilusão apodrecida.

Meu ideal era ver-te,
formosa, como tu és,
amando a todos os homens
e eles todos a teus pés.

Tens tanta flor na janela,
que mais um jardim parece;
no entanto, só quando chegas,
é que a janela floresce.

“Que flor tu querias ser”,
se um dia me perguntasses,
— um mal-me-quer — eu diria,
para que me desfolhasses.

Para mim, a maior glória,
mais sublime e ambicionada,
era eu ser a sepultura
onde fosses enterrada.

Sou como a flor. E os brilhantes
que trazes, de alto valor,
não são pingos de sereno,
que mata a sede da flor!

Catulo da Paixão Cearense

Catulo da Paixão Cearense - Flor Amorosa

Flor Amorosa

Flor amorosa, compassiva, sensitiva, vem porque
É uma rosa orgulhosa, presunçosa, tão vaidosa
Pois olha a rosa tem prazer em ser beijada, é flor, é flor
Oh, dei-te um beijo, mas perdoa, foi à toa, meu amor
Em uma taça perfumada de coral

Um beijo dar não vejo mal
É um sinal de que por ti me apaixonei

Talvez em sonhos foi que te beijei
Se tu pudesses extirpar dos lábios meus
Um beijo teu tira-o por Deus
Vê se me arrancas esse odor de resedá

Sangra-me a boca, é um favor, vem cá
Não deves mais fazer questão
Já perdi, queres mais, toma o coração
Ah, tem dó dos meus ais, perdão
Sim ou não, sim ou não
Olha que eu estou ajoelhado

A te beijar, a te oscular os pés

Sob os teus, sob os teus olhos tão cruéis
Se tu não me quiseres perdoar
Beijo algum em mais ninguém eu hei de dar
Se ontem beijavas um jasmim do teu jardim

A mim, a mim
Oh, por que juras mil torturas
Mil agruras, por que juras?
Meu coração delito algum por te beijar não vê, não vê
Só por um beijo, um gracejo, tanto pejo
Mas por quê?

Catulo da Paixão Cearense

Ao luar - Catulo da Paixão Cearense

Ao luar

Vê que amenidade,
que serenidade
tem a noite, em meio,
quando, em brando enleio,
vem lenir o seio
de algum trovador!
O luar albente
que do bardo a mente
no silêncio exalta,
chora a tua falta
rutilante estrela
de eteral candor!

Minha lira geme
no concento extreme
que a Saudade inspira!
Vem ouvir a lira,
que, sem ti, delira
nesta solidão!
Vem ouvir meu canto
no fluir do pranto,
com que a dor rorejo!
Lacinante harpejo,
que das fibras tanjo
deste coração!
nosso amor fanado,
quando, eu, a teu lado,
mais que aventurado
por te amar vivi!
Quero a fronte tua
ver à luz da lua
resplandente e bela!
Descerra a janela
que eu durmo as noites,
só pensando em ti!

Dá-me um teu conforto,
que este afeto é morto
que me consagravas...
quando protestavas,
quando me juravas
eviterno amor!
Vem um só momento
dar ao pensamento
radiosa imagem
depois, na miragem,
deixa, eu tua ausência,
cruciar-me a dor!

De saudade o dardo
vem ferir do bardo
o coração silente!
Esta dor latente
só na campa algente
poderá findar!
Mas se ainda o peito
palpitar no leito
de eternal abrigo,
hei de só, contigo,
sob a lousa, em sono
funeral, sonhar.

Catulo da Paixão Cearense

Catulo da Paixão Cearense - Ai de mim

Ai de mim!
Foi um sonho te querer com doido amor
Foi loucura penhorar-te o coração
Dá-me mesmo assim ferido esse penhor
Não te peço nem te imploro gratidão
Guardo dentro deste peito por te amar
Uma dor que sempre e sempre cresce mais
Nem a tua ingratidão me vem matar
Nem a tua ingratidão me abranda os ais

Ai de mim! Ai de mim!
Por que matar-me assim?
Por que matar-me assim?

Este amor, ó este amor, me foi fatal
Nunca mais o meu sossego encontrarei
Tu, travessa, sorridente e jovial
Eu, em busca de minh’alma que te dei
Mas não posso te dizer por que razão
É mais doce o azedume desta dor
Serei teu e teu será meu coração
Não te posso, ó não, negar tão santo amor!

Catulo da Paixão Cearense

Catulo da Paixão Cearense - Templo Ideal

Templo Ideal
Olha estes céus, ó anjo, iluminados
De corações sofrentes e magoados
E o teu candor na tele cérula a brilhar
sob um trasflor de madrepérola
De versos consagrados
Com camafeus, opalas e turquesas
E as ametistas que tu exalas no falar
Com o éter da saudade, eterno marmor de sogrer
Um templo ideal eu vou te erguer

A teus pés terás a hiperdúlia da poesia
Ave-Maria dos meus ais!
Consagração do pranto deste santo coração
Virgíneo escrinio da ilusão

Ó, teus pés florei!
Com os meus estremos
Que são fluídos crisântemos
Deste amor com que te amei
Mandei a minha dor soluçar
Num resplendor de diademar

Do coração de essências lacrimosas
Que eu marchetei de rimas dolorosas
Fiz um míssil espiritural que adiamantei
Filigranei com os alvos lírios
Destas lágrimas saudosas
O teu altar num pedestal de mágoas
Eu fiz das águas do Jordão do meu penar
Tens uma grinalda em tua fronte constelei

Versos passionais
Meigas violetas, borboletas
Das ideías, orquídeas dos meus ais
Voai, saudosos, primorosos
Dulcorosos beija-flores
Dos tristores que eu lhe fiz dos amargores
Doces hóstias multicores
E um túríbulo da dores
Cujo incenso é a inspiração
Com amor e pura santidade
Guardo o culto da saudade
No meu coração

Eis o teu templo de aurirais fulgores
Que eu perfumei só com o ideal das flores
Arcanjos de ouro tendo às mãos ebúrneas liras
E a teu pés cantando em coro
Sobre um trono de safiras
Nos pedestais dos róseos alabastros
Verás dois astros: Tasso e Dante a soluçar!
Sobre o teu altar e debruçado em áurea cruz
Meu coração numa explosão de luz

Catulo da Paixão Cearense



Catulo da Paixão Cearense - O Lenhador

O Lenhador 

Um lenhadô derribava
as árve, sem percizão,
e sêmpe a vó li dizia!
“Meu fio: tem dó das árve,
que as árve tem coração!”

O lenhadô, n’um muchôcho,
e rindo, cumo um sarváge,
dizia que os seus consêio não
passava de bobage.

Às vez, meu branco, o marvado,
acordando munto cedo,
pegava no seu machado,
e levava o dia intêro,
iscangaiando o arvoredo.

E a vó, supricando im vão,
sêmpe, sêmpe li dizia:
“Meu fio: tem dó das árve,
que as árve tem coração!”

N’uma minhâ, o mardito,
inda mais bruto que os bruto,
sem fazê caso dos grito
da sua vó, que já tinha
mais de noventa janêro,
botou no chão um ingazêro,
carregadinho de fruto.

D’outra feita, o arrenegado
fez pió, munto pió!
Disgaiou a laranjêra
da pobrezinha da vó,
uma veia laranjêra,
donde ela tirou as frô
prá leva no seu vistido,
quando, virge, si casou
cum o véio, que tanto amou,
cum o difunto... o falicido!

E a vó, supricando im vão,
sêmpe, sêmpe li dizia:
“Meu fío: tem dó das árve,
que as árve tem coração!”

Do lado do capinzá,
adonde pastava o gado,
táva um grande e véio ipê,
que o avô tinha prantado.

Despois de levá na roça
c’uma inxada a iscavacá,
debáxo d’aquela sombra,
nas hora quente do dia,
vinha o véio discansá.

Se era noite de luá,
ali, num banco de pedra,
c’uma viola cunversando,
o véio, já caducando,
rasgava o peito a cantá.

Apois, meu branco, o tinhoso,
o bruto, o máo, o tirano,
a fera disnaturada,
um dia jogou no chão
aquela árve sagrada,
que tinha mais de cem ano!

Mas porém, quando o tinhoso
isgaiava o grande ipê,
viu uns burbuio de sangue
do tronco véio iscorrê!

Sacudiu fora o machado,
e deu de perna a valê!

E foi correndo!... correndo!

Cada tronco que ia vendo
das árve que ele torou,
era um braço alevantado
d’um hôme, meio interrado,
a gritá: “Vae-te, marvado!...
Assassino!... Matadô!
Foi Deus quem te castigou!”

E foi correndo!... correndo!

Cada vez curria mais!

Mas porém, quando, já longe,
uma vez ôiou prá-traz,
vendo o ipê alevantado,
cumo um hôme insanguentado,
cum os braço todo torado...
cada vez curria mais!

Na barranca do caminho,
abandonado, um ranchinho,
entre os mato entonce viu!
Quê vê se isbarra e discansa
e o ranchinho, prú vingança,
im riba d’ele caiu!

E foi correndo e gritando!
E as árve, que ia topando,
e que má pudia vê,
cumo se fosse arrancada
cum toda a raiz da terra,
n’uma grande adisparada
ia atrás d’ele a corrê!

Na boca da incruziada
vendo uma gruta fechada
de verde capuangá,
o hôme introu pulos mato,
que logo que viu o ingrato,
de mato manso e macio,
ficou sendo um ispinhá!

E foi outra vez correndo,
cansado, pulos caminho!...

Toda a pranta que incontrava,
o capim que ele pisava
táva crivado de ispinho!

Curria... e não aparava!

Ia correndo, sem tino,
cumo o marvado, o assassino,
que um inocente matou!

Mas porém, na sua frente,
o que ele viu, de repente,
que, de repente, impacou?!

Era um rio que passava,
ali, n’aquele lugá!
O rio tinha unia ponte,
que nós chamemo — pinguéla...

O hôme foi travessá!
Pôs o pé... Ia passando...
E a ponte rangeu, quebrando...
e toca o bicho a nadá!

O bruto tava afogando,
mas porém, sêmpe gritando:
“Socorro, meu Deus, soccorro!
Socorro, que eu vou morrê!
Eu juro a Deus, supricando,
nunca mais na minha vida
uma só árve ofendê!

Entonce, um verde ingazêro
que táva im riba das água,
isticou um braço verde,
dando ao hôme a sarvação!

O hôme garrou no gaio,
no gaio cum os dente aférra,
foi assubindo... assubindo..
e quando firmou im terra,
chorava, cumo um jobão!

Bêjando o gaio e chorando,
dizia: “Munto obrigado!
Deus te faça, abençoado,
todo o ano té verdô!
Vou rebentá meu machado!
Quero isquecê meu passado!
Não serei mais lenhadô!”

....................
....................
....................

Despois d’esta jura santa,
prá tê de todas as pranta
a graça, o perdão intêro
dos crime de hôme ruim,
foi se fazê jardinêro,
e não fazia outra coisa
sinão trata do jardim.

A vó, que já carregava
mais de noventa janêro,
dizia que neste mundo
nunca viu um jardinêro,
que fosse tão bom ansim!

Drumia todas as noite,
dêxando a jinela aberta,
prá iscutá todo o rumô,
e às vez, inté artas hora,
ficava, ali na jinela,
uvíndo o sonho das frô!

De minhã, de minhã cedo,
lá ia sabê das rosa,
dos cravo, das sêmpe-viva,
das manguinolia chêrosa,
se tinha drumido bem!
Tinha cuidado cum as rosa
que munta vó carinhosa
cum os seus netinho não tem!

Dizia a uma frô: “Bom dia!
Cumo tá hoje vremêia!...”
Dizia a outra: “Coitada!
Perdeu seu mé!... Foi róbada!
Já sei quem foi!... Foi a abêia!”

Despois, cum pena das rosa,
que parece que chorava,
batia leve no gaio,
e as rosa disavexava
daqueles pingo de orvaio!

Ia panhando do chão,
as frô que no chão caia!

Despois, cum as costa da mão,
alimpando os pingo d’agua
que vinha do coração,
batia im riba do peito,
cumo quem faz cunfissão.

Quando no sino da ingrêja
tocava as Ave-Maria,
nos cantêro, ajueiado,
pidia a Deus pulas arma
das frô, que naquele dia
no jardim tinha interrado!

E agora, quando passava
junto das árve, cantando,
cheio d’agua carregando
o seu véio regadô,
as árve, filiz, contente,
que o lenhadô perduava,
no jardinêro atirava
as suas parma de frô!

Catulo da Paixão Cearense

Terra caída - Catulo da Paixão Cearense

Terra caída
Ao insígne Mário-José de Almeida

Faz hoje sete janêro,
que eu dêxei o Ciará,
e rumei lá pró Amazona,
a terra dos siringá.

N’aquelas mata bravia,
lá, nos centro arritirado,
as arve tem munto leite,
mas nós já tâmo cansado!

O inverno, n’aquele inferno,
é uma grande infernação!
No inverno não se trabaia,
que é o tempo da alagação.

Isperei. Veio o verão.

É mais mió não falá!...
Tu qué sabe, meu amigo,
o que é os siringá?!

É trabaiá... Trabaiá!
É um hôme se individá!
É vive n’uma barraca,
n’um miserave casebre
e sé ferrado da febre,
que anda danada prú lá!

É trabaiá, trabaiá,
dendê que rompe a minhã,
prá de dia sé chupado
pulo piúm, que é marvado,
e de noite sé sangrado
pulo tá carapanã!

É um hôme dá todo o sangue
pró mardito do piúm,
e vortá mais disgraçado,
cumo eu — o Chico Mindélo,
duente, feio e amarelo,
cumo a frô do girimúm.

Ansim, lá dos siringá,
no fim de três, de três ano,
sem um vintém ajuntá,
ia vortá prá Manáu,
tândo fixe na tenção
de Manáu vim pró sertão
do meu quirido Ciará.

Apois!... siguindo os consêio
que me dava o coração,
arrêzôrvi não vortá!

_________

N’um terreno, im ribancêra,
na bêra mêmo do rio,
despois d’um ano gastado
de trabaio cum o machado,
prá aquelas árve gigante
na derrubada quêmá,
incoivarei um roçado
e cumecei a prantá:
feijão, mio, mandioca,
e fui filiz no lugá.

A terra era munto boa
prá fazê um roçadao:
tão boa, que era percizo
vivê cum a inxada na mão!
Se um hôme mamparriasse,
a imbaúba, a gitirana,
o mata-pasto, a caíva,
o taxizêro danado,
o taquarí... n’um instantinho,
tudo cubria o roçado.

“Cabôco Onça” era ansim
que eu ali era chamado.

Apois, no fim de dois ano,
cumpade, eu já pissuía
umas cabeça de gado!

Mas porém, meu véio amigo,
tudo o que hoje o hôme faz,
n’outro dia Deus disfaz!

_________

Ouve. Um dia, Zé Pacú,
indo a Igarapé-Assú,
onde tinha um ajury,
levou cum ele uma fia,
que se chamava — Maiby.

O pagode, a festa, o samba,
era im casa d’um rocêro
de nome: — Antônio Truamba.

No pagode do Truamba,
chorei tanto na viola,
de noite inté de minhã,
que a fermosa cunhatã
teve uns caído prá mim!

óia, a coisa foi ansim.

A cabôca fez premessa
de nunca mais me isquecê!

Que pena não sabe lê!

Ela disse tanta coisa,
tanta palavra bunita,
que eu, inté, nem sei dizê!

Nunca tive tanta pena
e tanta malincunia
de não sabe inscrevê!

Agora váincês me diga:
o que havéra eu de fazê?!

A festa tinha acabado!
Eu táva discambimbado!

Na hora que toda gente
já táva se adispidindo...
a muié táva chorando!
Vendo a muié saluçando...
fui assuntando... assuntando...
e... despois, arresôrvi!

Pidí a mão de Maiby!

Nos óio dos cunvidado
correu uma ispantação!

A cara dos namorado
de Maiby, n’aquele instante,
ficou taliquá se visse
uma grande assombração!

Maiby ficou tão contente,
quando o pae, arrêzôrvido,
no meio de toda gente,
sastifez o meu pidido.

Eu não quiria!... É verdade!
Mas porém, era mardade,
era mardade e perrice
não crê n’aquelas denguice
d’uma muié adorada,
nem nas coisa que jurava
cum a sua palavra honrada!

Apois, ficou ajustado
que, despois de mais dois ano
de trabáio no roçado,
nós havéra de casá.

Despois da festa acabá,
a festa do seu Truamba,
uns prá aqui, outros prá lá,
cada um siguiu viage.

*

A barraca do Pacú,
do véio pae de Maiby,
ficava lá da outra marge,
da outra banda do rio,
n’um bunito massapês.

Só de três mês im três mês,
eu fazia a travessia,
(duas hora de canoa...)
prá í vê a curumim,
e só quatro mês fartava
prás coisa chegá no fim.

Zé Pacú dava um pagode
no dia oito, im Dezembro,
que é o dia da Cunceição.

Cum rézão ou sem rézão,
João Capixaba, um caúchêro,
das banda de Saíré,
me contou que a cabôquinha,
n’uma festa, im Caeté,
no dia de S. João,
só c’um vaquêro dançou,
e prú via disso a festa
im tempo quente acabou!

Dei tempo ao tempo: isperei.

O dia oito chegou!
“Vamo vê”, disse cumigo,
“se o cabra não me inganou”.

*

N’aquele braço da costa,
de todo lado se via,
atupetada de gente,
as canoa, as montaria.

Vinha descendo um Gaiola.

Peguei na minha viola,
e dicí pulo barranco!

A lua, branca arupêma,
toda redonda e cheínha,
penêrava lá de riba!
E o rio táva tão branco,
cumo um montão de farinha!

Remando n’aquela hora
prá barranca da outra marge,
um bando de montaria,
carregando os cunvidado,
foi siguindo de viage.

O Pacú era quirido
e cunhicido de tudo!
Vinha gente inté de longe,
lá das banda do Serudo.

Nunca vi tanta canoa
atupetada de gente!
As água mansa do rio
se ria inté de contente!

A noite táva bunita,
cum seu vistido de chita,
da cô da frô dos ipé!
A noite infeitica a gente,
pruquê a noite é uma muié!

Ansim, bunita e fermosa,
cum uma saia toda azú,
cheguei a pensá que a noite,
a noite da Mãe de Cristo,
tinha sido cunvidada
prá festa do Zé Pacú!

Sartei no barco velêro,
e a viola temperando,
bejei as águas do rio,
e fui cantando e cantando:

“Nosso Sinhô, quando andava
pulos dizerto, a rezá,
gostava de uví São Pedro
na viola puntiá.

São Pedro diz que a viola
foi feita, n’um disafio,
da canoa im que ele andava
cum o Cristo a pescá no rio.

Não foi feita da canoa,
mas porém da sua cruz!
A viola ainda sofre
tudo o que sofreu Jesus!

Quando Deus fez a viola
e cumeçou a cantá,
seu coração ficou roxo,
cumo a frô do manacá!...

Deus é o rei dos violêro,
quando canta o seu amô,
nas corda santa da lua,
que é a viola do Sinhô!”

E fui remando... remando...

E há duas hora eu remava
e um bom cigarro pitava
de páia de tauary,
quando abispei a barraca
do véio pae de Maiby.

Mais umas duas remada
e, entonce, filíz, cheguei!

No porto, entre as canarana,
a igarité amarrei!

Ali, na bêra do rio,
manso, cumo uma lagoa,
os cunvidado da festa
vinha chegando e sartando
d’uma prução de canoa.

Nunca vi tanta canoa,
atupetada de gente!

As água mansa do rio,
todo inrugado, increspado,
se ria inté de contente!

A casa táva no arto!

Pulo um caminho insombrado,
assubi pulo barranco!...
Isvisguei pulo terrêro!...
Quebrei do lado da mata,
onde tinha um assacuzero!...

A barraca do cabôco
táva toda inluminada
e quage toda afogada
n’uma moita de abiêro!

Nas pórka e warsa e quadria,
a dança táva animada!

O som da frauta e a viola
se misturava cum o chêro
das fulô d’um jasminêro,
que intrava pula jinela!

A Mãe de Cristo, tão bela,
n’um óratóro infeitada,
táva no meio das vela,
morena e toda istrelada,
rezando, cumo uma istrela,
na boca da madrugada!

De repente, im toda a festa,
nem um rumô mais se uvía!

O nome d’ela — Maiby, —
de boca im boca curria!

Um matêro ou um seringuêro,
bateu parma no terrêro,
e fez prá tudo um siná.

Era o samba e era ela,
era Maiby quem prêmêro
no samba vinha sambá,

Do lado da caiçara,
na quina da ribancêra,
me iscundi atraz do tronco
d’uma véia piranhêra.

Quando avistei a cabôca,
quage chorei de verdade!
Ai, meu Deus, cumo é bunita
a morte d’uma sôdade!

As viola gemeu de novo,
e ela se-pôz-se a brincá,
tremendo n’um miudinho,
sem se arredá do lugá!

Ao despois, a sala toda
correu n’um sapatiado,
disafiando prá dança
os pobre dos cunvidado,
que logo baxava os óio,
ansim cumo invregonhado.

As cobôquinha, inciumada,
já não pudia mais, não!

Quando os noivo se assanhava,
elas ferrava nos braço
dos seus noivo um biliscão.

Maiby quebrava no côco
cum tanta requebração,
que se a Mãe de Deus sambasse,
tarvez que váíncês jurasse
que quem sambava era Ela!...
A Virge da Cunceição!...
A Mãe de Deus, do Sinhô!

Nisto, um roquête de parmas
im toda sala istrondou!

Foi quando, entonce, um vaquêro,
ainda moço e temêro,
prá riba d’ela imbicou!

De camisa toda branca,
cum o peito todo arrufado,
no pescoço axamurrádo
um lenço cô de limão...
butão de ouro nos punho!...
Purriba das carça nova
um pesado correntão...
O cabra, remunhetando,
castanholando cum as mão,
imbigando prá morena,
requebrava as suas pena,
no requebrado das perna,
zunindo, cumo um pinhão!

Quando o vaquêro cansava,
ela os pézinho apressava,
que nem si via os seus pé!...
Quando o vaquêro avançava,
ela ia arrecuando,
fugindo, cumo a marrêca
da boca do jacaré!...

Se o vaquêro abria os braço,
atirando uma laçada,
Maiby fugia do laço,
sortando uma gargaiadaí

E agora é que ela dançava
e os musgo a musga apressava
e ela sambava, sambava,
sem um momento apará!...

“Ai, meu tempo!” n’um gimido,
gritava as véia aculá!
Xingava as véia os marido,
que alevantando os pescoço,
xingando tombém as véia,
dava parma, cumo os moço,
vendo o demônio rodá!

Deus me perdoe a hirizia!
Mas porém, eu vi a Santa,
eu vi a Virge Maria,
batendo parma do artá!

O vaquêro, arrenegado,
ficou n’um canto, isbarrado,
capiongo, discunchavado,
sem quáge pudê falá!

Tinha cansado o marvado!
Já não pudia sambá!

E o pae, óiando prá ela,
e achando a fia mais bela,
acendeu o seu cachimbo,
e... era pae... pôs-se a chorá!

*

Entre as nuve de puêra,
a cabôca paricia
taliquá uma nuvia,
saindo dos capuêrão,
doida, às tonta e às marrada,
fugindo, entre os ispinhêro,
d’um valente boiadêro,
pulos mato do sertão.

Entonce, currupiando,
sem tomá fôrgo na dansa,
a móde cumo criança,
abria a boca dengosa,
e entonce a língua trimía
entre os dente da cabôca,
querendo saí da boca,
cumo uma cobra de rosa.

Os dois copuassú moreno,
maduro, fresco, fermoso,
dois curumim vregonhoso,
que ninguém pudia vê,
prú báxo d’aquelas renda,
tinha o chêro, inda quentinho,
da boca d’um bizerrinho,
quando acaba de nacê.

Os pézinho da cafuza,
que se tu visse, chorava,
não dançava, parpitava,
taliquá dois coração!
Tão leve, que paricía,
n’um roda de carrapêta,
um casa de barbuleta,
brincando rente do chão!

Os óio, que tinha o fogo
das tarde, quando se intôna,
tinha no fundo a beleza
de toda aquela tristeza
que tem o rio Amazona.

Não tinha boca!... Era a boca
uma gaiola de sangue,
adonde, quando falava,
a gente logo iscutava,
saluçando, um irachué!
Mas porém, quando calava,
pidindo, tarvez, um bêjo,
ficava a boca mais roxa
do que a frô do mururé.

Um bêjo naquela boca
era um má, que não tem cura!
Se tinha a doce frescura
da sombra das quixabêra,
tinha a frevura do bêjo,
que o rio, vindo dos cume,
arrebenta no ciúme
da boca das cachoêra!

Ai! os cabelo!... Os cabelo,
que às vez, n’um riviramento,
tapava a cara da dona,
n’aquele adivértimento,
era preto, cumo o sonho
d’um cego de nacimento!

Quando um momento aparava,
dêxando o suó moreno,
cumo os pingo de sereno,
prú todo o corpo corrê,
a sala ficava cheia
desse ôrôma que se sente
do chêro da terra quente,
quando cumeça a chuvê.

Ansim, quando ela sambava,
uma rosinha amarela,
que táva ainda im butão,
caiu dos cabelo d’ela,
amachucada no chão.

Os musgo, tudo suado,
cum os óio de urúiáuára,
os insturmento aparou!

Entonce, o cabra sarado,
de venda de ripolêgo,
do chão a rosa panhou!

A cabôca, óiando os musgo,
que ainda táva cansado,
cum as língua toda de fora,
de tanto e tanto tocá,
deu um muchôcho brejêro,
fez um ixe — pró vaquêro,
e introu de novo a sambá,
cumo a fôia do trapiá,
que o vento brabo da serra
vae rolando, pula terra,
n’um currupio inferná!

E as parma ainda istralava,
no meio da cunfusão,
quando se uviu um baruio,
que paricía um truvão!

Todo o mundo prá barranca
naquele instante correu!...

A noite táva mais branca
que Jesus, quando morreu!

O cabra, fazendo infuca,
pruveitando a cunfunzão,
fez um bico prá cabôca,
e deu um bêjo na boca,
um bêjo!... Sim!... Mardição!

João Capixaba, o cauchêro,
não mintiu!... Tinha rêzão!...
Era o vaquêro mardito
da festa de Caeté,
da festa de São João!...

“O que foi, gente, o que foi?!”
todo o mundo preguntava
pró pae, que lá da barranca,
já sastifeito vortava,
a gritá:

“Vamo!... Vamo! Minha gente!
— Não dêxa a festa isfriá!
— Não foi nada!... Não foi nada!...
— Foi coisa munto sabida!
— Arguma Terra Caida!...
— Toca a ri!... Toca a sambá!”

Na verde guarapiranga
chorava um camêtaú!

Agora é que se isquentava
a festa do Zé Pacú!...

Saindo detraz do tronco
da fermosa piranhêra,
rumpi pula tacaniça!...
Dicí pula ribancêra!

Uma tuada sôdosa
nos gimido das viola
se misturava cum o chêro
das fulô do jasminêro,
que vinha lá da jinela.

Arguem cantava!... Era ela!...

Rasguei cum o quicé a corda
da igarité!... Imbarquei!...
Baxinho disse um segredo
pró rio!... E remei!... remei!..

Cada vez remava mais!

Só despois de munto tempo,
aparei... e ôiei prá traz!

A barraca inluminada,
cum a musga, que inda se uvia,
longe, longe... munto longe,
cumo uma istrela... murria!

O céo, de todos os lado,
paricia uma tigela
cum o fundo azú imbórcádo,
todo ismartado de novo,
adonde a lua, tão bela,
ia boiando, amarela,
cumo uma gema de ovo!

Já trazia de viage
duas hora, bem puxada.

Lá, prás banda do Nacente,
entre as suas cumpanhera,
n’outra festa inluarada,
sambava a mais feiticêra
das istrêla amorenada,
essa Maiby dos incréu!...
Essa cabôca do céo: —
— A istrela da madrugada!

Entonce, pequei do remo,
rasguei as água do rio,
que, fazendo um arripio,
do sono d’água acordou.
Remei!... Remei!... Fui remando!...
E... não cheguei!... Foi somentes
a canoa que chegou!...

Neste sertão do Ciará,
onde naceu nossos pae,
filizmente, ninguém sabe
que coisa é terra que cáe!...

Aquele instrondo, de longe,
que lá na festa se uviu,
foi quando a terra, essa ingrata,
a minha terra adorada,
farciou!... tremeu!... caiu!

Os juaí, as bacabêra,
os coité, as laranjera,
as moita de cacáuêro,
os verde ginipapêro,
os grande canarassú,
adonde todas as tarde
cantava um iapurú...
as fermosa mongubêra,
as mongubêra inda im frô...
a juruparipirêra,
que táva im frente da choça...
a criação... gado... roça...
tudo o rio me levou!

Mas, que isso, minha gente?!
Váíncês tudo ficou triste,
despois que a históra acabou?!
Tristeza não dá vantage!
O que passou, já passou!

....................
....................

Deus, que um dia fez o hôme,
pula sua santa image,
fez o nosso coração,
cumo as frorésta bravia
das terra virge... sarvage!

Virge, im suas mataria!...
Sarvage, im sua grandeza!...
Mas porém, que tem beleza
prá quem aprêcêia as coisa
mais grande da natureza!

Um dia, vem a muié!

A muié pega um terçado,
pega uma foice, um machado,
disgaia o mato fechado
das terra do coração!
E ao despois da derrubada,
despois do fogo — a quêmada —
a muié péga uma inxada,
cava a terra, bem cavada...
e samêia!... É a prantação!

Tudo quanto é frôração,
toda a frô que a terra cria,
tudo nace, ali, n’um dia,
onde táva a mataria
no fundo do coração!

Se a muié sabe que é ingrata,
prá quê vae mexe nas mata
daqueles grande arvoredo,
e quêmá, cumo um brinquedo,
o mato virge, cerrado,
iscuro e sêmpe fechado,
adonde não tinha intrado
a luz do Só, que é o Amô!?

É prá despois, sem rezão,
derruba prá toda a vida
o jardim do coração,
sem um tiquinho de dó!

Maiby!... Maiby me inganou!

O rio, n’uma treição,
o trabáio de seis ano,
as terra da prantação
im suas água levou!

Maiby!... Maiby me inganou!

Bem feito! Fui castigado!
Foi praga da minha terra!
E praga de Deus inté!

Mas peço à Virge Maria
que, cumo Muié divina
e Mãe de Jesus, perdoe
Maiby, que é tombém muié

Tudo foi uma inluzão!

Do jardim que ela prantou
nas mata do coração,
só véve agora uma frô!...
Só a Sôdade tem vida!

E o que é, meu Deus, a Sôdade?!

Sôdade é a Terra Caída
de um coração, que sonhou!

Catulo da Paixão Cearense