Três Apitos
Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê
Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito tão aflito
Da buzina do meu carro?
Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você
Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda noturno
E você sabe porque
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos prá você
Nos meus olhos você vê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
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Coração - Noel Rosa
Coração
Grande órgão propulsor
Transformador do sangue
Venoso em arterial
Coração
Não és sentimental
Mas, entretanto, dizem
Que és o cofre da paixão
Coração
Não estás do lado esquerdo
Nem tampouco do direito
Ficas no centro do peito – eis a verdade!
Tu és pro bem-estar do nosso sangue
O que a casa de correção
É para o bem da humanidade
Coração
De sambista brasileiro
Quando bate no pulmão
Faz a batida do pandeiro
Eu afirmo
Sem nenhuma pretensão
Que a paixão faz dor no crânio
Mas não ataca o coração
Conheci
Um sujeito convencido
Com mania de grandeza
E instinto de nobreza
Que por saber
Que o sangue azul é nobre
Gastou todo o seu cobre
Sem pensar no seu futuro
Não achando
Quem lhe arrancasse as veias
Onde corre o sangue impuro
Viajou a procurar
De norte a sul
Alguém que conseguisse
Encher-lhe as veias
Com azul de metileno
Prá ficar com sangue azul
Grande órgão propulsor
Transformador do sangue
Venoso em arterial
Coração
Não és sentimental
Mas, entretanto, dizem
Que és o cofre da paixão
Coração
Não estás do lado esquerdo
Nem tampouco do direito
Ficas no centro do peito – eis a verdade!
Tu és pro bem-estar do nosso sangue
O que a casa de correção
É para o bem da humanidade
Coração
De sambista brasileiro
Quando bate no pulmão
Faz a batida do pandeiro
Eu afirmo
Sem nenhuma pretensão
Que a paixão faz dor no crânio
Mas não ataca o coração
Conheci
Um sujeito convencido
Com mania de grandeza
E instinto de nobreza
Que por saber
Que o sangue azul é nobre
Gastou todo o seu cobre
Sem pensar no seu futuro
Não achando
Quem lhe arrancasse as veias
Onde corre o sangue impuro
Viajou a procurar
De norte a sul
Alguém que conseguisse
Encher-lhe as veias
Com azul de metileno
Prá ficar com sangue azul
Noel Rosa
Noel Rosa - Conversa de Botiquim
Conversa de Botiquim
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
uma boa média que não seja requentada
um pão bem quente com manteiga à beça
um guardanapo e um copo d´água bem gelada.
Feche a porta da direita com muito cuidado
que não estou disposto a ficar exposto ao sol.
Vá perguntar ao seu freguês do lado
qual o resultado do futebol.
Se você ficar limpando a mesa
não levanto nem pago a despesa
vá pedir ao seu patrão
uma caneta, um tinteiro, um envelope e um cartão.
Não se esqueça de me dar palito
e um cigarro pra espantar mosquito.
Vá dizer ao charuteiro
que me empreste uma revista, um cinzeiro e um isqueiro.
Telefone ao menos uma vez
para 34-4333
e ordene ao seu Osório
que me mande um guarda-chuva aqui pro nosso escritório.
Seu garçom me empreste algum dinheiro
que eu deixei o meu com o bicheiro
vá dizer ao seu gerente
que pendure esta despesa no cabide ali em frente...
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
uma boa média que não seja requentada
um pão bem quente com manteiga à beça
um guardanapo e um copo d´água bem gelada.
Feche a porta da direita com muito cuidado
que não estou disposto a ficar exposto ao sol.
Vá perguntar ao seu freguês do lado
qual o resultado do futebol.
Se você ficar limpando a mesa
não levanto nem pago a despesa
vá pedir ao seu patrão
uma caneta, um tinteiro, um envelope e um cartão.
Não se esqueça de me dar palito
e um cigarro pra espantar mosquito.
Vá dizer ao charuteiro
que me empreste uma revista, um cinzeiro e um isqueiro.
Telefone ao menos uma vez
para 34-4333
e ordene ao seu Osório
que me mande um guarda-chuva aqui pro nosso escritório.
Seu garçom me empreste algum dinheiro
que eu deixei o meu com o bicheiro
vá dizer ao seu gerente
que pendure esta despesa no cabide ali em frente...
Noel Rosa
Noel Rosa - Até Amanhã
Até Amanhã
Até amanhã se Deus quiser
Se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto, o destino é quem quer
Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou gritar por despedida
Até amanhã, até já, até logo
O mundo é um samba em que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estribilho
Eu sei me livrar do perigo
Num golpe de azar eu não jogo
É por isso que risonho eu te digo
Até amanhã, até já, até logo
Até amanhã se Deus quiser
Se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto, o destino é quem quer
Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou gritar por despedida
Até amanhã, até já, até logo
O mundo é um samba em que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estribilho
Eu sei me livrar do perigo
Num golpe de azar eu não jogo
É por isso que risonho eu te digo
Até amanhã, até já, até logo
Fita Amarela - Noel Rosa
Fita Amarela
Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela
Se existe alma,
Se há outra encarnação
Eu queria que a mulata
Sapateasse no meu caixão
Não quero flores,
Nem coroa de espinho
Só quero choro de flauta
Violão e cavaquinho
Estou contente
Consolado por saber
Que as morenas tão formosas
A terra um dia vai comer
Não tenho herdeiros
Não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos
Mas não paguei nada a ninguém
Meus inimigos
Que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram
Uma pessoa tão boa assim
Quero que o sol
Não visite meu caixão
Para minha pobre alma
Não morrer de insolação
Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela
Se existe alma,
Se há outra encarnação
Eu queria que a mulata
Sapateasse no meu caixão
Não quero flores,
Nem coroa de espinho
Só quero choro de flauta
Violão e cavaquinho
Estou contente
Consolado por saber
Que as morenas tão formosas
A terra um dia vai comer
Não tenho herdeiros
Não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos
Mas não paguei nada a ninguém
Meus inimigos
Que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram
Uma pessoa tão boa assim
Quero que o sol
Não visite meu caixão
Para minha pobre alma
Não morrer de insolação
Noel Rosa - Palpite Infeliz
Palpite Infeliz
Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba também
Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo
Eu já chamei você pra ver
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?
A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?
Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba também
Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo
Eu já chamei você pra ver
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?
A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?
Noel Rosa - Meu Barracão
Meu Barracão
Faz hoje quase um ano
Que eu não vou visitar
Meu barracão lá da Penha
Que me faz sofrer
E até mesmo chorar
Por lembrar a alegria
Com que eu sentia
O forte laço de amor que nos prendia
Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu—juro que não!
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só a saudade do barracão
Mas veio lá da Penha
Hoje uma pessoa
Que trouxe uma notícia
Do meu barracão
Que não foi nada boa
Já cansado de esperar
Saiu do lugar
Eu desconfio
Que ele foi me procurar
Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu—juro que não!
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só a saudade do barracão
Faz hoje quase um ano
Que eu não vou visitar
Meu barracão lá da Penha
Que me faz sofrer
E até mesmo chorar
Por lembrar a alegria
Com que eu sentia
O forte laço de amor que nos prendia
Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu—juro que não!
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só a saudade do barracão
Mas veio lá da Penha
Hoje uma pessoa
Que trouxe uma notícia
Do meu barracão
Que não foi nada boa
Já cansado de esperar
Saiu do lugar
Eu desconfio
Que ele foi me procurar
Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu—juro que não!
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só a saudade do barracão
Noel Rosa - Feitiço da Vila
Feitiço da Vila
Quem nasce lá na vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo
Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba
A Vila tem
Um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente
O sol na Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora
Sol, pelo amor de Deus
Não venha agora
Que as morenas vão logo embora
Eu sei tudo que faço
Sei por onde passo
Paixão não me aniquila
Mas tenho que dizer:
Modéstia à parte, meus senhores,
Eu sou da Vila!
Quem nasce lá na vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo
Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba
A Vila tem
Um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente
O sol na Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora
Sol, pelo amor de Deus
Não venha agora
Que as morenas vão logo embora
Eu sei tudo que faço
Sei por onde passo
Paixão não me aniquila
Mas tenho que dizer:
Modéstia à parte, meus senhores,
Eu sou da Vila!
Noel Rosa - Pela Décima Vez
Pela Décima Vez
Jurei não mais amar
Pela décima vez
Jurei não perdoar
O que ela me fez
O costume é a força
Que fala mais alto
Do que a natureza
E que nos faz dar provas de fraqueza
Joguei meu cigarro no chão e pisei
Sem mais nenhum aquele mesmo apanhei e fumei
Através da fumaça
Neguei minha raça
Chorando, a repetir
Ela é o veneno
Que eu escolhi
Pra morrer sem sentir
Senti que o meu coração quis parar
Quando voltei
E escutei a vizinha falar
Que ela só de pirraça
Seguiu com um praça
Ficando lá no xadrez
Pela décima vez
Ela está inocente
Nem sabe o que fez
Jurei não mais amar
Pela décima vez
Jurei não perdoar
O que ela me fez
O costume é a força
Que fala mais alto
Do que a natureza
E que nos faz dar provas de fraqueza
Joguei meu cigarro no chão e pisei
Sem mais nenhum aquele mesmo apanhei e fumei
Através da fumaça
Neguei minha raça
Chorando, a repetir
Ela é o veneno
Que eu escolhi
Pra morrer sem sentir
Senti que o meu coração quis parar
Quando voltei
E escutei a vizinha falar
Que ela só de pirraça
Seguiu com um praça
Ficando lá no xadrez
Pela décima vez
Ela está inocente
Nem sabe o que fez
Último Desejo - Noel Rosa
Último Desejo
Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim
Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim
Poemas de Noel Rosa - Feitio de Oração
Feitio de Oração
Quem acha
Vive se perdendo
Por isso agora vou me defendendo
Da dor tão cruel dessa saudade
Que por infelicidade
Meu pobre peito invade
Por isso agora
Lá na Penha vou mandar
Minha morena pra cantar
Com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba
Em feitio de oração
Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Cantar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia
Por isso agora
Lá na Penha vou mandar
Minha morena pra cantar
Com maior satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba
Em feitio de oração
O samba na realidade
Não vem do morro nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce no coração
Quem acha
Vive se perdendo
Por isso agora vou me defendendo
Da dor tão cruel dessa saudade
Que por infelicidade
Meu pobre peito invade
Por isso agora
Lá na Penha vou mandar
Minha morena pra cantar
Com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba
Em feitio de oração
Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Cantar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia
Por isso agora
Lá na Penha vou mandar
Minha morena pra cantar
Com maior satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba
Em feitio de oração
O samba na realidade
Não vem do morro nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce no coração
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