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Caminhos - Francisco Bugalho

Caminhos

Para quê, caminhos do mundo,
Me atraís? — Se eu sei bem já
Que voltarei donde parto,
Por qualquer lado que vá.

Pra quê? — Se a Terra é redonda;
E, sempre, tem de cumprir-se
A sina daquela onda
Que parece vai sumir-se,

Mas que volta, bem mais débil,
Ao meio do lago, onde
A mãe, gota d'água flébil,
Há muito tempo se esconde.

Pra quê? — Se a folha viçosa
Na Primavera, feliz,
Amanhã será, gostosa,
Alimento da raiz.

Pra quê, caminhos do mundo?
Pra quê, andanças sem Fim?
Se todo o sonho profundo
Deste Mundo e do Outro-Mundo,
Não 'stá neles, mas em mim.

Francisco Bugalho


Dor - Francisco Bugalho

Dor

Passa-se um dia e outro dia
À espera que passe a Dor,
E a Dor não passa, e porfia,
Porque trás dia, outro dia
Que traz Dor inda maior;

Porque embora a Dor aflita
Calasse há muito seus ais,
Ainda, fundo, palpita
Uma outra Dor que não grita:
A Dor do que não dói mais.

Francisco Bugalho

Francisco Bugalho - Dois Meninos

Dois Meninos

Meu menino canta, canta
Uma canção que é ele só que entende
E que o faz sorrir.

Meu menino tem nos olhos os mistérios
Dum mundo que ele vê e que eu não vejo
Mas de que tenho saudades infinitas.

As cinco pedrinhas são mundos na mão.
Formigas que passam,
Se brinca no chão,
São seres irreais...

Meu menino d'olhos verdes como as águas
Não sabe falar,
Mas sabe fazer arabescos de sons
Que têm poesia.

Meu menino ama os cães,
Os gatos, as aves e os galos,
(São Francisco de Assis
Em menino pequeno)
E fica horas sem fim,
Enlevado, a olhá-los.

E ao vê-lo brincar, no chão sentadinho,
Eu tenho saudades, saudades, saudades
Dum outro menino...

Francisco Bugalho

Chuva - Francisco Bugalho

Chuva

Chuva, caindo tão mansa,
Na paisagem do momento,
Trazes mais esta lembrança
De profundo isolamento.

Chuva, caindo em silêncio
Na tarde, sem claridade...
A meu sonhar d'hoje, vence-o
Uma infinita saudade.

Chuva, caindo tão mansa,
Em branda serenidade.
Hoje minh'alma descansa.
— Que perfeita intimidade!...

Francisco Bugalho

Humildade - Francisco Bugalho

Humildade

As águas beijei, 
As nuvens olhei, 
Às árvores cantei, 
Na sua beleza. 

Os bichos amei, 
Na sua bruteza, 
Na sua pureza, 
De forças sem lei. 

E porque os amei 
E os acompanhei, 
Não me senti rei 
Na Mãe-Natureza. 

Francisco Bugalho

Poema de Francisco Bugalho

Dor

Passa-se um dia e outro dia 
À espera que passe a Dor, 
E a Dor não passa, e porfia, 
Porque trás dia, outro dia 
Que traz Dor inda maior; 

Porque embora a Dor aflita 
Calasse há muito seus ais, 
Ainda, fundo, palpita 
Uma outra Dor que não grita: 
A Dor do que não dói mais. 

Francisco Bugalho

Sabedoria - Francisco Bugalho

Sabedoria

Nos dias em que nada vale a pena, 
E em que as árvores amigas 
São iguais e estão vistas, 
A vida é tão parada e tão serena 
Que afinal já não há que contar mais, 
E prevejo, com olhos anormais, 
As coisas imprevistas... 
Nos dias em que são cinzentos os meus céus 
— O de dentro e o de fora — 
E é vaga esta noção de um velho Deus, 
Que me não manda embora 
Deste espectáculo estafado 
Em que de cor sei dizer 
O que me foi ensaiado 
E o que todos vão fazer, 
Tenho inveja dos homens convencidos 
Que nem sequer sonharam 
Que poderia haver paraísos perdidos, 
Ainda não decifraram 
Esta charada em que andam envolvidos, 
E pensam que, vivendo, triunfaram 
Da Vida em que os que sonham são vencidos. 

Francisco Bugalho

Solidão - Francisco Bugalho

Solidão

Vago aroma de esteva, ao mesmo tempo ardente e virgem,
E este murmúrio doce da folhagem,
São o falar do mato, na estiagem,
Segredando os mistérios da origem.

Calma profunda, doce, resignada...
A vida não é mais do que o viver
Da paisagem nostálgica e pasmada.

A solidão tem dedos de veludo,
De frementes afagos delicados.
— Bendita solidão, que beijas tudo,
Onde andarão meus sonhos desvairados?!...

Nestes montados, Que purificação me invade a alma!
Como entra, em mim, toda a serenidade
Dos ermitões, orando na paisagem!

Nesta paisagem,
Calma, calma, calma,
Como a Eternidade.

Francisco Bugalho

Francisco Bugalho - Dúvida

Dúvida

Eu corro atrás da memória
De certas coisas passadas
Como de um conto de fadas,
De uma velha, velha história...

Tão longe do que hoje sou
Que nem sei se quem recorda
Foi aquele que as passou,
Ou se apenas as sonhou
E agora, súbito, acorda.

Francisco Bugalho

Francisco Bugalho - Poeta

Poeta

Poeta, a construíres sonhos contraditórios!
Tu tens na vida uns ideais burgueses
Que não te satisfazem!

Poeta, tu desejas
Misérias e reveses
Que te façam cantar.
E amas o conforto,
E gostas de jantar!...

Poeta, sempre em luta vã contigo,
— Que sofres de já ser aquilo que não és,
Que sofres de não ser aquilo que queres ser...

Poeta, é já bem grande o teu castigo.
É preciso viver.

Francisco Bugalho