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Olhos Pretos, Sonhadores - Cruz e Sousa

Olhos Pretos, Sonhadores
 
Olhos pretos, sonhadores 
Ó celeste Carolina, 
Como são esmagadores 
Olhos pretos sonhadores, 
Como vibram dos amores 
A noss'alma cristalina, 
Olhos pretos, sonhadores, 
Ó celeste Carolina.
 
Cruz e Sousa
 

Luar - Cruz e Sousa

Luar 

Ao longo das louríssimas searas 
Caiu a noite taciturna e fria... 
Cessou no espaço a límpida harmonia 
Das infinitas perspectivas claras. 

As estrelas no céu, puras e raras, 
Como um cristal que nítido radia, 
Abrem da noite na mudez sombria 
O cofre ideal de pedrarias caras. 

Mas uma luz aos poucos vai subindo 
Como do largo mar ao firmamento — abrindo 
Largo clarão em flocos d’escumilha. 

Vai subindo, subindo o firmamento! 
E branca e doce e nívea, lento e lento, 
A lua cheia pelos campos brilha...
 
Cruz e Sousa
 
 

Falando ao Céu - João da Cruz e Sousa


FALANDO AO CÉU

Falas ao Céu, Amor! Em vão tu falas! 
Mas o Céu, esse é velho, esse é velhinho, 
Todo ele é branco, faz lembrar o linho 
Dos leitos alvos onde tu te embalas. 

A alma do Céu é como velhas salas 
Sem ar, sem luz, como lares sem vinho, 
Sem água e pão, sem fogo e sem carinho, 
Sem as mais toscas, as mais simples galas. 

Sempre surdo, hoje o céu é mudo, é cego... 
Jamais o coração ao céu entrego, 
Eu que tão cego vou por entre abrolhos. 

Mas se o queres tornar jovem e louro 
Dá-lhe o bordão do teu amor um pouco, 
Fala e vista, com a vida dos teus olhos... 

INVERNO - João da Cruz e Sousa


INVERNO 

Amanheceu — no topo da colina 
Um céu de madrepérola se arqueia 
Limpo, lavado, reluzindo — ondeia 
O perfume da selva esmeraldina. 

Uma luz virginal e cristalina, 
Como de um rio a transbordante cheia, 
Alaga as terras culturais e arreia 
De pingos d'ouro os verdes da campina. 

Um sol pagão, de um louro gema d'ovo, 
Já tão antigo e quase sempre novo, 
Surge na frígida estação do inverno. 

— Chilreiam muito em árvores frondosas 
Pássaros — fulge o orvalho pelas rosas 
Como o vigor no espírito moderno.

Água-forte - João da Cruz e Sousa


ÁGUA-FORTE 

Do firmamento azul e curvilíneo 
Cai, fecundando as trêmulas raízes 
Dos laranjais, dos pâmpanos, das lises, 
A luz do sol procriador, sanguíneo. 

Pelo caminho agreste e retilíneo, 
Da tarde aos brandos, triunfais matizes, 
A criançada, a chusma dos felizes, 
Esse de auroras perfumado escrínio, 

Volta da escola, rindo muito, aos saltos, 
Trepando, em bulha, aos árvoredos altos 
Enquanto o sol desce os outeiros longos... 

Vai dentre alados madrigais risonhos, 
Do abecedário juvenil dos sonhos, 
A soletrar os principais ditongos. 

Mocidade - João da Cruz e Sousa


MOCIDADE 

Ah! esta mocidade! — Quem é moço 
Sente vibrar a febre enlouquecida 
Das ilusões, da crença mais florida 
Na muscular artéria de Colosso...

Das incertezas nunca mede o poço... 
Asas abertas — na amplidão da vida, 
Páramo a dentro — de cabeça erguida, 
Vê do futuro o mais alegre esboço... 

Chega a velhice, a neve das idades 
E quem foi moço, volve, com saudades, 
Do azul passado, o fúlgido compêndio... 

Ai! esta mocidade palpitante, 
Lembra um inseto de ouro, rutilante, 
Em derredor das chamas de um incêndio! 

Triste - João da Cruz e Sousa


TRISTE 

Vai-se extinguindo a viva labareda 
Que te abrasava o coração ridente... 
Passas magoada pela rua e a gente 
Umas conversas funerais segreda. 

Não tens no olhar o sangue qu’embebeda, 
Foram-se as rosas do viver contente... 
Segues, agora, pobre flor — somente 
Da sepultura a essencial vereda. 

E vem chegando o tenebroso inverno... 
Mas nesse mal devorador e eterno, 
Teu organismo já não mais resiste 

Às punhaladas da estação de gelo... 
E acabará como eu nem sei dizê-lo, 
Triste, bem triste, pesarosa, triste! 

Poemas de João da Cruz e Sousa - No campo


NO CAMPO 

Acordo de manhã cedo 
Da luz aos doces carinhos: 
Que rosas pelos caminhos! 
Que rumor pelo arvoredo! 

Para o azul radioso e ledo 
Sobe, de dentro dos ninhos, 
O canto dos passarinhos 
Cheio de amor e segredo. 

Dentre moitas de verdura 
Voam as pombas nevadas, 
Imaculadas de alvura. 

Pelas margens das estradas 
Que penetrante frescura 
Que femininas risadas!