Mostrando postagens com marcador silêncio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador silêncio. Mostrar todas as postagens

Pelo canto dos silêncios - Frederico de Castro

Pelo canto dos silêncios

Permaneci quieto
em silêncios
deportei até a alma
rumo ao abrigo
em que curo
minhas dores
temores e lamentos desassossegados

Recostei-me neste dia
à beirinha deste poente
que ainda me permite aquecer
sem demoras
à luz doce e frágil
de uma estrela sem rumo
desafortunada
algemada em gestos e palavras
emudecidas na lonjura dos das
e eu... pelo canto dos silêncios
bem sei que sem afectos desmedidos
eu jamais encontro sequer aquele abraço
que embora comedido era todo meu
incondicional, infinito...nunca interdito

Frederico de Castro



Em silêncios... - Frederico de Castro

Em silêncios...

Em silêncios



pela calada da noite

adormeço teus olhos

perto de minh’álma

que anda extenuada

à procura da tua imutável…

– O inverno solta seu frio

e assim timido mas intenso

te procuro em brasas com incensos

que me trespassam qual calor ameno

em gargalhadas que varrem

minha frenética terapia da redenção

que prematura e fugás te deixa

cúmplice da nossa almejada absolvição

– Andámos sózinhos

tantas vezes conversos

outras assustadoramente dirpersos

amando sorrateiramente

andando de braço dado com a solidão

que ousa agora escutar atenta

a sabedoria contida neste coração

– Sei

faz-se tarde

talvez seja hora de partir

mas nunca antes

deixares poder

refugiar-me melancólico

na tépida manhã que se avizinha

e acolher-te sobrepujado

pelo apetite insaciável a nós agrilhoado

– Agora sei porque meus sonhos

se aprisionaram indelevelmente

na genialidade dos nossos abraços

quando até o sol acorda brilhando

acossado em teu regaço

exibindo exuberância e beleza

em cada gota de subtileza

que em ti pousa submissa e com delicadeza

Frederico de Castro



Do outono e do silêncio - Álvaro Moreyra

Do outono e do silêncio

Ah! como eu sinto o Outono
nesses crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono...
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus versos
e nas tuas olheiras...

Tomba uma sombra roxa sobre a Terra...
A mesma nuança, em torno, tudo encerra
nuns tons fanados de ametista...
Paisagem morta, evocativa, doce...
como se o Ocaso fosse
um pintor simbolista...

Caem violetas...

Canta uma voz, distante...

E a luz vai a fugir, esfacelando
em trêmulas silhuetas
os troncos da alameda agonizante...

O Outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em bando...
E o Outono me endolara e anestesia
com a saudade remota do silêncio...
Silêncio vesperal das ressonâncias
esquecidas
que o Ângelus lento deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas...
incenso das distâncias...
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...

E do silêncio em névoas esgarçado,
a cuja extrema sugestão me abrigo,
tu te evolas, dolente,
tal uma hora feliz de tempo alado
que às vezes brota de repente
de um velho aroma ou de acorde antigo...

Álvaro Moreyra


O Silêncio - Eugénio de Andrade

O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

Francisco Joaquim Bingre - Quanto é Melhor Calar, que Ser Ouvido

Quanto é Melhor Calar, que Ser Ouvido

Silêncio divinal, eu te respeito!
Tu, meu Numen serás, serás meu guia
Se até 'qui, insensato, errei a via
De Harpócrates, quebrando o são preceito,

Hoje à vista do mal que tenho feito,
Em ser palreira pega em demasia,
Abraçarei a sã Filosofia
Pitagórica escola de proveito.

Tenho visto que males tem nascido
Pelo muito falar: tenho sondado
Quanto é melhor calar, que ser ouvido.

Minha língua vai ter férreo cadeado.
Eu a quero enfrear, arrependido
De tanto sem proveito ter falado.

Francisco Joaquim Bingre