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Os devaneios do caminhante solitário - Jean-Jacques Rousseau (Fragmento 1)

É a cadeia de ideias acessórias que me liga à botânica. Ela traz e lembra à minha imaginação todas as ideias que mais a deleitam. Os campos, as águas, os bosques, a solidão, sobretudo a paz e o repouso que encontramos em meio a tudo isso, são incessantemente revividos por ela em minha memória. Ela me faz esquecer as perseguições dos homens, seu ódio, seu desprezo, seus ultrajes e todos os males com que recompensaram minha terna e sincera afeição por eles. Ela me transporta para habitações tranquilas em meio a pessoas simples e boas, como aquelas com as quais vivi outrora. Ela me lembra não só de minha juventude, como também de meus inocentes prazeres, me faz vivê-los mais uma vez e me deixa feliz ainda muitas vezes em meio à mais triste sina jamais vivida por um mortal.

(Trecho retirado do livro Os devaneios do caminhante solitário / Jean-Jacques Rousseau. Porto Alegre: L&PM, 2017. p. 102)


A Felicidade - Jean-Jacques Rousseau


A felicidade é um estado permanente que não parece ter sido feito, aqui na terra, para o homem. Na terra, tudo vive num fluxo contínuo que não permite que coisa alguma assuma uma forma constante. Tudo muda à nossa volta. Nós próprios também mudamos e ninguém pode estar certo de amar amanhã aquilo que hoje ama. É por isso que todos os nossos projectos de felicidade nesta vida são quimeras.

Aproveitemos a alegria do espírito quando a possuímos; evitemos afastá-la por nossa culpa, mas não façamos projectos para a conservar, porque esses projectos são meras loucuras. Vi poucos homens felizes, talvez nenhum; mas vi muitas vezes corações contentes e de todos os objectos que me impressionaram foi esse o que mais me satisfez. Creio que se trata de uma consequência natural do poder das sensações sobre os meus sentimentos. A felicidade não tem sinais exteriores; para a conhecer seria necessário ler no coração do homem feliz; mas a alegria lê-se nos olhos, no porte, no sotaque, no modo de andar, e parece comunicar-se a quem dela se apercebe. Existirá algum prazer mais doce do que ver um povo entregar-se à alegria num dia festivo, e todos os corações desabrocharem aos raios expansivos do prazer que passa, rápida mas intensamente, através das nuvens da vida? 

Jean-Jacques Rousseau
Fragmento de "Os Devaneios do Caminhante Solitário"

Os frutos são de todos, e a terra de ninguém - Jacques Rousseau


O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastantes simples pra o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: "Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém".

Jacques Rousseau

Fragmento do livro "Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens".



Jacques Rousseau - A terra, abandonada à sua fertilidade natural e coberta de florestas imensas que o machado jamais mutilou


A terra, abandonada à sua fertilidade natural e coberta de florestas imensas que o machado jamais mutilou, oferece a cada passo celeiros, e abrigos aos animais de toda espécie. Os homens, dispersos entre eles, observam, imitam sua indústria e se elevam, assim, até ao instinto das feras; com a vantagem de que cada espécie só tem o seu próprio, e o homem, não tendo talvez nenhum que lhe pertença, se apropria de todos, nutre-se ele igualmente da maior parte dos alimentos diversos partilhando entre os outros animais e encontra por conseguinte sua subsistência mais facilmente do que qualquer dos outros.

Jacques Rousseau

Fragmento do livro "Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens".


Jacques Rousseau - Eis os funestos fiadores de que a maior parte dos nossos males são nossa própria obra

A extrema desigualdade na maneira de viver, o excesso de ociosidade de uns, o excesso de trabalho de outros, a facilidade de irritar e satisfazer nossos apetites e nossa sensualidade, os alimentos muito requintados dos ricos, que os nutrem com sucos excitantes e os afligem com indigestões, a má nutrição dos pobres, que chega muitas vezes a faltar-lhes, obrigando-os a sobrecarregar avidamente o estômago quando podem, as vigílias, os excesso de toda espécie, os transportes imoderados de todas as paixões, as fadigas e o esgotamento de espírito, os pesares e as penas sem número que se experimentam em todos os estados e que perpetuamente arruínam as almas: eis os funestos fiadores de que a maior parte dos nossos males são nossa própria obra de que poderíamos evitá-los quase todos conservando a maneira de viver simples, uniforme e solitária, que nos foi prescrita...

Jacques Rousseau

Fragmento do Livro "Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens".


Jacques Rousseau - Eis a tua história, tal como julguei lê-la, não nos livros dos teus semelhantes, que são mentirosos, mas na natureza

Oh homem, de qualquer região que sejas, quaisquer que sejam as tuas opiniões, escuta: eis a tua história, tal como julguei lê-la, não nos livros dos teus semelhantes, que são mentirosos, mas na natureza, que não mente nunca. Tudo o que partir dela será verdeiro; de falso só haverá o que eu acrescentar de meu sem o querer. Os tempos de que vou falar são bem remotos: Como estás diferente do que eras! É, por assim dizer, a vida de tua espécie que te vou descrever segundo as qualidade que recebeste, que tua educação e teus hábitos puderam depravar, mas que não puderam destruir.

Jean-Jacques Rousseau

Fragmento do livro "Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens".

Concebo na espécie humana duas espécies de desigualdade - Jacques Rousseau


Concebo na espécie humana duas espécies de desigualdade: uma, que chamo de natural ou física, porque é estabelecida pela natureza, e que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das qualidade do espírito, ou da alma; a outra, que se pode chamar de desigualdade moral ou política, porque depende de uma espécie de convenção, e que é estabelecida ou, pelo menos, autorizada pelo consentimento dos homens. Consiste esta nos diferentes privilégios de que gozam alguns com prejuízo dos outros, como ser mais ricos, mais honrados, mais poderosos do que os outros, ou mesmo fazerem-se obedecer por eles.

Jean-Jacques Rousseau

Fragmento do livro "Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens".

Frases sobre Liberdade

"A liberdade está em ser dono da própria vida."
- Platão

"A liberdade começa onde acaba a ignorância."
- Victor Hugo

"Ainda que tivesse que ficar só, não trocaria a minha liberdade de pensar por um trono."
- Lord Byron

"A liberdade consiste em se fazer tudo o que não prejudica os outros."
- Declaração dos Direitos do Homem e Cidadão

"O homem verdadeiramente livre apenas quer o que pode e faz o que lhe agrada."
- Jean-Jacques Rousseau

Liberdade - Frases

"O homem nasceu livre, e em toda parte se encontra sob ferros."
- Rousseau

"A liberdade é um bem tão apreciado que cada qual quer ser dono até da alheia."
- Montesquieu

"A liberdade, esse bem que nos permite desfrutar dos outros bens."
- Montesquieu

"A verdadeira liberdade está no poder sobre si mesmo."
- Montaigne

"Desejo tanto que respeitem a minha liberdade que sou incapaz de não respeitar a dos outros."
- Françoise Sagan