Escândalo
ERA costume, à tarde, em frente à Escola,
Por entre os homens graves da terreola,
Bisbilhotar-se sobre a vida alheia.
Nas rodas que tratavam tais assuntos,
Aquela história de passearmos juntos
Era o supremo escândalo da aldeia!
E o chefe, e o juiz de paz, e o boticário,
Teciam o mais negro comentário
Ao nosso ingênuo amor, todo feitiço!
O próprio padre, um santo e velho cura,
Dizia ao ver-nos: "Eis a má leitura!
São livros de Zola que fazem isso..."
Mas nós, como pastores de Virgílio,
Vivendo então num descuidoso idílio.
Sorríamos dos toscos provincianos:
E em plena aldeia, desdenhando apodos...
Passávamos de braço, entre eles todos,
Na glória dos que se amam aos vinte anos!
Paulo Setúbal
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A fazenda - Paulo Setúbal
A fazenda
Que céu azul! Que bom ar!
Ai, como eu sinto no peito,
Moço, vivo, satisfeito,
O coração a cantar!
No meu quarto, alegre e claro,
Há rosas e girassóis.
Eu, com enlevo, reparo
No mínimo do seu preparo,
Na alvura dos seus lençóis.
Que doce encanto, e que graça,
Nesta simpleza aldeã,
Têm, sobre os vãos da vidraça,
Leves cortinas de cassa,
Bailando ao sol da manhã!
E da florida janela
Que eu abro de par em par,
— Verde painel, larga tela,
Da cor mais viva e mais bela,
Desdobra-se ao meu olhar!
A manhã, que é fresca e branda,
A rir, gloriosa e feliz,
Doira a casa veneranda,
Com sua quieta varanda
Cheirosa de bogaris...
Um renque de altos coqueiros
Circunda o velho pomar;
Toscos, enormes tabuleiros,
Ficam em frente os terreiros,
Com grãos em coco a secar.
Num quadro, curvo e sozinho,
Um pobre negro, o Bié,
A passo, devagarinho,
Com seu rumoroso ancinho,
Lá vai, rodando o café...
Depois - a máquina, a tulha,
O alpendre, o farto paiol:
Ah, como a roça se orgulha
De ver subir a fagulha
Que lança a máquina ao sol!
Branca, entre tufos, a escola,
Na estrada logo se vê:
Aí, nessa casinhola,
A filha de nhá Carola
Vive a ensinar o a b c.
Fulgem, na estrada tranqüila,
Casinhas brancas de cal:
É a colônia que cintila,
Graciosa como uma vila,
Risonha como um pombal.
Ao longe, o pasto, a cancela,
— Um boi deitado no chão:
Paisagem rude e singela,
Daria fina aquarela
De puro estilo aldeão.
E além, para lá da ponte,
Ao lado do matagal,
Por sobre as lombas do monte,
Por todo o imenso horizonte,
— Alastra-se o cafezal!
O olhar, tonto, se extasia
Na cena rústica e chá;
E a gente sente a poesia.
Sente a radiosa alegria
De tão soberba manhã!
Absorto no panorama
Que assim contemplo, de pé,
Eis que uma velha mucama,
Surgindo à porta, me chama:
"Nhonhô, tá pronto o café...
Paulo Setúbal
Despedida - Paulo Setúbal
Despedida
Não há cores, não ha traços,
Que digam quanto eu sofri,
Ao apertar em meus braços,
Com o coração aos pedaços,
As boas gentes daqui!
Que cena... Adeus, Sizenandol
Té a volta, Zé! Chico, adeus!
Então, nhô Juca, até quando?
— E estreito assim todo um bando
De velhos amigos meus!
Chiquita, flor timorata,
Como eu te abraço com dor...
E ela, a menina gaiata,
Singelamente desata
Num pranto acabrunhador.
Fundo pesar se acrisola
No peito dos que ali estão:
Não chore assim, nhá Carola!
Seu choro me desconsola
E punge meu coração!
Ai, fujo dela! E, na fuga,
Eu vejo-a lá, no portal,
Tão velha, com tanta ruga,
Que ainda os olhos enxuga
Numa ponta do avental!
Pela estrada, velha e torta,
Sigo num largo trotar;
E o coração se me corta,
Ao vê-los todos, na porta,
Com um lenço branco a acenar...
E sigo... Adeus, lenço branco!
Adeus, cafeeiros, adeus!
Bem sinto, a cada barranco,
Que eu, sufocado, me arranco
Destes lugares tão meus!
E sigo... Quantos recamos
De claro e verde matiz!
Riem-se as flores nos ramos,
Esvoaçam os gaturamos,
E beijam-se os colibris!
E ai! que tristeza me invade
Nesta sonora manhã!
Com que mordente saudade,
Volto ao horror da cidade,
Ao pó da vida malsã!
Deixar o campo, as charruas,
Todo este encanto rural,
Para entediar-me nas ruas,
Sabendo as vis falcatruas
Que fez o Ministro tal...
Em vez da caça às perdizes,
Da espera junto aos mundéus,
Vir, como outros infelizes,
Tratar no foro com juizes,
E ouvir nas grades os réus!
E eu, detestando isso tudo,
Num desalento cruel,
Tenho o desejo sanhudo
De espedaçar o canudo
Com a carta de bacharel,
E, na doçura que encerra
Esta simpleza daqui,
Viver de novo, na serra,
Entre as gentes desta terra,
A vida que eu já vivi...
Não há cores, não ha traços,
Que digam quanto eu sofri,
Ao apertar em meus braços,
Com o coração aos pedaços,
As boas gentes daqui!
Que cena... Adeus, Sizenandol
Té a volta, Zé! Chico, adeus!
Então, nhô Juca, até quando?
— E estreito assim todo um bando
De velhos amigos meus!
Chiquita, flor timorata,
Como eu te abraço com dor...
E ela, a menina gaiata,
Singelamente desata
Num pranto acabrunhador.
Fundo pesar se acrisola
No peito dos que ali estão:
Não chore assim, nhá Carola!
Seu choro me desconsola
E punge meu coração!
Ai, fujo dela! E, na fuga,
Eu vejo-a lá, no portal,
Tão velha, com tanta ruga,
Que ainda os olhos enxuga
Numa ponta do avental!
Pela estrada, velha e torta,
Sigo num largo trotar;
E o coração se me corta,
Ao vê-los todos, na porta,
Com um lenço branco a acenar...
E sigo... Adeus, lenço branco!
Adeus, cafeeiros, adeus!
Bem sinto, a cada barranco,
Que eu, sufocado, me arranco
Destes lugares tão meus!
E sigo... Quantos recamos
De claro e verde matiz!
Riem-se as flores nos ramos,
Esvoaçam os gaturamos,
E beijam-se os colibris!
E ai! que tristeza me invade
Nesta sonora manhã!
Com que mordente saudade,
Volto ao horror da cidade,
Ao pó da vida malsã!
Deixar o campo, as charruas,
Todo este encanto rural,
Para entediar-me nas ruas,
Sabendo as vis falcatruas
Que fez o Ministro tal...
Em vez da caça às perdizes,
Da espera junto aos mundéus,
Vir, como outros infelizes,
Tratar no foro com juizes,
E ouvir nas grades os réus!
E eu, detestando isso tudo,
Num desalento cruel,
Tenho o desejo sanhudo
De espedaçar o canudo
Com a carta de bacharel,
E, na doçura que encerra
Esta simpleza daqui,
Viver de novo, na serra,
Entre as gentes desta terra,
A vida que eu já vivi...
Paulo Setúbal
Mês de Maria - Paulo Setúbal
Mês de Maria
Como era lindo, em maio, nas novenas,
Por essas rezas tristes e serenas,
Cheias de incenso e de orações piedosas,
Ver as crianças da pequena vila,
Duas a duas, trêfegas, em fila,
Virem cantando e carregando rosas!
Eu, toda a tarde, mudo e solitário,
Vinha escutar o místico rosário
Que o povo murmurava aos pés de Cristo:
E um dia vi, na reza, com espanto,
Surgir a deusa de mais lindo encanto
Que neste mundo os olhos meus hão visto!
Em plena igreja, nessa tarde inteira,
Eu pus-me a contemplar a forasteira,
Num doce enlevo, carinhoso e mudo.
E ela também - Jesus! - de quando em quando,
Mandava-me olhar discreto e brando,
Que afoitamente prometia tudo!
Paulo Setúbal
Como era lindo, em maio, nas novenas,
Por essas rezas tristes e serenas,
Cheias de incenso e de orações piedosas,
Ver as crianças da pequena vila,
Duas a duas, trêfegas, em fila,
Virem cantando e carregando rosas!
Eu, toda a tarde, mudo e solitário,
Vinha escutar o místico rosário
Que o povo murmurava aos pés de Cristo:
E um dia vi, na reza, com espanto,
Surgir a deusa de mais lindo encanto
Que neste mundo os olhos meus hão visto!
Em plena igreja, nessa tarde inteira,
Eu pus-me a contemplar a forasteira,
Num doce enlevo, carinhoso e mudo.
E ela também - Jesus! - de quando em quando,
Mandava-me olhar discreto e brando,
Que afoitamente prometia tudo!
Paulo Setúbal
De volta... - Paulo Setúbal
De volta...
Minha terra... Ai, com que abalo,
Com que sincera emoção,
Eu, dando rédea ao cavalo,
Margeio este fundo valo,
— Caminho do meu torrão!
Tudo, no ar, festa e brilho!
E é com a alma a vibrar,
Que eu corto as roças de milho,
Por este sinuoso trilho
Que à minha terra vai dar.
Ninhos... flores... que tesouro!
Que alegria vegetal!
À luz do sol, quente e louro,
Com seus penachos cor de ouro,
— Como é lindo o milharal!
Abelhas, asas espertas,
Num revoejo zumbidor,
poisam trêfegas, incertas,
Pelas corolas abertas
Das parasitas em flor...
Na mata, de quando em quando,
Soa o trilar dos nambus.
Os pintassilgos, em bando,
As frontes sonorizando,
Gorjeiam em plena luz!
E eu sigo... Vou enlevado
Nesta poesia sem fim.
Bem sinto, de lado a lado,
Que um trecho do meu passado
Em tudo ri para mim!
Quem há, aí, que compreenda
Minha brusca, alta emoção,
Ao ver, ao longe, a fazenda,
Com sua chata vivenda,
Surgir no azul do espigão?
Aqui, nesta boa roça,
São todos amigos meus.
Por isso, a cada choça,
Toda gente se alvoroça
Para vir dizer-me adeus.
É o Quincas! É o Zé Colaço!
O Juca Elias! Nhô João!
Todos eles, quando eu passo,
Num longo, num rude abraço,
Apertam-me ao coração!
E aquele? Céus! Nhô Claudino!
O olhar em pranto ele traz...
É um velho, meigo e franzino,
Que outrora me viu menino,
E que hoje me vê rapaz...
Chego... Que festa infinita!
Como eles me querem bem!
Até a pobre da nhá Rita,
Com seu vestido de chita,
Corre a abraçar-me também!
Dentro, sem mais demora,
Traz-me a crioula um café.
Ai! É a mesma sala de outrora,
Com a mesma Nossa Senhora
Ao lado de São José!
Aqui, em meio a isto tudo,
Eu - que ironia cruel! -
Tenho o desejo sanhudo
De espedaçar o canudo
Com a carta de bacharel,
E, na doçura que encerra
Esta simpleza daqui,
Viver de novo, na serra,
Entre as gentes desta terra,
A vida que eu já vivi...
Minha terra... Ai, com que abalo,
Com que sincera emoção,
Eu, dando rédea ao cavalo,
Margeio este fundo valo,
— Caminho do meu torrão!
Tudo, no ar, festa e brilho!
E é com a alma a vibrar,
Que eu corto as roças de milho,
Por este sinuoso trilho
Que à minha terra vai dar.
Ninhos... flores... que tesouro!
Que alegria vegetal!
À luz do sol, quente e louro,
Com seus penachos cor de ouro,
— Como é lindo o milharal!
Abelhas, asas espertas,
Num revoejo zumbidor,
poisam trêfegas, incertas,
Pelas corolas abertas
Das parasitas em flor...
Na mata, de quando em quando,
Soa o trilar dos nambus.
Os pintassilgos, em bando,
As frontes sonorizando,
Gorjeiam em plena luz!
E eu sigo... Vou enlevado
Nesta poesia sem fim.
Bem sinto, de lado a lado,
Que um trecho do meu passado
Em tudo ri para mim!
Quem há, aí, que compreenda
Minha brusca, alta emoção,
Ao ver, ao longe, a fazenda,
Com sua chata vivenda,
Surgir no azul do espigão?
Aqui, nesta boa roça,
São todos amigos meus.
Por isso, a cada choça,
Toda gente se alvoroça
Para vir dizer-me adeus.
É o Quincas! É o Zé Colaço!
O Juca Elias! Nhô João!
Todos eles, quando eu passo,
Num longo, num rude abraço,
Apertam-me ao coração!
E aquele? Céus! Nhô Claudino!
O olhar em pranto ele traz...
É um velho, meigo e franzino,
Que outrora me viu menino,
E que hoje me vê rapaz...
Chego... Que festa infinita!
Como eles me querem bem!
Até a pobre da nhá Rita,
Com seu vestido de chita,
Corre a abraçar-me também!
Dentro, sem mais demora,
Traz-me a crioula um café.
Ai! É a mesma sala de outrora,
Com a mesma Nossa Senhora
Ao lado de São José!
Aqui, em meio a isto tudo,
Eu - que ironia cruel! -
Tenho o desejo sanhudo
De espedaçar o canudo
Com a carta de bacharel,
E, na doçura que encerra
Esta simpleza daqui,
Viver de novo, na serra,
Entre as gentes desta terra,
A vida que eu já vivi...
Paulo Setúbal
Paulo Setúbal - Certa vez...
Certa vez...
Certa vez... Vá, não cores desse jeito!
Eu era um estudante de direito,
Tu eras uma simples normalista:
Podíamos, portanto, meu tesouro,
Fazer, como fizemos, sem desdouro,
Essa loucura que hoje te contrista.
Com que emoção - recordas? - com que gozo,
Eu vinha te esperar, vibrante e ansioso,
Nessas novenas de plangências cavas.
E como um cavalheiro que se preza,
Timbrava em te levar, depois da reza,
Até ao portão da chácara em que estavas.
Certa vez... Vá, não cores desse jeito!
Era de noite. Arfava-nos o peito.
Ardia em nós um lânguido desejo,
Tomei-te as mãos... Sorriste... E ai, num assomo,
As nossas bocas, sem sabermos como,
Famintamente uniram-se num beijo!
Eu era um estudante de direito,
Tu eras uma simples normalista:
Podíamos, portanto, meu tesouro,
Fazer, como fizemos, sem desdouro,
Essa loucura que hoje te contrista.
Com que emoção - recordas? - com que gozo,
Eu vinha te esperar, vibrante e ansioso,
Nessas novenas de plangências cavas.
E como um cavalheiro que se preza,
Timbrava em te levar, depois da reza,
Até ao portão da chácara em que estavas.
Certa vez... Vá, não cores desse jeito!
Era de noite. Arfava-nos o peito.
Ardia em nós um lânguido desejo,
Tomei-te as mãos... Sorriste... E ai, num assomo,
As nossas bocas, sem sabermos como,
Famintamente uniram-se num beijo!
Paulo Setúbal
Poema de São João - Paulo Setúbal
São João
É noite... O santo famoso,
O doce, o meigo São João,
Tivera um dia glorioso,
Dia de festa e de gozo,
Que encheu de estrondo o sertão.
Já cedo, em meio aos clamores,
Aos vivas do poviléu,
Lindo, enramado de flores,
Um mastro de quentes cores,
Subira em triunfo ao céu!
E agora, enquanto, alva e lesta,
Palpita a lua hibernal,
Na fazenda, toda festa,
Referve a alegria honesta
Da noite tradicional.
Dentro, com grande aparato.
Brilha, enfeitado, o salão:
Que há, nessa festa do mato,
Pessoas de fino trato,
Chegadas para o São João...
Destaca-se entre essa gente
A flor do mundo local:
O padre, o juiz, o intendente,
— O próprio doutor Vicente
Que é deputado estadual!
Ante o auditório pasmado,
Que, num enlevo, sorri,
A Isabelinha Machado
Batuta, sobre o teclado,
Uns trechos do Guarani...
Tudo o que toca e assassina,
Recebe imensa ovação;
Todos, quando ela termina,
Põem-se a exclamar: "Que menina!
Dá gosto! Que vocação!"
E ela, entre ingênua e brejeira,
Com ares de se vingar:
"Agora, queira ou não queira,
Seu Saturnino Pereira
Há de também recitar".
Surge. à força, o Saturnino...
Rugem palmas em redor!
É um tipo, esgalgado e fino,
Que sabe, desde menino,
Dizer Castro Alves de cor.
Na sala, muda e tranqüila,
Tombam, com chama, os versos seus;
E ele, o letrado da vila,
Ao som da velha Dalila,
Lá vai: "Foi desgraça meu Deus..."
Após ouvir a estupenda
Flamância do seu falar
No amplo salão da fazenda
Os velhos jogos de prenda
Reclamam o seu lugar.
Começa então a berlinda.
Risos. Cochichos. Zunzum.
— De pé, donairosa e linda,
Pergunta a D. Florinda
Os dotes de cada um:
Por que razão, seu Martinho,
Foi à berlinda a Lelé?
— Porque olha muito ao vizinho";
"Porque é má; porque é um anjinho";
"Porque é vaidosa"; "porque..."
E todo o mundo, à porfia,
Põe farpas na indiscrição...
E enquanto, ingênua e sadia,
Essa campônia alegria
Faz tumultuar o salão.
Lá fora, alegre e gabola,
Num terreiro de café,
Ao rude som da viola,
A caboclada rebola
Num tremendo bate-pé!
A filha do Zé Moreira
É o mimo deste São João;
À luz da rubra fogueira,
Requebra a guapa trigueira
Ao lado do Chico Peão.
Candoca, a noiva do Jango,
Baila num passo taful;
É a flor que, nesse fandango.
Tem lábios cor de morango.
Vestido de chita azul.
No sapateio se nota,
Aos risos dos que lá estão,
Nhô Lau, de esporas e bota,
Dançando junto a nhá Cota,
Viúva do Conceição...
Á voz do pinho que chora,
Por sob a paz do luar,
Frenindo vai, noite afora,
Essa alegria sonora
Da caboclada a bailar!
E do salão, que ainda brilha
Num faiscante esplendor,
Chegam os sons da quadrilha,
Que alguém ao piano dedilha
Com o indomável furor.
E no sarau campesino,
Nessa festa alegre e chã.
Ruge a voz do Saturnino,
Que grita, esgalgado e fino:
"Balancez! Tour! En avant..."
É noite... O santo famoso,
O doce, o meigo São João,
Tivera um dia glorioso,
Dia de festa e de gozo,
Que encheu de estrondo o sertão.
Já cedo, em meio aos clamores,
Aos vivas do poviléu,
Lindo, enramado de flores,
Um mastro de quentes cores,
Subira em triunfo ao céu!
E agora, enquanto, alva e lesta,
Palpita a lua hibernal,
Na fazenda, toda festa,
Referve a alegria honesta
Da noite tradicional.
Dentro, com grande aparato.
Brilha, enfeitado, o salão:
Que há, nessa festa do mato,
Pessoas de fino trato,
Chegadas para o São João...
Destaca-se entre essa gente
A flor do mundo local:
O padre, o juiz, o intendente,
— O próprio doutor Vicente
Que é deputado estadual!
Ante o auditório pasmado,
Que, num enlevo, sorri,
A Isabelinha Machado
Batuta, sobre o teclado,
Uns trechos do Guarani...
Tudo o que toca e assassina,
Recebe imensa ovação;
Todos, quando ela termina,
Põem-se a exclamar: "Que menina!
Dá gosto! Que vocação!"
E ela, entre ingênua e brejeira,
Com ares de se vingar:
"Agora, queira ou não queira,
Seu Saturnino Pereira
Há de também recitar".
Surge. à força, o Saturnino...
Rugem palmas em redor!
É um tipo, esgalgado e fino,
Que sabe, desde menino,
Dizer Castro Alves de cor.
Na sala, muda e tranqüila,
Tombam, com chama, os versos seus;
E ele, o letrado da vila,
Ao som da velha Dalila,
Lá vai: "Foi desgraça meu Deus..."
Após ouvir a estupenda
Flamância do seu falar
No amplo salão da fazenda
Os velhos jogos de prenda
Reclamam o seu lugar.
Começa então a berlinda.
Risos. Cochichos. Zunzum.
— De pé, donairosa e linda,
Pergunta a D. Florinda
Os dotes de cada um:
Por que razão, seu Martinho,
Foi à berlinda a Lelé?
— Porque olha muito ao vizinho";
"Porque é má; porque é um anjinho";
"Porque é vaidosa"; "porque..."
E todo o mundo, à porfia,
Põe farpas na indiscrição...
E enquanto, ingênua e sadia,
Essa campônia alegria
Faz tumultuar o salão.
Lá fora, alegre e gabola,
Num terreiro de café,
Ao rude som da viola,
A caboclada rebola
Num tremendo bate-pé!
A filha do Zé Moreira
É o mimo deste São João;
À luz da rubra fogueira,
Requebra a guapa trigueira
Ao lado do Chico Peão.
Candoca, a noiva do Jango,
Baila num passo taful;
É a flor que, nesse fandango.
Tem lábios cor de morango.
Vestido de chita azul.
No sapateio se nota,
Aos risos dos que lá estão,
Nhô Lau, de esporas e bota,
Dançando junto a nhá Cota,
Viúva do Conceição...
Á voz do pinho que chora,
Por sob a paz do luar,
Frenindo vai, noite afora,
Essa alegria sonora
Da caboclada a bailar!
E do salão, que ainda brilha
Num faiscante esplendor,
Chegam os sons da quadrilha,
Que alguém ao piano dedilha
Com o indomável furor.
E no sarau campesino,
Nessa festa alegre e chã.
Ruge a voz do Saturnino,
Que grita, esgalgado e fino:
"Balancez! Tour! En avant..."
Paulo Setúbal
A vila - Paulo Setúbal
A vila
Lembro-me bem dessa vilota rude,
Onde fui, sem gosto e sem saúde,
Buscar um poiso para os meus cansaços.
Que terra triste! Triste e sertaneja:
A escola, a hospedaria, a antiga igreja,
E a capelinha do Senhor dos Passos...
Na esquina, em frente à Câmara, o barbeiro,
Logo depois, num colossal letreiro,
A "Loja Popular" do velho Lopes.
E é bem no largo da Matriz que fica
A sempiterna, a clássica botica,
Com seus reclames de óleos e xaropes...
Ah! Foi aí, nesse ermo de tristeza,
Nessa terreola fúnebre e burguesa,
Tão sem encantos, tão descolorida,
Que eu fui viver, com lágrimas e flores,
No mais cruel amor dos meus amores,
A página melhor da minha vida!
Paulo Setúbal
Onde fui, sem gosto e sem saúde,
Buscar um poiso para os meus cansaços.
Que terra triste! Triste e sertaneja:
A escola, a hospedaria, a antiga igreja,
E a capelinha do Senhor dos Passos...
Na esquina, em frente à Câmara, o barbeiro,
Logo depois, num colossal letreiro,
A "Loja Popular" do velho Lopes.
E é bem no largo da Matriz que fica
A sempiterna, a clássica botica,
Com seus reclames de óleos e xaropes...
Ah! Foi aí, nesse ermo de tristeza,
Nessa terreola fúnebre e burguesa,
Tão sem encantos, tão descolorida,
Que eu fui viver, com lágrimas e flores,
No mais cruel amor dos meus amores,
A página melhor da minha vida!
Árvores tristes - Paulo Setúbal
Árvores tristes
Eu, nestes campos, longes do tumulto,
Amo essas tristes árvores que crescem
Por sobre as margens dum arroio oculto,
Ouvindo as águas que cantando descem...
Gosto de vê-las à tardinha, envoItas
Numa suave e mística tristeza,
Olhando os rolos das espumas soltas
Que encrespam o lençol da correnteza.
Tristonhas plantas! Árvores sombrias!
Como se as torturasse estranha mágoa,
E as compungissem fundas nostalgias,
— Procuram consolar-se à beira d'água.
Oh! vós que amais os campos, nunca as vistes?
— Desconsoladas, trêmulas, chorosas,
Pelas barrancas dos arroios tristes
Debruçam as ramagens silenciosas...
Que importa o sol, que importa a chuva e o vento,
Se sempre as mesmas ânsias as consomem?
Talvez - quem sabe? - nesse desalento,
Palpite e sofra o coração dum homem!
Talvez nessas folhagens, nesses ramos,
Torturados de angústia e desconforto,
— Sem que a vejamos, sem que a compreendamos,
Soluce a alma de algum poeta morto.
Ai, não turbeis a misteriosa mágoa,
A imensa nostalgia em que se abismam;
Deixai-as em silêncio, à beira d'água,
Essas tristonhas árvores que cismam...
Eu, nestes campos, longes do tumulto,
Amo essas tristes árvores que crescem
Por sobre as margens dum arroio oculto,
Ouvindo as águas que cantando descem...
Gosto de vê-las à tardinha, envoItas
Numa suave e mística tristeza,
Olhando os rolos das espumas soltas
Que encrespam o lençol da correnteza.
Tristonhas plantas! Árvores sombrias!
Como se as torturasse estranha mágoa,
E as compungissem fundas nostalgias,
— Procuram consolar-se à beira d'água.
Oh! vós que amais os campos, nunca as vistes?
— Desconsoladas, trêmulas, chorosas,
Pelas barrancas dos arroios tristes
Debruçam as ramagens silenciosas...
Que importa o sol, que importa a chuva e o vento,
Se sempre as mesmas ânsias as consomem?
Talvez - quem sabe? - nesse desalento,
Palpite e sofra o coração dum homem!
Talvez nessas folhagens, nesses ramos,
Torturados de angústia e desconforto,
— Sem que a vejamos, sem que a compreendamos,
Soluce a alma de algum poeta morto.
Ai, não turbeis a misteriosa mágoa,
A imensa nostalgia em que se abismam;
Deixai-as em silêncio, à beira d'água,
Essas tristonhas árvores que cismam...
Eterna Comédia - Paulo Setúbal
Eterna Comédia
Dessa ventura que nós dois tecemos,
De tantas afeições, tantos extremos,
Já nada existe, nem saudade vive!
Depois daquele sonho azul-celeste,
Muitos amores sei que já tiveste,
Muitos amores sabes que eu já tive!
Tudo acabado. Mas, ó flor, no entanto,
Por que nós dois estremecemos tanto,
Quando eu te vejo e quando tu me vês?
Por que, quando me vês, quando eu te vejo,
Sacode-nos um cálido desejo
De ainda nos unirmos outra vez?
Não sei... Mas sei que me amas como eu te amo!
Que esta paixão, como uma flor num ramo,
Em nossos corações viceja e cresce:
É que este amor foi um desses amores,
Tão bons, tão loucos, tão abrasadores,
Que a gente, em vida, nunca mais esquece!
Dessa ventura que nós dois tecemos,
De tantas afeições, tantos extremos,
Já nada existe, nem saudade vive!
Depois daquele sonho azul-celeste,
Muitos amores sei que já tiveste,
Muitos amores sabes que eu já tive!
Tudo acabado. Mas, ó flor, no entanto,
Por que nós dois estremecemos tanto,
Quando eu te vejo e quando tu me vês?
Por que, quando me vês, quando eu te vejo,
Sacode-nos um cálido desejo
De ainda nos unirmos outra vez?
Não sei... Mas sei que me amas como eu te amo!
Que esta paixão, como uma flor num ramo,
Em nossos corações viceja e cresce:
É que este amor foi um desses amores,
Tão bons, tão loucos, tão abrasadores,
Que a gente, em vida, nunca mais esquece!
Fim de viagem - Paulo Setúbal
Fim de viagem
Venho a sonhar contigo... E, no meu sonho,
Vendo o arraial bucólico, risonho,
Onde floriu essa paixão feliz. .
Com que saudade, com que gosto amargo,
Relembro a tua casa em frente ao Largo,
Que tu chamavas "Largo da Matriz".
Vejo-te ainda, lá nesse povoado,
Tua cestinha de costura ao lado,
Perdida em sonhos de felicidade.
E o trem, enquanto assim eu cismo, aflito,
Entra, a bufar, com enervante apito,
Pela cidade adentro... Oh, a cidade!
São ruas. Vielas. Bairros proletários.
Rasgando o azul, ao longe, os campanários,
E as chaminés das fábricas e usinas.
Vivos letreiros, no alto, em letras largas.
Aqui - vagões; depósitos de cargas;
Pontes, guindastes, máquinas, cabinas...
Mas eu, no entanto, pensativo e mudo,
Passo por tudo, indiferente a tudo,
Bem longe tendo o espírito daqui;
E vejo apenas - que visão tranqüila! -
Tua longínqua e solitária vila,
Donde, chorando, esta manhã parti...
Venho a sonhar contigo... E, no meu sonho,
Vendo o arraial bucólico, risonho,
Onde floriu essa paixão feliz. .
Com que saudade, com que gosto amargo,
Relembro a tua casa em frente ao Largo,
Que tu chamavas "Largo da Matriz".
Vejo-te ainda, lá nesse povoado,
Tua cestinha de costura ao lado,
Perdida em sonhos de felicidade.
E o trem, enquanto assim eu cismo, aflito,
Entra, a bufar, com enervante apito,
Pela cidade adentro... Oh, a cidade!
São ruas. Vielas. Bairros proletários.
Rasgando o azul, ao longe, os campanários,
E as chaminés das fábricas e usinas.
Vivos letreiros, no alto, em letras largas.
Aqui - vagões; depósitos de cargas;
Pontes, guindastes, máquinas, cabinas...
Mas eu, no entanto, pensativo e mudo,
Passo por tudo, indiferente a tudo,
Bem longe tendo o espírito daqui;
E vejo apenas - que visão tranqüila! -
Tua longínqua e solitária vila,
Donde, chorando, esta manhã parti...
Paulo Setúbal - Foi nesse grande amor
Foi nesse grande amor
Foi nesse grande amor, quase noivado,
Que floresceu o sonho mais doirado
Das tuas ambições, dos meus desejos.
Mas ai! Tanta afeição, tantas loucuras,
O idílio que tecemos entre juras,
O poema que sonhamos entre beijos;
Toda essa história ingenuamente bela,
Essa gentil, romântica novela,
Que ainda de saudade se perfuma,
— Tudo isso se desfez num só momento,
Como um rosal onde batesse o vento,
E as rosas despencassem uma a uma!
E eu sei que um dia, no murchar dos anos,
Quando já velha, bem velhinha fores,
Puseres-te a lembrar nossos enganos,
Dirás, com uma lágrima sentida,
Que foram esses cálidos amores,
A página melhor da nossa vida!
Foi nesse grande amor, quase noivado,
Que floresceu o sonho mais doirado
Das tuas ambições, dos meus desejos.
Mas ai! Tanta afeição, tantas loucuras,
O idílio que tecemos entre juras,
O poema que sonhamos entre beijos;
Toda essa história ingenuamente bela,
Essa gentil, romântica novela,
Que ainda de saudade se perfuma,
— Tudo isso se desfez num só momento,
Como um rosal onde batesse o vento,
E as rosas despencassem uma a uma!
E eu sei que um dia, no murchar dos anos,
Quando já velha, bem velhinha fores,
Puseres-te a lembrar nossos enganos,
Dirás, com uma lágrima sentida,
Que foram esses cálidos amores,
A página melhor da nossa vida!
A Forasteira - Paulo Setúbal
A Forasteira
Dissera-me o barbeiro da vilota,
Que essa elegante, essa gentil devota,
Que freqüentava assim as ladainhas,
Também quisera, em busca de bons ares,
Passar o mês das férias escolares,
Na mesma terra onde eu passava as minhas.
E ali, na vila, nessa pobre aldeia,
Tão incolor, tão rústica, tão feia,
Povoada de caboclos indigentes,
A forasteira, com seu ar touriste,
Com seu chapéu de plumas, com seu chiste,
Chocava o povo e deslumbrava as gentes!
E eu, que vivia a padecer nesse ermo,
A definhar-me, torturado e enfermo,
Nas nostalgias dessa vila odiosa,
Eu bem sentia, ao ver essa estrangeira,
Que na minhalma, pela vez primeira,
Brotara a flor duma paixão furiosa...
Dissera-me o barbeiro da vilota,
Que essa elegante, essa gentil devota,
Que freqüentava assim as ladainhas,
Também quisera, em busca de bons ares,
Passar o mês das férias escolares,
Na mesma terra onde eu passava as minhas.
E ali, na vila, nessa pobre aldeia,
Tão incolor, tão rústica, tão feia,
Povoada de caboclos indigentes,
A forasteira, com seu ar touriste,
Com seu chapéu de plumas, com seu chiste,
Chocava o povo e deslumbrava as gentes!
E eu, que vivia a padecer nesse ermo,
A definhar-me, torturado e enfermo,
Nas nostalgias dessa vila odiosa,
Eu bem sentia, ao ver essa estrangeira,
Que na minhalma, pela vez primeira,
Brotara a flor duma paixão furiosa...
Último Verso - Paulo Setúbal
Último Verso
E quanto pode a ingênua brejeirice
Dum coração de moça, encantador:
— A um gesto teu, sem que eu o pressentisse,
Nasceu-me esta canção de sonhador,
Como um botão que por acaso abrisse
Numa roseira que não dá mais flor...
E quanto pode a ingênua brejeirice
Dum coração de moça, encantador:
— A um gesto teu, sem que eu o pressentisse,
Nasceu-me esta canção de sonhador,
Como um botão que por acaso abrisse
Numa roseira que não dá mais flor...
Paulo Setúbal - Uma história simples
Uma história simples
Eu com saudades, muita vez me lembro,
De quando, nos bons tempos de estudante,
Passei as grandes férias de dezembro,
Numa fazenda amiga, bem distante.
Lá - quem diria? - lá, nesse abandono;
Perdi meu coração nesta cegueira:
Amei, com fúria, a filha dum colono,
Que era a mais bela da colônia inteira.
Eu, rapazola ingênuo e ventoinha,
Que então vivia nas regiões aéreas,
Sonhei fazer da humilde caipirinha
A musa que inspirasse as minhas férias.
E ela, a vaidosa, no ermo da fazenda,
Fina e matreira, com gentil desvelo,
Vestia sempre muita fita e renda,
Botava sempre rosas no cabelo
Para estreitar essa aventura doce,
Tecer com ela um tosco romancinho,
Eu, indo à vila, certa vez lhe trouxe
Um corte de vestido azul-marinho.
Ao receber meu tímido presente,
A moça, olhos no chão, o sangue em lava,
Disse-me apenas, com a voz tremente:
"Que incômodo lhe dei! Não precisa..."
Assim, unidos por tão bela chama,
Vivíamos os dois em mútua estima,
Quando um dia chegou, sem telegrama,
Minha formosa e tentadora prima.
Com seu donaire fino e romanesco,
Veio à procura de melhor saúde,
Beber na serra um leite gordo e fresco,
Haurir no campo a luz dum sol bem rude.
Eis porque, de manhã, nós dois saímos
— Ambos a rir da madrugada nossa! -
Mostrando a todos como um par de primos
Sabe gozar as distrações da roça.
Ela, espantando aquela pobre gente,
Molhando os caros borzeguins no orvalho,
Vinha embuçada, friorentamente,
Num fofo, moderníssimo agasalho.
E a estrada, e os bois e os carros indo e vindo.
E a ponte velha, e os canaviais, e a moenda,
Tudo nós vimos, papagueando e rindo,
Pela rural simpleza da fazenda.
Quando voltamos, pálida e severa,
Com um ar de furor, nada indeciso,
A caipirinha estava à minha espera.
Tinha nos lábios um cruel sorriso.
"É aquela?" perguntou, com frio orgulho,
Mostrando a prima que subia a escada.
E atirando, com raiva, estranho embrulho,
Partiu, correndo, sem dizer mais nada.
Parei... Que é isto? Que pesar tamanho
Fê-la explodir nesse rancor sentido?
Abri, ansioso, aquele embrulho estranho.
— Pus-me a sorrir: o corte de vestido!
Eu com saudades, muita vez me lembro,
De quando, nos bons tempos de estudante,
Passei as grandes férias de dezembro,
Numa fazenda amiga, bem distante.
Lá - quem diria? - lá, nesse abandono;
Perdi meu coração nesta cegueira:
Amei, com fúria, a filha dum colono,
Que era a mais bela da colônia inteira.
Eu, rapazola ingênuo e ventoinha,
Que então vivia nas regiões aéreas,
Sonhei fazer da humilde caipirinha
A musa que inspirasse as minhas férias.
E ela, a vaidosa, no ermo da fazenda,
Fina e matreira, com gentil desvelo,
Vestia sempre muita fita e renda,
Botava sempre rosas no cabelo
Para estreitar essa aventura doce,
Tecer com ela um tosco romancinho,
Eu, indo à vila, certa vez lhe trouxe
Um corte de vestido azul-marinho.
Ao receber meu tímido presente,
A moça, olhos no chão, o sangue em lava,
Disse-me apenas, com a voz tremente:
"Que incômodo lhe dei! Não precisa..."
Assim, unidos por tão bela chama,
Vivíamos os dois em mútua estima,
Quando um dia chegou, sem telegrama,
Minha formosa e tentadora prima.
Com seu donaire fino e romanesco,
Veio à procura de melhor saúde,
Beber na serra um leite gordo e fresco,
Haurir no campo a luz dum sol bem rude.
Eis porque, de manhã, nós dois saímos
— Ambos a rir da madrugada nossa! -
Mostrando a todos como um par de primos
Sabe gozar as distrações da roça.
Ela, espantando aquela pobre gente,
Molhando os caros borzeguins no orvalho,
Vinha embuçada, friorentamente,
Num fofo, moderníssimo agasalho.
E a estrada, e os bois e os carros indo e vindo.
E a ponte velha, e os canaviais, e a moenda,
Tudo nós vimos, papagueando e rindo,
Pela rural simpleza da fazenda.
Quando voltamos, pálida e severa,
Com um ar de furor, nada indeciso,
A caipirinha estava à minha espera.
Tinha nos lábios um cruel sorriso.
"É aquela?" perguntou, com frio orgulho,
Mostrando a prima que subia a escada.
E atirando, com raiva, estranho embrulho,
Partiu, correndo, sem dizer mais nada.
Parei... Que é isto? Que pesar tamanho
Fê-la explodir nesse rancor sentido?
Abri, ansioso, aquele embrulho estranho.
— Pus-me a sorrir: o corte de vestido!
Só tu - Paulo Setúbal
Só tu
Dos lábios que me beijaram,
Dos braços que me abraçaram,
Já não me lembro, nem sei...
São tantas as que me amaram!
São tantas as que eu amei!
Mas tu - que rude contraste!
— Tu, que jamais me beijaste,
Tu, que jamais abracei,
Só tu, nestalma, ficaste,
De todas as que eu amei
Dos lábios que me beijaram,
Dos braços que me abraçaram,
Já não me lembro, nem sei...
São tantas as que me amaram!
São tantas as que eu amei!
Mas tu - que rude contraste!
— Tu, que jamais me beijaste,
Tu, que jamais abracei,
Só tu, nestalma, ficaste,
De todas as que eu amei
Quinze anos - Paulo Setúbal
Quinze anos
Vestido claro, sombrinha,
Fitas de cor no chapéu,
Ei-la que vai, pequenininha,
Como uma nuvem do céu.
O colo é branco, de neve.
Os dentes brancos e sãos.
A cinturinha tão breve
Que a gente abarca entre as mãos.
Não sei que cor, que palheta,
Possa, ao de leve, compor
A espiritual silhueta
Desses quinze anos em flor.
Doce, gentil, tentadora,
Fragílimo bibelot,
Lembra uma fina pastora
Das pastorais de Watteau.
Alma em botão, menina e moça,
Lindo primor de biscuit,
É a bonequinha de louça
Mais singular que eu já vi.
Tem ela, como dois tesouros,
Estes caprichos tafuis:
Só gosta de moços louros,
Só ama os olhos azuis.
Lá vai... E some á distância
O encanto do seu perfil.
Mas vai com tanta elegância,
É tão jovial, tão gentil,
Tão pluma, tão borboleta,
Que a gente, sem o supor,
Fica a sonhar na silhueta
Desses quinze anos em flor...
Vestido claro, sombrinha,
Fitas de cor no chapéu,
Ei-la que vai, pequenininha,
Como uma nuvem do céu.
O colo é branco, de neve.
Os dentes brancos e sãos.
A cinturinha tão breve
Que a gente abarca entre as mãos.
Não sei que cor, que palheta,
Possa, ao de leve, compor
A espiritual silhueta
Desses quinze anos em flor.
Doce, gentil, tentadora,
Fragílimo bibelot,
Lembra uma fina pastora
Das pastorais de Watteau.
Alma em botão, menina e moça,
Lindo primor de biscuit,
É a bonequinha de louça
Mais singular que eu já vi.
Tem ela, como dois tesouros,
Estes caprichos tafuis:
Só gosta de moços louros,
Só ama os olhos azuis.
Lá vai... E some á distância
O encanto do seu perfil.
Mas vai com tanta elegância,
É tão jovial, tão gentil,
Tão pluma, tão borboleta,
Que a gente, sem o supor,
Fica a sonhar na silhueta
Desses quinze anos em flor...
Derradeira Saudade - Paulo Setúbal
Derradeira Saudade
Paixão fugaz... Ventura passageira...
Rosa que não colhemos da roseira,
Mas que esteve, no galho, ao nosso alcance.
Ah! Quanta vez, num desespero mudo,
Eu quedo-me a cismar naquilo tudo,
Que encheu de sol nosso cruel romance!
Bendigo ainda os beijos que maldizes,
Que abriram na minhalma cicatrizes,
Que encheram de ambrosias nossa boca;
Só me consola, nesta dor pungente,
Lembrar que te adorei perdidamente,
Lembrar que me adoraste como louca!
Mudaste muito, eu sei... Mas, com certeza,
Nas horas de saudade e de tristeza,
Em que a alma chora e o coração nos trai,
Hás de pensar em mim de quando em quando,
Com lágrimas nos olhos relembrando
— Toda essa história que tão longe vai!
Paixão fugaz... Ventura passageira...
Rosa que não colhemos da roseira,
Mas que esteve, no galho, ao nosso alcance.
Ah! Quanta vez, num desespero mudo,
Eu quedo-me a cismar naquilo tudo,
Que encheu de sol nosso cruel romance!
Bendigo ainda os beijos que maldizes,
Que abriram na minhalma cicatrizes,
Que encheram de ambrosias nossa boca;
Só me consola, nesta dor pungente,
Lembrar que te adorei perdidamente,
Lembrar que me adoraste como louca!
Mudaste muito, eu sei... Mas, com certeza,
Nas horas de saudade e de tristeza,
Em que a alma chora e o coração nos trai,
Hás de pensar em mim de quando em quando,
Com lágrimas nos olhos relembrando
— Toda essa história que tão longe vai!
Paulo Setúbal - Nhá Carola
Nhá Carola
Eia!... O meu baio caminha
Por entre nuvens de pó:
Vou ver a boa vizinha,
Essa adorada velhinha
Que eu quero como uma avó.
Nasceu aqui, e aqui mora,
Neste retiro de paz.
Ah! É uma santa senhora
Que inda me quer, que inda me adora,
Como há vinte anos atrás.
E hoje, que o dia se engala
De tanta luz, tanta cor,
Vim, nhá Carola, abraçá-la,
Ouvir de novo essa fala,
Sentir de novo esse amor!
A casa, tosca e singela,
Já eu avisto daqui:
E a dona amiga, à janela,
Que fundo anseio revela
Por me apertar junto a si!
Por isso, quente e festiva,
Ao ver-me entrar o portal,
Ela, a velhinha afetiva,
Mostrando rubra a gengiva,
— Ri-se num riso jovial!
Salta-me Ioga ao pescoço.
E abraça! E ri! que aranzel!
E nesse ingênuo alvoroço,
Nem olha que eu já sou moço,
Nem vê que eu sou bacharel...
Céus!... É a mesma nhá Carola,
Que, enrugada como está,
No tempo que eu ia à escola,
Enchia a minha sacola
De broinhas de fubá.
E eis o sítio. Por tudo aqui eu leio
Memórias do que deixei.
Eu saio, pois, num passeio,
Rever, com dorido anseio,
As coisas que tanto amei!
Em frente, limpo e varrido
Fica o terreiro de chão:
É aí, depois de colhido,
Depois de seco e batido,
Que se peneira o feijão.
No pasto, o zaino e a ruana
Lá estão... Que amigos fiéis!
Além, à luz meridiana,
Verdes touceiras de cana
Fulgem em verdes quartéis.
Raspas de clara mandioca
Secam ao sol, num tendal;
E range a rude engenhoca,
Que um tardo burro desloca,
Tranqüilo, patriarcal.
Rudeza assim, doce e branda,
Nos sítios hoje nem há!
E é bem de ver, numa banda.
O amplo forno da quitanda,
As assadeiras e a pá...
Os gansos da fazendola
Debicam pelo quintal;
O galo, um fofo mariola,
Ronda as galinhas-d'angola,
Como um sultão oriental.
E o pomar... Ruas inteiras
De altas árvores senis:
São araçás. são mangueiras.
São frondosas laranjeiras.,
Sombreando o asilo feliz.
Camões sonhara Natércia
No canto desse pomar!
Que paz! Que sombras! Que inércia!
Ah, como as limas da Pérsia
Aromatizam este ar!
E eu vou por tudo... E eu vagueio
Por todos estes rincões.
Que delicioso passeio!
Tão bom, tão lindo, tão cheio
De fundas recordações!
O dia inteiro, numa ânsia
Que a palavra não traduz,
Fico a lembrar minha infância,
Que eu inda vejo, a distância,
Banhada de ouro e de luz!
Á tarde, quase à noitinha,
Volto... E ao voltar, triste e só,
Venho abençoando a velhinha,
Essa adorada vizinha
Que eu quero como uma avo.
Eia!... O meu baio caminha
Por entre nuvens de pó:
Vou ver a boa vizinha,
Essa adorada velhinha
Que eu quero como uma avó.
Nasceu aqui, e aqui mora,
Neste retiro de paz.
Ah! É uma santa senhora
Que inda me quer, que inda me adora,
Como há vinte anos atrás.
E hoje, que o dia se engala
De tanta luz, tanta cor,
Vim, nhá Carola, abraçá-la,
Ouvir de novo essa fala,
Sentir de novo esse amor!
A casa, tosca e singela,
Já eu avisto daqui:
E a dona amiga, à janela,
Que fundo anseio revela
Por me apertar junto a si!
Por isso, quente e festiva,
Ao ver-me entrar o portal,
Ela, a velhinha afetiva,
Mostrando rubra a gengiva,
— Ri-se num riso jovial!
Salta-me Ioga ao pescoço.
E abraça! E ri! que aranzel!
E nesse ingênuo alvoroço,
Nem olha que eu já sou moço,
Nem vê que eu sou bacharel...
Céus!... É a mesma nhá Carola,
Que, enrugada como está,
No tempo que eu ia à escola,
Enchia a minha sacola
De broinhas de fubá.
E eis o sítio. Por tudo aqui eu leio
Memórias do que deixei.
Eu saio, pois, num passeio,
Rever, com dorido anseio,
As coisas que tanto amei!
Em frente, limpo e varrido
Fica o terreiro de chão:
É aí, depois de colhido,
Depois de seco e batido,
Que se peneira o feijão.
No pasto, o zaino e a ruana
Lá estão... Que amigos fiéis!
Além, à luz meridiana,
Verdes touceiras de cana
Fulgem em verdes quartéis.
Raspas de clara mandioca
Secam ao sol, num tendal;
E range a rude engenhoca,
Que um tardo burro desloca,
Tranqüilo, patriarcal.
Rudeza assim, doce e branda,
Nos sítios hoje nem há!
E é bem de ver, numa banda.
O amplo forno da quitanda,
As assadeiras e a pá...
Os gansos da fazendola
Debicam pelo quintal;
O galo, um fofo mariola,
Ronda as galinhas-d'angola,
Como um sultão oriental.
E o pomar... Ruas inteiras
De altas árvores senis:
São araçás. são mangueiras.
São frondosas laranjeiras.,
Sombreando o asilo feliz.
Camões sonhara Natércia
No canto desse pomar!
Que paz! Que sombras! Que inércia!
Ah, como as limas da Pérsia
Aromatizam este ar!
E eu vou por tudo... E eu vagueio
Por todos estes rincões.
Que delicioso passeio!
Tão bom, tão lindo, tão cheio
De fundas recordações!
O dia inteiro, numa ânsia
Que a palavra não traduz,
Fico a lembrar minha infância,
Que eu inda vejo, a distância,
Banhada de ouro e de luz!
Á tarde, quase à noitinha,
Volto... E ao voltar, triste e só,
Venho abençoando a velhinha,
Essa adorada vizinha
Que eu quero como uma avo.
A gente - Paulo Setúbal
A gente
Saio a passear. .. Claro e quente,
O sol na altura sorri.
Eu sigo, de alma contente,
Saudando esta boa gente
Dos sítios onde nasci!
Lá vou, por entre este povo,
Com tanta ingênua emoção,
Que eu, sem querer, me comovo,
Revendo agora, de novo,
Nhô Lau, seu Juca, o Bastião...
O sol na altura sorri.
Eu sigo, de alma contente,
Saudando esta boa gente
Dos sítios onde nasci!
Lá vou, por entre este povo,
Com tanta ingênua emoção,
Que eu, sem querer, me comovo,
Revendo agora, de novo,
Nhô Lau, seu Juca, o Bastião...
Aquele... Nossa Senhora!...
— Aquele é o seu Nicanor:
O mesmo, tão curvo agora,
Que foi, nos tempos de outrora,
O meu grande professor!
É um velho... Um republicano
Desde o tempo que lá vai!
Vive a falar no Floriano,
Dizendo que é veterano
Da guerra do Paraguai...
— Aquele é o seu Nicanor:
O mesmo, tão curvo agora,
Que foi, nos tempos de outrora,
O meu grande professor!
É um velho... Um republicano
Desde o tempo que lá vai!
Vive a falar no Floriano,
Dizendo que é veterano
Da guerra do Paraguai...
E este?... O Mendonça afamado,
O célebre caçador!
Traz a lapeana de lado,
E um perdigueiro malhado
Que salta no carreador.
Rude, feroz, barba intonsa,
Com a sua desfaçatez,
A todos narra o Mendonça
Terríveis caçadas de onça,
— Caçadas que nunca fez.
O célebre caçador!
Traz a lapeana de lado,
E um perdigueiro malhado
Que salta no carreador.
Rude, feroz, barba intonsa,
Com a sua desfaçatez,
A todos narra o Mendonça
Terríveis caçadas de onça,
— Caçadas que nunca fez.
Lá está na foice, roçando,
O velho Jeca Morais:
Caboclo bom, gênio brando,
Apenas, de quando em quando,
Bebe algum trago demais.
O velho Jeca Morais:
Caboclo bom, gênio brando,
Apenas, de quando em quando,
Bebe algum trago demais.
No dia em que se endominga,
Vai ao povoado passear;
E à volta, cheirando à pinga,
Discute, provoca, xinga,
Querendo à força brigar!
Vai ao povoado passear;
E à volta, cheirando à pinga,
Discute, provoca, xinga,
Querendo à força brigar!
Junto, o Nicola persiste
Em consertar um moirão;
Não sei se no mundo existe
Outro violeiro mais triste
Que esse infeliz mocetão.
Louca paixão, louca e imensa,
Sempre em angústias o traz:
É que ele, o poeta, só pensa
Na filha do Quim Proença,
Que gosta de outro rapaz.
Quando o luar desenrola,
No espaço, o místico alvor,
Sonhando um sonho, o Nicola
Põe-se a chorar na viola
As mágoas do seu amor...
Em consertar um moirão;
Não sei se no mundo existe
Outro violeiro mais triste
Que esse infeliz mocetão.
Louca paixão, louca e imensa,
Sempre em angústias o traz:
É que ele, o poeta, só pensa
Na filha do Quim Proença,
Que gosta de outro rapaz.
Quando o luar desenrola,
No espaço, o místico alvor,
Sonhando um sonho, o Nicola
Põe-se a chorar na viola
As mágoas do seu amor...
Guiando os bois do seu carro,
Que ringe num alto som,
Nhô João, na estrada de Barro,
Lá vai, pitando um cigarro,
Cheiroso de fumo bom.
Com seu enorme trabuco,
Calça xadrez, pé no chão,
Na venda do Zé Macuco,
Sentado à mesa do truco,
— Que noites passa nhô João!
Que ringe num alto som,
Nhô João, na estrada de Barro,
Lá vai, pitando um cigarro,
Cheiroso de fumo bom.
Com seu enorme trabuco,
Calça xadrez, pé no chão,
Na venda do Zé Macuco,
Sentado à mesa do truco,
— Que noites passa nhô João!
Ao longe, num largo trote,
Com elegâncias de peão,
— Bombacha, espora e chicote -
Passa na estrada o Mingote,
Montado num alazão.
Moço dos mais arrogantes,
De claro olhar, claro e azul,
Conta as paixões delirantes
Que teve em terras distantes,
Ao vir com tropas do Sul...
Com elegâncias de peão,
— Bombacha, espora e chicote -
Passa na estrada o Mingote,
Montado num alazão.
Moço dos mais arrogantes,
De claro olhar, claro e azul,
Conta as paixões delirantes
Que teve em terras distantes,
Ao vir com tropas do Sul...
Eu sigo... Festivamente,
O sol na altura sorri;
Assim, risonho e contente,
Revejo toda esta gente
Dos sítios onde eu nasci...
O sol na altura sorri;
Assim, risonho e contente,
Revejo toda esta gente
Dos sítios onde eu nasci...
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