Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens

olá, como você está? - Charles Bukowski

esse medo de ser o que eles são:
mortos.

pelo menos eles não estão na rua, eles
têm o cuidado de ficar dentro de casa, aqueles
malucos que se sentam sozinhos na frente de suas tvs,
suas vidas cheias de enlatados, riso mutilado.

seu bairro ideal
de carros estacionados
de pequenos gramados
de pequenas casas
as pequenas portas que abrem e fecham
quando seus parentes os visitam
durante as férias
as portas se fechando
atrás do moribundo que morre tão devagar
atrás do morto que ainda está vivo
em seu tranquilo bairro de classe média
de ruas sinuosas
de agonia
de confusão
de horror
de medo
de ignorância.

um cão parado atrás de uma cerca.

um homem silencioso na janela.

Charles Bukowski


A violência do dinheiro - Milton Santos (Por uma outra globalização)

A internacionalização do capital financeiro amplia-se, recentemente, por várias razões. Na fase histórica atual, as megafirmas devem, obrigatoriamente, preocupar-se com o uso financeiro do dinheiro que obtêm. As grandes empresas são, quase que  compulsoriamente, ladeadas por grandes empresas financeiras.

Essas empresas financeiras das multinacionais utilizam sem grande parte a poupança dos países em que se encontram. Quando uma firma de qualquer outro país se instala num país C ou D, as poupanças internas passam a participar da lógica financeira e do trabalho financeiro dessa multinacional. Quando expatriado, esse dinheiro pode regressar ao país de origem na forma de crédito e de dívida, quer dizer, por intermédio das grandes empresas globais. O que seria poupança interna transforma-se em poupança externa, pela qual os países recipiendários devem pagar juros extorsivos. O que sai do país como royalties, inteligência comprada, pagamento de serviços ou remessa de lucros volta como crédito e dívida. Essa é a lógica atual da internacionalização do crédito e da dívida. A aceitação de uma modelo econômico em que o pagamento da dívida é prioritário implica a aceitação da lógica desse dinheiro.

Nas condições atuais de economia internacional, o financeiro ganha uma espécie de autonomia. Por isso, a relação entre a finança e a produção, entre o que agora se chama economia real e o mundo da finança, dá lugar àquilo que Marx chamava de loucura especulativa, fundada no papel do dinheiro em estado puro. Este se torna o centro do mundo. É o dinheiro como, simplesmente, dinheiro, recriando seu fetichismo pela ideologia. O sistema financeiro descobre fórmulas imaginosas, inventa sempre novos instrumentos, multiplica o que chama de derivativos, que são forma sempre renovadas de oferta dessa mercadoria aos especuladores. O resultado é que a especulação exponencial assim redefinida vai se tornar algo indispensável, intrínseco, ao sistema, graças aos processos técnicos da nossa época. É o tempo real que vai permitir a rapidez das operações e a volatilidade dos assets. E a finança move a economia e a deforma, levando seus tentáculos a todos os aspectos da vida. Por isso, é lícito falar de tirania do dinheiro.

Se o dinheiro em estado puro se tornou despótico, isso também se deve ao foto de que tudo se torna valor de troca. A monetarização da vida cotidiana ganhou, no mundo inteiro, um enorme terreno nos últimos 25 anos. Essa presença do dinheiro em toda parte acaba por constituir um dado ameaçador da nossa existência cotidiana. 

Milton Santos (Por uma outra globalização)

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal / Milton Santos. - 10a Ed. - Rio de Janeiro: Record, 2003.

A ideologia do Dinheiro

Não me importo com aquilo que as pessoas possam pensar de mim, por eu me vestir de modo simples, por não gostar de andar alinhado, produzido, cheio de penduricalhos, por não usar aquele smartphone de ultima geração, o top da moda, aquele da maçã. Essas futilidades, necessidades inúteis, invenções do mercado para nos prender a atenção, quando aquilo que talvez devesse mais importar em nossas vidas, seria conhecermos a nós mesmos e o mundo a nossa volta. Todo esse modo de desviver focado no valor das coisas, arruína cada dia mais a vida em sociedade.

O valor das coisas que antes nos eram mais caras, como a amizade firme, o companheirismo, as convicções, a gentileza e a solidariedade, está sendo transferido para coisas supérfluas demais para que possam durar. Não são duráveis para uma vida inteira aquelas coisas que tem como principal elemento constituidor o dinheiro. O dinheiro é bom, pode nos trazer muitas coisas, comodidade, conforto, prazer, satisfação, luxo, viagens, mas ele nunca vai te dar amores e amizades verdadeiras o suficiente para continuarem contigo quando um dia a pobreza te visitar ou a desgraça sobre ti vier.

O sucesso financeiro a muito tempo tem sido o objetivo de vida da maioria das pessoas, pois no mundo de hoje o dinheiro está profundamente associado a “felicidade”. Ser reconhecido pela situação econômica pomposa é mais considerável que ser reconhecido por seu caráter, por seu conhecimento, inteligência, sapiência, cultura. Bem sucedido nessa cultura é sempre aquele que tem muito dinheiro.

A bem sucedida faxineira, que também é uma excelente manicure e que ganha um salário mínimo e educa três filhos que pegam ônibus para ir a escola e faculdade, para essa sociedade, na verdade, é mal sucedida, pois ela é pobre e faxineira. Seu trabalho é marginalizado como são marginalizadas as atividades mais dignas e importantes da sociedade, que se um dia parassem, causariam transtornos incomparáveis. O bem sucedido gari, a empregada doméstica, o guarda, o porteiro, a cabeleireira, o frentista, o garçom, o balconista, o motorista, o professor e muitos outros, todos esses profissionais são desvalorizados e colocados no nível mais baixo da escala de importância nesta sociedade, que ainda não aprendeu a dar valor ao trabalhador, independente de qual seja a sua atividade.

O bem sucedido professor, por exemplo, não é respeitado por essa sociedade, e tem sido a nova caricatura do fracasso profissional que a mídia sem esforço algum proclama aos quatro ventos, contribuindo ainda mais para desmoralizar a imagem dos professores, ao invés de dar mais espaços para eles. É nessa cultura que mais e mais pessoas fogem da alternativa de se tornarem professores. Em outros países e culturas, ser professor é uma honra e ainda por cima te dá prestígio.

O dinheiro assumiu o lugar mais alto na ordem de prioridades da vida de muitas pessoas, antes de qualquer coisa, em primeiro lugar o mais importante é buscar tudo aquilo que te traga muito dinheiro. Não busque a profissão dos teus ideais, busque aquela que te dá dinheiro, assim muitos são aconselhados. "Busque o dinheiro em primeiro lugar e as outras coisas te serão acrescentadas", esse é o novo versículo de muitos cristãos por aí.

Não amemos o dinheiro mais do que a nós mesmos, nem mais que a vida humana. Não amemos o dinheiro mais do que honestidade, mais do que a bondade, mais do que a amizade, mais do que a sabedoria, mais do que o conhecimento, deixe o dinheiro para ser a última coisa a ser amada. O dinheiro está comprando, não somente as cosias que você deseja, ele está comprando pessoas (políticos) que deveriam estar fazendo um outro papel no centro do poder deste país. O dinheiro está comprando a fé de muitas pessoas que esqueceram ou não leram que Deus se opõem ao amor do dinheiro. O dinheiro está comprando as nossas mentes com a sedução pelo compulsivo consumo. Estamos sendo usados e vencidos pela ideologia do dinheiro, que de forma violenta tem nos tomado a liberdade.

Não acredite quando te falarem que o dinheiro é a coisa mais importante deste mundo. Certamente essa pessoa já foi enganada pela astúcia poderosa da ideologia do dinheiro. Continue acreditando que você e as pessoas são a coisas mais importantes deste mundo.

"Pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos." 1 Timóteo 6.10

Tomás de Utopia

Darcy Ribeiro - Trecho de 'O Povo Brasileiro'

"Todos nós brasileiros somos carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos por igual a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugam para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos, e a gente insensível e brutal que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida por doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.
A mais terrível das nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária."

Darcy Ribeiro,
O Povo Brasileiro.