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Laurindo Rabelo - O que são meus versos

O que são meus versos
Se é vate quem acesa a fantasia
tem de divina luz na chama eterna;
se é vate quem do mundo o movimento
c'o movimento das canções governa;

se é vate quem tem n'alma sempre abertas
doces, límpidas fontes de ternura,
veladas por amor, onde se miram
as faces da querida formosura;

se é vate quem dos povos, quando fala,
as paixões vivifica, excita o pasmo,
e da glória recebe sobre a arena
as palmas, que lhe of'rece o entusiasmo;

eu triste, cujo fraco pensamento
do desgosto gelou fatal quebranto;
que, de tanto gemer desfalecido,
nem sequer movo os ecos com meu canto;

eu triste, que só tenho abertas n'alma
envenenadas fontes d'agonia,
malditas por amor, a quem nem sombra
de amiga formosura o céu confia;

eu triste, que, dos homens desprezado,
só entregue a meu mal, quase em delírio,
ator no palco estreito da desgraça,
só espero a coroa do martírio;

vate não sou, mortais; bem o conheço;
meus versos, pela dor só inspirados,-
nem são versos -menti- são ais sentidos,
às vezes, sem querer, d'alma exalados;

são fel, que o coração verte em golfadas
por contínuas angústias comprimido;
são pedaços das nuvens, que m'encobrem
do horizonte da vida o sol querido; 

são anéis da cadeia, qu'arrojou-me
aos pulsos a desgraça, ímpia, sanhuda;
são gotas do veneno corrosivo,
que em pranto pelos olhos me transuda.

Seca de fé, minha alma os lança ao mundo,
do caminho que levam descuidada,
qual, ludíbrio do vento, as secas folhas
solta a esmo no ar planta mirrada.

Laurindo Rabelo - Angústia

Angústia
Quando morta a f'licidade,
A fé expira também!
Saudades de que se nutrem?
Os suspiros, que alvo têm?

Morta a fé, vai-se a esperança;
Como pois, viver pudera
Saudade que não tem crença,
Saudade que desespera?

Onde as graças do passado,
Se altivo gênio sanhudo
O cepticismo nos brada,
Foi mentira, engano tudo?

Em nada creio do mundo:
Ludíbrio da desventura,
A felicidade me acena
Só de um ponto - a sepultura.

Morreram minhas saudades,
E nem suspiros calados
Dentro d'alma pouco a pouco
Vão morrendo sufocados.

Laurindo Rabelo

Laurindo Rabelo - O tempo

O tempo
Deus pede estrita conta de meu tempo,
É forçoso do tempo já dar conta;
Mas, como dar sem tempo tanta conta,
Eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem tempo e não foi conta.
Não quis sobrando tempo fazer conta,
Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta
Não gasteis esse tempo em passatempo:
Cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! se os que contam com seu tempo
Fizessem desse tempo alguma conta,
Não choravam como eu o não ter tempo.

Para do mundo dar completo cabo,
Lá do negro recinto o soberano
Meditava a forjar horrível plano
Coçando a grenha, sacudindo o rabo.

Merecedor enfim de imenso gabo,
Eis o que assim disse muito ufano:
Para a missão cumprir - digesto humano
Quero fazer - que nasça hoje um diabo.

E o 23 de maio nisso raia...
Teotônio nasceu, e a fama soa
Jamais ter visto infame dessa laia.

Pois para Satã ser mesmo em pessoa,
Traja, qual bruxa velha, negra saia,
Como o rei dos bandalhos tem coroa.

Vendo da peste o bárbaro flagelo
Mil vidas a ceifar a cada instante,
D'África deixa o solo distante
E veio no Brasil curar Otelo.

O semblante imposto negro-amarelo
Cresta do orgulho a chama crepitante,
Traz cheia de vidrinhos o turbante,
E buído punhal por escalpelo.

Homeopata é, e o albergue puro
Do puro Martins busca e diz-lhe ardido:
"Doutor, eu quero ter vosso futuro."

- Bravo! grita o Martins enternecido;
Pelas cinzas de Hahnemann te juro
Que não hás de morrer desconhecido.

Laurindo Rabelo

Laurindo Rabelo - Beijo de amor

Beijo de amor
Se me queres ver ainda,
Recobra da vida a flor;
Deixa remoçar-me a vida
Um beijo de teu amor.

De minha vida a ventura
Teus lábios guardam consigo,
Dá-me um só beijo e verás
Se é mentira o que eu te digo.

Como a flor, do sol a um beijo,
Se quiseres, podes ver,
A minh'alma, semimorta,
Num teu beijo reviver.

De minha vida a ventura, etc.

Só esperá-lo me alenta,
Me conforta o fado meu;
Imagina só por isso
Quanto pode um beijo teu.

De minha vida a ventura, etc.

Laurindo Rabelo