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Poema a um jovem poeta - Edmilson Sanches

Poema a um jovem poeta

Não se iluda.
Toda a história do mundo
se faz com poucas letras.

Todo poema
é só um verso
ou uma só palavra
ou meia
ou palavra e meia
(às vezes, apenas uma letra
ou a intenção dela).

Todo romance,
um só capítulo
um fim único
capitulado.

Nada é múltiplo e vário.
Todo tanto
todo tudo
tudo quanto
é uma só unidade
que se desfaz
na mente
e na mentira
dos homens

Edmilson Sanches



Edmilson Sanches - Verdadeiramente

Verdadeiramente
Contra o cidadão,
o pior dos males é a violência.
A pior violência, a mentira.
A pior mentira, a mentira política
–– pois dela derivam todos
os outros males e mentiras.

Sei, bem sei, que se mente
até involuntariamente
inocentemente
inconscientemente.

Mente-se religiosamente.
Mente-se jornalisticamente.
Mas, principalmente, mente-se
politicamente
e, politicamente, mente-se
freqüentemente.

E porque mente assim assiduamente,
já não mente o político sorrateiramente,
“respeitosamente”:
ele mente deslavadamente
descaradamente
de-sa-ver-go-nha-da/mente

E por mentir –– politicamente ––
tão repetidamente,
tão constantemente,
o político mente... impunemente.
E porque se mente –– especialmente politicamente ––
tão impunemente,
chegamos à conclusão de que
–– paradoxalmente ––
já não vivemos em um País de mentira:

vivemos em um País... demente.

Cidadão,
chegou a hora da verdade.

Ao votar na eleição,
não minta para você mesmo.

Vote com consciência.
Vote verdadeiramente.
Vote como quem dá uma porrada.

Pois pelo jeito, só assim, um dia,
toda mentira será castigada.

Edmilson Sanches



Edmilson Sanches - Poema sem data

Poema sem data
Poeta,
não dates teus versos.
Eles não carecem de dia
de nascimento
— pois que não têm hora
para morrer.

Ainda assim, o que pudesses datar
seria o gesto gráfico
literal
frásico
expressional.

Esquecerias por certo a gestação
incubação
hibernação.

Poeta,
teus versos não precisam
— nem dependem —
de cronografia;
também dispensam
genealogia:
o poema não tem pai,
e se tem mãe, é filho da puta,
filho de uma égua,
é santo do pé do pote,
nasceu no oco da palmeira,
pode ter vindo de carona
na bolsa marsupial
ou no bico da cegonha.

Poeta,
expele teu poema
antes que ele salte de ti
e sobreviva
à tua vida
(subvida,
sobrevida).

Entretanto, nada de dia
hora
mês
ano
local.

Os poemas estão por aí, soltos,
misturados à poesia.

Pegue-os.
Mas afasta deles
o gesto cartorário,
a mão tabeliã.

Edmilson Sanches

Edmilson Sanches - Persiana

Persiana
Passam os foliões, passa a vida...
Não os agarra por quê, meu filho?
Acalma-te, mamãe, que o mundo gira
e os homens constróem casas.

(O poeta, absorto, visualiza a estante,
buscando nela uma vaga
para o seu próprio livro.)

Sou preso residente
fé esporte sé nado
preso/e/dente
generalizado.

(Depois vieram.
Vou preso prum cubículo:

Salafrário!

E compuseram
o orgulho dum currículo
literário.)

Censurada a minha mente,
meu escrito.

Mas, conquanto rudemente,
tenho dito!

Edmilson Sanches