Mostrando postagens com marcador Poesia popular. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia popular. Mostrar todas as postagens

Carta de Satanás a Lobão - Autor: Reácio Onário

CARTA DE SATANÁS A LOBÃO
Autor: Reácio Onário

Inferno, corte das trevas
Meu caro amigo Lobão
Lhe escrevo essa missiva
Como muita satisfação
Pois já soube dos seus planos
Que pros próximos quatro anos
Queres mudar de nação.

No inferno, caro amigo
Eu entendo o seu protesto
Venha que estou lhe esperando
Não se preocupe com resto
Que rancho e boia eu garanto
E você vai ver o quanto
Ao PT também, detesto.

Eu não gosto de Petralhas
Pois deu direito a pobreza
De comer todos os dias
De ter fartura na mesa
E igualmente a você
Sou fã de FHC
Esse sim é uma beleza!

Vendeu a Vale de graça
Traiu a sua nação
Deixou o pobre com fome
Cumpriu bem sua missão
Enganou o operário
Deu arrocho de salário
Pra toda a população.

E xingou de vagabundo
A quem era aposentado
Com a ação de FHC
Me senti realizado
Achei seu plano engenhoso
Pois quem maltrata o idoso
Merece ser apoiado.

Esse governo de pobre
É pior do que saúva
FHC era bom
Igual ki-suco de uva
Comprou porque era vivo
Com o cartão corporativo
Um consolo de viúva.
Com esse governo a elite
Perdeu a satisfação
De arrotar sua soberba
Com a mais cara profissão
Luiz Inácio é um bicho
Pois fez catador de lixo
Ter direito a educação.

Tenho nojo desse cara
Que deu a pobre o direito
De andar de carro novo
Comprar casa, ter respeito
Coisas que a Deus agrada
Deus me livre, camarada
Eu morro, mas não aceito.

Esse tal Bolsa Família
Eu odeio esse projeto
Pobre é pra morrer de fome
Viver na rua, sem teto
Quem ajuda essa gentalha
Para mim é um canalha
Ou o ser mais abjeto.

Esse Lula deu direito
Ao pobre sem instrução
Se educar, crescer na vida
E andar de avião
Aeroportos lotados
De pobre e de favelados
Isso sim é um mundo cão.

Um rico não pode mais
Ir ao shopping com a família
Que tem que topar com pobre
Comprando roupa e mobília
Seu partido errou o plano
E a culpa é do povo insano
Que pôs PT em Brasília.

Dilma é uma mulher honesta
E eu detesto honestidade
Aécio sim era o quente
Um político de verdade
Desde pequeno que é torto
Fez até aeroporto
Na sua propriedade.

Que negócio de carinho
Mulher trata é na porrada
Já quebrou até as fuças
De uma linda namorada
E com Dilma no debate
Lutando pra dá empate
Armava ardil e cilada.

Eu que sou sócio da Veja
Sempre procuro ajudar
O Mensalão dos Tucanos
Não deixei ninguém julgar
Nisso garanto a você
Ponho a culpa no PT
Antes de investigar.

Se por acaso os tucanos
Fizer um propinoduto
Eu apoio, pois eu acho
Que o poder absoluto
Só o rico é quem merece
Toda vez que um pobre cresce
O inferno fica de luto.

Meu nobre amigo Lobão
Sei que está no ostracismo
Pois esse povo canalha
Quer lhe jogar no abismo
Não curtem suas canções
Não solfeja seus refrões
Isso sim é um comunismo!!!

Venha aqui para o inferno
Que eu garanto a você
Que todo ano produzo
Uma bonita turnê
Nossa turma é da pesada
E até diaba recatada
Também curte um fuzuê.

Nessa Vida louca vida
Verá o quanto aqui ferve
E se eu não vou nessa porra
Quero que você me leve
No helicóptero dos Perrela
Cheire pó numa tigela
Mostre o quanto e vida é breve.

Eu detesto socialistas
Pois sou um velho reaça
Criança morrendo a míngua
Eu aprecio, acho graça
Polícia batendo em pobre
É a atitude mais nobre
Que eu vejo numa praça.

FHC é meu ídolo
Lógico, depois de você.
Pobre só comia calango
Quando o nosso FHC
Governava esse Brasil
Mas rico entra no funil
Com esse tal de PT.

Odeio esse tal de Lula
Frei Boff, e esse tal Frei Beto
Que mostra a força do povo
Deixando a povo inquieto
Se o filho de pobre estuda
No Brasil a coisa muda
E não terá analfabeto.

Se coisa seguir assim
Escravos e serviçais
Será coisa do passado
E o rico não goza mais
Até Aécio sem ama
Terá que fazer a cama
Entre suspiros e ais.

Aliás do nome Aécio
Eu sei o significado
É uma Ave de Rapina
Li no grego estou lembrado
Tenho anel e formatura
O nosso inferno é cultura
Tá pensando o que, barbado?

Não diga que desistiu
Não fique me embromando
Pois um diabo me informou
Que você tava chegando
Vindo acompanhado ou só
Vais dormir com minha avó
Ela já tá lhe esperando.

Minha vó é uma gata
De 10 mil anos de idade
E me disse que você
É um reaça de verdade
Só digo o que é exato
Quando ela viu seu retrato
Relembrou da mocidade.

Já comprou uma camisola
Transparente nesse ano
Você vai dormir na frente
E ela vai cuTUCANO
Na sua cauda de lobo
Você como não é bobo
Verá que foi um bom plano.

No aeroporto de Claudio
Mando amanhã lhe buscar
Num confortável urubu
Meu astro vai decolar
Anote no seu caderno
Hora do voou pra o inferno
E a hora de chegar.

Eu agora me despeço
Mas deixo Aqui um abraço
Ao Roger do Ultrage
Que nunca mostrou cansaço
Pra falar mal do PT
É igualzinho a você
Tem a alma de ricaço.

Gentilli é gente da gente
Reacionário demais
Muito preconceituoso
Não deixa o Nordeste em paz
Mora no meu coração
Golpe é revolução
Na boca desse rapaz.

E a galera da Veja
É toda avessa a verdade
Jornalismo criminoso
É sua especialidade
Para acusar um sem prova
Sempre sai edição nova
Recheada de maldade.

Tem o Arnaldo Jabor,
William Bonner em ação
Lá na Venus Prateada
Tem também Míriam Leitão
Pra derrubar o Brasil
Cada um é mais sutil
Com garra e disposição.

Quando morrerem o inferno
Estará escancarado
Pra essa gente bacana
Que transmite o meu recado
Vamos vender o Brasil
Petrobrax, que sutil
Fico até arrepiado.

Lembrança a FHC,
Pense num velho profundo!
No tempo de seu governo
Vivia cheirando o fundo
No FMI falado
Deixou até penhorado
O Brasil no terceiro mundo.

Mas o PT tranformou
O Brasil numa potência
Pagou a tal Dívida Externa
Isso sim é incompetência
Do Fundo não são fregueses
Mas FHC três vezes
Quebrou o Brasil, que ciência!

O inferno te espera
Meu coleguinha Lobão
Judas lhe quer num amplexo
Caim lhe chama de irmão
Hitler manda um abraço amigo
E da mãe do Calor de Figo
Um beijo no coração.

FIM

Literatura de cordel Patativa do Assaré - Dois Quadros

Dois Quadros

Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.

De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.

A grama no campo não nasce, não cresce:
Outrora este campo tão verde e tão rico,
Agora é tão quente que até nos parece
Um forno queimando madeira de angico.

Na copa redonda de algum juazeiro
A aguda cigarra seu canto desata
E a linda araponga que chamam Ferreiro,
Martela o seu ferro por dentro da mata.

O dia desponta mostrando-se ingrato,
Um manto de cinza por cima da serra
E o sol do Nordeste nos mostra o retrato
De um bolo de sangue nascendo da terra.

Porém, quando chove, tudo é riso e festa,
O campo e a floresta prometem fartura,
Escutam-se as notas agudas e graves
Do canto das aves louvando a natura.

Alegre esvoaça e gargalha o jacu,
Apita o nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre as verduras,
Beijando os primores do meu Cariri.

De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vagalumes.
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes.

Se o dia desponta, que doce harmonia!
A gente aprecia o mais belo compasso.
Além do balido das mansas ovelhas,
Enxames de abelhas zumbindo no espaço.

E o forte caboclo da sua palhoça,
No rumo da roça, de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo, contente,
Lançar a semente na terra molhada.

Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel, prazenteiro, modesto e feliz,
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso de nosso país.

 Patativa do Assaré


 

Patativa do Assare - Prefeitura sem Prefeito

Prefeitura sem Prefeito
 
Nessa vida atroz e dura
Tudo pode acontecer
Muito breve há de se ver
Prefeito sem prefeitura;
Vejo que alguém me censura
E não fica satisfeito
Porém, eu ando sem jeito,
Sem esperança e sem fé,
Por ver no meu Assaré
Prefeitura sem prefeito.

Por não ter literatura,
Nunca pude discernir
Se poderá existir
Prefeito sem prefeitura.
Porém, mesmo sem leitura,
Sem nenhum curso ter feito,
Eu conheço do direito
E sem lição de ninguém
Descobri onde é que tem
Prefeitura sem prefeito.

Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga,
Não me causará intriga,
Escutarei com respeito,
Não mentiu este sujeito.
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.

Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dar azeite,
Um avestruz dando leite
E pedra criar raiz,
Ema apanhar de perdiz
Um rio fora do leito,
Um aleijão sem defeito
E um morto declarar guerra,
Porque vejo em minha terra
Prefeitura sem prefeito.


Patativa do Assaré

 

Poesia de cordel - A Sogra enganando o diabo

A Sogra enganando o diabo
por Leandro Gomes de Barros

Dizem, não sei se é ditado,
Que ao diabo ninguém logra;
Porém vou contar o caso
Que se deu com minha sogra.
As testemunhas são eu,
Meu sogro, que já morreu,
E a velha, que é falecida.
Esse caso foi passado
Na rua do Pé Quebrado
Da vila Corpo Sem Vida.

Chamava-se Quebra-Quengo
A mãe de minha mulher,
Que se chamava Aluada
Da Silva Quebra-Colher,
Filha do Zé Cabeludo.
Irmã de Vítor Cascudo
E de Marcelino Brabo,
Pai de Corisco Estupor;
Mas ouça agora o senhor
Que fez a velha ao diabo.

Minha sogra era uma velha
Bem carola e rezadeira,
Tinha seu quengo lixado,
Era audaz e feiticeira;
Para ela tudo era tolo,
Porque ela dava bolo
No tipo mais estradeiro.
Era assim o seu serviço:
Ela virava o feitiço
Por cima do feiticeiro!

Disse o demo: — Quebra-Quengo,
Qual é a tua virtude?
Dizem que és azucrinada
E que a ti ninguém ilude?
Disse a velha: — Inda mais esta!
Você parece que é besta!
Que tem você c’o que faço?
Disse ele: — Tudo desmancho,
Nem Santo Antônio com gancho
Te livra hoje do meu laço!

Ela indagou: — Quem és tu?
Respondeu: — Sou o demônio,
Nem me espanto com milagre,
Nem com reza a Santo Antônio!
Pretendo entrar no teu couro!
E nisto ouviu-se um estouro!
Gritou a velha: — Jesus!
Ligeira se ajoelhou
E, depois, se persignou
E rezou o Credo em cruz!

Nisto, o diabo fugiu.
E, quando a velha se ergueu,
Ele chegou de mansinho,
Dizendo logo: — Sou eu!
Agora sou teu amigo
Quero andar junto contigo,
Mostrar-te que sou fiel.
Minha carta, queres ver?
A velha pediu pra ler
E apossou-se do papel.

— Dê-me isto! grita o diabo,
Em tom de quem sofre agravo.
Diz a velha: — Não dou mais!
Tu, agora, és o meu escravo!
Disse o diabo: — Danada!
Meteu-me numa quengada!
Sou agora escravo dela!
E disse com humildade:
— Dê-me a minha liberdade,
Que esticarei a canela!

Disse a velha: — Pé de pato,
Farás o que te mandar?
Respondeu: — Pois sim, senhora,
Pode me determinar,
Porque estou no seu cabresto
Carregarei água em cesto,
Transformarei terra em massa,
Que para isso tenho estudo;
Afinal, eu farei tudo
Que a senhora disser — faça!

Disse a velha: — Vá na igreja,
Traga a imagem de Jesus.
Respondeu: — Posso trazê-la,
Mas ela vem sem a cruz,
Porque desta tenho medo!
Disse a velha: — Volte cedo!
Ele seguiu a viagem
E ao sacristão iludiu:
Uma estampa lhe pediu
Que só tivesse uma imagem.

A velha, então, conheceu
Do cão o quengo moderno,
E, receando que um dia
A levasse para o inferno,
Para algum canto o mandou
E em sua ausência traçou
Com giz uma cruz na porta.
Voltou o cão sem demora,
Viu a cruz, ficou de fora,
Gritando com a cara torta.

Gritou o cão no terreiro:
— Aqui não posso passar!
Venha me dar minha carta,
Quero pro inferno voltar!
Disse a velha que não dava,
Mas ele continuava
A rinchar como uma besta.
— Pois fecha os olhos! ela diz.
Ele fechou e, com giz,
Fez-lhe outra cruz bem na testa!

Aí entregou-lhe a carta
E o demo pôs-se na estrada,
Dizendo com seus botões:
— Não quero mais caçoada
Com velha que seja sogra,
Porque ela sempre nos logra!
Foi, assim, a murmurar.
Quando no inferno chegou,
O maioral lhe gritou:
— Aqui não podes entrar!

— Então, já não me conhece?
Perguntou ao maioral.
— Conheço, porém, aqui
Não entras com tal sinal:
Estás com uma cruz na testa!
Disse ele: — Que história é esta?
Que é que estás aí dizendo?
Mirou-se dum espelho à luz:
Quando distinguiu a cruz,
Saiu danado, correndo!

E, na carreira em que ia,
Precipitou-se no abismo,
Perdeu o ser diabólico,
Virou-se no caiporismo,
Pela terra se espalhou,
Em todo lugar se achou,
Ao caipora encaiporando,
Embaraçando seus passos
E com traiçoeiros laços
As sogras auxiliando…

Deste fato as testemunhas
Já disse todas quais são.
Agora, quer o senhor
Saber se é exato ou não?
Invoque no espiritismo
Ou pergunte ao caiporismo,
Este que sempre nos logra,
Se sua origem não veio
Do diabo imundo e feio
E do quengo duma sogra!

Cordel Estou de mundaça - Manoel Cordel

Estou de mudança
Pra são Saruê
Eita terra boa
E digo porquê

Lá os rio são de leite
As montanha de rapadura
Pra quarquer moléstia
Lá tem a cura

Lá o rei é meu amigo
E nunca passo fome
Lá ninguém reclama
Lá não falta cama
É dez muié prum home

As coisa que vi por lá
Nunca as vi por cá
Há tanta encantação
Na Canaã do sertão

Quando eu morrer
Lá vou me enterrar
Pra essa terra boa
Meu corpo adubar.

Terra de São Saruê
Aí vou eu...

(Manoel Cordel)

O poeta da roça - Patativa do Assaré

O poeta da roça

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá. 

Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão. 

Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito. 

Eu canto o cabôco com suas caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Brigando com o tôro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão. 

E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte.

Patativa do Assaré
 

Texto Literatura de Cordel - A opinião dos romeiros sobre a canonização do Pe. Cícero pela igreja brasileira

A opinião dos romeiros sobre a canonização do Pe. Cícero pela igreja brasileira
Expedito Sebastião da Silva

No dia 8 de julho
Do ano setenta e três
A Igreja Brasileira
Deciciu por sua vez
Aqui em nossa nação
Do padre Cícero Romão
A canonização fez

Realizou-se em Brasília
Essa canonização
Sendo que do Santo Papa
Não houve autorização
Por aí o leitor veja
Foi à nossa santa igreja
A maior porfanação

Quinhentos e onze padres
No momento se acharam
Também trinta e quatro bispos
Ali se apresentaram
E de jornais e revistas
Centenas de jornalistas
O ato presenciaram

Romeiros da mãe de Deus
Essa canonização
Que a Igreja Brasileira
Fez, não tem efeito não
É uma trama ilusória
Que fere a santa memória
Do padre Cícero Romão

Pois a Igreja Católica
Apostólica Romana
Por ser fundada por Cristo
Tem a ordem soberana
De canonizar na terra
Outra assim fazendo erra
E a boa fé engana

Mesmo o nosso padre Cícero
A luz brilhante do norte
Como um fiel pastor
Foi um baluarte forte
Da Santa Mãe Soberana
E a Igreja Romana
Defendeu até a morte

Deixou no seu testamento
Com toda realidade
Assinada por seu punho
Como cunho da verdade
A prova como um diploma
Pra com a igreja de Roma
A sua fidelidade

O nome do padre Cícero
Ninguém jamais manchará
Porque a fé dos romeiros
Viva permanecerá
Pois nos corações dos seus
Foi ele um santo de Deus
É e pra sempre será

E portanto o padre Cícero
Sempre foi santificado
Pelos seus fiéis romeiros
De quem é bastante amado
Finalmente é uma asneira
A Igreja Brasileira
Fazê-lo canonizado

Essa canonização
Feita, num sistema inculto
Os romeiros consideram
Como um verdadeiro insulto
Que a todo mundo engana
E com cinismo profana
Um admirável vulto

Creio se o padre Cícero
Vivo estivesse com nós
Seria ele o primeiro
A opor-se em alta voz
De forma alguma queria
Por completo repelia
Essa farsa de algoz

Pois ele nos seus sermões
dizia com paciência:
A Santa Igreja Romana
De Deus é a pura essência
Não devemos desprezá-la
Portanto vamos amá-la
Fiéis com obediência

- Sem a Igreja Católica
Apostólica Romana
Ninguém pode se salvar
Porque a alma é profana
Por ser a religião
Que conduz todo cristão
Para a corte soberana

Aí se vê claramente
A grande veneração
E o respeito que tinha
O padre Cícero Romão
Pela igreja de Cristo
Que proveniente a isto
Sofrera perseguição

O padre Cícero com vida
Honrou a sua batina
E à igreja de Cristo
Tinha obediência fina
Não dava nenhum conceito
Q quem faltasse o respeito
Pra com a santa doutrina

Como é que certos padres
Não conheceram direito
O padre Cícero de perto
Procuram com desrespeito
Canonizá-lo por conta?
É à Igreja uma afronta
Ou um rebelde despeito?

Pois a Igreja Romana
De forma nenhuma aprova
Essa canonização
Feita nesta igreja nova
Se eles estão a pensar
Que fácil vão nos laçar
Nos laçarão uma ova!

Ele dizia: O diabo
todos os dias peleja
Para pegar os cristãos
Pois é o que mais deseja
Muitos poderão cair
Se por acaso ele vir
Laçando pela igreja

Mas estamos preparados
Conosco ninguém embroma
Porque é o padre Cícero
Do romeiro e ninguém toma
Que espera conformado
Pra vê-lo canonizado
Por nosso Papa de Roma

Já ouvi alguém dizer
O padre Cícero merece
Ser enfim canonizado
Já que o Papa se esquece
Proveniente a demora
Vem outra igreja de fora
E o seu valor reconhece

Mas a Igreja Romana
Primeiramente precisa
Fazer sobre o indicado
Uma severa pesquisa
Depois de colher com jeito
Todos os dados direitos
É que ela canoniza

Não é só meter a cara
Como quem vai fazer guerra
E ludibriar a fé
Dos cristãos aqui na terra
Assim era ser profana…
Pois a Igreja Romana
De forma nenhuma erra

Aqui não estou falando
Contra a canonização
De que é merecedor
O padre Cícero Romão
Minha pena aqui acusa
A quem dele o nome usa
Fazendo profanação

Acho grande hipocrisia
E desaforo daquele
Que somente por ouvir
Muito falar sobre ele
Quer ao povo se unir
Para bem alto subir
Na sombra do nome dele

Sabem que o padre Cícero
O santo de Juazeiro
Tem romeiros espalhados
Por este Brasil inteiro
Então canonizam ele
Pra fazer do nome dele
Uma chama de dinheiro

Lá no céu o padre Cícero
Não pode estar satisfeito
Vendo o seu santo nome
Maculado desse jeito
E ainda depois disso
Vendo a igreja de Cristo
Sem o devido respeito

Mas ele apesar de tudo
Usará de complacência
Pedirá penalizado
À Divina Providência
Pro castigo revogar
E com amor perdoar
Essa desobediência

Aqui nós do padre Cícero
E da Virgem padroeira
Não estamos de acordo
Com a Igreja Brasileira
O nosso padre estimado
Queremos canonizado
Não assim dessa maneira

Sua canonização
Nós desejamos que seja
Feita pelo Santo Papa
Da forma qu’ele festeja
Mandar então colocá-lo
No altar de toda igreja

Todos seus fiéis romeiros
Que com fé o amam tanto
Num quadro tem ele em casa
No mais destacado canto
Pra quem chegar ali veja
Que só falta à Santa Igreja
Declará-lo como santo

Esperamos que o Papa
Antes que nos venha a morte
Canonize o padre Cícero
E brade numa voz forte:
"EU DECLARO FERVOROSO
SANTO CÍCERO MILAGROSO
DE JUAZEIRO DO NORTE"

(Expedito Sebastião da Silva)

Cordel de Patativa do Assaré - Saudação ao Juazeiro do Norte

Saudação ao Juazeiro do Norte (Patativa do Assaré)

Mesmo sem eu ter estudo
Sem ter do colégio obafejo
Juazeiro, eu te saúdo
Com meu verso sertanejo.
Cidade de grande sorte,
De Juazeiro do Norte
Tens a denominação,
Mas tem nome verdadeiro
Será sempre Juazeiro
De Padre Cícero Romão.

O Padre Cícero Romão
Que, por vocação celeste,
Foi, com direito e razão,
O Apóstolo do Nordeste.
Foi ele o teu protetor
Trabalhou com grande amor,
Lutando sempre de pé
Quando vigário daqui
Ele semeou em ti
A sementeira da fé.

E com milagre estupendo
A sementeira nasceu,
Foi crescendo, foi cerscendo,
Muito ao longe se estendeu
Com a virtude regada
Foi mais tarde transformada
Em árvore frondosa e rica.
E com a luz medianeira
Inda hoje a sementeira
Cresce, flora e frutifica.

Juazeiro, Juazeiro,
Jamais a adversidade
Extinguirá o luzeiro
De tua comunidade.
Morreu o teu protetor,
Porém a crença no amor
Vive e cada coração
E é com razão que me expresso
Tu deves o teu progresso
Ao Padre Cícero Romão.

Aquele ministro amado
Que tanto favor nos fez,
Conselheiro consagrado
E o doutor do camponês,
Contradizer não podemos
E jamais descobriremos
O prodígio que ele tinha.
Segundo a popular crença,
Curava qualquer doença,
Com malva branca e jarrinha.

Juazeiro, Juazeiro,
Tua vida e tua história
Para o teu povo romeiro
Merece um padrão de glória.
De alegria tu palpitas,
Ao receber as visitas
De longe, de muito além.
Grande glória tu viveste!
Do nosso caro Nordeste
Tu és a Jerusalém.

Sempre me lembro e relembro,
Não hei de me deslembrar:
O dia 2 de novembro,
Tua festa espetacular,
Pois vêm de muitos Estados
Os carros superlotados
Conduzindo passageiros
E jamais será feliz
Aquele que contradiz
A devoção dos romeiros.

No lugar onde se achar
Um fervoroso romeiro,
Ai daquele que falar
Contra ou mal, do Juazeiro.
Pois entre os devotos crentes,
Velhos, moços, inocentes,
A piedade é comum,
Porque o santo reverendo
Se encontra ainda vivendo
No peito de cada um.

Tu, Juazeiro, és o abrigo
Da devoção e da piedade.
Eu te louvo e te bendigo
Por tua felicidade,
Me sinto bem, quando vejo
Que tu és do sertanejo
A cidade predileta.
Por tudo quanto tu tens
Recebe estes parabéns
Do coração de um poeta.


(Patativa do Assaré)

Patativa do Assaré - A terra dos posseiros de Deus

A terra dos posseiros de Deus

Esta terra é desmedida
e devia ser comum,
Devia ser repartida
um toco pra cada um,
mode morar sossegado. 

Eu já tenho imaginado
Que a baixa, o sertão e a serra,
Devia sê coisa nossa;
Quem não trabalha na roça,
Que diabo é que quer com a terra?

Patativa do Assaré

Literatura de Cordel - Romance do Pavão Misterioso

Romance do Pavão Misterioso - por José Camelo de Melo Rezende



Eu vou contar uma história
De um pavão misterioso
Que levantou vôo na Grécia
Com um rapaz corajoso
Raptando uma condessa
Filha de um conde orgulhoso.

Residia na Turquia
Um viúvo capitalista
Pai de dois filhos solteiros
O mais velho João Batista
Então o filho mais novo
Se chamava Evangelista.

O velho turco era dono
Duma fábrica de tecidos
Com largas propriedades
Dinheiro e bens possuídos
Deu de herança a seus filhos
Porque eram bem unidos.

Depois que o velho morreu
Fizeram combinação
Porque o tal João Batista
Concordou com o seu irmão
E foram negociar
Na mais perfeita união.

Um dia João Batista
Pensou pela vaidade
E disse a Evangelista:
— Meu mano eu tenho vontade
de visitar o estrangeiro
se não te deixar saudade.

— Olha que nossa riqueza
se acha muito aumentada
e dessa nossa fortuna
ainda não gozei nada
portanto convém qu'eu passe
um ano em terra afastada.

Respondeu Evangelista:
– Vai que eu ficarei
regendo os negócios
como sempre eu trabalhei
garanto que nossos bens
com cuidado zelarei.

– Quero te fazer um pedido:
procure no estrangeiro
um objeto bonito
só para rapaz solteiro;
traz para mim de presente
embora custe dinheiro.

João Batista prometeu
Com muito boa intenção
De comprar um objeto
De gosto de seu irmão
Então tomou um paquete
E seguiu para o Japão.

João Batista no Japão
Esteve seis meses somente
Gozando daquele império
Percorreu o Oriente
Depois voltou para a Grécia
Outro país diferente.

João Batista entrou na Grécia
Divertiu-se em passear
Comprou passagem de bordo
E quando ia embarcar
Ouviu um grego dizer
Acho bom se demorar.

João Batista interrogou:
– Amigo fale a verdade
por qual motivo o senhor
manda eu ficar na cidade?
Disse o grego: – Vai haver
Uma grande novidade.

– Mora aqui nesta cidade
um conde muito valente
mais soberbo do que Nero
pai de uma filha somente
é a moça mais bonita
que há no tempo presente

– É a moça em que eu falo
Filha do tal potentado
O pai tem ela escondida
Em um quarto de sobrado
Chama-se Creuza e criou-se
Sem nunca ter passeado.

– De ano em ano essa moça
bota a cabeça de fora
para o povo adorá-la
no espaço de uma hora
para ser vista outra vez
tem um ano de demora.

O conde não consentiu
Outro homem educá-la
Só ele como pai dela
Teve o poder de ensiná-la
E será morto o criado
Que dela ouvir a fala.

Os estrangeiros têm vindo
Tomarem conhecimento
Amanhã quando ela aparece
No grande ajuntamento
É proibido pedir-se
A mão dela em casamento.

Então disse João Batista
– Agora vou me demorar
pra ver essa condessa
estrela desse lugar
quando eu chegar à Turquia
tenho muito o que contar.

Logo no segundo dia
Creuza saiu na janela
Os fotógrafos se vexaram
Tirando o retrato dela
Quando inteirou uma hora
Desapareceu a donzela.

João Batista viu depois
Um retratista vendendo
Alguns retratos de Creuza
Vexou-se e foi dizendo:
– Quanto quer pelo retrato
porque comprá-lo pretendo.

O fotógrafo respondeu:
– Lhe custa um conto de réis
João Batista ainda disse:
– Eu compro até por dez
se o dinheiro não der
empenharei os anéis.

João Batista voltou
Da Grécia para a Turquia
E quando chegou em Meca
Cidade em que residia
Seu mano Evangelista
Banqueteou o seu dia.

Então disse Evangelista:
– Meu mano vá me contando
se viste coisas bonitas
onde andaste passeando
o que me traz de presente
vá logo entregando.

Respondeu João Batista:
– Para ti trouxe um retrato
de uma condessa da Grécia
moça que tem fino trato
custou-me um conto de réis
ainda achei muito barato.

Respondeu Evangelista
Depois duma gargalhada:
- Neste caso meu irmão
pra mim não trouxe nada
pois retrato de mulher
é coisa bastante usada.

- Sei que tem muitos retratos
mas como o que eu trouxe não
vais agora examiná-lo
entrego em tua mão
quando vires a beleza
mudará de opinião.

João Batista retirou
O retrato de uma mala
Entregou ao rapaz
Que estava de pé na sala
Quando ele viu o retrato
Quis falar tremeu a fala.

Evangelista voltou
Com o retrato na mão
Tremendo quase assustado
Perguntou ao seu irmão
Se a moça do retrato
Tinha aquela perfeição.

Respondeu João Batista
- Creuza é muito mais formosa
do que o retrato dela
em beleza é preciosa
tem o corpo desenhado
por uma mão milagrosa.

João Batista perguntou
Fazendo ar de riso:
- Que é isso, meu irmão
queres perder o juízo?
Já vi que este retrato
Vai te causar prejuízo.

Respondeu Evangelista
- Pois meu irmão eu te digo
vou sair do país
não posso ficar contigo
pois a moça do retrato
deixou-me a vida em perigo.

João Batista falou sério:
- Precipício não convém
de que te serve ir embora
por este mundo além
em procura de uma moça
que não casa com ninguém.

- Teu conselho não me serve
estou impressionado
rapaz sem moça bonita
é um desaventurado
se eu não me casar com Creuza
findo meus dias enforcado.

- Vamos partir a riqueza
que tenho a necessidade
dá balanço no dinheiro
porque eu quero a metade
o que não posso levar
dou-te de boa vontade.

Deram o balanço no dinheiro
Só três milhões encontraram
Tocou dois a Evangelista
Conforme se combinaram
Com relação ao negócio
Da firma se desligaram.

Despediu-se Evangelista
Abraçou o seu irmão
Chorando um pelo outro
Em triste separação
Seguindo um para a Grécia
Em uma embarcação.

Logo que chegou na Grécia
Hospedou-se Evangelista
Em um hotel dos mais pobres
Negando assim sua pista
Só para ninguém saber
Que era um capitalista.

Ali passou oito meses
Sem se dar a conhecer
Sempre andando disfarçado
Só para ninguém saber
Até que chegou o dia
Da donzela aparecer.

Os hotéis já se achavam
Repletos de passageiros
Passeavam pelas praças
Os grupos de cavalheiros
Havia muito fidalgos
Chegado dos estrangeiros.

As duas horas as tarde
Creuza saiu à janela
Mostrando a sua beleza
Entre o conde e a mãe dela
Todos tiraram o chapéu
Em continência à donzela.

Quando Evangelista viu
O brilho da boniteza
Disse: - Vejo que meu mano
Quis me falar com franqueza
Pois esta gentil donzela
É rainha de beleza.

Evangelista voltou
Aonde estava hospedado
Como não falou com a moça
Estava contrariado
Foi inventar uma idéia
Que lhe desse resultado.

No outro dia saiu
Passeando Evangelista
Encontrou-se na cidade
Com um moço jornalista
Perguntou se não havia
Naquela praça um artista.

Respondeu o jornalista:
- Tem o doutor Edmundo
na rua dos Operários
é engenheiro profundo
para inventar maquinismo
é ele o maior do mundo.

Evangelista entrou
Na casa do engenheiro
Falando em língua grega
Negando ser estrangeiro
Lhe propôs um bom negócio
Lhe oferecendo dinheiro.

Assim disse Evangelista:
- Meu engenheiro famoso
primeiro vá me dizendo
se não é homem medroso
porque eu quero custar
um negócio vantajoso

Respondeu-lhe Edmundo
- Na arte não tenho medo
mas vejo que o amigo
quer um negócio em segredo
como precisa de mim
conte-me lá o enredo.

- Eu amo a filha do conde
a mais formosa mulher
se o doutor inventar
um aparelho qualquer
que eu possa falar com ela
pago o que o senhor quiser.

– Eu aceito o seu contrato
mas preciso lhe avisar
que eu vou trabalhar seis meses
o senhor vai esperar
é obra desconhecida
que agora vou inventar.

– Quer o dinheiro adiantado?
Eu pago neste momento
– Não senhor, ainda é cedo
quando terminar o invento
é que eu digo o preço
quanto custa o pagamento.

Enquanto Evangelista
Impaciente esperava
O engenheiro Edmundo
Toda noite trabalhava
Oculto em sua oficina
E ninguém adivinhava.

O grande artista Edmundo
Desenhou nova invenção
Fazendo um aeroplano
De pequena dimensão
Fabricado de alumínio
Com importante armação.

Movido a motor elétrico
Depósito de gasolina
Com locomoção macia
Que não fazia buzina
A obra mais importante
Que fez em sua oficina.

Tinha cauda como leque
As asas como pavão
Pescoço, cabeça e bico
Lavanca, chave e botão
Voava igualmente ao vento
Para qualquer direção.

Quando Edmundo findou
Disse a Evangelista:
— Sua obra está perfeita
ficou com bonita vista
o senhor tem que saber
que Edmundo é artista.

— Eu fiz o aeroplano
da forma de um pavão
que arma e se desarma
comprimindo em um botão
e carrega doze arroba
três léguas acima do chão.

Foram experimentar
Se tinha jeito o pavão
Abriram a lavanca e chave
Encarcaram num botão
O monstro girou suspenso
Maneiro como balão.

O pavão de asas abertas
Partiu com velocidade
Coroando todo o espaço
Muito acima da cidade
Como era meia noite
Voaram mesmo à vontade.

Então disse o engenheiro:
— Já provei minha invenção
fizemos a experiência
tome conta do pavão
agora o senhor me paga
sem promover discussão.

Perguntou Evangelista:
— Quanto custa o seu invento?
— Dê me cem contos de réis
acha caro o pagamento
o rapaz lhe respondeu:
Acho pouco dou duzentos.

Edmundo ainda deu-lhe
Mais uma serra azougada
Que serrava caibro e ripa
E não fazia zuada
Tinha os dentes igual navalha
De lâmina bem afiada.

Então disse o jovem turco:
— Muito obrigado fiquei
do pavão e dos presentes
para lutar me armei
amanhã a meia-noite
com Creuza conversarei.

À meia-noite o pavão
Do muro se levantou
Com as lâmpadas apagadas
Como uma flecha voou
Bem no sobrado do conde
Na cumeeira pousou.

Evangelista em silêncio
Cinco telhas arredou
Um buraco de dois palmos
Caibros e ripas serrou
E pendurado numa corda
Por ela escorregou.

Chegou no quarto de Creuza
Onde a donzela dormia
Debaixo do cortinado
Feito de seda amarela
E ele para acordá-la
Pôs a mão na testa dela.

A donzela estremeceu
Acordou no mesmo instante
E viu um rapaz estranho
De rosto muito elegante
Que sorria para ela
Com um olhar fascinante.

Então Creuza deu um grito:
— Papai um desconhecido
entrou aqui no meu quarto
sujeito muito atrevido
venha depressa papai
pode ser algum bandido.

O rapaz lhe disse: — Moça
Entre nós não há perigo
Estou pronto a defendê-la
Como um verdadeiro amigo
Venho é saber da senhora
Se quer casar-se comigo.

De um lenço enigmático
Que quando Creuza gritava
Chamando o pai dela
Então o moço passava
Ele no nariz da moça
Com isso ela desmaiava.

O jovem puxou o lenço
Ao nariz da moça encostou
Deu uma vertigem na moça
De repente desmaiou
E ele subiu na corda
Chegando em cima tirou.

Ajeitou os caibros e ripas
E consertou o telhado
E montando em seu pavão
Voou bastante vexado
Foi esconder o aparelho
Aonde foi fabricado.

O conde acordou aflito
Quando ouviu essa zuada
Entrou no quarto da filha
Desembainhou a espada
Encontrou-a sem sentido
Dez minutos desmaiada.

Percorreu todos os cantos
Com a espada na mão
Berrando e soltando pragas
Colérico como um leão
Dizendo: — Aonde encontrá-lo
Eu mato esse ladrão.

Creuza disse: — Meu pai
Pois eu vi neste momento
Um jovem rico e elegante
Me falando em casamento
Não vi quando ele encantou-se
Porque me deu um passamento.

Disse o conde: — Nesse caso
Tu já estás a sonhar
Moça de dezoito anos
Já pensando em se casar
Se aparecer casamento
Eu saberei desmanchar.

Evangelista voltou
Às duas da madrugada
Assentou seu pavão
Sem que fizesse zuada
Desceu pela mesma trilha
Na corda dependurada.

E Creuza estava deitada
Dormindo o sono inocente
Seus cabelos como um véu
Que enfeitava puramente
Como um anjo de terreal
Que tem lábios sorridentes.

O rapaz muito sutil
Foi pegando na mão dela
Então a moça assustou-se
Ele garantiu a ela
Que não eram malfazejos:
— Não tenha medo donzela.

A moça interrogou-o
Disse: — Quem é o senhor
Diz ele: — Sou estrangeiro
Lhe consagrei grande amor
Se não fores minha esposa
A vida não tem valor.

Mas Creuza achou impossível
O moço entrar no sobrado
Então perguntou a ele
De que jeito tinha entrado
E disse: — Vai me dizendo
Se és vivo ou encantado.

Como eu lhe tenho amizade
Me arrisco fora de hora
Moça não me negue o sim
A quem tanto lhe adora!
Creuza aí gritou: — Papai
Venha ver o homem agora.

Ele passou-lhe o lenço
Ela caiu sem sentido
Então subiu na corda
Por onde tinha descido
Chegou em cima e disse:
— O conde será vencido.

Ouviu-se tocar a corneta
E o brado da sentinela
O conde se dirigiu
Para o quarto da donzela
Viu a filha desmaiada
Não pode falar com ela.

Até que a moça tornou
Disse o conde: — É um caso sério
Sou um fidalgo tão rico
Atentado em meu critério
Mas nós vamos descobrir
O autor do mistério.

— Minha filha, eu já pensei
em um plano bem sagaz
passa essa banha amarela
na cabeça desse audaz
só assim descobriremos
esse anjo ou satanás.

— Só sendo uma visão
que entra neste sobrado
só chega à meia-noite
entra e sai sem ser notado
se é gente desse mundo
usa feitiço encantado.

Evangelista também
Desarmou seu pavão
A cauda, a capota, o bico
Diminuiu a armação
Escondeu o seu motor
Em um pequeno caixão.

Depois de sessenta dias
Alta noite em nevoeiro
Evangelista chegou
No seu pavão bem maneiro
Desceu no quarto da moça
A seu modo traiçoeiro.

Já era a terceira vez
Que Evangelista entrava
No quarto que a condessa
À noite se agasalhava
Pela força do amor
O rapaz se arriscava.

Com um pouco a moça acordou
Foi logo dizendo assim:
— Tu tens dito que me amas
com um bem-querer sem fim
se me amas com respeito
te senta juntos de mim.

Evangelista sentou-se
Pôs-se a conversar com ela
Trocando o riso esperava
A resposta da donzela
Ela pôs-lhe a mão na testa
Passou a banha amarela.

Depois Creuza levantou-se
Com vontade de gritar
O rapaz tocou-lhe o lenço
Sentiu ela desmaiar
Deixou-a com uma síncope
Tratou de se retirar.

E logo Evangelista
Voando da cumeeira
Foi esconder seu pavão
Nas folhas de uma palmeira
Disse: — Na quarta viagem
Levo essa estrangeira.

Creuza então passou o resto
Da noite mal sossegada
Acordou pela manhã
Meditava e cismada
Se o pai não perguntasse
Ela não dizia nada.

Disse o conde: — Minha filha
Parece que estás doente?
Sofreste algum acesso
Porque teu olhar não mente
O tal rapaz encantado
Te apareceu certamente.

E Creuza disse: — Papai
Eu cumpri o seu mandado
O rapaz apareceu-me
Mas achei-o delicado
Passei-lhe a banha amarela
E ele saiu marcado.

O conde disse aos soldados
Que a cidade patrulhassem
Tomassem os chapéus de
Quem nas ruas encontrassem
Um de cabelo amarelo
Ou rico ou pobre pegassem.

Evangelista trajou-se
Com roupa de alugado
Encontrou-se com a patrulha
O seu chapéu foi tirado
Viram o cabelo amarelo
Gritaram: — Esteja intimado!

Os soldados lhe disseram:
— Cidadão não estremeça
está preso a ordem do conde
e é bom que não se cresça
vai a presença do conde
se é homem não esmoreça.

— Você hoje vai provar
por sua vida responde
como é que tem falado
com a filha do nosso conde
quando ela lhe procura
onde é que se esconde.

Evangelista respondeu:
— Também me faça um favor
enquanto vou me vestir
minha roupa superior
na classe de homem rico
ninguém pisa meu valor.

Disseram: — Pode mudar
Sua roupa de nobreza
A moça bem que dizia
Que o rapaz tinha riqueza
Vamos ganhar umas luvas
E o conde uma surpresa.

Seguiu logo Evangelista
Conversando com o guarda
Até que se aproximaram
Duma palmeira copada
Então disse Evangelista:
— Minha roupa está trepada.

E os soldados olharam
Em cima tinha um caixão
Mandaram ele subir
E ficaram de prontidão
Pegaram a conversar
Prestando pouca atenção.

Evangelista subiu
Pôs um dedo no botão
Seu monstro de alumínio
Ergueu logo a armação
Dali foi se levantando
Seguiu voando o pavão.

E os soldados gritaram:
— Amigo, o senhor se desça
deixe de tanta demora
é bom que não aborreça
senão com pouco uma bala
visita sua cabeça.

Então mandaram subir
Um soldado de coragem
Disseram: — Pegue na perna
Arraste com a folhagem
Está passando na hora
De voltarmos da viagem.

Quando o soldado subiu
Gritou: — Perdemos a ação
Fugiu o moço voando
De longe vejo um pavão
Zombou de nossa patrulha
Aquele moço é o cão.

Voltaram e disseram ao conde
Que o rapaz tinham encontrado
Mas no olho de uma palmeira
O moço tinha voado
Disso o conde: — Pois é o cão
Que com Creuza tem falado.

Creuza sabendo da história
Chorava de arrependida
Por ter marcado o rapaz
Com banha desconhecida
Disse: — Nunca mais terei
Sossego na minha vida.

Disse Creuza: — Ora papai
Me prive da liberdade
Não consente que eu goze
A distração da cidade
Vivo como criminosa
Sem gozar a mocidade.

— Aqui não tenho direito
de falar com um criado
um rapaz para me ver
precisa ser encantado
mas talvez ainda eu fuja
deste maldito sobrado.

— O rapaz que me amou
só queria vê-lo agora
para cair nos seus pés
como uma infeliz que chora
embora que eu depois
morresse na mesma hora.

— Eu sei que para ele
não mereço confiança
quando ele vinha aqui
ainda eu tinha esperança
de sair desta prisão
onde estou desde de criança.

Às quatro da madrugada
Evangelista desceu
Creuza estava acordada
Nunca mais adormeceu
A moça estava chorando
O rapaz lhe apareceu.

O jovem cumprimentou-a
Deu-lhe um aperto de mão
A condessa ajoelhou-se
Para pedir-lhe perdão
Dizendo: — Meu pai mandou
Eu fazer-te uma traição.

O rapaz disse: — Menina
A mim não fizeste mal
Toda a moça é inocente
Tem seu papel virginal
Cerimônia de donzela
É uma coisa natural.

— Todo o seu sonho dourado
é fazer-te minha senhora
se quiseres casar comigo
te arrumas e vamos embora
senão o dia amanhece
e se perde a nossa hora.

— Se o senhor é homem sério
e comigo quer casar
pois tome conta de mim
aqui não quero ficar
se eu falar em casamento
meu pai manda me matar.

— Que importa que ele mande
tropas e navios pelos mares
minha viagem é aérea
meu cavalo anda nos ares
nós vamos sair daqui
casar em outros lugares.

Creuza estava empacotando
O vestido mais elegante
O conde entrou no quarto
E dando um berro vibrante
Gritando: — Filha maldita
Vais morrer com o seu amante.

O conde rangendo os dentes
Avançou com passo extenso
Deu um pontapé na filha
Dizendo: — Eu sou quem venço
Logo no nariz do conde
O rapaz passou o lenço.

Ouviu-se o baque do conde
Porque rolou desmaiado
A última cena do lenço
Deixou-o magnetizado
Disse o moço: -Tem dez minutos
Para sairmos do sobrado.

Creuza disse: — Eu estou pronta
Já podemos ir embora
E subiram pela corda
Até que sairam fora
Se aproximava a alvorada
Pela cortina da aurora.

Com pouco o conde acordou
Viu a corda pendurada
Na coberta do sobrado
Distinguiu uma zuada
E as lâmpadas do aparelho
Mostrando luz variada.

E a gaita do pavão
Tocando uma rouca voz
O monstro de olho de fogo
Projetando os seus faróis
O conde mandando pragas
Disse a moça: — É contra nós.

Os soldados da patrulha
Estavam de prontidão
Um disse: — Vem ver fulano
Aí vai passando um pavão
O monstro fez uma curva
Para tomar direção.

Então dizia um soldado
— Orgulho é uma ilusão
um pai governa uma filha
mas não manda no coração
pois agora a condessinha
vai fugindo no pavão.

O conde olhou para a corda
E o buraco do telhado
Como tinha sido vencido
Pelo rapaz atilado
Adoeceu só de raiva
Morreu por não ser vingado.

Logo que Evangelista
Foi chegando na Turquia
Com a condessa da Grécia
Fidalga da monarquia
Em casa do seu irmão
Casaram no mesmo dia.

Em casa de João Batista
Deu-se grande ajuntamento
Dando vivas ao noivado
Parabéns ao casamento
À noite teve retreta
Com visita e cumprimento.

Enquanto Evangelista
Gozava imensa alegria
Chegava um telegrama
Da Grécia para Turquia
Chamando a condessa urgente
Pelo motivo que havia.

Dizia o telegrama:
"Creuza vem com o teu marido
receber a tua herança
o conde é falecido
tua mãe deseja ver
o genro desconhecido."

A condessa estava lendo
Com o telegrama na mão
Entregou a Evangielista
Que mostrou ao seu irmão
Dizendo: — Vamos voltar
Por uma justa razão.

De manhã quando os noivos
Acabaram de almoçar
E Creuza em traje de noiva
Pronta para viajar
De palma, véu e capela
Pois só vieram casar.

Diziam os convidados:
— A condessa é tão mocinha
e vestida de noiva
torna-se mais bonitinha
está com um buquê de flor
séria como uma rainha.

Os noivos tomaram assento
No pavão de alumínio
E o monstro se levantou-se
Foi ficando pequenino
Continuou o seu vôo
Ao rumo do seu destino.

Na cidade de Atenas
Estava a população
Esperando pela volta
Do aeroplano pavão
Ou o cavalo do espaço
Que imita um avião.

Na tarde do mesmo dia
Que o pavão foi chegado
Em casa de Edmundo
Ficou o noivo hospedado
Seu amigo de confiança
Que foi bem recompensado.

E também a mãe de Creuza
Já esperava vexada
A filha mais tarde entrou
Muito bem acompanhada
De braço com o seu noivo
Disse: — Mamãe estou casada.

Disse a velha: — Minha filha
Saíste do cativeiro
Fizeste bem em fugir
E casar no estrangeiro
Tomem conta da herança
Meu genro é meu herdeiro.