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O mal e o sofrimento - Leandro Gomes de Barros

O mal e o sofrimento 

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

Barros Alves - Na Lama

Na lama

Na lama estamos todos mergulhados
Já desde a mais remota antiguidade
Quando os primeiros seres lá criados
Vagavam em busca de felicidade.

No tempo, caminhando amedrontados,
Só encontramos dores e maldade,
E mil mentiras, gestos abusados,
Vilezas, traições, deslealdade.

Caminheiros, pois, enlameados
Por angústias, dores e atos vis,
Somos todos carentes da Verdade.

Pra tudo há respostas pueris:
- “Não temais, ó incréus desesperados,
Pois tudo é como quer a Divindade”.

Barros Alves


A Solidão e Sua Porta - Carlos Pena Filho

A Solidão e Sua Porta
 
Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

Arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

Carlos Pena Filho

Canto do homem cotidiano - Ildásio Tavares

Canto do homem cotidiano
Eu canto o homem vulgar, desconhecido
Da imprensa, do sucesso, da evidência
O herói da rotina,
O rei do pijama,
O magnata
Do décimo terceiro mês,
O play-boy das mariposas
O imperador da contabilidade.

Esse que passa por mim
Que nunca vi outro assim.

Esse que toma cerveja
E cheira mal quando beija.

Esse que nunca é elegante
E fede a desodorante.

Esse que compra fiado
E paga sempre atrasado.

Esse que joga no bicho
E atira a pule no lixo.

Esse que sai no jornal
Por atropelo fatal.

Esse que vai ao cinema
Para esquecer seu problema.

Esse que tem aventuras
Dentro do beco às escuras.

Esse que ensina na escola
E sempre sofre da bola.

Esse que joga pelada
E é craque da canelada.

Esse que luta e se humilha
Pra casar bem sua filha.

Esse que agüenta o rojão
Pro filho ter instrução.

Esse que só se aposenta
Quando tem mais de setenta.

Esse que vejo na rua
Falando da ida a lua.

Eu canto esse mesmo, exatamente
Esse que sonhou em, mas nunca vai
Ser:
Acrobata,
Magnata,
Psiquiatra,
Diplomata,
Astronauta,
Aristocrata.
(É simplesmente democrata)
Almirante,
Traficante,
Viajante,
Caçador de
Elefante
(Vive só como aspirante)
Pintor, compositor
Senador, sabotador
Escritor ou Diretor
(É apenas sonhador)
Pistoleiro,
Costureiro,
Terrorista,
Vigarista
Delegado,
Deputado,
Galã na tela
Ou mesmo em telenovela,
Marechal,
Industrial,
Presidente,
Onipotente,
(Ele é simplesmente gente)
E, inconsciente marcha pela vida
buscando no seu bairro
Na cidade lá do interior,
No escritório, consultório
No ginásio,
Na repartição,
Na rua, no mercado, em toda a parte
Somente uma razão
Para poder dormir com a esperança
E de manhã, na hora do encontro
Com o espelho, ao fazer a barba,
Ver o reflexo do campeão,

Mas que, na frustração cotidiana,
Vai encontrando aos poucos sua glória
Por isso eu canto a luta sem memória
Desse homem que perde, e não se ufana
De no rosário de derrotas várias
E de omissões, e condições precárias
Poder contar com uma só vitória
Que não se exprime nas mentiras tantas
Espirradas sem medo das gargantas
Mas sim no que ele vence sem saber
E não se orgulha, campeão na história
Da eterna luta de sobreviver.

Ildásio Tavares



A Beleza do Viver - Carlos Silva

A Beleza do Viver
Não olhe para o dia com tanta tristeza
Sinta a energia e os raios do sol veja quanta beleza
Existe em seu interior
A felicidade de viver, a leveza do ser
Quando se tem um amor

A beleza do viver um final de tarde
Em palacete por ser um lorde
Ou em casebre, por ter aparência de pobre
Onde se reencontrar com o amor
Onde estará o sentimento dos nobres

Não me olhes com tristeza
Desfrute do mundo e de suas belezas
Distribua sorrisos em sua caminhada
Viva um amor com a leveza das plumas
Que surgira uma nova esperança...

Carlos Silva

Paulo Leminski - Leite, leitura

Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura.

Paulo Leminski



O caminho do pão - Belinha Neves

O caminho do pão

Toc, toc, toc, toc.
O trote do velho burro
é cansado, na vereda.

O babaçu que balança
é chumbo e fogo no seu lombo
rasgado pela espora.

Com o gemido espasmódico,
pelo rabo lhe escorre
massa fresca com (o)dor.

Para trás, finca o estrume.
Bem atrás, fala o chicote:
vida e morte se abraçam.

E o suor do roceiro
se (re)parte entre aqueles
que não roçam.


Belinha Neves

Pedaço do mundo - Belinha Neves

Pedaço do mundo

Quero beber a luz que vitaliza,
quero abraçar a lua cheia e a brisa,
quero beijar a mata não pisada,
quero engolir o rio e a madrugada.

Quero apagar a dor mais traiçoeira,
quero limpar o poço e a poeira,
quero matar o algoz que me tortura,
quero lavar da mente esta loucura.

Quero descer a escada não pisada
e cultivar o solo, de mãos dadas:
desnudar os mistérios, um a um,
e ser uma planta de raiz comum.


Isabel Dias Neves (Belinha)

Dias iguais - Frederico de Castro

dias iguais
trespassam o monótono
refrão que brota no precipício
onde a vida se devora tranquilamente

dias iguais
outros céus revestidos de azuis prolíferos
onde tudo nos habita
nos limita sem limite
na alma
no canto
no amor
em cada oração da manhã
renascida...indolor

Frederico de Castro

Apesar dos Pesares - Raul Seixas

Apesar dos Pesares

Vou gostar de você
Como gosto do mar
Mergulhar em você
Me perder
Me encontrar

Ai, como é linda essa vida
Apesar da miséria
Apesar dessa fome
Aquele beijo com gosto de coca
O meu coração bate e toca
Vale a pena viver.

Raul Seixas


Caminhos - Aloísio de Castro

Caminhos

Caminhos da minha vida,
Caminhos do meu andar...
Errando entre ida e venida
Andei a terra, andei o mar.
Esperança deu-me alento
E, as asas livres no azul,
A correr mundo com o vento
Voei ao norte, voei ao sul.
Vales, plainos, bosques, montes,
Caminhos chãos, campo em flor,
De todos os horizontes
Vi abrir-se o resplendor.
Largado pelas estradas,
Romeiro cheio de pó,
De sol a sol, caminhadas,
Peregrinei, crente e só.
Cruzei o mar, velas soltas,
Vi o deserto e os areais
E o rio com as suas voltas,
Sem duas voltas iguais.
Entre alegria e gemidos,
Pelo sonho divaguei.
Ah, meus caminhos perdidos
A que não mais tornarei!
Onde agora, incerto passo,
Me levas na vida, ao léu?
Nos infinitos do espaço,
Deixa-me ir dos céus ao céu.
Onde a entrada, onde a saída?
Quem vai não sabe voltar.
Caminhos da minha vida,
Caminhos do meu andar...

Aloísio de Castro



A Vida tem dois caminhos - Adelmar Tavares

A Caminhos Vida TEM Dois

A Vida Caminhos TEM Dois.
Hum, todo Cheio de flores,
Cheio de tarefas, Outro, de Espinhos ...

Uns Pela estrada florida,
passam, Bem Longe das Dores,
Só tendão de flores na Vida.

To Us Link, Bem tristes, se Vao,
trazendo OS PES Nos Espinhos,
Espinhos e no Coração.

*

Deus! Senhor dos Dois Caminhos
da Vida Que a Gente Trilha,
TEM pena de Minha Filha,
da Filha de meus amores
Que É TÃO pequenina, ASSIM ...
Junca-LHE a estrada de flores!
Deixa Espinhos parágrafo MIM!

(Luz dos Olhos MEUS, Myriam, 1912)

Adelmar Tavares

fonte: www.academia.org.br

Poesia - Eduardo Ramos

POESIA
(sem título, transcrita de um álbum)

Quero... porém, sem querer...
Amo, e muito... sem amar...
Tenho um prazer... sem prazer...
Sou como quem busca ver -
mas... que prefere cegar...

Se eu dissesse: "Não!" mentia.
Se: "Sim!" faltava à verdade.
Tenho a calma... da agonia:
Metade, sou de alegria,
Sou de dor a outra metade...

Que a face alegre aparente...
Que importa? - a face escondida,
Como n’água transparente,
Vê-se um tumulto latente
No fundo de minha vida...

Porque... Quero... sem querer.
Amo e muito... sem amar,
Sofro do próprio prazer...
Mando a minh’alma dizer,
E ela me manda calar...

(O Jornal, 28.01.1934.)

Eduardo Ramos

fonte: www.academia.org.br

O estado de ser feliz - Carlo dos Santos


O estado de ser feliz 

Não adianta perseguir a tão sonhada felicidade, se você ainda não encarou a dura realidade de aceitar que a vida é feita de altos e baixos, e que a felicidade pode estar nas coisas mais simples da existência. A felicidade é feita de momentos, ninguém é feliz o tempo todo. Talvez a paz de espírito seja a melhor sensação de felicidade, e essa paz, só quem pode te dar, é você mesmo. Faça o bem, se afaste daquilo que te faz mal, não hesite em perdoar teu irmão. A felicidade está naquilo que tu amas, e se tu amares a vida, então estará cada vez mais próximo do estado de ser feliz.

Carlo dos Santos


Os ciganos - Raimundo Correia

Os ciganos

A Jose Veríssimo


Um adia, ao fim de incomoda jornada,
De uma longa jornada por mim feita,
Com perigos não menos do que danos,
Ao crepúsculo vi, na volta estreita
De sinuosa estrada,
Três farrapados, míseros ciganos.

Um ─ de viola amiga, unida ao peito,
Dedilhando as corda, indolente,
Tirava brandos sons... Que ar satisfeito!
No seu moreno rosto, que o poente
De rubra e vigorosa cor tingia!

Outro ─ aspirando o seu cachimbo, ocioso,
Nas aspirais do fumo azul deixava
Pascerem-se-lhe os olhos, descuidoso...
E tinha, entre farrapos, o ar tranqüilo,
O ar de quem de mais nada precisava,
O de quem para bastava aquilo.

Dormia o ultimo à sombra da ramagem,
E sobre a oscilar ─ quadro risonho! ─
Pendia um par de címbalos que a aragem
Ressonava ao passar, leve e fugace...
Também a doce aragem de algum sonho
Pelo seu coração talvez passasse...

Os três ciganos míseros... Que digo?
Míseros somos nós; mísero o louco,
Como eu ou tu, amigo,
Que, tendo em muito o que eles têm em pouco,
Em pós de um sonho vão em vão se cansa.
Qual! nem esse apetite imoderado
De gloria e de fortuna;
Nem viver da saudade e da esperança;
Nem rever o passado,
Ou prever o futuro a alma conforta.

Antes pela existência andar à tuna:
Sono, viola e fumo, e ao Deus dará...
O que passou, já lá se foi ─ que importa? ─
E o que há de vir, por sua vez virá!
Para a dor de viver, que nos devasta
E que o beijo nenhum de amor consola,
Os ciganos fizeram-me sentir,
Que, das três coisas, uma só nos basta:
Tocar viola, fumar cachimbo, ou dormir.

Raimundo Correia

Mario Quintana - A canção da vida

A canção da vida

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

Mario Quintana

Até o Fim - Walmir Ayala

Até o Fim

Até o fim com esta garganta
e estes olhos
líquidos, até o fim
com estas mãos
trémulas.

Até o fim com estes pés exaustos
e estes lábios costurados
ao pé da noite. Até o fim
sem dizer nada.

Até o fim estes canais premindo
o sangue.
Até o fim o obrigatório oxigénio
sobrevivência
no abstracto
difícil ar.

Até o fim a tinta ilesa do amor
na alma,
até que quebrem as epidermes
desta mentira,
e o fim prossiga
até o fim.

Walmir Ayala


Breves São os Anos - Ricardo Reis

Breves São os Anos

No breve número de doze meses
O ano passa, e breves são os anos,
Poucos a vida dura.
Que são doze ou sessenta na floresta
Dos números, e quanto pouco falta
Para o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido, do curso
Que me é imposto correr descendo, passo.
Apresso, e breve acabo.
Dado em declive deixo, e invito apresso
O moribundo passo.

Ricardo Reis
Heterônimo de Fernando Pessoa