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O Paradoxo - Augusto de Lima

O PARADOXO
Quem pôde jamais dizer-me
com certeza donde vim,
se sou simplesmente um verme,
ou se Deus está em mim?

Mistério! a vida eu a sinto
como um fluido incandescente
nas veias; porém não minto
dizendo que a acho excelente...

Mata-me o tédio do mundo
e nisto encontro prazer.
Como Hamlet meditabundo,
agito o “ser e não ser”.

Sou uma antítese viva,
talvez um sonho do caos,
extrato que Javé ou Silva
fez dos gênios bons e maus.

Contrastes me não surpreendem:
fascina-me o Bem; o Mal
tem atrações que me prendem
dentro de um fosso fatal.

A metafísica nunca
fez cousas tão encontradas:
sou rico, e habito a espelunca,
choro, dando gargalhadas.

Às vezes, até duvido
se sou, e me palpo então,
e no vivo peito ardido
sinto da Morte a canção.

É que ardem no paraíso
infernos, engana o amor,
o lábio mente e o sorriso
é uma paródia da dor.

Augusto de Lima


Flor Carnívora - Augusto de Lima

FLOR CARNÍVORA

A Lucindo Filho.

Há uma flor de lindo aspecto
e colorido brilhante,
cujo perfume fragrante
atrai ao cálix o inseto.

As asas fechando e abrindo,
este o mel nectáreo bebe,
no entanto a flor o recebe,
as pétalas contraindo.

Contrai-se e se abotoa,
e tanto os nervos constringe
que a corola o suor tinge
da seiva fecunda e boa.

E na rescendente cela
o aventureiro encerrado,
depois de a flor ter sugado,
ei-lo sugado por ela.

Tal a sorte da alma louca,
que atraída pelo gozo,
o doce filtro amoroso
vai beber em tua boca.

Pois és a imagem exata
da bela flor assassina,
que melifica e fascina,
perfuma, seduz e mata.

Augusto de Lima



A serenata - Augusto de Lima

A SERENATA

A.D. Olga de Suckow

Plenilunio de Maio em montanhas de Minas!
Canta, ao longe, uma flauta e um violoncello chora.
Perfuma-se o luar nas flôres das campinas,
subtilisa-se o aroma em languidez sonora.

Ao doce encantamento azul das cavatinas,
nessas noutes de luz mais bellas do que a aurora,
as errantes visões das almas peregrinas
vão voando a cantar pela amplidão afôra...

E chora o violoncello e a flauta, ao longe, canta.
Das montanhas, cantando, a nevoa se levanta,
banhada de luar, de sonhos, de harmonia.

Com profano rumor, porém, desponta o dia,
e na ultima porção da nevoa transparente
a flauta e o violoncello expiram lentamente.

Augusto de Lima

Riso e Pranto - Augusto de Lima

RISO E PRANTO

Duas frações o grande todo humano
encerra: uma que ri, outra que chora.
Dúplice monstro, contrastando Jano,
tem numa face - a noite e noutra - a aurora.

Mas em seu seio eternamente mora,
como o pólipo no profundo oceano,
a dor que o riso mentiroso inflora,
a mesma dor que verte o pranto insano.

Basta que riso ou lágrima ressume
da contração de um músculo irritado,
temos amor, pesar, ódio ou ciúme.

Nem sempre o riso é uma expressão de agrado,
e às vezes quem mais chora se presume
feliz, por parecer mais desgraçado.

Augusto de Lima

Mundo Interior - Augusto de Lima

MUNDO INTERIOR
Quem me vê meditabundo
e de olhos fechados, brada:
“Eis uma alma encarcerada,
indiferente a este mundo.”

Mal sabe a turba inexperta
que, por mais que se retraia
de nossa matéria a raia,
mais a razão se liberta

Pois, da abstração da Utopia
surge não raro um compasso;
é um sonho infinito o espaço,
mas real a Astronomia.

Se sondo, investigo, estudo,
buscando a ciência que almejo,
fito os astros,- nada vejo,
cerro os olhos, - vejo tudo.

Nas horas em que medito,
(quão breves são essas horas!)
em minha alma abrem-se auroras
com portas para o infinito.

Nesse mundo de esplendores,
com os sentidos devoro
o acorde, prisma sonoro,
o prisma, acorde das cores.

E para que mais me encante,
o pensamento divino
torna-me o olfato mais fino
e a vista mais penetrante.

Quanto à minha alma, entretém-na
a harmonia eternamente;
porque o silêncio inclemente
só na matéria é que reina.

Augusto de Lima


O cético - Augusto de Lima

O CÉTICO

“Percorro da ciência o labirinto,
e em tudo encontro um eco duvidoso:
matéria vã, espírito enganoso,
mentis, tudo é mentira, eu só não minto.

Vejo, é verdade, a vida e a vida sinto,
o calórico, a luz, a dor e o gozo,
a natureza em flor, o sol formoso
e o céu das cores da Aliança tinto.

Mas quem, senão eu mesmo, vê tudo isto?
e quem pode afirmar-me que eu existo,
visões celestes, velhas nebulosas?”

E em seu crânio a razão desponta e morre,
como o santelmo fátuo, que discorre
na solidão das minas tenebrosas.

Augusto de Lima


Augusto de Lima - A descida

A descida
Homem remove este rochedo e a rara
galeria interior contempla e estuda;
desce, e da terra pela ossada muda
leva tua razão de ciência avara.

Na treva expira a luz há pouco clara,
o ar em sulfúreo gaz já se transmuda
coragem! desce, e os séculos saúda,
desce mais, desce mais... agora pára.

Mas não! lá fulge um fogo subterrâneo:
- e mergulhas no cérebro do globo,
- e lhe penetras de outro lado o crânio.

Desce! não! sobre agora; um brilho intenso
banha-te o corpo, e num heróico arroubo
eis-te boiando no oceano imenso.

Augusto de Lima 


Sonho Transformista - Augusto de Lima

SONHO TRANSFORMISTA

A Gaspar da Silva.

O giro do Ser é vário,
do Tempo ao eterno escopro.
O gozo de hoje é precário,
e foge-nos como um sopro.

Quem diz que a flor no pedúnculo
não é uma alma a cismar,
e que os brilhos do carbúnculo
não são chamas de um olhar?

A podridão é antiética;
cria os vermes e os perfumes,
e na sua treva hermética
palpitam ridentes lumes.

É uma retorta o ossuário,
em que se fabricam flores;
do humor frio de um sudário
fazem-se as tintas das cores.

É monótona a existência
antes da Dissolução;
só depois a nossa essência
paira livre na amplidão.

Ou pelo deserto lívido
vai correndo errante, errante...
ou da flor no cálix vívido
se faz perfume fragrante.

Arranquem-me a ardente túnica
da vida agitada e vã:
vejam, minha ambição única
é de ser lírio amanhã.

Augusto de Lima