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Esperança - Emiliano Perneta


Esperança 

Entre o Odio e o Amôr, eu vivo a debater-me. 
Quando não sangra o Amôr, não ruge o Amôr, porém, 
Quando aos pés me não calca o Odio, como um verme, 
É o Tedio quem me vê com os olhos do desdém. 

E oh ! das mãos desse fauno cupido, eu inerme, 
Tal que si fosse uma donzella, uma cecém, 
Sentindo que me vão ferir, que vão perder-me, 
Tento escapar... Em vão ! O monstro me detém... 

Tudo, tudo me causa horror. A vida, emfim, 
Como um castello desabou neste momento... 
Mas, ah ! que uma mulher passa a roçar por mim... 

E eu esquecido já do mal que ella me fez, 
Vendo-a sorrir, assim, mais leve do que o vento 
Atraz della saí correndo, inda uma vez ! 

Emiliano Perneta

Espectro - Emiliano Perneta


Espectro

Chego, fecho-me aqui no quarto. Lá por fóra 
Ruge o vento de dôr. Bate desesperada 
A chuva nos vitraes. Eu estou só. Agora 
Completamente só. E a noite é gelada. 

Soffro. Quero illudir a minha dôr que chora. 
Folheio este volume e não comprehendo nada. 
Tento escrever, em vão. Mais, eis que sem demora, 
Noto que a porta foi como que descerrada... 

É alguem, alguem talvez... Meu coração se pasma, 
Todo o meu ser emfim tremulo se retráe : 
Vejo pé ante pé chegar esse fantasma... 

Entra. Senta-se aqui. Olha-me bem de frente, 
Melancolicamente e dolorosamente, 
E sem dizer palavra, em seguida, elle sae !

Emiliano Perneta

Setembro - Emiliano Perneta

Setembro
Eu ontem vi chegar, quase que à noitezinha,
Apressada e sutil, a primeira andorinha...

É a primavera, pois, em flor, que se anuncia,
É setembro que vem, bêbedo de ambrosia.

Mãos doiradas, a rir, mãos leves e radiosas,
Semeando à luz e ao vento as papoulas e as rosas...

Como foi para nós de um esquisito gozo,
Ó minha alma! esse doce, esse breve repouso,

Que entre o nosso viver tumultuário e incerto
Surgiu como se fosse o oásis do deserto...

Emiliano Perneta



Para um coração - Emiliano Perneta


Um dia, vi-te, assim, bailando,
E a uma pergunta, que te fiz,
Tu respondeste : "Eu amo, e quando,
E quando eu amo, eu sou feliz!"

Por uma noite perfumada,
Cantaste, sobre o teu balcão.
E eu disse, ouvindo a áurea balada :
- Ah! Que feliz é o coração!

Quanta felicidade, quanta,
Não há ninguém feliz assim :
Um dia baila e noutro canta,
Como se fosse um arlequim...

Eu disse .. Mas agora vejo,
Nesse silêncio tumular,
Que estás sofrendo, e o teu desejo
Já não é mais o de bailar...

Nem de bailar, e nem, de certo
De nada mais, de nada mais...
Que fazes, pois, triste deserto,
Que fazes pois, que não te vais?

Mas, choras, creio, choras? Onde?
Se viu chorar um Lucifer?
Pobre diabo, vamos, esconde
Essas fraquezas de mulher...