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Poemas de Lobo da Costa - O Rei e o Operário

O Rei e o Operário
— O que vales, junto à forja,
Cingindo o sujo avental?
— E a ti que te vale a gorja
Do teu diadema real?

— Eu mando tropas e armadas,
Sustenho povos na mão...

— Pois eu tempero as espadas,
Que fazem a revolução!

— E eu tenho um cetro que ao vê-lo
Curvam-se as raças fiéis...

— Pois eu possuo o martelo
Que prega a forca dos reis!

— És um divino espantalho. . .

— E tu, que vales, vilão?!
— Eu forjo o anel do trabalho,
Tu forjas a escravidão*

— Eu tenho o sangue que deve
Recordar-me os faraós...

— E eu o do peão que em Greve
Decapitou teus avós.
—— Tu és das trevas o leito. . .

— Mentes, eu laboro a luz!

— Eu prego a luz do direito. . .

—E eu prego as leis de Jesus!

—— Tu és a noite, eu o dia,
Deslumbram-te os vivos sóis.. .
Tu fundes a tirania,
Eu fundo os pulsos aos heróis!

 Lobo da Costa

Lobo da Costa - Verdadeira Nobreza

Verdadeira Nobreza

Não é nobre o que amontoa
Os ossos frios, gelados,
De egrégios antepassados,
E um nome ilustre apregoa.

Há nódoa em qualquer coroa,
Laivos em degraus calcados
Dos tronos aïevantados
Como afronta à gente boa.

Nobreza — impõe a ciência,
O trabalho, a inteligência
E o ardor dos campeões,

Que mostram aos olhos do mundo
Em cada gilvaz profundo,
Um louro para as nações!

Lobo da Costa

Lobo da Costa - Minha Terra

Minha Terra
(Resposta a Pinto Monteiro)

Se a tua terra é formosa,
Se tem espaços de anil,
A minha vale um tesouro:

Tem fontes de prata e ouro,
Rios maiores que o Douro. . .
Minha terra é o — Brasil.

Berço de tanta beleza
Que o meu, por certo não ha!
No teu crescem as roseiras,
Aqui tremem as palmeiras,
Batem rijas as cachoeiras
Escutando o sabiá.

Dizes que tantos primores
Ao meu lar não deu a sina?
Que o teu berço é um monumento.
Atende, atende um momento,
Se a tua terra é um portento,
A minha é quase divina!

Se cão valentes os filhos
Da nascente Santa Cruz,
Em que afrontam as metralhas
Sem os vestidos de malhas
Ante os tiros de arcabuz.

Onde um feito mais gigante
Qual o do — Ipiranga — entre nós?
Corre o Amazonas valente
Espalmando o continente

E se teve grilhão pendente
O grilhão veio de vós.

O Brasil é minha terra,
Que lindo céu que ela tem!
Tem por escudo um Cruzeiro,
Tem por asas o pampeiro,
E brada ao vulto estrangeiro
Adiante de mim — ninguém!

(Rio Grande)

A Alguém - Lobo da Costa

(Jaguarão, 1880.)
A Alguém

Ó não me peças teu nome,
Que fora um crime dizê-lo,
A Deus só basta sabê-lo,
Eu e ele - e mais ninguém.
Ah! que tu mesma ignores
O quanto em ti sonho e cismo.
- Que há entre nós um abismo
Que só Deus sabe-o também.
Quando nas horas sombrias
Da noite Invoco teu vulto,
Por entre as trevas oculto,
Oculto na solidão,
Ainda assim, tremo e suspiro
E tenho fundo receio
Que m'o roubem do meu seio,
Que o vejam no coração.
Pois desde o dia primeiro
Em que te vi... fui cobarde.
Quando busquei-te era tarde
Nadava num mar de horror!
Agora só restam trevas
De um passado já desfeito,
E tu vives no meu peito
Como uma sombra de amor.

Lobo da Costa

Adeus - Lobo da Costa

Adeus
À sombra do Salgueiro
(Fragmentos)

Adeus! eu vou partir. Por que soluças?
Não brilha o pranto, a dor, à luz da festa,
Nem a rosa, por pálida e modesta,
Deve pender a fronte ainda em botão...
Que eu te diga este adeus — manda o destino!
Eu sou náufrago vil, sem norte ou guia,
Açoitado por ventos de agonia
Nas cavernas fatais do coração.

Chorarás no momento em que eu te deixe,
Ou, quando perto eu for da tua herdade,
Passarás uma noite com saudade;
Mas a aurora trará mimos a flux...
E desperta de um sonho que te aflige,
Os passos sulcarás dalmo folguedo,
Esquecida daquele que tão cedo,
Sem amparo caiu vergado à cruz.

Trará o esquecimento alívio às dores;
Muitos dias talvez virão por este,
E das bagas do pranto que verteste
Brotarão os jasmins de um novo amor...
Cantarão no teu lar os passarinhos,
Muitas flores virão com a primavera,
E de mim ficará de uma outra era
Agudo espinho de saudosa dor.

Bem sei... há de custar-te a minha ausência,
Enquanto a ela tu não te acostumas.
Mas, ah! que nunca choram as espumas,
Quando soltas das vagas vão além!
É fatal, bem eu sinto, este momento!
Lisonjeia-me a dor do que não valho...
Olha: o manso gatinho no borralho,
Parece que a me olhar chora também.

Teu cãozinho de neve que tu amas,
No latido gentil, como que implora
Que eu não faça chorar sua senhora,
Ou pedindo-me em prantos, que eu não vá...
Mas quem sabe, se um dia, quando os tempos
De novo me trouxerem a estas plagas,
Não serás, ó cãozinho que me afagas,
O primeiro que então me morderá!

De lágrimas se funde o esquecimento
Com que algema o sentido mais dileto,
Não há, por mais gentil que seja o afeto,
Quem se possa eximir àquela essência.
É gelo que entibia as flores da alma,
É fogo que consome alto destino.
E já vês, ó meu anjo peregrino,
Que não deves chorar a minha ausência.

Irei por sobre as ondas desfolhando
As flores da saudade, uma por uma;
Como elas, que fogem sobre a espuma,
Quem me diz onde irei? onde pairar?
E tu ficas à sombra de teus lares,
Sorrindo de ventura, anjo celeste,
E eu, quem sabe! se à sombra de um cipreste
Num profundo dormir — sem despertar

O tempo que corrói a pedra bruta,
Também destrói os frutos da memória.
Mal fora se, na vida transitória,
Não sucedesse ao golpe a cicatriz.
— Tudo arrasta da vida a vaga irosa,
O Sol que amanheceu baixa ao poente...
Só há uma saudade permanente,
— A saudade da mãe e a do infeliz.

Nunca viste a donzela lacrimosa
Curvada no ladrilho mortuário,
Beijando o esquife negro e solitário
Em que dorme o despojo maternal?
E dois anos após... nem tanto ainda!
Da festa no esplendor vir, orgulhosa,
Passando muitas vezes junto à lousa,
Sem lembrar-se do anjo do casal?

Já viste a triste mãe que um berço embala,
Velando uma criança adormecida,
Consagrando-lhe esperança, amor e vida,
Capaz de se finar se ela morrer;
E após, se a idade veste-a de esplendores,
Tornar-se seu algoz, ser seu patíbulo,
E ir vendê-la nas portas do prostíbulo,
Como rês inocente — a quem mais der?!

Nunca viste o mendigo esfarrapado
Beijar a mão bondosa que o ampara,
E depois, se a fortuna se lhe aclara,
Como Pedro negar ao próprio Cristo?
Nunca viste o impudor — calcando o pejo,
A dor desafiando — gargalhadas,
Em troca de carícias — punhaladas!
Nunca viste? Pois eu já tenho visto.

Só guarda uma saudade quem por fado
Teve a dor do proscrito, a do abandono.
Assim, se eu não morrer, se o eterno sono
Não for além dormir, pomba adorada,
Lembrarei teus encantos e meiguices,
Chorarei de saudade — embora rias,
Cobrindo com meu manto de agonias
Os espinhos da cruz que me foi dada.

E se um dia nas praias do futuro
Rolar o meu cadáver de descrente,
Sepulta-o junto à margem onde a corrente
Só muda quando em fluxo recresce...
Onde os salgueiros têm as mesmas folhas
E é sempre a mesma viração sombria,
Onde só muda o Sol quando anoitece.

Lobo da Costa