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A caçada - Batista de Lima

A caçada

Primeiro apareceu uma ovelha morta. A coitada estava sangrada no chiqueiro, ao pé da cerca. Ainda estava morna. Foi só tirar o couro e aproveitar a carne.

No dia seguinte, outra apareceu nas mesmas circunstâncias. Só que, dessa vez, Major Apolônio resmungou uma praga e partiu para a investigação. Pelos rastros, viu logo que era onça, o bicho matador. Foi por isso que vinte homens foram convocados para vasculhar a serra e matar a criminosa.

Com suas armas bem oleadas, os caçadores passaram o dia nas matas e não mataram nada, mas trouxeram de volta os bornais repletos de histórias de onça. Era um bicho alentado, beirando duzentos quilos, vermelha e do lombo preto. Estava esfomeada e sangüinária. Foi por isso que dois caçadores passaram a botar sentido no chiqueiro das ovelhas nas noites seguintes.

A partir de então, a criminosa começou a atacar o rebanho de gado. Era uma rês quase todo dia. No domingo ensolarado havia oitenta homens no seu encalço, e nada de onça. Só chegavam histórias gigantes de um bicho muito mais. Já havia um prêmio estabelecido para o caçador que trouxesse a bichana morta pros terreiros da fazenda: era um boi malabar; criado no cabresto e avaliado em vinte arrobas de carne muciça.

Apareceram então caçadores dos mais distantes recantos. Até Tonho Saruê, da serra do Quincocá, baixou acampamento nos rastros da comedora de garrotes. Teve um domingo que havia mais de duzentos homens palmilhando a chapada, e nada da lombo preto. O que havia de preá, mocó, jacu, peba, tatu, raposa e tejo acabou-se nas redondezas. Já havia histórias as mais divertidas de matadores de onça. Teve um que andou a cavalo na desditosa e ainda trouxe uma trunfa dos cabelos dela.

Começou então a surgir o medo de que alguém matasse a onça e acabasse a farra. Já havia bodegueiro ambulante trafegando pela ribeira em serventia de cachaça e munição. Um jornalista entrevistador, vindo da Rádio Piranhas, fez visita ao sítio, com transmissor móvel. A fazenda Canafístula virou terreiro de festividade, e o fazendeiro, coiteiro famoso de onça cevada.

Foi então que certo domingo de caça, Major Apolônio, com medo de que a onça fosse encontrada, baixou ordem expressa a todos os caçadores: na Canafístula, ninguém caça mais onça, só histórias de onça caçada.
 
Batista Lima
 
 

As quebradeiras - Conto de Murilo Vilela

AS QUEBRADEIRAS 

                                                           Joel fechou-se no mais profundo silêncio da natureza humana. A dramática realidade parece tê-lo arrancado bruscamente, da leveza boêmia pelas estradas da vida e do coração. De uma só vez, Noemia e Ritinha se transformaram em duas pequenas nuvens, sumindo tristemente no ocaso dos amores findos.


Por muitos anos, o babaçu foi o mirrado sustento de quantos fizeram sua morada sob as palhas desta abençoada palmeira.

As quebradeiras de coco, na imensa região dos babaçuais, eram e são até hoje conhecidas apenas como quebradeiras. Velhas e jovens mantêm a rude e centenária tradição de quebrar coco no gume do machado, tirando-lhe a amêndoa tão necessária como alimento e como produto de comercialização.

O extenso chão dos babaçuais engloba, principalmente, terras do Tocantins, do Pará, do Maranhão e do Piauí. Rico é o folclore do ciclo do coco e infindáveis são os enredos trançados com as palhas destes coqueiros, que testemunharam o desenrolar de tantas histórias.

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Ainda hoje, quem passar nas proximidades da grota do sucuriú, dois quilômetros a montante da foz do Bonito, verá duas mangueiras monumentais, vinte metros eqüidistantes de um fornido e limoso esteio de aroeira desbotado pelo tempo, mas forte e inatingível como há muitos anos, quando ali foi fincado como peça central de um barracão de oito forquilhas, reduto das quebradeiras da redondeza. Duas passadas largas, entre a segunda e a terceira forquilhas de cada lado, marcavam uma linha imaginária que dividia o barracão ao meio, uma vez que eram dois os seus proprietários. Em cada metade se erguia um monte de coco e ao redor deles as respectivas quebradeiras aninhavam-se no seu costumeiro pedaço de chão. No correr do dia inteiro se escutavam a pancada do cacete no lombo do coco, as gargalhadas, as cantigas, as histórias, enfim, o som da vida das quebradeiras.

As mangueiras, alinhadas no sentido nascente-poente, emprestavam sombra constante ao barracão, amenizando o árduo trabalho braçal de suas ocupantes.

Como eram dois os proprietários, dois compradores de coco, consequentemente, cada qual tinha o seu grupo de quebradeiras, que se rivalizavam na quantidade de coco quebrado mas, mantinham uma amizade fraterna e muito respeito pelas mais velhas que ali representavam as líderes de cada grupo. A do lado nascente era a Aurora, morenona forte e sisuda que apesar de andar beirando os setenta, era detentora da mais forte gargalhada, entre todas elas. Trabalhava calada mas, quando escutava um dizer verdadeiramente engraçado, sua gaitada ecoava na sombra do cocal. Era sua maneira de dizer que também participava da tagarelice de suas companheiras.

Na cabeceira do poente, a todo-poderosa era a Luizona, também conhecida como Luíza do Cirino, Luíza do Tabocal, ou Mãe Luíza pois, por um período de sua vida, fora parteira, o que justificava o cognome. Luizona era imensa, latagona de cabelo crespo avermelhado, nádegas volumosas: “ uma alemanha de muié que como feme já não valia mais nada,” no dizer de Cirino, seu marido, aos amigos mais íntimos.

Mãe Luiza era doente: sofria de pressão alta, pernas inchadas, cansaço. A quem tentava aconselhá-la costumava responder: “ num tem quem faça eu comer insosso, largar o café e o cachimbo e deixar de mastigar um naquinho de carne seca no quebra-jejum e no armoço.” Apesar da idade avançada, não deixava o velho costume de participar da quebração de coco. Falastrona, as vezes adentrava os caminhos da alcova e, confiada na discrição de suas comandadas, confidenciava-lhes intimidades que muitas outras não gostavam de comentar. Costumava dizer que seu casamento com Cirino foi tão abençoado que até “ nas função” se acabaram por igual. Depois de sua derradeira barriga, que foi a sétima e a mais atrapalhada, ela quase se liquida. Inchou muito do quarto mês em diante e foi daí que começou o desmantelo da pressão. Quebrou o resguardo devido a uma queda que o Cirino pegara em suas esperadas, desconjuntando um pé que o obrigou a passar um bocado de tempo com o mocotó entaniçado com leite de atraca. Mesmo assim, arrumou umas andanças no rumo do Descarreto, de onde só voltava tarde da noite, fedendo a cachaça e “isalando um prifume que arripunava o meu estambo. Nunca reclamei de nada porque eu sabia das precisão dele. Depois tudo se agasaiou e hoje nós véve cuma Deus qué.”

Cirino era um negrão forte, espadaúdo, desbarrigado, pinta de sangue no olho direito. Alguma brancura na carapinha não lhe conferia velhice e, aparentemente, estava longe das fraquezas referidas por Luizona. Mantinha uma aparência distante que encobria, com sol de peneira sua fama de maior arrastador de asa no rumo das sendeiras, o fraco maior de sua vida. Um dia, numa caçada, confessara ao “ cumpade Genaro” que sua mulher fazia era tempo que perdera a serventia na cama mas que não a largava por nada nesse mundo. –“ É minha companheira véia e assim vai sê até o fim de nossos dia. Tem noite que eu fico oiando aquele muzuá, ali duma banda, roncando devido as venta entupida com pó de coco e o peito chacoaiando no sarro do cachimbo. Quê havera de fazê? Não assanha mais minha paixão mas bota asa no meu pensamento e eu saio avuando por aí a fora, praneando outros agazáio nos braço de arguma sendêra.”

Naquela manhã de mato molhado pelo sereno da noite de verão, a novidade foi a chegada de Ritinha. Veio trazida pela mão de Aurora, a líder de pouca conversa, que fez uma apresentação sumária. –“ Minhas amigas, esta é a Ritinha, que agora vai trabalhar com a gente. Vocês não se lembram mas ela é filha do Filisso, aquele que os índios retalharam no facão. Teve morre-não- morre, mas terminou escapando e, desgostoso, mudou-se lá pras bandas do Amarante. Ritinha foi quenga por uns tempos, na Belém-Brasília, no cabaré Pisa no Freio, depois criou vergonha e fez famia. Seu marido, muito bebedor de cachaça e criador de embuança, foi costurado de pexêra numa briga de bodega. Ela veio, mais os dois filhos que tem, procurar refrigero aqui onde nasceu.”

Tipo engraçado, a Ritinha: moreninha, beiço e unhas bem pintados de vermelho, vestida de bermuda, bundinha arrebitada, cordão de ouro no pescoço, brinco de argola nas orelhas, cara safada, debochada, mas simpática como o diabo.

Luizona foi a última a chegar. Com Cirino de uma banda, cortaram conversa o caminho todo. Era dia do “adjutóro”dos homens no barracão. Uma vez por semana eles vinham remontar os montes de coco. Cada qual trazia seu jacá de ripa de taboca, trançada e arrematada com esmêro para não se abrir com o peso do babaçu. Quando Cirino bateu os olhos em Ritinha, sentiu um frio no espinhaço e a pinta do olho parece que aumentou, o que não passou despercebido por Luizona, que partiu para o ataque, inusitadamente: -“Quem é essa sirigaita de beiço pintado, que tem um cacete na mão e outro debaixo do braço, como se fosse mió quebradeira do que nóis?”

-“ Sei que a senhora é dona Luiza e eu sou a Ritinha: canelinha de aroeira / bracinhos de mororó. / no gume do meu machado / muito pau já virou pó.”

-“ Me arrespeite, mulequinha atrevida, que eu não lhe dei trela pra você me falar essas safadezas!”

-“ Não tem safadeza nenhuma, dona Luiza, a maldade está na sua cabeça. Veja esse cacete que a senhora tem na mão: se for tão boa quebradeira como o povo diz, de tardinha vai ficar só o pó em redor do machado.”

-“ É mesmo, minha fia, me discurpe eu ter amanhecido tão azogada.

Nós somo companhêra de função e a amizade é tão boa que não vale a pena a gente andá discutindo por quarqué toliça.”

No fim do trabalho daquele dia, a admiração foi geral. Um dos cacetes de Ritinha estava reduzido a frangalhos e o segundo, quase imprestável. A quantidade de “ bages” que ela juntara no cofo mediu vinte pratos, o que equivale a mais de uma lata e meia. Feito extraordinário entre as quebradeiras. Aurora, que era a mais velha, deu notícia de uma senhora Maria Caetana, da região do Nazaré, que chegou a quebrar trinta pratos num só dia.

Na casa de Luizona, depois da janta, ela e o marido costumavam fumar e prosear até a hora de dormir mas, naquela noite, o pé-de-conversa estava difícil pois, provavelmente, não queriam falar no incidente da Ritinha. Depois de algum silêncio, Luiza encontrou uma solução: - “ Cirino, tu não teve mais notiça do gavião reá? Faz uns dois mês que não escutei mais ele assubiá. Tive tanta pena quando os indio mataram a companheira dele. Não sei como é que se faz uma marvadeza daquela, um animá tão bonito e tão difice de andá se vendo nos dias de hoje.

-“ Luiza, tirante o papagaio, que quando perde o companheiro ou a companheira nunca mais se ajunta com outro, todos os bichos de pena que andam aos casá, quando se vê sozinho, canta, canta, canta e como ninguém arresponde ele se muda ou faz uma viagem procurando companhia. As vêis até vorta pro mermo lugá.”

O gavião real, gavião de penacho ou harpia é, talvez, a ave mais importante de nossa avifauna. Com um metro de altura por dois de envergadura, a águia brasileira, de olhar penetrante e garras poderosas, é capaz de alçar vôo içando nas unhas um filhote de veado, um bacorinho, um macaco-prego ou outros de porte parecido. Gosta dos horizontes descortinados e, por isso, constroi seu ninho na copa da árvore mais alta que houver no trecho de mata de seu domínio. Seu canto consiste em dois silvos longos: um agudo sustenido e outro mais grave, porém, com o mesmo comprimento: fiiiiiiiiiiiiii...êêêêêêêêêêê... . Luizona gostava de ouvi-lo cantar na boca da noite, pousado nas grimpas de um velho pau d’arco solteiro que se destacava no meio do cocal.

A rotina do barracão ficou mais animada com a presença de Ritinha. Nos intervalos do trabalho para a merenda ou mesmo para descansar os braços e estirar as pernas, ela costumava contar muitas passagens de sua vida. Dois anos de escola, cinco nos cocais do Amarante, três de Pisa no Freio e, por último, alguns meses como viúva, com dois filhos para criar. Tinha mesmo muito o que contar. A curiosidade maior era com as histórias do cabaré. Quando perguntada sobre a origem de uma imensa cicatriz que tinha no braço esquerdo, Ritinha desdobrou-se em explicações entremeadas por rasgos

filosófico existenciais. – “ Minhas amigas, a ilusão do cabaré se desmancha ligeiro demais porque a verdade é muito diferente. Em cabaré de beira de estrada, alegria de quenga é taca, desgosto e humilhação. Muitas vezes, é melhor a gente tirar o serviço embriagada, porque os pontapés se tornam mais suaves. Quem me deu este talho foi a Gerusa, que eu tinha na conta de uma grande amiga. Ela se dava com um chefe de grupo no serviço da estrada. Um dia ele chegou de surpresa, encontrando-a no maior grude com um peão. Homem violento, acostumado a impor o medo pela brutalidade, botou o peão para correr. Gerusa, agarrada pelos cabelos, na primeira bofetada foi ao chão, quase sem sentidos. Fui em sua defesa, e, com jeito e trejeito, convenci o seu carrasco a não machucá-la mais. Convidei-o a tomar uma cerveja, com a intenção única de acalmá-lo, mas Gerusa não entendeu. Levantou-se meio atordoada, foi ao seu quarto, e, furiosa, empunhando uma faquinha de ponta amolada como um quicé de sapateiro, apenas gritou: - larga meu homem, puta senvergonha e riscou o meu braço, do cotovelo até a munheca. Talho imenso, mas de pouca profundidade, que, aos cuidados do enfermeiro da estrada, sarou sem maiores dificuldades. Ficou só esse courinho mais alto, que o prático, muito entendido, me disse que o nome é queloide.”

Os donos do barracão avisaram às quebradeiras que, no dia seguinte viessem mais arrumadas, porque os alunos da escola da barra do Bonito viriam receber uma aula de quebração de coco e um professor da cidade iria filmar tudo. Hábeis artesãs, as quebradeiras cortaram alguns olhos de pindoba e com aquelas palhas amarelas e tenras confeccionaram as lembranças que dariam aos jovens visitantes: pequenas esteiras, abanos, cofos, chapéus e apitos. As cascas de coco foram arrumadas em dois montes, o barracão foi varrido e a casa ficou pronta para a aula do dia seguinte.

Algazarra de meninos, gargalhadas das quebradeiras. Luizona, muito bem penteada com laço de fita e outros apetrechos, vestia uma saia longa avermelhada e cintilante. Poderia muito bem ser chamada de Marquesa do Cocal, sem detrimento de outras marquesas que existiram por aí a fora. Como foi escolhida a professora do dia, usou da palavra iniciando a aula: -“ Vocês me discurpe o meu falar errado pruquê o meu estudo foi muito pouco e serve muito má pra votar nas inleição.” Muito pesada, ajoelhou-se primeiro para sentar-se, depois, sobre uma esteira. Os meninos, que também tinham suas esteirinhas, sentaram-se ao seu redor. A posição da quebradeira é extremamente desconfortante: sentada no chão com as pernas dobradas e enviesadas, o pé esquerdo fica praticamente debaixo da popa e o joelho, em flexão, pressiona o cabo do machado para que este se mantenha na vertical. A perna direita, livre, pode ficar flexionada ou estirada conforme o cansaço da posição. O cacete, com um palmo e meio, tem a grossura compatível com a palma da mão e é de madeira pesada e forte, com cerne entranhado. Cortado verde, deve ser assado na labareda, o que lhe confere maior durabilidade. A aroeira, o mororó, o jatobá de vaqueiro, a laranjinha, o marfim, entre outros, são os melhores.

- “ Como vocês viram, ferramenta de quebradeira é um machado bom, um cacete ajeitado e um monte de coco zarôio. O resto o tempo ensina.”

Muitas palmas, dos meninos e das companheiras. O professor que filmava pediu que Luíza cantasse uma daquelas cantiguinhas que elas entoavam quando estavam sós. Dizendo que tinha vergonha de cantar, Luizona concordou em recitar um “ pé de uma das cantigas: - “ o cacete trás lembrança / quando ele bate no coco / coitado do meu veinho / era tão bom ficou pouco.” Gargalhada geral. Luizona muito corada fez um muxoxo e recebeu o refrigerante que o menino lhe oferecera. Em pouco tempo o barracão foi esvaziando. A meninada foi embora e as quebradeiras voltaram às suas casas.

Aurora pediu a seu marido, Genaro, que construísse um ranchinho para Ritinha e seus filhos. Poderia ser ali perto mesmo. – “ Pois diga a dona Luíza que eu mando pedir ao compadre Cirino que venha me dar uma ajuda.”

No dia seguinte, cedo, Cirino cruzou, no caminho, com Aurora e Ritinha. Um rápido bom-dia, suficiente, porém, para lampejar seu olho vermelho nos de Ritinha: um arrepio no espinhaço dela e um fogo nas orelhas dele.

Em três dias a palhoça estava encaibrada, no ponto de receber a palha da cobertura e das paredes. Fazia-se necessário um terceiro participante. Naquele dia Ritinha não foi quebrar coco, ficou fornecendo as palhas para Genaro e Cirino amarrá-las na armação do teto de seu barraco. Um dado momento, Genaro desceu pela escada de bambu e foi lá mais adiante fazer uma precisão detrás de uma moita. Cirino, de cócoras, atava, com cipó, a palha ao caibro. Com um talo despalhado, Ritinha fez cócegas no sovaco suado do negrão. Ele virou o rosto, sério, e apenas disse: - “ dona Ritinha, nós precisamos ter uma conversa. Como não quero testemunha, nesses dois dias eu passo aqui pra gente acertar como vai ser.”

Em pouco tempo a casa ficou pronta: sala, camarinha e cozinha. Girau de vara na porta do fundo, forquilha de pote no canto da sala. “ O resto é serviço de muié,” no dizer de Cirino que, segurando a mão de Ritinha e a de Genaro, perguntou: -“ Ainda se lembra, cumpade, daquela tapage de casa que nós ajudamos lá no Santo Antonio ? Foi um mutirão de muita gente muita cachaça e alegria. Quando foi a boca da noite o nêgo Jacu chegou com seu pandeiro na mão. Nunca esqueci do primeiro pé do pagode que ele puxou: - No tempo da escravidão / o nêgo batia o chão / com o solado do pé / mas quando chegava a noite / se enrolavam na esteira / o neguinho e a muié / virando um novelo só / procotó, procotó, procotó.” Ritinha abraçou Cirino, e encostando a cabeça no seu peito, confessou estar amarrada e ferrada pelas mandingas do “ nêgo véio.”

No dia seguinte, o trabalho no barracão transcorreu sem maiores novidades embora, no fim do expediente, tenha havido uma choradeira danada quando, depois de muita insistência, Ritinha resolveu confessar o motivo que a fizera deixar o cabaré.

Fazia alguns meses que estava se dando, e muito bem, com um caminhoneiro paraense, típico representante da imensa região amazônica: moreno atarracado, cabelo preto escorrido, risonho, debochado, autêntico comedor de “galhinha no tucupi”. A cada dez dias ele passava, indo para São Paulo ou voltando para Belém. O pernoite era obrigatório no Pisa no Freio, e Ritinha enfeitava-se de sonhos e ternuras a cada passagem de seu amor de beira de estrada.

Numa tarde bonita de presságios benfazejos, ela e o seu caminhoneiro chegavam do ribeirão que corria ali pertinho do cabaré. Envoltos apenas em suas toalhas, viram saltar de uma carreta uma mulher ainda jovem, bonita, e duas crianças entre seis e oito anos, que ela segurava pelas mãos. Joel, o caminhoneiro, correu ao quarto de Ritinha, vestiu-se rapidamente, saindo de lá transmudado por uma máscara de ódio e, empunhando uma arma, dirigiu-se à mulher com os dois meninos. –“ Naquele dia em que te dei umas porradas na porta do Xumbregão, em Paraopeba, eu te avisei que se algum dia ainda me procurasses num cabaré seria o teu fim. Esqueceste?” E ergueu a arma como se realmente fosse atirar. As crianças, apavoradas, choravam abraçadas à mãe que, tresloucada, as empurrou de encontro ao pai e correu desabalada, tentando alcançar uma casa que havia do outro lado do asfalto. Uma freada brusca, um grito e a tragédia estava consumada. A caminhonete que atropelou Noemia deu marcha à ré, e o motorista, vendo Joel com um revólver na mão, desviou-se do cadáver e sumiu na estrada.

Joel fechou-se no mais profundo silêncio da natureza humana. A dramática realidade parece tê-lo arrancado bruscamente da leveza boêmia pelas estradas da vida e do coração. De uma só vez, Noemia e Ritinha se transformaram em duas pequenas nuvens, sumindo tristemente no ocaso dos amores findos.

Num velho cemitério que havia ali perto, Noemia foi sepultada. Joel, caminhando lentamente, trazia os meninos pelas mãos, como o fizera a mãe deles em sua última chegada. Sem olhar para trás e sem dizer uma palavra, subiu no caminhão, acomodou as crianças e partiu.

No dia seguinte, Ritinha era apenas uma lembrança no Pisa no Freio.

Voltara às suas origens de quebradeira. Um cordão de ouro no pescoço, um brinco de argola nas orelhas, uma cicatriz no braço e uma ferida na alma. Imensa ferida que jamais cicatrizaria e que, provavelmente, pelo resto de sua vida, de vez em quando sangraria um pouco.

As quebradeiras choraram, Ritinha também.

O dia seguinte foi um domingo. Cirino, pretextando procurar uma espera, ganhou o mato ainda cedo. Espingarda no ombro, facão na cintura, saiu cortando rumo cocal a dentro, até chegar no tronco do velho pau d’arco, onde o gavião gostava de cantar. Avivou uma velha trilha de apanhar coco e saiu exatamente no barracão. Com o facão, fez um marco no tronco do coqueiro que ficava bem na boca da trilha avivada. Uma jaó cantou não muito longe e Cirino, que sabia imitá-la com perfeição, assobiou, imitando o seu canto. Escondido atrás de um monte de cascas de coco, espingarda no rumo, assobiou mais duas ou três vezes e a franguinha riscou na orla do mato para receber o chumbo fino que a transformou em saboroso presente para Ritinha. No caminho, cortou um ramo seco de taquara, escolheu um gomo da grossura de seu dedo mínimo, cortou-o ao meio e, com a ponta do facão, fez um pequeno orifício dois dedos abaixo da boca do apito. Foi andando e cortou atalho para não passar no terreiro da casa do compadre Genaro.

- Bom dia, dona Ritinha ! Cadê os meninos ?

- Bom dia, seu Cirino! Os meninos foram buscar uma xícara de sal na casa de dona Aurora.

- Apois, o sal com esta jaó que lhe trouxe vão interar o armoço de vocês. Para evitar falação minha demora vai ser pouca.

Retirou do bolso o apito de taquara. Com o dedo indicador, vedou o orifício que fizera com a ponta do facão, soprou com força e um som fino e agudo viajou nas quebradas da mata. Sem parar de soprar, retirou o dedo e o silvo caiu de tom, parando somente quando se igualou ao primeiro em comprimento: fiiiiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêêê ...

- Já sei, seu Cirino! Esse apito é igualzinho ao assovio do gavião real. Lá onde eu morava tinha essa ave, e na escola, quando a professora falava nela, dizia que era “ o mais soberbo falconídeo da selva amazônica.” Só sei que por conta desse gavião moleque chiou na palmatória até que aprendemos o que era soberbo, falconídeo, rapinante e adunco. Quem saiu lucrando foi o Expedito, um mulatinho nosso colega, apelidado de venta de aruá, devido ter o nariz muito cacunda. Passou a ser chamado de falconídeo e aceitou, de muito bom grado, o novo apelido.

- Preste atenção, dona Ritinha! Quarta feira, quando o sol tiver pendido na regulação das três horas, você vai escutar o gavião assobiar duas vezes. Bote um coco de travessa no machado e dê duas pancadas fortes. É o sinal de que escutou. Na posição que você está sentada, bem na sua frente tem um coqueiro com uma lavragem de facão mais ou menos na minha altura. Ali é o começo de uma vereda que está avivada de novo. Dê uma discurpa quarqué e viaje de vereda afora inté nóis se 
encontrá.

Cirino voltou por cima do mesmo rastro. A pinta vermelha do olho direito cintilava faíscas de contentamento. Um pouco antes de chegar em casa, pegou o apito e, com habilidosa perfeição, imitou o soberbo falconídeo. Mal adentrou o portal, Luizona veio ao seu encontro. –“Meu véio, eu não assuntei direito porque tava ventando muito mas parece que o gavião reá está de vorta.”- “ É mermo, muié! A zuada das páia tava muito grande mas eu também escutei uma coisa parecida.”

Na segunda feira, parece que as quebradeiras tinham visto passarinho verde. Estavam alegres, comunicativas e brincalhonas. São os tais dias de alto astral, quando enxergamos a vida através da leveza dos sentimentos e comungamos a alegria do espírito que se manifesta, até mesmo num barracão de quebradeiras, onde a rudeza do trabalho brutaliza a expressividade.

- “ Ritinha me arresponda / e não faça ouvido mouco / quantos cocos tem no cacho / quantas bages tem no coco?

- “ Dona Luiza, na escola onde estudei nos ensinaram muitas coisas sobre o babaçu. A palmeira só fica adulta quando bota o primeiro cacho, o que só acontece com dez a doze anos de seu nascimento. Cacho pequeno, sem forma definida e com apenas vinte ou trinta cocos. Conforme vai ficando erada, aumenta a produção. A senhora já deve ter reparado que aqueles coqueirões velhos de quinze a vinte metros de altura, em nenhuma época do ano ficam sem cacho. É comum a gente ver quatro cachos de uma vez com diferentes épocas de maturação e uma cunca abrindo-se para nova florescência. Não sei exatamente quantos cocos tem um cacho adulto, mas posso lhe garantir que nenhum deles tem menos de duzentos.”

- “ Você errou a profissão, Ritinha! Em vez de quebradeira devia ser professora.

- “ Ainda não respondi a sua pergunta toda. O coco babaçu tem de uma a oito bages. De uma, de sete e de oito são muito raras e as de cinco são as melhores de quebrar.”

Ritinha, em sua impaciência, achava que as horas daquela quarta feira estavam correndo muito devagar. Afinal, olhou o relógio, e faltava pouco para as três. Levantou-se, saiu fora do barracão, ficou de costas para o sol e viu que sua sombra estava da metade de sua altura. Estava na hora. Angustiada, encostou-se numa forquilha. Um vento manso brincava nas folhas do cocal e o marco da palmeira parecia se transformar na pinta vermelha do olho de Cirino.

- Fiiiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêêê ............. Fiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêê ...

Luizona parou com a mão levantada segurando o cacete. Estranhou que o gavião cantasse àquela hora e, principalmente, cantasse duas vezes seguidas. Viu quando Ritinha entrou no cocal batendo na barriga como se sua ida ao mato tivesse outra finalidade. Viu também quando ela voltou algum tempo depois e notou que sua boca não estava mais vermelha de batom e que seu cabelo estava meio assanhado. Luíza balançou a cabeça como se afastasse um lampejo ruim que passara maldando no seu pensamento. Tratou de esquecer.

Quando chegou em casa foi logo perguntando ao Cirino onde ele estava às três horas e se tinha escutado o gavião cantar.

- “ Não, muié! Não escutei nada. Estava muito longe, lá embaixo na cabeceira do Imbé, olhando uns pés de mirindiba.

- “ Só me admirou que ele tenha assobiado duas vêis seguida e você sabe que no triviá leva um bom tempo entre um assobio e outro.

- “ As vêis ele arrumou uma companhêra e ela tenha cantado quase iguá com ele.

- “ Muito me admira um caçador véio como tu, prestador de atenção às coisas do mato, não saber que a feme do gavião só dá o segundo assobio, e assim mesmo é muito mais curto que o do macho.

Cirino, notando a patada que dera, mudou de assunto e a conversa morreu por ali mesmo.

A quarta feira seguinte amanheceu sombria. Nuvens temporãs acinzentavam os horizontes, o calor sufocava e os mosquitos atenazavam as quebradeiras. Sufocadas, descruzaram as pernas de cima dos cabos dos machados. Umas levantaram-se e espriguiçaram-se, outras ficaram sentadas e os mais variados assuntos animaram a tagarelice de todas.

Luizona começou a cantarolar uma modinha antiga. Uma companheira comentou: - parece que o Cirinão, essa noite, andou fungando no cangote de dona Luíza. Aurora deu uma gargalhada, Luizona respondeu: - Quá, minha fia! Fungou foi nada, isso é coisa que se acabou há muito tempo. Se ele ainda funga, só se for aí pelos matos debaixo de algum coqueiro, depois do meio- dia e passou o rabo do olho no rumo de Ritinha.

Caiu uma chuva mansa e aconchegante. Todas voltaram ao trabalho. Um vento brando e acariciante enxugou as folhas do cocal e o sol reluziu em toda plenitude. Ritinha, apesar do cabelo bem penteado, dos lábios coloridos de vermelho e do perfume no pescoço, era a máscara da tristeza encobrindo uma profunda ansiedade que lhe apertava o peito. Uma força misteriosa talvez lhe impedisse os passos no rumo da trilha mas, ela queria, ardentemente, que o gavião cantasse. Cirino não tivera oportunidade de traçar novos planos e agora estava ali encostado no tronco do velho pau d’arco, o suor descendo na testa, o olho vermelho cintilando e o apito entre os dedos como um instrumento de discórdia e de indecisão...mas o desejo falou mais alto.

- Fiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêê ............ Fiiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêê ...

Ritinha levou a mão ao peito como se acariciasse as pancadas do coração em descompasso. Não atravessou o coco no gume do machado, não deu as duas pancadas de resposta. Apenas levantou-se e encarou Luizona. As outras quebradeiras, pressagiando algum desentendimento, vieram juntar-se à velha líder que, aparentando a serenidade dos bons pensamentos, fez sinal para que Ritinha também se aproximasse, pois queria dizer-lhe uma coisa. – “ Acho que já matei a charada, dona Ritinha. Só queria lhe pedir o favor de levar uma lembrança minha e entregar àquele gavião safado.” Luíza, discretamente, enquanto falava ia puxando a aliança para bem próximo da junta média do dedo. Sem que ninguém notasse, colocou o anelar no corte do machado e, rapidamente, levantou a mão com o cacete, como se fosse decepá-lo. Não fora a rapidez de Aurora, teria mesmo consumado o seu intento.

- Que doidice é essa, dona Luíza ! Calmamente, ela respondeu que não era nada de mais. Apenas queria que Cirino recebesse uma lembrança sua. Como agora ele era metade gavião e metade gente, queria mandar-lhe o seu dedo com a velha aliança mareada pelo tempo. Talvez ele lembrasse que esse dedo caloso e argolado por um compromisso que foi feito perante Deus e os homens ainda valesse alguma coisa. Ritinha foi se afastando lentamente. Duas lágrimas de fogo riscavam-lhe o rosto. Já fora do barracão, sentindo que no peito estava prestes a desabrochar uma flor de sangue do tamanho de Luizona, lembrou da mulher de Joel e gritou desesperada: - “ Perdoe-me, dona Luíza! Adeus minhas companheiras !

Correu até sua morada, arrumou as crianças e foi esperar carona na beira da rodagem

As notícias que chegaram ao barracão davam conta da partida de Ritinha. Fora vista na rodoviária de Tocantinópolis, com as crianças, e embarcara no rumo do sul para bem longe dos cocais de suas desventuras, como ela mesmo respondera, quando indagada para onde ia. – “ Vou indo no destino das lonjuras, o mais distante possível do Pisa no Freio, dos cocais, de dona Luíza e do gavião real.

Murilo Bahia B. Vilela

O Pecado - Conto de Olavo Bilac

O Pecado

A Anacleta ia caminho da igreja, muito atrapalhada, pensando no modo porque havia de dizer ao confessor os seus pecados... Teria a coragem de tudo? E a pobre Anacleta tremia só com a idéia de contar a menor daquelas cousas ao severo padre Roxo, um padre terrível, cujo olhar de coruja punha um frio na alma da gente. E a desventurada ia quase chorando de desespero, quando, já perto da igreja, encontrou a comadre Rita.

Abraços, beijos... E lá ficam as duas, no meio da praça, ao sol, conversando.

— Venho da igreja, comadre Anacleta, venho da igreja... Lá me confessei com o padre Roxo, que é um santo homem...

— Ai! comadre! — gemeu a Anacleta — também para lá vou... e se soubesse com que medo! Nem sei se terei a ousadia de dizer os meus pecados... Aquele padre é tão rigoroso...

— Histórias, comadre, histórias! — exclamou a Rita — vá com confiança e verá que o padre Roxo não é tão mal como se diz...

— Mas é que meus pecados são grandes...

— E os meus então, filha? Olhe: disse-os todos e o Sr. padre Roxo me ouviu com toda a indulgência...

— Comadre Rita, todo o meu medo é da penitência que ele me há de impor, comadre Rita...

— Qual penitência, comadre?! — diz a outra, rindo — as penitências que ele impõe são tão brandas!... Quer saber? contei-lhe que ontem o José Ferrador me deu um beijo na boca... um grande pecado, não é verdade? Pois sabe a penitência que o padre Roxo me deu?... mandou-me ficar com a boca de molho na pia de água benta durante cinco minutos...

— Ai! que estou perdida, senhora comadre, ai! que estou perdida! — desata a gritar a Anacleta, rompendo num pranto convulsivo — Ai! que estou perdida!

A comadre Rita, espantada, tenta em vão sossegar a outra:

— Vamos, comadre! que tem? então que é isso? sossegue! tenha modos! que é isso que tem?

E a Anacleta, chorando sempre:

— Ai, comadre! é que, se ele me dá a mesma penitência que deu á senhora, — não sei o que hei de fazer!

— Porque, filha? porque?

— Porque... porque... afinal de contas... eu não sei como é que... hei de tomar um banho de assento na pia!...
Olavo Bilac

O Banqueiro Anarquista - Fernando Pessoa


Tínhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa. A conversa, que fora amortecendo, jazia morta entre nós. Procurei reanimá-la, ao acaso, servindo-me de uma idéia que me passou pela meditação. Voltei-me para ele, sorrindo.
— É verdade: disseram-me há dias que V. em tempos foi anarquista...
— Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista.
— Essa é boa! V. anarquista! Em que é que V. é anarquista?... Só se V. dá à palavra qualquer sentido diferente...
— Do vulgar? Não; não dou. Emprego a palavra no sentido vulgar.
— Quer V. dizer, então, que é anarquista exatamente no mesmo sentido em que são anarquistas esses tipos das organizações operárias? Então entre V. e esses tipos da bomba e dos sindicatos não há diferença nenhuma?
— Diferença, diferença, há... Evidentemente que há diferença. Mas não é a que V. julga. V. duvida talvez que as minhas teorias sociais sejam iguais às deles?...
— Ah, já percebo! V., quanto às teorias, é anarquista; quanto à prática...
— Quanto à prática sou tão anarquista como quanto às teorias. E quanto à prática sou mais, sou muito mais, anarquista que esses tipos que V. citou. Toda a minha vida o mostra.
— Hein?!
— Toda a minha vida o mostra, filho. V. é que nunca deu a esta cousas uma atenção lúcida. Por isso lhe parece que estou dizendo uma asneira, ou então estou brincando consigo.
— Ó homem, eu não percebo nada!... A não ser..., a não ser que V. julgue a sua vida dissolvente e anti-social e dê esse sentido ao anarquismo...
— Já lhe disse que não — isto é, já lhe disse que não dou à palavra anarquismo um sentido diferente do vulgar.
— Está bem... Continuo sem perceber... Ó homem, V. quer-me dizer que não há diferença entre as suas teorias verdadeiramente anarquistas e a prática da sua vida — a prática da sua vida como ela é agora? V. quer que eu acredite que V. tem uma vida exatamente igual à dos tipos que vulgarmente são anarquistas?
— Não; não é isso. O que eu quero dizer é que entre as minhas teorias e a prática da minha vida não há divergência nenhuma, mas uma conformidade absoluta. Lá que não tenho uma vida como a dos tipo dos sindicatos e das bombas — isso é verdade. Mas é a vida deles que está fora do anarquismo, fora dos ideais deles. A minha não. Em mim — sim, em mim, banqueiro, grande comerciante, açambarcador se V. quiser —, em mim a teoria e a prática do anarquismo estão conjuntas e ambas certas. V. comparou-me a esses parvos dos sindicatos e das bombas para indicar que sou diferente deles. Sou, mas a diferença é esta: eles (sim, eles e não eu) são anarquistas só na teoria; eu sou-o na teoria e na prática. Eles são anarquistas e estúpidos, eu anarquista e inteligente. Isto é, meu velho, eu é que sou o verdadeiro anarquista. Eles — os dos sindicatos e das bombas (eu também lá estive e saí de lá exatamente pelo meu verdadeiro anarquismo) — eles são o lixo do anarquismo, os fêmeas da grande doutrina libertária.
— Essa nem ao diabo a ouviram! Isso é espantoso! Mas como concilia V. a sua vida — quero dizer a sua vida bancária e comercial — com as teorias anarquistas? Como o concilia V., se diz que por teoria anarquista entende exatamente o que os anarquistas vulgares entendem? E V., ainda por cima, me diz que é diferente deles por ser mais anarquista do que eles — não é verdade?
— Exatamente.
— Não percebo nada.
— Mas V. tem empenho em perceber?
— Todo o empenho.
Ele tirou da boca o charuto, que se apagara; reacendeu-o lentamente; tirou o fósforo que se extinguia; depô-lo ao de leve no cinzeiro; depois, erguendo a cabeça, um momento abaixada, disse:
— Oiça. Eu nasci do povo e na classe operária da cidade. De bom não herdei, como pode imaginar, nem a condição, nem as circunstâncias. Apenas me aconteceu ter uma inteligência naturalmente lúcida e uma vontade um tanto ou quanto forte. Mas esses eram dons naturais, que o meu baixo nascimento me não podia tirar.
«Fui operário, trabalhei, vivi uma vida apertada; fui, em resumo, o que a maioria da gente é naquele meio. Não digo que absolutamente passasse fome, mas andei lá perto. De resto, podia tê-la passado, que isso não alterava nada do que se seguiu, ou do que lhe vou expor, nem do que foi a minha vida, nem do que ela é agora.»
«Fui um operário vulgar, em suma; como todos, trabalhava porque tinha que trabalhar, e trabalhava o menos possível. O que eu era, era inteligente. Sempre que podia, lia coisas, discutia coisas, e, como não era tolo, nasceu-me uma grande insatisfação e uma grande revolta contra o meu destino e contra as condições sociais que o faziam assim. Já lhe disse que, em boa verdade, o meu destino podia ter sido pior do que era; mas naquela altura parecia-me a mim que eu era um entre a quem a Sorte tinha feito todas as injustiças juntas, e que se tinha servido das convenções sociais para mas fazer. Isto era aí pelos meus vinte anos — vinte e um o máximo — que foi quando me tornei anarquista.»
Parou um momento. Voltou-se um pouco mais para mim. Continuou, inclinando-se mais um pouco.
— Fui sempre mais ou menos lúcido. Senti-me revoltado. Quis perceber a minha revolta. Tornei-me anarquista consciente e convicto — o anarquista consciente e convicto que hoje sou.
— E a teoria, que V. tem hoje, é a mesma que tinha nessa altura?
— A mesma. A teoria anarquista, a verdadeira teoria, é só uma. Tenho a que sempre tive, desde que me tornei anarquista. V. já vai ver... Ia eu dizendo que, como era lúcido por natureza, me tornei anarquista consciente. Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de nascermos desiguais socialmente — no fundo é só isto. E de aí resulta, como é de ver, a revolta contra as convenções sociais que tornam essa desigualdade possível. O que lhe estou indicando agora é o caminho psicológico, isto é, como é que a gente se torna anarquista; já vamos à parte teórica do assunto. Por agora, compreenda V. bem qual seria a revolta de um tipo inteligente nas minhas circunstâncias. O que é que ele vê pelo mundo? Um nasce filho de um milionário, protegido desde o berço contra aqueles infortúnios — e não são poucos — que o dinheiro pode evitar ou atenuar; outro nasce miserável, a ser, quando criança, uma boca a mais numa família onde as bocas são de sobra para o comer que pode haver. Um nasce conde ou marquês, e tem por isso a consideração de toda a gente, faça ele o que fizer; outro nasce assim como eu, e tem que andar direitinho como um prumo para ser ao menos tratado como gente. Uns nascem em tais condições que podem estudar, viajar, instruir-se — tornar-se (pode-se dizer) mais inteligentes que outros que naturalmente o são mais. E assim por aí adiante, e em tudo...
«As injustiças da Natureza, vá: não as podemos evitar. Agora as da sociedade e das suas convenções — essas, por que não evitá-las? Aceito — não tenho mesmo outro remédio — que um homem seja superior a mim por o que a Natureza lhe deu — o talento, a força, a energia; não aceito que ele seja meu superior por qualidades postiças, com que não saiu do ventre da mãe, mas que lhe aconteceram por bambúrrio logo que ele apareceu cá fora — a riqueza, a posição social, a vida facilitada, etc. Foi da revolta que lhe estou figurando por estas considerações que nasceu o meu anarquismo de então — o anarquismo que, já lhe disse, mantenho hoje sem alteração nenhuma.»
Parou outra vez um momento, como a pensar como prosseguiria. Fumou e soprou o fumo lentamente, para o lado oposto ao meu. Voltou-se, e ia a prosseguir. Eu, porém, interrompi-o.
— Uma pergunta, por curiosidade... Por que é que V. se tornou propriamente anarquista? V. podia ter-se tornado socialista, ou qualquer outra cousa avançada que não fosse tão longe. Tudo isso estava dentro da sua revolta... Deduzo do que V. disse que por anarquismo V. entende (e acho que está bem como definição do anarquismo) a revolta contra todas as convenções e fórmulas sociais e o desejo e esforço para a abolição de todas...
— Isso mesmo.
— Por que escolheu V. essa fórmula extrema e não se decidiu por qualquer das outras... das intermédias?...
— Eu lhe digo. Eu meditei tudo isso. É claro que nos folhetos que eu lia via todas essas teorias. Escolhi a teoria anarquista — a teoria extrema, como V. muito bem diz — pelas razões que vou dizer em duas palavras.
Fitou um momento cousa nenhuma. Depois voltou-se para mim.
— O mal verdadeiro, o único mal, são as convenções e as ficções sociais, que se sobrepõem às realidades naturais — tudo, desde a família ao dinheiro, desde a religião ao Estado. A gente nasce homem ou mulher — quero dizer, nasce para ser, em adulto, homem ou mulher; não nasce, em boa justiça natural, nem para ser marido, nem para ser rico ou pobre, como também não nasce para ser católico ou protestante, ou português ou inglês. É todas estas coisas em virtude das ficções sociais. Ora essas ficções sociais são más por quê? Porque são ficções, porque não são naturais. Tão mau é o dinheiro como o Estado, a constituição de família como as religiões. Se houvesse outras, que não fossem estas, seriam igualmente más, porque também seriam ficções, porque também se sobreporiam e estorvariam as realidades naturais. Ora qualquer sistema que não seja o puro sistema anarquista, completamente, é uma ficção também. Empregar todo o nosso desejo, todo o nosso esforço, toda a nossa inteligência para implantar, ou contribuir para implantar, uma ficção social em vez de outra, é um absurdo, quando não seja mesmo um crime, porque é fazer uma perturbação social com o fim expresso de deixar tudo na mesma. Se achamos injustas as ficções sociais, porque esmagam e oprimem o que é natural no homem, para que empregar o nosso esforço em substituir-lhes outras ficções, se o podemos empregar para as destruir todas?
«Isto parece-me que é concludente. Mas suponhamos que o não é; suponhamos que nos objetam que isto tudo estará muito certo, mas que o sistema anarquista não é realizável na prática. Vamos lá a examinar essa parte do problema.»
«Por que é que o sistema anarquista não seria realizável? Nós partimos, todos os avançados, do princípio, não só de que o atual sistema é injusto, mas de que há vantagem, porque há injustiça, em substituí-lo por outro mais justo. Se não pensamos assim, não somos avançados, mas burgueses. Ora de onde vem este critério de justiça? Do que é natural e verdadeiro, em oposição às ficções sociais e às mentiras da convenção. Ora o que é natural é o que é inteiramente natural, não é metade, ou um quarto, ou um oitavo de natural. Muito bem. Ora, de duas coisas, uma: ou o natural é realizável socialmente ou não é; em outras palavras, ou a sociedade pode ser natural, ou a sociedade é essencialmente ficção e não pode ser natural de maneira nenhuma. Se a sociedade pode ser natural, então pode haver a sociedade anarquista, ou livre, e deve haver, porque é ela a sociedade inteiramente natural. Se a sociedade não pode ser natural, se (por qualquer razão que não importa) tem por força que ser ficção, então do mal o menos; façamo-la, dentro desse ficção inevitável, o mais natural possível. Qual é a ficção mais natural? Nenhuma é natural em si, porque é ficção; a mais natural, neste nosso caso, será aquela que pareça mais natural, que se sinta como mais natural? É aquela que estamos habituados. (V. compreende: o que é natural é o que é do instinto; e o que não sendo instinto, se parece em tudo com o instinto é o hábito. Fumar não é natural, não é uma necessidade do instinto). Ora qual é a ficção social que constitui um hábito nosso? É o atual sistema, o sistema burguês. Temos pois, em boa lógica, que ou achamos a sociedade natural, e seremos defensores do anarquismo; ou não a julgamos possível, e seremos defensores do regime burguês. Não há hipótese intermédia. Percebeu?...»
— Sim, senhor; isso é concludente.
— Ainda não é bem concludente... Ainda há uma outra objeção, do meu gênero, a liquidar... Pode concordar-se que o sistema anarquista é realizável, mas pode duvidar-se que ele seja realizável de chofre — isto é, que se possa passar da sociedade burguesa para a sociedade livre sem haver um ou mais estados ou regimes intermédios. Quem fizer essa objeção aceita como boa, e como realizável, a sociedade anarquista; mas palpita-lhe que tem que haver um estado qualquer de transição entre a sociedade burguesa e ela.
«Ora muito bem. Suponhamos que assim é. O que é esse estado intermédio? O nosso fim é a sociedade anarquista, ou livre; esse intermédio só pode ser, portanto, um estado de preparação da humanidade para a sociedade livre. Essa preparação ou é material, ou é simplesmente mental; isto é, ou é uma série de realizações materiais ou sociais que vão adaptando a humanidade à sociedade livre, ou é uma simples propaganda gradualmente crescente e influente, que vai preparando mentalmente a desejá-la ou aceitá-la.»
«Vamos ao primeiro caso, a adaptação gradual e material da humanidade à sociedade livre. É impossível; é mais que impossível: é absurdo. Não há adaptação material senão uma cousa que já há. Nenhum de nós se pode adaptar materialmente ao meio social do século XXIII, mesmo que saiba o que ele será; e não se pode adaptar materialmente porque o século XXIII e o seu meio social não existem materialmente ainda. Assim, chegamos à conclusão que, na passagem da sociedade burguesa para a sociedade livre, a única parte que pode haver de adaptação, de evolução ou de transição é mental, é a gradual adaptação dos espíritos à idéia da sociedade livre... Em todo o caso, no campo da adaptação material, ainda há uma hipótese...»'
— Irra com tanta hipótese!...
— Ó filho, o homem lúcido tem que examinar todas as objeções possíveis e de as refutar, antes de se poder dizer seguro da sua doutrina. E, de mais a mais, isto tudo é em resposta a uma pergunta que V. me fez...
— Está bem.
— No campo da adaptação material, dizia eu, há em todo o caso um outra hipótese. É a da ditadura revolucionária.
— Da ditadura revolucionária como?
— Como eu lhe expliquei, não pode haver adaptação material a uma coisa que não existe, materialmente, ainda. Mas se, por um movimento brusco, se fizer a revolução social, fica implantada já, não a sociedade livre (porque para essa não pode a humanidade ter ainda preparação), mas uma ditadura daqueles que querem implantar a sociedade livre. Mas existe já , ainda que em esboço ou em começo, existe já materialmente qualquer coisa da sociedade livre. Há já portanto uma coisa material, a que a humanidade se adapte. É este o argumento com que as bestas que defendem a «ditadura do proletariado» a defenderiam se fossem capazes de argumentar ou de pensar. O argumento, é claro, não é deles: é meu. Ponho-o, como objeção, a mim mesmo. E, como lhe vou mostrar..., é falso.
«Um regime revolucionário, enquanto existe, e seja qual for o fim a que visa ou a idéia que o conduz, é materialmente só uma coisa — um regime revolucionário. Ora um regime revolucionário quer dizer uma ditadura de guerra, ou, nas verdadeira palavras, um regime militar despótico, porque o estado de guerra é imposta à sociedade por uma parte dela — aquela parte que assumiu revolucionariamente o poder. O que é que resulta? Resulta que quem se adaptar a esse regime, como a única coisa que ele é materialmente, imediatamente, é um regime militar despótico, adapta-se a um regime militar despótico. A idéia, que conduziu os revolucionários, o fim, a que visaram, desapareceu por completo da realidade social, que é ocupada exclusivamente pelo fenômeno guerreiro. De modo que o que sai de uma ditadura revolucionária — e tanto mais completamente sairá, quanto mais tempo essa ditadura durar — é uma sociedade guerreira do tipo ditatorial, isto é, um despotismo militar. Nem mesmo podia ser outra coisa. E foi sempre assim. Eu não sei muita história, mas o que sei acerta com isto; nem podia deixar de acertar. O que saiu das agitações políticas de Roma? O Império Romano e seu despotismo militar. O que saiu da Revolução Francesa? Napoleão e seu despotismo militar. E V. verá o que sai da Revolução Russa... Qualquer coisa que vai atrasar dezenas de anos a realização da sociedade livre... Também o que era de se esperar de um povo de analfabetos e de místicos?...»
«Enfim, isto já está fora de conversa... V. percebeu o meu argumento?»
— Percebi perfeitamente.
— V. compreende portanto que eu cheguei a esta conclusão: Fim: a sociedade anarquista, a sociedade livre; meio: a passagem, sem transição, da sociedade burguesa para a sociedade livre. Esta passagem seria preparada e tornada possível por uma propaganda intensa, completa, absorvente, de modo a predispor todos os espíritos e enfraquecer todas as resistências. É claro que por «propaganda» não entendo só a pela palavra escrita e falada: entendo tudo, ação indireta ou direta, quanto pode predispor para a sociedade livre e enfraquecer a resistência à sua vinda. Assim, não tendo quase resistência nenhuma que vencer, a revolução social, quando viesse, seria rápida, fácil, e não teria que estabelecer nenhuma ditadura revolucionária, por não ter contra quem aplica-la. Se isto não pode ser assim, é que o anarquismo é irrealizável; e, se o anarquismo é irrealizável, só é defensável e justa, como já lhe provei, a sociedade burguesa.»
«Ora aí tem V. por que e como eu me tornei anarquista, e por que e como rejeitei, como falsas e anti-naturais, as outras doutrinas sociais de menor ousadia.»
«E pronto... Vamos lá continuar a minha história.»
Fez explodir um fósforo, e acendeu lentamente o charuto. Concentrou-se, e de aí a pouco prosseguiu.
Havia vários outros rapazes com as mesmas opiniões que eu. A maioria era de operários, mas havia um ou outro que o não era; o que todos éramos era pobres, e, que me lembre, não éramos muito estúpidos. A gente tinha uma certa vontade de propaganda, de espalhar as nossas idéias. Queríamos para nós e para os outros — para a humanidade inteira — uma sociedade nova, livre destes preconceitos todos, que fazem os homens desiguais artificialmente e lhes impõem inferioridades, sofrimentos, estreitezas, que a Natureza lhes não tinha imposto. Por mim, o que eu lia confirmava-me nestas opiniões. Em livros libertários baratos — os que havia ao tempo, e eram já bastantes — li quase tudo. Fui a conferências e comícios dos propagandistas do tempo. Cada livro e cada discurso me convencia mais da certeza e da justiça das minhas idéias. O que eu pensava então — repito-lhe, meu amigo — é o que penso hoje, a única diferença é que então pensava-o só, hoje penso-o e pratico-o.
— Pois sim; isso, até onde vai, está muito bem. Está muito certo que V. se tornasse anarquista assim, e vejo perfeitamente que V. era anarquista. Não preciso mais provas disso..., como é que saiu de aí sem contradição... Isto é, mais ou menos já calculo...
— Não, não calcula nada... Eu sei o que V. quer dizer... V. baseia-se nos argumentos que acaba de ouvir, e julga que eu achei o anarquismo irrealizável e por isso, como lhe disse, só defensável e justa a sociedade burguesa — não é?...
— Sim, calculei que fosse mais ou menos isso...
— Mas como o podia ser, se desde o princípio da conversa lhe tenho dito e repetido que sou anarquista, que não só o fui mas o continuo sendo? Se eu me tivesse tornado banqueiro e comerciante pela razão que V. julga, eu não era anarquista, era burguês.
— Sim, V. tem razão... Mas então como diabo...? Vá lá, vá dizendo...
— Como lhe disse, eu era (fui sempre) mais ou menos lúcido, e também um homem de ação. Essas são qualidades naturais; não mas puseram no berço (se é que tive berço), eu é que as levei para lá. Pois bem. Sendo anarquista, eu achava insuportável ser anarquista passivamente, só para ir ouvir discursos e falar nisso com os amigos. Não: era preciso fazer qualquer coisa! Era preciso trabalhar e lutar pela causa dos oprimidos e das vítimas das convenções sociais! Decidi meter ombros a isso, conforme pudesse. Pus-me a pensar como é que eu poderia ser útil à causa libertária. Pus-me a traçar o meu plano de ação.
«O que quer o anarquista? Liberdade — a liberdade para si e para os outros, para a humanidade inteira. Quer estar livre da influência ou da pressão das ficções sociais; quer ser livre tal qual nasceu e pareceu no mundo, que é como em justiça deve ser; e quer essa liberdade para si e para todos os mais. Nem todos podem ser iguais perante a Natureza: uns nascem altos, outros baixos; uns fortes, outros fracos; uns mais inteligentes, outros menos... Mas todos podem ser iguais de aí em diante; só as ficções sociais o evitam. Essas ficções sociais é que era preciso destruir.»
«Era preciso destruí-las... Mas não me escapou uma coisa: era preciso destruí-las... mas em proveito da liberdade, e tendo sempre em vista a criação da sociedade livre. Porque isso de destruir as ficções sociais tanto pode ser para criar liberdade, ou preparar o caminho da liberdade, como para estabelecer outras ficções sociais diferentes, igualmente más porque igualmente ficções. Aqui é que era preciso cuidado. Era preciso acertar com um processo de ação, qualquer que fosse a sua violência ou a sua não-violência (porque contra as injustiças sociais tudo era legítimo), pelo qual se contribuisse para destruir as ficções sociais sem, ao mesmo tempo, estorvar a criação da liberdade futura; criando já mesmo, caso fosse possível, alguma coisa da liberdade futura.
«É claro que esta liberdade, que deve haver cuidado em não estorvar, é a liberdade futura e, no presente, a liberdade dos oprimidos pelas ficções sociais. Claro está que não temos que olhar a não estorvar a «liberdade» dos poderosos, dos bem situados, de todos que representam as ficções sociais e têm vantagens delas. Essa não é liberdade; é a liberdade de tiranizar, que é o contrário da liberdade. Essa pelo contrário, é o que mais devíamos pensar em estorvar e em combater. Parece-me que isto está claro...»
— Está claríssimo. Continue...
— Para quem quer o anarquismo a liberdade? Para a humanidade inteira. Qual é a maneira de se conseguir a liberdade para a humanidade inteira? Destruir por completo todas as ficções sociais? Já lhe antecipei a explicação, quando, por causa da sua pergunta, discuti os outros sistemas avançados e lhe expliquei como e por que era anarquista... V. lembra-se da minha conclusão?...
— Lembro...
— ... Uma revolução social súbita, brusca, esmagadora, fazendo a sociedade passar, de um salto, do regime burguês para a sociedade livre. Esta revolução social preparada por um trabalho intenso e contínuo, de ação direta e indireta, tendente a dispor todos os espíritos para a vinda da sociedade livre, e a enfraquecer até ao estado comatoso todas as resistências da burguesia. Escuso de lhe repetir as razões que levam inevitavelmente a esta conclusão, a dentro do anarquismo; já lhe expus e V. já a percebeu.
— Sim.
— Essa revolução seria preferivelmente mundial, simultânea em todos os pontos, ou os pontos importantes, do mundo; ou não sendo assim, partindo rapidamente de uns para outros, mas em todo o caso, em cada ponto, isto é, em cada nação, fulminante e completa.
«Muito bem. O que poderia eu fazer para esse fim? Só por mim, não a poderia fazer a ela, à revolução mundial, nem mesmo poderia fazer a revolução completa na parte referente ao país onde estava. O que podia era trabalhar, na inteira medida do meu esforço, para fazer a preparação para essa revolução. Já lhe expliquei como: combatendo, por todos os meios acessíveis, as ficções sociais; não estorvando nunca ao fazer esse combate ou a propaganda da sociedade livre, nem a liberdade futura, nem a liberdade presente dos oprimidos; criando já, sendo possível, qualquer coisa da futura liberdade.»'
Puxou fumo; fez uma leve pausa; recomeçou.
— Ora aqui, meu amigo, pus eu a minha lucidez em ação. Trabalhar para o futuro, está bem, pensei eu; trabalhar para os outros terem liberdade, está certo. Mas então eu? Eu não sou ninguém? Se eu fosse cristão, trabalhava alegre mente pelo futuro dos outros, porque lá tinha a minha recompensa no céu; mas também, se eu fosse cristão, não era anarquista, porque então as tais desigualdades sociais não tinham importância na nossa curta vida: eram só condições da nossa provação, e lá seriam compensadas na vida eterna. Mas eu não era cristão, como não sou, e perguntava-me: mas por quem é que eu vou me sacrificar nisto tudo? Mais ainda: por que é que eu me vou sacrificar?
«Vieram-me momentos de descrença; e V. compreende que era justificada... Sou materialista, pensava eu; não tenho mais vida que esta; para que hei de ralar-me com propagandas e desigualdades sociais, e outras histórias, quando posso gozar e entreter-me muito mais se não me preocupar com isso? Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao Estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, porque cargas-d'água é que defende o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele-próprio, e portanto o contrário de altruísta e solidário, e portanto exclusivamente egoísta.»
«Eu discuti a questão comigo mesmo. Repara tu, dizia eu para mim, que nascemos pertencentes à espécie humana, e que temos o dever de ser solidários com todos os homens. Mas a idéia de `dever' era natural? De onde é que vinha esta idéia de `dever'? Se esta idéia de dever me obrigava a sacrificar o meu bem-estar, a minha comodidade, o meu instinto de conservação e outros meus instintos naturais, em que divergia a ação dessa idéia da ação de qualquer ficção social, que produz em nós exatamente o mesmo efeito?»
«Esta idéia de dever, isto de solidariedade humana; só podia considerar-se natural se trouxesse consigo uma compensação egoísta, porque então, embora em princípio contrariasse o egoísmo natural, se dava a esse egoísmo uma compensação, sempre, no fim de contas, o não contrariava. Sacrificar um prazer, simplesmente sacrificá-lo, não é natural; sacrificar um prazer a outro, é que já está dentro da Natureza: é, entre duas cousas naturais que se não podem ter ambas, escolher uma, o que está bem. Ora que compensação egoísta, ou natural, podia dar-me a dedicação à causa da sociedade livre e da futura felicidade humana? Só a consciência de dever cumprido, do esforço para um fim bom; e nenhuma destas coisas é uma compensação egoísta, nenhuma destas coisas é um prazer em si, mas um prazer, se o é, nascido de uma ficção social, como pode ser o prazer de ser imensamente rico, ou o prazer de ter nascido em um boa posição social.»
«Confesso-lhe, meu velho, que me vieram momentos de descrença... Senti-me desleal à minha própria doutrina, traidor a ela... Mas em breve passei sobre tudo isto. A idéia de justiça cá estava, dentro de mim, pensei eu. Eu sentia-a natural. Eu sentia que havia um dever superior à preocupação só cá do meu destino. E fui para diante na minha intenção.»
— Não me parece que essa decisão revelasse uma grande lucidez da sua parte... V. não resolveu a dificuldade... V. foi para diante por um impulso absolutamente sentimental...
— Sem dúvida. Mas o que lhe estou contando agora é a história de como me tornei anarquista, e de como o continuei sendo, e continuo. Vou-lhe expondo lealmente as hesitações e as dificuldades que tive, e como as venci. Concordo que, naquele momento, venci a dificuldade lógica com o sentimento, e não com o raciocínio. Mas V. há de ver que, mais tarde, quando cheguei à plena compreensão da doutrina anarquista, esta dificuldade, até então logicamente sem resposta, teve a sua solução completa e absoluta.
— É curioso...
— É... Agora deixe-me continuar na minha história. Tive esta dificuldade, e resolvi-a se bem que mal, como lhe disse. Logo a seguir, e na linha dos meus pensamentos, surgiu-me outra dificuldade que também me atrapalhou bastante.
«Estava bem — vamos lá — que estivesse disposto a sacrificar-me, sem recompensa nenhuma propriamente pessoal, isto é, sem recompensa nenhuma verdadeiramente natural. Mas suponhamos que a sociedade futura não dava em nada do que eu esperava, que nunca havia a sociedade livre, e que diabo é que eu, nesse case, me estava sacrificando? Sacrificar-me a uma idéia sem recompensa pessoal, sem eu ganhar nada com o meu esforço por essa idéia, vá; mas sacrificar-me sem ao menos ter a certeza de que aquilo para que eu trabalhava, existiria um dia, sem que a própria idéia ganhasse com o meu esforço — isso era um pouco mais forte... Desde já lhe digo que resolvi a dificuldade pelo mesmo processo sentimental por que resolvi a outra; mas advirto-o também que, do mesmo modo que a outra, resolvi esta pela lógica, automaticamente, quando cheguei ao estado plenamente consciente do meu anarquismo... V. depois verá... Na altura do que lhe estou contando, saí-me do apuro com uma ou duas frases ocas. `Eu fazia o meu dever para com o futuro; o futuro que fizesse o seu para comigo'... Isto, ou cousa que o valha...»
«Expus esta conclusão, ou, antes estas conclusões, aos meus camaradas, e eles concordaram todos comigo concordaram todos que era preciso ir para a frente e fazer tudo pela sociedade livre. É a verdade que um ou outro, dos mais inteligentes, ficaram um pouco abalados com a exposição, não porque não concordassem, mas porque nunca tinham visto as coisas assim claras, nem os bicos que estas coisas têm... Mas enfim, concordaram todos... Iríamos todos trabalhar pela grande revolução social, pela sociedade livre, quer o futuro nos justificasse, quer não! Formamos um grupo, entre gente certa, e começamos uma grande propaganda — grande, é claro, dentro dos limites doo que podíamos fazer. Durante bastante tempo, no meio de dificuldades, embrulhadas, e por vezes perseguições, lá fomos trabalhando pelo ideal anarquista.»
O banqueiro, chegado aqui, fez uma pausa um pouco mais longa. Não acendeu o charuto, que estava outra vez apagado. De repente teve um leve sorriso, e, com o ar de quem chega ao ponto importante, fitou-me com mais insistência e prosseguiu, clarificando mais a voz e acentuando mais as palavras.
— Nesta altura, disse ele, apareceu uma coisa nova. «Nesta altura» é modo de dizer. Quero dizer que, depois de alguns meses desta propaganda, comecei a reparar numa nova complicação, e esta é que era a mais séria de todas, esta é que era séria a valer...
«V. recorda-se, não é verdade? Daquilo em que eu, por um raciocínio rigoroso, assentei que devia ser o processo de ação dos anarquistas... Um processo, ou processos, quaisquer pelo qual se contribuisse para destruir as ficções sociais sem, ao mesmo tempo, estorvar a criação da liberdade futura, sem, portanto, estorvar em coisa nenhuma a pouca liberdade dos atuais oprimidos pelas ficções sociais; um processo que, sendo possível, criasse já alguma coisa da liberdade futura...»
«Pois bem: uma vez assente este critério, nunca mais deixei de o ter presente... Ora, na altura da nossa propaganda em que estou falando, descobri uma coisa. No grupo de propaganda — não éramos muitos; éramos quarenta, salvo erro — dava-se este caso: criava-se tirana.»
— Criava-se tirania?... Criava-se tirania como?
— Da seguinte maneira... Uns mandavam em outros e levavam-nos para onde queriam; uns impunham-se a outros e obrigavam-nos a ser o que eles queriam; uns arrastavam outros por manhas e por artes para onde eles queriam. Não digo que fizessem isto em coisas graves; mesmo, não havia coisas graves ali em que o fizessem. Mas o fato é que isto acontecia sempre e todos os dias, e dava-se não só em assuntos relacionados com a propaganda, como fora deles, em assuntos vulgares da vida. Uns iam insensivelmente para chefes, outros insensivelmente para subordinados. Uns eram chefes por imposição; outros eram chefes por manha. No fato mais simples isto se via. Por exemplo: dois dos rapazes iam juntos por uma rua fora; chegavam ao fim da rua, e um tinha que ir para a direita e outro para a esquerda; cada um tinha conveniência em ir para o seu lado. Mas o que ia para a esquerda dizia para o outro, «venha V. comigo por aqui»; o outro respondia, e era verdade, «Homem, não posso; tenho que ir por ali» por esta ou aquela razão... Mas afinal, contra sua vontade e sua conveniência, lá ia com o outro para a esquerda... Isto era uma vez por persuasão, outra vez por simples insistência, uma terceira vez por um outro motivo qualquer... Isto é, nunca era por uma razão lógica; havia sempre nesta imposição e nesta subordinação qualquer coisa de espontâneo, de como que instintivo... E como neste caso simples, em todos os outros casos; desde os menos até aos mais importantes... V. vê bem o caso?
— Vejo. Mas que diabos há de estranho nisso? Isso é tudo quanto há de mais natural...
— Será. Já vamos a isso. O que lhe peço que note é que é exatamente o contrário da doutrina anarquista. Repare bem que isto se passava num grupo pequeno, num grupo sem influência nem importância, num grupo a quem não estava confiada a solução de nenhuma questão grave ou decisão sobre qualquer assunto de vulto. E repare que se passava num grupo de gente que se unira especialmente para fazer o que pudesse para o fim anarquista — isto é, para combate, tanto quando possível, as ficções sociais, e criar, tanto quando possível, a liberdade futura. V. reparou bem nestes dois pontos?
— Reparei.
— Veja agora bem o que isto representa... Um grupo pequeno, de gente sincera (garanto-lhe que era sincera!), estabelecido e unido expressamente para trabalhar pela causa da liberdade, tinha, no fim de uns meses, conseguido só uma coisa de positivo e concreto — a criação entre si de tirania. E repare que tirania... Não era uma tirania derivada da ação das ficções sociais, que, embora lamentável, seria desculpável, até certo ponto, ainda que menos em nós, que combatíamos essas ficções, que em outras pessoas; mas enfim, vivíamos em meio de uma sociedade baseada nessas ficções e não era inteiramente culpa nossa se não pudéssemos de todo fugir à sua ação. Mas não era isso. Os que mandavam nos outros, ou os levavam para onde queriam, não faziam isso pela força do dinheiro, ou da posição social, ou de qualquer autoridade de natureza fictícia, que se arrogassem; faziam-no por uma ação de qualquer espécie fora das ficções sociais, uma tirania nova. E era uma tirania exercida sobre gente essencialmente oprimida já pelas ficções sociais. Era, ainda por cima, tirania exercida entre si por gente cujo intuido sincero não era senão destruir tirania e criar liberdade.
«Agora ponha o caso num grupo muito maior, muito mais influente, tratando já de questões importantes e de decisões de caráter fundamental. Ponha esse grupo a encaminha os seus esforços, como o nosso, para a formação de um sociedade livre. E agora diga-me se através desse carregamento de tiranias entrecruzadas V. entrevê qualquer sociedade futura que se pareça com uma sociedade livre ou com um humanidade digna de si própria...»'
— Sim: isso é muito curioso...
— É curioso, não é?...E olhe que há pontos secundários também muito curiosos... Por exemplo: a tirania do auxílio...
— A quê?
— A tirania do auxílio. Havia entre nós quem, em vez de mandar nos outros, em vez de se impor aos outros, pelo contrário os auxiliava em tudo quanto podia. Parece o contrário, não é verdade? Pois olhe que é o mesmo. É a mesma tirania nova. É do mesmo modo ir contra os princípios anarquistas.
— Essa é boa? Em quê?
— Auxiliar alguém, meu amigo, é tomar alguém por incapaz; se esse alguém não é incapaz, é ou fazê-lo tal, ou supô-lo tal, e isto é, no primeiro caso uma tirania, e no segundo um desprezo. Num caso cerceia-se a liberdade de outrem; no outro caso parte-se, pelo menos inconscientemente, do princípio de que outrem é desprezível e indigno ou incapaz de liberdade.
«Voltemos ao nosso caso... V. vê bem que este ponto era gravíssimo. Vá que trabalhássemos pela sociedade futura sem esperarmos que ela nos agradecesse, ou arriscando-nos, mesmo, a que ela nunca viesse. Tudo isso, vá. Mas o que era demais era estarmos trabalhando para um futuro de liberdade e não fazermos, de positivo, mais que criar tirania, e não só tirania, mas tirania nova, e tirania exercida por nós, os oprimidos, uns sobre os outros. Ora isto é que não pode ser...»
«Pus-me a pensar. Aqui havia um erro, um desvio qualquer. Os nossos intuitos eram bons; as nossas doutrinas pareciam certas; seriam errados os nossos processos? Com certeza que deveriam ser. Mas onde diabo estava o erro? Pus-me a pensar nisso e ia dando em doido. Um dia, de repente, como acontece sempre nestas coisas, dei com a solução. Foi o grande dia das minhas teorias anarquistas; o dia em que descobri, por assim dizer, a técnica do anarquismo.»
Olhou-me um momento sem me olhar. Depois continuou, no mesmo tom.
— Pensei assim... Temos aqui uma tirania nova, uma tirania que não é derivada das ficções sociais. Então de onde é que ela derivada? Será derivada das qualidades naturais? Se é, adeus sociedade livre! Se uma sociedade onde estão em operação apenas as qualidades naturais dos homens — aquelas qualidades com que eles nascem, que devem só à Natureza, e sobre as quais não temos poder nenhum —, se uma sociedade onde estão em operação apenas essas qualidades é um amontoado de tiranias, quem é que vai mexer o dedo mínimo para contribuir para a vinda dessa sociedade? Tirania por tirania, fique a que está, que ao menos é aquela a que estamos habituados, e que por isso fatalmente sentimos menos que estaríamos uma tirania nova, e com o caráter terrível de todas as coisas tirânicas que são diretamente da Natureza — o não haver revolta possível contra ela, como não há revolução contra ter que morrer, ou contra nascer baixo quando se preferia ter nascido alto. Mesmo, eu já lhe provei que, se por qualquer razão não é realizável a sociedade anarquista, então deve existir, por ser mais natural que qualquer outra salvo aquela, a sociedade burguesa.
«Mas seria esta tirania, que nascia assim entre nós, realmente derivada das qualidades naturais? Ora o que são as qualidades naturais? São o grau de inteligência, de imaginação, de vontade, etc., com que cada um nasce — isto no campo mental, é claro, porque as qualidades naturais físicas não vêm para o caso. Ora um tipo que, sem ser por uma razão derivada das ficções sociais, manda noutro, por força que o faz por lhe ser superior em uma ou outra das qualidades naturais. Domina-o pelo emprego das suas qualidades naturais. Mas há uma coisa a ver: esse emprego das qualidades naturais será legítimos, isto é, será natural?»
«Ora qual é o emprego natural das nossas qualidades naturais? O servir os fins naturais da nossa personalidade. Ora dominar alguém será um fim natural da nossa personalidade? Pode sê-lo; há um caso em que pode sê-lo: é quando esse alguém está para nós num lugar de inimigo. Para o anarquista, é claro, quem está num lugar de inimigo, é qualquer representante das ficções sociais e da sua tirania; mais ninguém, porque todos os outros homens são homens como ele e camaradas naturais. Ora, V. bem vê, o caso da tirania, que tínhamos estado criando, era exercida sobre homens como nós, camaradas naturais, e, mais ainda, sobre homens duas vezes nossos camaradas, porque o eram também pela comunhão do mesmo ideal. Conclusão: esta nossa tirania, se não era derivada das ficções sociais, também não era derivada das qualidades naturais; era derivada duma aplicação errada, duma perversão, das qualidades naturais. E essa perversão, de onde é que provinha?»
«Tinha que provir de uma de duas cousas: ou de o homem ser naturalmente mau, e portanto todas as qualidades naturais serem naturalmente pervertidas; ou de uma perversão resultante da longa permanência da humanidade numa atmosfera de ficções sociais, todas elas criadoras de tirania, e tendente, portanto, a tornar já instintivamente tirânico o uso mais natural das qualidades mais naturais. Ora, destas duas hipóteses, qual é que seria a verdadeira? De um modo satisfatório — isto é, rigorosamente lógico ou científico — era impossível determinar. O raciocínio não pode entrar com o problema, porque ele é de ordem histórica, ou científica, e depende do conhecimento de fatos. Por seu lado, a ciência também nos não ajuda, porque, por mais longe que recuemos na história, encontramos sempre o homem vivendo sob um ou outro sistema de tirania social, e portanto sempre num estado que nos não permite averiguar como é o homem quando vive em circunstâncias pura e inteiramente naturais. Não havendo maneira de determinar ao certo, temos que pender para o lado da maior probabilidade; e a maior probabilidade está na segunda hipótese. É mais natural supor que a longuíssima permanência da humanidade em ficções sociais criadoras de tirania faça cada homem nascer já com as suas qualidade naturais pervertidas no sentido de tiranizar, do que supor que qualidades naturais podem ser naturalmente pervertidas, o que, de certo modo, representa una contradição. Por isso o pensador decide-se, como eu me decidi, com uma quase absoluta segurança, pela segunda hipótese.»
«Temos, pois, que uma coisa é evidente... No estado social presente não é possível um grupo de homens, por bem intencionados que estejam todos, por preocupados que estejam todos só em combater as ficções sociais e em trabalhar pela liberdade, trabalharem juntos sem que espontaneamente criem entre si tirania, sem criar entre si uma tirania nova, suplementar à das ficções sociais, sem destruir na prática tudo quanto querem na teoria, sem involutariamente estorvar o mais possível o próprio intuito que querem promover. O que há a fazer? É muito simples... É trabalharmos todos para o mesmo fim, mas separados.»
— Separados?
— Sim. V. não seguiu o meu argumento?
— Segui.
— E não acha lógica, não acha fatal esta conclusão?
— Acho, sim, claro... Disse eu: trabalharmos todos para o mesmo fim, mas separados. Trabalharmos todos para o mesmo fim anarquista, cada um contribui com o seu esforço para a destruição das ficções sociais, que é para onde o dirige, e para a criação da sociedade livre do futuro; e trabalhando separados não podemos, de modo nenhum, criar tirania nova, porque nenhum tem ação sobre o outro, e não pode portanto, nem, dominando-o, diminuir-lhe a liberdade, nem, auxiliando-o, apagar-lha.
«Trabalhando assim separados e para o mesmo fim anarquista, temos as duas vontades — a do esforço, e a da não criação de tirania nova. Continuamos unidos, porque o estamos moralmente e trabalhamos do mesmo modo para o mesmo fim; continuamos anarquistas, porque cada um trabalha para a sociedade livre; mas deixamos de ser traidores, voluntários ou involuntários, à nossa cousa, deixamos mesmo de poder sê-lo, porque nos colocamos, pelo trabalho anarquista isolado, fora da influência deletéria das ficções sociais, no seu reflexo hereditário sobre as qualidades que a Natureza deu.»
«É claro que toda esta tática se aplica ao que eu chamei de período de preparação para a revolução social. Arruinadas as defesas burguesas, e reduzida a sociedade inteira ao estado de aceitação das doutrinas anarquistas, faltando só fazer a revolução social, então, para o golpe final, é que não pode continuar a ação separada. Mas nessa altura, já a sociedade livre estará virtualmente chagada; já as coisas serão de outra maneira. A tática a que me refiro só diz respeito à ação anarquista em meio da sociedade burguesa, como agora, como no grupo a que eu pertencia.»
«Era esse — até que enfim! — o verdadeiro processo anarquista. Juntos, nada valíamos, que importasse, e, ainda por cima, nos tiranizávamos, e nos estorvávamos uns aos outros e às nossas teorias. Separados, pouco também conseguiríamos, mas ao menos não estorvávamos a liberdade, não criávamos tirania nova; o que conseguíamos, pouco que fosse, era realmente conseguido, sem desvantagem nem perda. E, de mais a mais, trabalhávamos assim separados, aprendíamos a confiar mais em nós mesmos, a não nos encostarmos uns aos outros, a tornarmo-nos mais livres já, a prepararmo-nos, tanto pessoalmente, como aos outros pelo nosso exemplo, para o futuro.»
«Fiquei radiante com essa descoberta. Fui logo expô-la aos meus camaradas... Foi uma das poucas vezes em que fui estúpido na minha vida. Imagine V. que eu estava tão cheio da minha descoberta que esperava que eles concordassem...»
— Não concordaram, é claro...
— Repontaram, meu amigo, repontaram todos! Uns mais, outros menos, tudo protestou!... Não era isso!... Isso não podia ser!... Mas ninguém dizia o que era ou o que é que havia de ser. Argumentei e argumentei, e, em resposta aos meus argumentos, não obtive senão frases, lixo coisas como essas que os ministros respondem nas câmaras quando não têm resposta nenhuma... Então é que eu vi com que bestas e com que covardões estava metido! Desmascararam-se. Aquela corja tinha nascido para escravos. Queriam ser anarquistas à custa alheia. Queriam a liberdade, logo que fossem os outros que lha arranjassem, logo que lhe fosse dada como um rei dá um título! Quase todos eles são assim, os grandes lacaios!
— E V., escamou-se?
— Se me escamei! Enfureci-me! Pus-me aos coices. Dei por paus e por pedras. Quase que me peguei com dois ou três deles. E acabei por me vir embora. Isolei-me. Veio-me um nojo àquela carneirada toda, que V. não imagina! Quase que descri no anarquismo. Quase que decidi não me importar mais com tudo aquilo. Mas, passados uns dias, voltei a mim. Pensei que o ideal anarquista estava acima destas quizílas. Eles não queriam só brincar aos libertários? Não estava eu para brincar num caso desses. Eles não tinham força para combater senão encostados uns aos outros, e criando, entre si, um simulacro novo da tirania que diziam querer combater? Pois que o fizessem, os parvos, se não serviam para mais. Eu é que não ia ser burguês por tão pouco.
«Estava estabelecido que, no verdadeiro anarquismo, cada um tem que, por sua própria forças, criar liberdade e combater as ficções sociais. Pois por minha própria forças eu ia criar liberdade e combater as ficções sociais. Ninguém queria seguir-me no verdadeiro caminho anarquista? Seguiria eu por ele. Iria eu só, com os meus recursos, com a minha fé, desacompanhado até do apoio mental dos que tinham sido meus camaradas, contra as ficções sociais inteiras. Não digo que fosse um belo gesto, nem um gesto heróico. Foi simplesmente um gesto natural. Se o caminho tinha que ser seguido por cada um separadamente, eu não precisava de mais ninguém para o seguir. Bastava o meu ideal. Foi baseado nestes princípios e nestas circunstâncias que decidi, por mim só, combater as ficções sociais.»
Suspendeu um pouco o discurso, que se lhe tornara quente e fluido. Retomou-o de ali a pouco, com a voz já mais sossegada.
— É um estado de guerra, pensei eu, entre mim e as ficções sociais. Muito bem. O que posso eu fazer contra as ficções sociais? Trabalho sozinho, para não poder, de modo nenhum, criar qualquer tirania. Como posso eu colaborar sozinho na preparação da revolução social, na preparação da humanidade para a sociedade livre? Tenho que escolher um de dois processos, dos dois processos que há; caso, é claro, não possa servir-me de ambos. Os dois processos, são a ação indireta, isto é, a propaganda, e a ação direta, de qualquer espécie.
«Pensei primeiro na ação indireta, isto é, na propaganda. Que propaganda poderia eu fazer só por mim? À parte esta propaganda que sempre se vai fazendo em conversa, com este ou aquele, ao acaso e servindo-nos de todas as oportunidades, o que eu queria saber era se a ação indireta era um caminho por onde eu pudesse encaminhar a minha atividade de anarquista energicamente, isto é, de modo a produzir resultados sensíveis. Vi logo que não podia ser. Não sou orador e não sou escritor. Quero dizer, sou capaz de falar em público, se for preciso, e sou capaz de escrever um artigo de jornal; mas o que eu queria averiguar era se o meu feitio natural indicava que, especializando-me na ação indireta, de qualquer das duas espécies ou em ambas, eu poderia obter resultados mais positivos para a idéia anarquista que especializando os meus esforços em qualquer outro sentido. Ora a ação é sempre mais proveitosa que a propaganda, exceto para os indivíduos cujo feitio os indica essencialmente como propagandistas — os grandes oradores, capazes de eletrizar multidões e arrastá-las atrás de si, ou os grandes escritores, capazes de fascinar e convencer com os seus livros. Não me parece que eu seja muito vaidoso, mas, se o sou, não me dá, pelo menos, para me envaidecer daquelas qualidades que não tenho. E, como lhe disse, nunca me deu para me julgar orador ou escritor. Por isso abandonei a idéia da ação indireta como caminho a dar à minha atividade anarquista. Por exclusão de partes, era forçado a escolher a ação direta, isto é, o esforço aplicado à prática da vida, à vida real. Não era a inteligência, mas a ação. Muito bem. Assim seria.»
«Tinha eu pois que aplicar à vida prática o processo fundamental de ação anarquista que eu já tinha esclarecido — combater as ficções sociais sem criar tirania nova, criando já, caso fosse possível, qualquer coisa da liberdade futura. Ora como diabo se faz isso na prática?»
«Ora o que é combater na prática? Combater na prática é a guerra, é uma guerra, pelo menos. Como é que se faz guerra às ficções sociais? Antes de mais nada, como é que se faz guerra? Como é que se vence o inimigo em qualquer guerra? De uma de duas maneiras: ou matando-o isto é, destruindo-o; ou aprisionando-o, isto é, subjugando-o, reduzindo-o à inatividade. Destruir as ficções sociais não podia eu fazer; destruir as ficções sociais só o podia fazer a revolução social. Até ali, as ficções sociais podiam estar abaladas, cambaleando, por um fio; mas destruídas, só o estariam com a vinda da sociedade livre e a queda positiva da sociedade burguesa. O mais que eu poderia fazer nesse sentido era destruir — destruir no sentido físico de matar — um ou outro membro da classes representativas da sociedade burguesa. Estudei o caso, e vi que era asneira. Suponha V. que eu matava um ou dois, ou uma dúzia de representante da tirania das ficções sociais... O resultado? As ficções sociais ficariam abaladas? Não ficariam. As ficções sociais não são como um situação política que pode depender de um pequeno número de homens, de um só homem por vezes. O que há de mau nas ficções sociais são elas, no seu conjunto, e não os indivíduos que as representam senão por serem representantes delas. Depois, um atentado de ordem social produz sempre uma reação; não só tudo fica na mesma, mas, as mais das vezes, piora. E, ainda por cima, suponha, como é natural, que, depois de um atentado, eu era caçado; era caçado e liquidado, de uma maneira ou outra. E suponha que eu tinha dado cabo de uma dúzia de capitalistas. Em que vinha isso tudo dar, e resumo? Com a minha liquidação, ainda que não por morte, mas por simples prisão ou degredo, a causa anarquista pedia um elemento de combate; e os doze capitalistas, que eu teria estendido, não eram doze elementos que a sociedade burguesa tinha perdido, porque os elementos componentes da sociedade burguesa não são elementos de combate, mas elementos puramente passivos, pois o `combate' está, não nos membros da sociedade burguesa, mas no conjunto de ficções sociais, em que essa sociedade assenta. Ora as ficções sociais não são gente, em quem se possa dar tiros... V. compreende bem? Não era como o soldado de um exercito que mata doze soldados de um exército contrário; era como um soldado que mata doze civis da nação do outro exército. É matar estupidamente, porque não se elimina combatente nenhum... Eu não podia portanto pensar em destruir, nem no todo nem em nenhuma parte, ficções sociais. Tinha então que subjugá-las, que vencê-las subjugando-as, reduzindo-as à inatividade.»
Apontou para mim o indicador direito súbito.
— Foi o que eu fiz!
Retirou logo o gesto, e continuou.
— Procurei ver qual era a primeira, a mais importante, das ficções sociais. Seria a essa que me cumpria, mais que a nenhuma outra, tentar subjugar, tentar reduzir à inatividade. A mais importante, da nossa época pelo menos, é o dinheiro. Como subjugar o dinheiro, ou, em palavras mais precisas, a força, ou a tirania do dinheiro? Tornando-me livre da sua influência, da sua força, superior portanto à influência, reduzindo-o à inatividade pelo que me dizia respeito a mim. Pelo que me dizia respeito a mim, compreende V.?, porque eu é que o combatia; se fosse reduzi-lo à inatividade pelo que respeita a toda a gente, isso não seria já subjugá-lo, mas destruí-lo, porque seria acabar de todo com a ficção do dinheiro. Ora eu já lhe provei que qualquer ficção social só pode ser «destruída» pela revolução social, arrastada com as outras na queda da sociedade burguesa.
«Como podia eu tornar-me superior à força do dinheiro? O processo mais simples era afastar-me da esfera da sua influência, isto é, da civilização; ir para um campo comer raízes e beber água das nascentes; andar nu e viver como animal. Mas isto, mesmo que não houvesse dificuldade em fazê-lo, não era combater uma ficção social; não era mesmo combater: era fugir. Realmente, quem se esquiva a travar um combate não é derrotado nele. Mas moralmente é derrotado, porque não se bateu. O processo tinha que ser outro — um processo de combate e não de fuga. Como subjugar o dinheiro, combatendo-o? Como furtar-me à sua influência e tirania, não evitando o seu encontro? O processo era só um — adquiri-lo, adquiri-lo em quantidades bastante para lhe não sentir a influência; e em quanto mais quantidade o adquirisse, tanto mais livre eu estaria dessa influência. Foi quando vi isto claramente, com toda a força da minha convicção de anarquista, e toda a minha lógica de homem lúcido, que entrei na fase atual — a comercial e bancária, meu amigo — do meu anarquismo.»
Descansou um momento da violência, novamente crescente, do seu entusiasmo pela sua exposição. Depois continuou, ainda com um certo calor, a sua narrativa.
— Ora V. lembrasse daquelas duas dificuldades lógicas que eu lhe disse que me haviam surgido na princípio da minha carreira de anarquista consciente?... E V. lembra-se de eu lhe dizer que naquela altura as resolvi artificialmente pelo sentimento e não pela lógica? Isto é, V. mesmo notou e muito bem, que eu não as tinha resolvido pela lógica...
— Lembro-me, sim...
— E V. lembra-se de eu lhe dizer que mais tarde, quando acertei por fim com o verdadeiro processo anarquista, as resolvi então de vez, isto é, pela lógica?
— Sim.
— Ora veja como ficaram resolvidas... As dificuldades eram estas: não é natural trabalhar por qualquer coisa, seja o que for, sem uma compensação natural, isto é, egoísta; e não é natural dar o nosso esforço a qualquer fim sem ter a compensação de saber que esse fim se atinge. As duas dificuldades eram estas; ora repare como ficam resolvidas pelo processo de trabalho anarquista que o meu raciocínio me levou a descobrir como sendo o único verdadeiro... O processo dá em resultado eu enriquecer; portanto, compensação egoísta. O processo visa ao conseguimento da liberdade; ora eu, tornando-me superior à força do dinheiro, isto é, libertando-me dela, consigo liberdade. Consigo liberdade só para mim, é certo; mas é que como já lhe provei, a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, pela revolução social. O ponto concreto é este: viso liberdade, consigo liberdade: consigo a liberdade que posso... E veja V.: à parte o raciocínio que determina este processo anarquista como o único verdadeiro, o fato que ele resolve automaticamente as dificuldades lógicas, que se podem opor a qualquer processo anarquista, mais prova que ele é o verdadeiro.
«Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei o processo — confesso-lhe, meu amigo, que não olhei o processo; empreguei tudo quanto há — o açambarcamento, o sofisma financeiro, a própria concorrência desleal. O quê?! Eu combatia as ficções sociais, imorais e antinaturais por excelência, e havia de olhar a processos?! Eu trabalhava pela liberdade, e havia de olhar as armas com que combatia a tirania?! O anarquista estúpido, que atira bombas e dá tiros, bem sabe que mata, e bem sabe que as suas doutrinas não incluem a pena de morte. Ataca uma imoralidade com um crime, porque acha que essa imoralidade pede um crime para se destruir. Ele é estúpido quanto ao processo, porque, como já lhe mostrei, esse processo é errado e contraproducente como processo anarquista; agora quanto à moral do processo ele é inteligente. Ora o meu processo estava certo, e eu servia-me legitimamente, como anarquista, de todos os meios para enriquecer. Hoje realizei o meu limitado sonho de anarquista prático e lúcido. Sou livre. Faço o que quero, dentro, é claro, do que é possível fazer. O meu lema de anarquista era a liberdade; pois bem, tenho a liberdade, a liberdade que, por enquanto, na nossa sociedade imperfeita, é possível ter. Quis combater as forças sociais; combati-as, e, o que é mais, venci-as.»
— Alto lá! Alto lá! disse eu. Isso estará tudo muito bem, mas há uma cousa que V. não viu. As condições do seu processo eram, como V. provou, não só criar liberdade, mas também não criar tirania. Ora V. criou tirania V. como açambarcador, como banqueiro, como financeiro sem escrúpulos — V. desculpe, mas V. é que disse —, V. criou tirania. V. criou tanta tirania como qualquer outro representante das ficções sociais, que V. diz que combate.
— Não, meu velho, V. engana-se. Eu não criei tirania. A tirania, que pode ter resultado da minha ação de combate contra as ficções sociais, é uma tirania que não parte de mim, que portanto eu não criei; está nas ficções sociais, eu não ajuntei a elas. Essa tirania é a própria tirania das ficções sociais; e eu não podia, nem me propus, destruir as ficções sociais. Pela centésima vez lhe repito: só a revolução social pode destruir as ficções sociais; antes disso, a ação anarquista perfeita, como a minha, só pode subjugar as ficções sociais, subjugá-las em relação só ao anarquista que põe esse processo em prática, porque esse processo não permite uma mais larga sujeição dessas ficções. Não é de não criar tirania que se trata: é de não criar tirania nova, tirania onde não estava. Os anarquistas, trabalhando em conjunto, influenciando-se uns aos outros como eu lhe disse, criam entre si, fora e à parte das ficções sociais, uma tirania; essa é que é uma tirania nova. Essa, eu não a criei. Não a podia mesmo criar, pelas próprias condições do meu processo. Não, meu amigo; eu só criei liberdade. Libertei um. Libertei-me a mim. É que o meu processo, que é, como lhe provei, o único verdadeiro processo anarquista, me não permitiu libertar mais. O que pude libertar, libertei.
— Está bem... Concordo... Mas olhe que, por esse argumento, a gente quase que é levado a crer que nenhum representante das ficções sociais exerce a tirania...
— E não exerce. A tirania é das ficções sociais e não dos homens que as encarnam; esses são, por assim dizer, os meios de que as ficções se servem para tiranizar, como a faca é o meio que se pode servir o assassino. E V. decerto não julga que abolindo as facas abole os assassinos... Olhe... Destrua V. todos os capitalistas do mundo, mas sem destruir o capital... No dia seguinte o capital, já nas mãos de outros, continuará, por meio desses, a sua tirania. Destrua, não os capitalistas, mas o capital; quantos capitalistas ficam?... Vê?...
— Sim; V. tem razão.
— Ó filho, o máximo, o máximo, o máximo que V. me pode acusar de fazer é de aumentar um pouco — muito muito pouco — a tirania das ficções sociais. O argumento é absurdo, porque como já lhe disse, a tirania que eu não devia criar, e não criei, é outra. Mas tem mais um ponto fraco: é que, pelo mesmo raciocínio, V. pode acusar um general, que trava combate pelo seu país, de causar ao seu país o prejuízo do número de homens do seu próprio exercito que teve que sacrificar para vencer. Quem vai à guerra, dá e leva. Consiga-se o principal; o resto...
— Está muito bem... Mas olhe lá outra coisa... O verdadeiro anarquista quer a liberdade não só para si, mas também para os outros... Parece-me que quer a liberdade para a humanidade inteira...
— Sem dúvida. Mas eu já lhe disse que, pelo processo que descobri que era o único processo anarquista, cada um tem de libertar-se a si próprio. Eu libertei-me a mim; fiz o meu dever simultaneamente pra comigo e para com a liberdade. Por que é que os outros, os meus camaradas, não fizeram o mesmo? Eu não os impedi. Esse é que teria sido o crime, se os tivesse impedido. Mas eu nem sequer os impedi ocultando-lhes o verdadeiro processo anarquista; logo que descobri o processo, disse-o claramente a todos. O próprio processo me impedia de fazer mais. Que mais podia fazer? Compeli-los a seguir o caminho? Mesmo que o pudesse fazer, não o faria, porque seria tirar-lhes a liberdade, e isso era contra os meus princípios anarquistas. Auxiliá-los? Também não podia ser, pela mesma razão. Eu nunca ajudei, nem ajudo, ninguém, porque isso, sendo diminuir a liberdade alheia, é também contra os meus princípios. V. o que me está censurando é eu não ser mais gente que uma pessoa só. Por que me censura o cumprimento do meu dever de libertar, até onde eu o podia cumprir? Por que não os censura antes a eles por não terem cumprido o deles?
— Pois sim, homem. Mas esses homens não fizeram o que V. fez, naturalmente, porque eram menos inteligentes que V., ou menos fortes de vontade, ou...
— Ah, meu amigo: essas são já as desigualdades naturais, e não sociais... Com essas é que o anarquismo não tem nada. O grau de inteligência ou de vontade de um indivíduo é com ele e com a Natureza; as próprias ficções sociais não põem praí nem prego nem estopa. Há qualidade naturais, como eu já lhe disse, que se pode presumir que sejam pervertidas pela longa permanência da humanidade entre ficções sociais; mas a perversão não está no grau da qualidade, que é absolutamente dado pela Natureza, mas na aplicação da qualidade. Ora uma questão de estupidez ou de falta de vontade não tem que ver com a aplicação dessas qualidade, mas só com o grau delas. Por isso lhe digo: essas são já absolutamente as desigualdades naturais, e sobre essas ninguém tem poder nenhum, nem há modificação social que a modifique, como não me pode tornar a mim alto ou a V. baixo...
«A não ser... A não ser que, no caso desses tipos, a perversão hereditária das qualidades naturais vá tão longe que atinja o próprio fundo do temperamento... Sim, que um tipo nasça para escravo, nasça naturalmente escravo, e portanto incapaz de qualquer esforço no sentido de se libertar... Mas nesse caso..., nesse caso..., que têm eles que ver com a sociedade livre, ou com a liberdade?... Se um homem nasceu para escravo, a liberdade, sendo contrária à sua índole, será para ele uma tirania»'
Houve uma pequena pausa. De repente ria alto.
— Realmente, disse eu, V. é anarquista. Em todo o caso, dá vontade de rir, mesmo depois de o ter ouvido, compara o que V. é com o que são os anarquistas que praí há...
— Meu amigo, eu já lho disse, já lho provei, e agora repito-lho... A diferença é só esta: eles são anarquistas só teóricos, eu sou teórico e prático; eles são anarquistas místicos, e eu científico; eles são anarquistas que se agacham, eu sou um anarquista que combate e liberta... Em uma palavra: eles são pseudo-anarquistas, e eu sou anarquista.
E levantamos-nos da mesa
Lisboa, janeiro de 1922.

Fonte: pt.wikisource.org