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Fagundes Varela - Em Viagem

Em Viagem

A vida nas cidades me enfastia,
Enoja-me o tropel das multidões,
O sopro do egoísmo e do interesse
Mata-me nalma a flor das ilusões.

Mata-me nalma a flor das ilusões
Tanta mentira, tão fingido rir,
E cheio e farto de tristeza e tédio
Rejeito as glórias de falaz porvir!

Rejeito as glórias de falaz porvir,
Galas e festas, o prazer, talvez,
E busco altivo as solidões profundas
Que dormem quedas do Senhor aos pés.

Que dormem quedas do Senhor aos pés,
Ao doce brilho dos clarões astraes,
Ricas de gozos que não tem o mundo,
Pródigas sempre de beleza e paz!

 Fagundes Varela

Fagundes Varela - Livro das Sombras

Livro das Sombras

A.....

Pensava em ti nas horas de tristeza
Quando estes versos pálidos compús...
Cercavam-me planícies sem beleza,
Pesava-me na fronte um céu sem luz.

Ergue este ramo solto em teu caminho:
Sei que em teu seio asilo encontrará!...
Só tu conheces o secreto espinho
Que dentro dalma me pungindo está!...

Fagundes Varela

Poemas de Fagundes Varela - A flor do maracujá

A flor do maracujá

Pelas rosas, pelos lírios,
pelas abelhas, sinhá,
pelas notas mais chorosas
do canto do sabiá,
pelo cálice de angústias
da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo,
pelo agreste manacá,
pelas gotas de sereno
nas folhas do gravatá,
pela coroa de espinhos
da flor do maracujá!

Pelas tranças de mãe-dágua
que junto da fonte está,
pelos colibris que brincam
nas alvas plumas do ubá,
pelos cravos desenhados
da flor do maracujá!

Pelas azuis borboletas
que descem do Panamá,
pelos tesouros ocultos
nas minas do Sincorá,
pelas chagas roxeadas
da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
pelas montanhas, sinhá!
Pelas florestas imensas,
que falam de Jeová!
Pela lança ensangüentada
da flor do maracujá!

Por tudo o que o céu revela,
por tudo o que a terra dá
eu te juro que minh'alma
de tua alma escrava está!...
Guarda contigo este emblema
da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos
de tantas rimas em -á-
mas ouve meus juramentos,
meus cantos, ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
da flor do maracujá!

Fagundes Varela

Fagundes Varela - Noturno

Noturno
Minh'alma é como um deserto
Por onde romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

Minh'alma é como a serpente
Que se torce ébria e demente
De vivas chamas no meio;
É como a doida que dança
Sem mesmo guardar lembrança
Do cancro que rói-lhe o seio!

Minh'alma é como o rochedo
Donde o abutre e o corvo tredo
Motejam dos vendavais;
Coberto de atros matizes,
Lavrado das cicatrizes
Do raio, nos temporais!

Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

Tombam as selvas frondosas,
Cantam as aves mimosas
As nênias da viuvez;
Tudo, tudo, vai finando,
Mas eu pergunto chorando:
Quando será minha vez?

No véu etéreo os planetas,
No casulo as borboletas
Gozam da calma final;
Porém meus olhos cansados
São, a mirar, condenados
Dos seres o funeral!

Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer! Não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançá-lo ao chão;
Do pó desprender-me rindo
E, as asas brancas abrindo,
Perder-me pela amplidão!

Vem, oh! morte! A turba imunda
Em sua ilusão profunda
Te odeia, te calunia,
Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!
Virgens, anjos e crianças,
Coroadas de esperanças,
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?

Minh'alma é como um deserto
Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

Fagundes Varela

A cidade - Fagundes Varela

A cidade 

A cidade ali está com seus enganos,
seu cortejo de vícios e traições,
seus vastos templos, seus bazares amplos,
seus ricos paços, seus bordéis salões.

A cidade ali está: sobre seus tetos
paira dos arsenais o fumo espesso,
rolam nas ruas da vaidade os coches
e ri-se o crime à sombra do progresso.

A cidade ali está: sob os alpendres
dorme o mendigo ao sol do meio-dia,
chora a viúva em úmido tugúrio,
canta na catedral a hipocrisia.

A cidade ali está: com ela o erro,
a perfídia, a mentira, a desventura...
Como é suave o aroma das florestas!
Como é doce das serras a frescura!

A cidade ali está: cada passante
que se envolve das turbas no bulício
tem a maldade sobre a fronte escrita,
tem na língua o veneno e nalma o vício.

Não, não é na cidade que se formam
os fortes corações, as crenças grandes,
como também nos charcos das planícies
não é que gera-se o condor dos Andes!

Não, não é na cidade que as virtudes,
as vocações eleitas resplandecem,
flores de ar livre, à sombra das muralhas
pendem cedo a cabeça e amarelecem.

Quanta cena infernal sob essas telhas!
Quanto infantil vagido de agonia!
Quanto adultério! Quanto escuro incesto!
Quanta infâmia escondida à luz do dia!

Quanta atroz injustiça e quantos prantos!
Quanto drama fatal! Quantos pesares!
Quanta fronte celeste profanada!
Quanta virgem vendida aos lupanares!

Quanto talento desbotado e morto!
Quanto gênio atirado a quem mais der!
Quanta afeição cortada! Quanta dúvida!
Num carinho de mãe ou de mulher!

Eis a cidade! Ali a guerra, as trevas,
a lama, a podridão, a iniqüidade;
aqui o céu azul, as selvas virgens,
o ar, a luz, a vida, a liberdade!

Ali medonhos, sórdidos alcouces,
antros de perdição, covis escuros,
onde ao clarão de baços candeeiros
passam da noite os lêmures impuros;

E abalroam-se as múmias coroadas,
corpos de lepra e de infecção cobertos,
em cujos membros mordem-se raivosos
os vermes pelas sedas encobertos!

Aqui verdes campinas, altos montes,
regatos de cristal, matas viçosas,
borboletas azuis, loiras abelhas,
hinos de amor, canções melodiosas.

Ali a honra e o mérito esquecidos,
mortas as crenças, mortos os afetos,
os lares sem legenda, a musa exposta
aos dentes vis de perros objetos!

Presa a virtude ao cofre dos banqueiros,
a lei de Deus entregue aos histriões!
Em cada rosto o selo do egoísmo,
em cada peito um mundo de traições!

Depois o jogo, a embriaguez, o roubo,
a febre nos ladrilhos do prostíbulo,
o hospital, a prisão... Por desenredo
a imagem pavorosa do patíbulo!

Eis a cidade!... Aqui a paz constante,
serena a consciência, alegre a vida,
formoso o dia, a noite sem remorsos,
pródiga a terra, nossa mãe querida!

Salve, florestas virgens! Rudes serras!
Templos da imorredoura liberdade!
Salve! Três vezes salve! Em teus asilos
Sinto-me grande, vejo a divindade!

Fagundes Varela

Névoas - Fagundes Varela

NÉVOAS

Na hora em que as névoas se estendem nos ares,
Que choram nos mares as ondas azuis,
E a lua cercada de pálida chama
Nas selvas derrama seu pranto de luz;

Eu vi... Maravilha! Prodígio inefável!
Um vulto adorável, primor dos primores,
Sorrindo às estrelas, no céu resvalando,
Nas vagas boiando de tênues vapores!

Nos membros divinos, mais alvos que a neve,
Que os astros, de leve, clareiam formosos,
Nas tranças douradas, nos lábios risonhos
Os gênios e os sonhos brincavam medrosos!

Princesa das névoas! Milagre das sombras!
Das róseas alfombras, dos paços sidéreos.
Acaso rolaste, dos anjos nos braços,
Dos vastos espaços aos mantos etéreos?

Os prantos do inverno congelam-te a fronte,
Os combros do monte se cobrem de brumas,
E queda repousas num mar de neblina
Qual pérola fina num leito de espumas!

Nas nuas espáduas, dos astros algentes,
O sopro não sentes raivoso passar?
Não vês que se esvaem miragens tão belas?
A luz das estrelas não vês se apagar?

Ai! vem que nas nuvens te mata o desejo
De um férvido beijo gozares em vão!
Os astros sem alma se cansam de olhar-te,
Nem podem amar-te, celeste visão!

E as auras passavam e as névoas tremiam,
E os gênios corriam no espaço a cantar,
Mas ela dormia, gentil, peregrina
Qual pálida ondina nas águas do mar!

Estátua sublime, mas triste, sem vida,
Sem voz envolvida no hibérneo sudário,
Verás, se me ouvires, trocado por flores,
Por palmas de amores teu véu mortuário!

Ah! vem, minh’alma! Teus loiros cabelos!
Teus braços tão belos, teus seios tão lindos,
Eu quero aquecê-los no peito incendido...
Contar-te ao ouvido meus sonhos infindos!

Assim eu falava, nos amplos desertos,
Seguindo os incertos lampejos da luz,
Na hora em que as névoas se estendem nos ares
E choram nos mares as ondas azuis.

As brisas d’aurora ligeiras corriam,
As flores sorriam nas verdes campinas,
Ergueram-se as aves do vento à bafagem,
E a pálida imagem desfez-se em neblinas!

Fagundes Varela

A mulher - Fagundes Varela


A mulher sem amor é como o inverno,
Como a luz das antélias no deserto,
Como o espinheiro de isoladas fragas,
Como das ondas o caminho incerto.

A mulher sem amor é — Mancenilha —
Das Armas plagas sobre o chão crescida,
Basta-lhe à sombra repousar um'hora,
Que seu veneno nos corrompe a vida.

De eivado seio no profundo abismo,
Paixões repousam num sudário eterno;
Não há canto nem flor, — não há perfumes,
A mulher sem amor como o inverno.

Su'alma é um alaúde desmontado
Onde embalde o cantor procura um hino;
— Flor sem aromas, — sensitiva morta, —
— Batel nas ondas a vagar sem tino.

Mas se um raio do sol tremendo deixa
Do céu nublado a condensada treva,
A mulher amorosa é mais que um anjo,
— É um sopro de Deus que tudo eleva!

Como o árabe ardente e sequioso
Que a tenda deixa pela noite escura,
E vai no seio de orvalhado lírio
Lamber a medo a divinal frescura:

O poeta a venera no silencio,
Bebe o pranto celeste que ela chora,
Ouve-lhe os cantos, — lhe perfuma a vida,....
— A mulher amorosa é como a aurora!

O foragido - Fagundes Varela


Minha casa é deserta; na frente
Brotam plantas bravias do chão,
Nas paredes limosas — o cardo —
Ergue a fronte silente ao tufão.

Minha casa é deserta. O que é feito
Desses templos benditos d'outrora,
Quando em torno cresciam roseiras,
Onde as auras brincavam n'aurora?

Hoje a tribo das aves errantes
Dos telhados se acampa no vão,
A lagarta percorre as muralhas,
Canta o grilo pousado ao fogão.

Das janelas no canto, as aranhas
Leves tremem nos fios dourados,
As avencas pululam viçosas
Na umidade dos muros gretados.

Tudo é tredo, meus Deus! o que é feito
Dessas eras de paz que lá vão,
Quando junto do fogo eu ouvia
As legendas sem fim do serão?

No curral esbanjado, entre espinhos,
Já não bala ansioso o cordeiro,
— Nem desperta-se ao toque do sino —
— Nem ao canto do galo ao poleiro. —

Junto à cruz que se eleva na estrada
Seco e triste se embala o chorão,
Não há mais o esfumar das acácias,
Nem do crente a — sentida oração.

Não há mais uma voz nestes ermos,
Um gorjeio das aves no val,
Só a fúria do vento retroa
Alta noite agitando o ervaçal!

Ruge, oh vento gelado do norte,
Torce as plantas que brotam do chão,
Nunca mais eu terei as venturas
Desses tempos de paz que lá vão!

Nunca mais desses dias passados
Uma luz surgirá dentre as brumas!
As montanhas se embuçam nas trevas,
As torrentes se vendam de espumas !

Corre pois vendaval das tormentas,
Hoje é tua esta morna soidão!
Nada tenho, que um céu lutulento
E uma cama de espinhos no chão!

Ruge, voa, que importa! sacode
Em lufadas as crinas da serra,
Alma nua de crença e esperanças
Nada tenho a perder sobre a terra!

Vem, meu pobre e fiel companheiro,
Vamos, vamos depressa, meu cão,
Quero ao longo perder-me das selvas
Onde passa rugindo o tufão!

Tristeza - Fagundes Varela


Minh'alma é como o deserto
De dúbia areia coberto,
Batido pelo tufão;
como a rocha isolada
Pelas espumas banhada,
— Dos mares na solidão. —

Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

Roem-me atrozes idéias,
A febre me queima as veias,
A vertigem me tortura!...
Oh! por Deus! quero dormir,
Deixem-me os braços abrir
Ao sono da sepultura!

Despem-se as matas frondosas,
Caem as flores mimosas
Da morte na palidez:
Tudo, tudo vai passando,
Mas eu pergunto chorando
— Quando virá minha vez?

Vem, oh virgem descorada,
Com a fronte pálida ornada
De cipreste funerário,
Vem! oh quero nos meus braços
Cerrar-te em meigos abraços
Sobre o leito mortuário!

Vem oh morte! a turba imunda,
Em sua miséria profunda,
Te odeia, te calunia,
— Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria.

Quero morrer, que este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel;
Porque meu seio gastou-se,
Meu talento evaporou-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer: não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançar ao chão,
Do pó desprender-me rindo
E as asas brancas abrindo
Lançar-me pela amplidão!

Oh! quantas loiras crianças
Coroadas de esperanças
Descem da campa à friez!...
Os vivos vão repousando
Mas eu pergunto chorando:
— Quando virá minha vez? —

Minh'alma é triste, pendida,
Como a palmeira batida
Pela fúria do tufão;
É como a praia que alveja;
Como a planta que viceja
Nos muros de uma prisão!