Fragmento do poema "Décima" de Frei Caneca.
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Poema de Frei Caneca - Décima
Décima
Eterno o meu há de ser;
Se amor dura só na vida,
Hei de amar-te até morrer.
Glosa
Que um peito, Analia, sensível,
Desses teus olhos ferido
Não te caia aos pés rendido,
Me parece um impossível.
Antes só tenho por crível
Que todo a ti se transporte,
E te preste amor tão forte,
Em teu serviço jucundo,
Que te ame além do mundo,
Se amor vive além da morte.
Por essa força atrativa,
Que em ti pôs a natureza,
Minha alma d'antes ilesa
Já de ti se vê cativa.
De amor n'uma chama viva
O peito sinto-me arder;
E se posso hoje prever
Os sucessos do futuro,
Entre os fogos de amor puro
Eterno o meu há de ser.
Mais forte que o gordiano,
É o nó que a ti me prende;
Fica certa, que o não fende
Da morte o ferro tirano;
Por que trazer-te-hei de ufano
No fundo d'alma esculpida,
Ou ao nada reduzida
Deve ser a minha essência;
Que nego a sobrevivência,
Se amor dura só na vida.
Em ambas suposições
Não és de mim separada;
Que me estais amalgamada
Da mente nas sensações:
E pois modificações
Só por si não podem ser,
Hás de eterna em mim viver,
Se eu tenho uma alma imortal;
Ou, se ela é material,
Hei de amar-te até morrer.
Frei Caneca
Para defender a pátria - Frei Caneca
Para defender a pátria
Menino homem se faz,
Em dando a vida por ela;
Morrendo, não peno mais.
De que me serve viver
Entre suspiros e ais?
Se vivo, vivo penando;
Morrendo, não peno mais.
Inda que eu queira, não posso
Existir entre os mortais.
A morte serve de alívio;
Morrendo, não peno mais.
Oh! morte, por que não vens
Findar meus dias fatais?
Se vivo, vivo penando;
Morrendo, não peno mais.
Frei Caneca
Frei Caneca - Não posso contar meus males
Não posso contar meus males
Nem a mim mesmo em segredo
É tão cruel o meu fado,
Que até de mim tenho medo.
GLOSA
Dos homens sendo a paixão
Incêndio voraz no peito,
Sempre tem funesto efeito,
Se não rebenta o vulcão.
Eis porque, meu coração,
Pouco falta, que me estales;
Porque nos montes, nos vales,
Em deserto, ou povoado,
Não posso soltar um brado,
Não posso contar meus males.
Horrenda sorte, e funesta,
Escasso fado mofino,
Até me roubas, malino,
O alívio que me resta!
Tudo que sinto me atesta
Que os do Cocyto ainda excedo;
Porque não tendo eles medo
De contra Deus blasfemar,
Não posso de mim falar;
Que até de mim tenho medo.
Ver o pólo negro arder
Em raios abrasadores;
Feros Notos berradores
Dos montes cedros varrer;
Todo o mundo estremecer,
Dos trovões ao rouco brado;
Da terra o centro rasgado
Nações inteiras sorvendo,
Quanto ver isto é horrendo!
É tão cruel o meu fado.
O peito d'antes sereno
Centro de amor e ternura,
Agora é morada escura
De males mil, com que peno.
Vós p'ra quem um fado ameno
Aponta com áureo dedo,
Fugi de mim, porque cedo
Mudar-se vereis a sorte;
Pois o meu mal é tão forte,
Que até de mim tenho medo.
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