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Tempo - Giano Guimarães

Tempo

Cada minuto olhando para o tempo
Sem esperar que o tempo passe
É um tempo a mais que se ganha
É um pouco de vida que nasce

É estranho olhar para o horizonte
E ver uma paisagem tão verdadeira
Quando geralmente o que vemos
É o produto de nossa cegueira

E se o tempo parasse um pouco?
E se a gente também parasse
De perder o tempo que se vai?
Ah, se esse tempo não contasse!

Giano Guimarães

TEMPO

Tempo

Cada minuto olhando para o tempo
Sem esperar que o tempo passe
É um tempo a mais que se ganha
É um pouco de vida que nasce

É estranho olhar para o horizonte
E ver uma paisagem tão verdadeira
Quando geralmente o que vemos
É o produto de nossa cegueira

E se o tempo parasse um pouco?
E se a gente também parasse
De perder o tempo que se vai?
Ah, se esse tempo não contasse!

Giano Guimarães

Profecia de andróide - Zacarias Martins

Profecia de andróide

Esse mundo que não pára.
Essa vida por um fio.
Estamos em cima de um barril de pólvora.
Quem vai acender o pavio?

O amor está biônico.
Corações mutilados.
Sentimentos corrompidos.
Paixões em enlatados.

Tem nome de um número.
Celebro de computador.
Trabalha, não se cansa.
Não reclama, não sente dor.

Tem como parente próximo
um reles parafuso.
E quando lhe solta à cabeça
fica todo confuso.

Um potente óleo lubrificante
é o seu alimento substancial.
Quando come outra coisa
chega até a passar mal.

Mas um dia chegou a fatalidade:
- Alguém acendeu o pavio!
E o mundo, que era uma bola,
Espatifou-se, explodiu.

E para uma Galáxia distante
Foram os restos mortais
de um planeta chamado Terra,
dos tempos bons que não voltam mais.


Meus ontens passados - Rodrigo Martins

Meus ontens passados

Sou um pouco do que vi
Do pouco que li
Muito do que sorri
Sou o que na mente gravei
Um pouco do que fiz e até do que farei.
Um pouco daqui e dali
De tantos lugares por onde passei
Caminhos que caminhei
Chão que minha pegada deixei.
Sou os erros que cometi
O bem que não fiz
O sonho sonhado, realizado e amado
O sonho amargo, deixado de lado.
Um pouco de mim que nas pessoas ficou
Um pouco em mim que da pessoa restou
Sou singular, bem irregular
Impreciso, preciso dizer
Não sou só o que fui mas fui o que sou.

Rodrigo Martins

O tempo dos homens - Ildásio Tavares

O tempo dos homens
O tempo dos homens é feito de pedra,
É feito de carne, de sangue, de dor,
O tempo dos homens é feito de tempo
Que é tempo sem tempo, sem luz, sem amor.

Trezentos e sessenta e cinco dias,
Seis horas,
Uns tantos minutos
E segundos,
Leva o mundo
Para girar girando em torno ao sol,
Em sucessão de
Primavera, Verão, Outono, Inverno,
Sol e Sombra,
Noite e Dia.
Eterna imperturbável harmonia.

Os homens não cansam, não param, não dobram,
Comendo, comendo, sem ver, sem olhar,
Os homens não pensam, não falam, não dormem,
No tempo sem tempo do tempo a passar.

Ildásio Tavares


Hora Esquisita - Aloísio de Castro

Hora Esquisita

Ressoavam no ar baladas dolorosas
Quando, ó mistério, de improviso entraste:
Vencemos dos destinos o contraste,
Num só rosal nasceram duas rosas!
Abri-te as mãos como asas amorosas,
Pálido lírio em flor na tênue haste,
Dos orvalhos noturnos estilaste
As pérolas das lágrimas piedosas.
Hora esquisita, prêmio e desventura!
Ias partir de novo, sendo minha,
E em ti levando na alma quanto eu tinha.
Sorri, choraste, e amor que inda nos dura,
Um beijo só, chegada e despedida,
Fez de um minuto toda a nossa vida!

Aloísio de Castro

Os tempos - Aloísio de Castro

Os tempos

Este que vai e os passos indecisos
Trôpego arrasta no caminho incerto,
Nunca escutou do tempo os maus avisos,
Cada dia lembrando o fim tão perto.
Intrêmulo cruzou mar e deserto,
Dilatadas planícies e altos visos,
Floreou a espada a peito descoberto
Colheu nos bailes graças e sorrisos.
Paixões, trabalhos e perigos tantos,
Tudo outrora venceu. Hoje, acurvado,
Fitando a terra chora os desencantos.
E essa carcaça lúgubre e medonha,
Levando o extinto corpo do passado,
Como em suspiros diz: "Triste quem sonha!"

Aloísio de Castro

Ao Tempo - Francisco Joaquim Bingre

Ao Tempo

Levanta o pano, ó tragador das eras,
A cena mostra das fatais desditas,
Pois que no giro das paixões que incitas
Tragar venturas, vorazmente, esperas.

Do vário mundo que só nutre feras,
Co'a torva dextra lhe desvia as ditas.
Solta das asas as Tentações malditas,
Os filhos traga, que indolente geras.

Leva de rojo, c'o decretado gume,
Planos que traças ao profundo Averno.
Acende e apaga da Razão o lume!

Ó Tempo, ó Tempo, regedor do Inferno!
Louvem-te as Fúrias, de quem tens ciúme,
Que só adoro as decisões do Eterno.

Francisco Joaquim Bingre

Breves São os Anos - Ricardo Reis

Breves São os Anos

No breve número de doze meses
O ano passa, e breves são os anos,
Poucos a vida dura.
Que são doze ou sessenta na floresta
Dos números, e quanto pouco falta
Para o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido, do curso
Que me é imposto correr descendo, passo.
Apresso, e breve acabo.
Dado em declive deixo, e invito apresso
O moribundo passo.

Ricardo Reis
Heterônimo de Fernando Pessoa


Podes, ó Tempo, Entrar: Eu Te Convido - Francisco Joaquim Bingre

Podes, ó Tempo, Entrar: Eu Te Convido

Podes, ó Tempo, entrar: eu te convido
A ser hóspede meu, que eu nunca faço
Distinção quando és bom ou mau, pois passo
Os meus dias, de ti nunca esquecido.

Ou me batas à porta, enfurecido,
Envolto em furacões, com torvo braço,
Ou entres brandamente, passo a passo,
Cum sorriso na boca apetecido:

Ou me sejas contrário, ou venturoso,
Eu me acomodo a ti e a pouco custo,
Se visitar-me vens, tempestuoso.

Às tuas intenções sempre me ajusto.
Tu, a quem pensa, és sempre proveitoso:
Feliz quem te ama sem pavor nem susto.

Francisco Joaquim Bingre

Alice Ruiz - Agora

Agora

agora sim
tenho a morte na alma
e a vida nas mãos

haja ou não
um você aqui
agora estou só

agora sim
o que sobrar de mim
é meu

agora não há mais dúvida
pagando todas as dívidas
me livrarei deste eu

este agora que me escapa
me inaugura e funda
outro eu que vai pro mundo

outra dor que vai a furo
outro agora ainda mais fundo
por um segundo mais claro

agora é claro
que seja escuro

Alice Ruiz

Ivone Boechat - Ficar Velho?

Ficar Velho? 

 Ficar velho é
 deixar enguiçar
 o sonho, o propósito, a capacidade de criar.
 Ficar velho é
 deixar morrer o pensamento novo
 que não para de gritar.
 Ficar velho é
 correr em sentido contrário
 das belezas da vida,
 sustentar doendo aquela antiga ferida.
 Ficar velho é
 entregar os pontos, desistir, calar.
 Ficar velho é,
 não querer enxergar oportunidades,
 tapar o sol com a peneira,
 ao invés de recriar o tempo,
 seguir em frente,
 lutar.

Ivone Boechat


A árvore - Geir Campos

A árvore


Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências – que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos –

demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo,
E dize-me: há esperança para o Homem?

Geir Campos

Charles Bukowski - Poema nos meus 43 anos

Poema nos meus 43 anos

terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida—
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter um quarto.
…de manhã

eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores , médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi…
e você se vira
para o lado pra pegar o sol
nas costas e não
direto nos olhos.

Charles Bukowski
(Tradução: Jorge Wanderley)

O Relógio - Joaquim Cardoso

O Relógio
Quem é que sobe as escadas
Batendo o liso degrau?
Marcando o surdo compasso
Com uma perna de pau?

Quem é que tosse baixinho
Na penumbra da ante-sala?
Por que resmunga sozinho?
Por que não cospe e não fala?

Por que dois vermes sombrios
Passando na face morta?
E o mesmo sopro contínuo
Na frincha daquela porta?

Da velha parede triste
No musgo roçar macio:
São horas leves e tenras
Nascendo do solo frio.

Um punhal feriu o espaço...
E o alvo sangue a gotejar;
Deste sangue os meus cabelos
Pela vida hão de sangrar.

Todos os grilos calaram
Só o silêncio assobia;
Parece que o tempo passa
Com sua capa vazia.

O tempo enfim cristaliza
Em dimensão natural;
Mas há demônios que arpejam
Na aresta do seu cristal.
No tempo pulverizado
Há cinza também da morte:
Estão serrando no escuro
As tábuas da minha sorte.

Joaquim Cardoso


Marina Colasanti - Passando dos Cinqüenta

Passando dos Cinqüenta

 Meu pescoço se enruga.
 Imagino que seja 
 de mover a cabeça 
 para observar a vida.
 E se enrugam as mãos
 cansadas dos seus gestos.
 E as pálpebras
 apertadas no sol.
 Só da boca não sei
 o sentido das rugas
 se dos sorrisos tantos
 ou de trancar os dentes
 sobre caladas coisas.

Marina Colasanti


Dia - Octavio Paz

Dia

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Octavio PazTradução de Luis Pignatelli

Questões de tempo - Geir Campos

Questões de tempo
Quem perguntará por mim
quando a última passar
com seu facão?
Que mulher grave desfalecerá
vendo apagados meus olhos
na multidão?
Que homem de bem guardará
o adeus meu
seco na palma da mão?
Quem lembrará minha voz
coral ausente
em qualquer canção?
Quem se pagará a herança
inteira ou em pedaços
do meu indivisível coração?
E a quem a flor
de raiz em mim
fará os acenos do não?

Geir Campos

Vinte Anos - Anderson de Araújo Horta

Vinte Anos

Quando eu tiver
vinte anos
serei mais alto
que os Andes

Quando eu chegar
aos trinta
serei maior
que o Himalaia

Ora ora
pois eu
se tivesse
vinte anos
só diria
ao mundo
Vamos

Anderson de Araújo Horta


Ainda não - Cora Coralina

Ainda não
I

Ainda não...
É a espera.
Afirmação
do tempo que vai chegar
no tempo que está passando.

II

Ainda não...
É a promessa.
Certeza
do tempo de querer
no tempo que vai chegando.
A mulher é a terra —
terra de semear.

III

Ainda não...
O tempo disse dormindo:
Por que esperar?
Plantar, colher
no amanhecer.
Não retardar o instante
maravilhoso da colheita.

IV

Veio o semeador,
semearam juntos
e colheram
o encantamento do fruto.
Lamentaram juntos
Retardamos tanto... no tempo.

Cora Coralina