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CORAÇÃO INCONTROLÁVEL - Zacarias Martins



CORAÇÃO INCONTROLÁVEL


Mais uma vez estou amando.
o culpado é o meu coração
que alegre vive saltitando
em homenagem à nova emoção.

Cuidado, coração!
Já me fizeste sofredor,
me deixando na mão
amor causa de amor.

Tento te controlar,
mas nem sempre consigo.
E quando me fazes alguém amar
só me querem como amigo.

Não sei se vou suportar
viver nessa ansiedade:
com o coração, fazendo-me amar
quem não me ama de verdade.

Zacarias Martins


Ao meu coração - Adélia Fonseca

Ao meu coração

Porque estás tão apressado,
Coração, a palpitar?
Queres, deixando meu peito,
Por esses ares voar?
Queres do meu pensamento
A carreira acompanhar?

Queres, misero insensato,
Este desejo cumprir?
Intentas da fantasia
Os amplos voos seguir?
Buscas, vencendo a distancia,
Tua saudade extinguir?...

Esta saudade tão funda,
Tão viva, tão pertinaz,
Que te faz tão desgraçado,
Que tão ditoso te faz?
Que tanto te amarga ás vezes
Que ás vezes tanto te apraz?

Pretendes tu, pobre louco,
Tuas dores aumentar?
Desejas ao lado — d’Elle —
De martírios te fartar?
Queres nos olhos, que adoras
Mais desenganos buscar?

Si ao excesso do tormento
Tivesses de sucumbir,
Quem tanto havia de ama-lo,
Deixando tu de existir?
Quem ousaria contigo
Em firmeza competir?

E ele, onde poderia
Tão soberano reinar?
Onde iria sua imagem
Obter tão devoto altar,
E tão desvelado culto,
Tão fervoroso, encontrar?

Deixa ir só meu pensamento,
De seus voos na amplidão;
Quem sabe se ao lado de outra
O acharás, coração?
Morre embora de saudade;
Porem de ciúme... não!

Adélia Fonseca


O que se foi - Ferreira Gullar

O que se foi

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

Ferreira Gullar


Milagre - Artur de Azevedo

Milagre

Com cinco pães o Cristo
Deu de comer a cinco mil pessoas!
Eu não me assombro disto,
Pois tu, que o meu espírito magoas,
Tens um só coração,
E amas, contudo, uma população!

Artur de Azevedo


O Meu Coração Desce - Camilo Pessanha

O Meu Coração Desce

O meu coração desce,
Um balão apagado...
_ Melhor fora que ardesse,
Nas trevas, incendiado.
Na bruma fastidienta.
Como um caixão à cova...
_ Porque antes não rebenta
De dor violenta e nova?!
Que apego ainda o sustém?
Átomo miserando...
_ Se o esmagasse o trem
Dum comboio arquejando!...

O inane, vil despojo
Da alma egoísta e fraca!
Trouxesse-o o mar de rojo,
Levasse-o a ressaca.

Camilo Pessanha

O Coração - Cruz e Sousa

O Coração

O coração é a sagrada pira
Onde o mistério do sentir flameja.
A vida da emoção ele a deseja
como a harmonia as cordas de uma lira.

Um anjo meigo e cândido suspira
No coração e o purifica e beija...
E o que ele, o coração, aspira, almeja
É o sonho que de lágrimas delira.

É sempre sonho e também é piedade,
Doçura, compaizão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura.

Uma harmonia que dos anjos desce,
Que como estrela e flor e som floresce
Maravilhando toda criatura!


Cruz e Sousa

Confusão - Federico García Lorca

Confusão

Meu coração
é teu coração?
Quem me reflexa pensamentos?
Quem me presta
esta paixão
sem raízes?
Por que muda meu traje
de cores?
Tudo é encruzilhada!
Por que vês no céu
tanta estrela?
Irmão, és tu
ou sou eu?
E estas mãos tão frias
são daquele?
Vejo-me pelos ocasos,
e um formigueiro de gente
anda por meu coração.

Federico García Lorca
Tradução de Oscar Mendes


Meu coração é uma barca - Fernando Pessoa

Meu coração é uma barca 
Que não sabe navegar.
Guardo o linha na arca
Com um ar de o acarinhar. 


(Em "Quadras ao gosto popular")

Fernando Pessoa

Dois Corações - Anderson de Araújo Horta

Dois Corações

Tu tens um coração dentro da boca
E tens um coração dentro do peito...
Dois corações?! Mas, que morena louca!
Perdão... Tudo que vejo está direito:

Tudo o que tens de belo está bem feito...
Somente é pouca a inspiração, é pouca,
Para cantar teu coração do peito,
Para pintar teu coração da boca!

Morena, escuta aqui: não tenho jeito
De alimentar o amor que se me apouca
Na voluptuosidade de teu leito.

Morena, escuta bem: não sejas mouca...
Quando eu pedir o coração do peito,
Oh! não me dês o coração da boca!

Anderson de Araújo Horta


O Coração - Orlando Neves

O Coração

Que jogo jogas, comédia ou lágrima? Cor
suspensa. Prodígio doendo. Enganador
relâmpago. Donde se enreda esta coragem
que chora ao riso e ri à dor? Quatro são

as pedras mestras do teu jogo. Dois cavalos
e os reis. Melancólicos actores. Vazia, a
plateia. O tempo ferido. O peão fugitivo.
A emoção real do presságio. O aceno

cordial do outro lado do jogo. Inscrição
única do pólen, jogada que se arrasta.
Gota de tédio na lonjura das casas.

O fecho do jogo se conclui. Muda o rosto a
visão possível. Cordato, o lance destrói
a memória do que já não vejo ou sei.

Orlando Neves

Cantiga para não morrer - Ferreira Gullar

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar

Luís de Camões - Fiou-se o coração, de muito isento

Fiou-se o coração, de muito isento

Fiou-se o coração, de muito isento
de si, cuidando mal que tomaria
tão ilícito amor tal ousadia,
tal modo nunca visto de tormento.

Mas os olhos pintaram tão a tento
outros que visto têm, na fantasia,
que a razão, temerosa do que via,
fugiu, deixando o campo ao pensamento.

«Ó Hipólito casto que, de jeito,
de Fedra, tua madrasta, foste amado,
que não sabia ter nenhum respeito!

Em mim vingou o Amor teu casto peito;
mas está desse agravo tão vingado,
que se arrepende já do que tem feito».


Luís de Camões



No Coração, Talvez - José Saramago

No Coração, Talvez

No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.

José Saramago

Fernanda de Castro - Um Pássaro a Morrer

Um Pássaro a Morrer

Não é vida nem morte, é uma passagem,
nem antes nem depois: somente agora,
um minuto nos tantos duma hora.
Uma pausa. Um intervalo. Uma viragem.

Prisioneira de mim, onde a coragem
de quebrar as algemas, ir-me embora,
se tudo o que em mim ria agora chora,
se já não me seduz outra viagem?

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
sem uma flor a abrir na minha mão,

sem um búzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido
e um pássaro a morrer: meu coração.

Fernanda de Castro

Ouve o teu coração - Bastos Tigre

Ouve o teu coração

Não esperes achar compensações na terra:
Se fizeres o bem, prêmio nenhum terás.
Os que sobem contigo os aclives da serra
Não te virão valer, se ficares atrás.

Aconselha-te alguém? É aquele que mais erra;
Ensina-te a verdade? É o mais falso e mendaz.
E o que, violento e hostil, te excita e incita à guerra
É o mesmo que desfruta as delícias da paz.

Mas não culpes ninguém. É a vida. Aceita a vida...
Como sofres, também os outros sofrerão,
Que há na maior ventura uma dor escondida.

Teu cérebro consulta, ouve o teu coração,
E, em ti mesmo, acharás a energia perdida,
A censura, o aplauso, o castigo, o perdão.

Bastos Tigre

O Coração - Castro Alves

O Coração

O Coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um-tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro-voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel — a que se chama — crenças,
Vive do aroma-que se diz-amor.

Castro Alves

Vendaval - Miguel Torga

Vendaval

Meu coração quebrou.
Era um cedro perfeito;
Mas o vento da vida levantou,
E aquele prumo do céu caiu direito.

Nos bons tempos felizes
Em que ele batia, erguido,
Desde a rama às raízes
Era seiva e sentido.

Agora jaz no chão.
Palpita ainda, e tem
Vida de coração...
Mas não ama ninguém.

Miguel Torga

Meu Coração - Zito Batista

Meu Coração

Meu coração é um lúgubre convento:
Dentro dele, a rezar noites inteiras,
As minhas ilusões — tristonhas freiras
Vivem presas de estranho desalento...

E ouvindo, às vezes, queixas agourentas,
E ameaças de morte e sofrimento,
— Soluçando, no escuro isolamento,
Falam de amor as pobres prisioneiras...

No entanto outrora, alegre, iluminado,
Como a igreja formosa em que se canta
A missa azul da crença e do conforto...

Meu coração foi céu alcandorado,
Onde imperava, ingenuamente santa,
A Forma viva do meu Sonho morto!

Zito Batista


Castro Alves - A Um Coração

A Um Coração

Ai! Pobre coração! Assim vazio
E frio
Sem guardar a lembrança de um amor!
Nada em teus seio os dias hão deixado!...
É fado?
Nem relíquias de um sonho encantador?

Não frio coração! É que na terra
Ninguém te abriu... Nada teu seio encerra!
O vácuo apenas queres tu conter!
Não te faltam suspiros delirantes,
nem lágrimas de afeto verdadeiro...
É que nem mesmo — o oceano inteiro —
Poderia te encher!...

 A Um Coração