Reconstituição Tive de repente saudade da bebida que eu estava bebendo... tive saudade e tentei me lembrar que gosto faltava, qual era a bebida... Fui procurando entre copos e móveis e dei com sua boca.
O Poema do Semelhante O Deus da parecença que nos costura em igualdade que nos papel-carboniza em sentimento que nos pluraliza que nos banaliza por baixo e por dentro, foi este Deus que deu destino aos meus versos,
Foi Ele quem arrancou deles a roupa de indivíduo e deu-lhes outra de indivíduo ainda maior, embora mais justa.
Me assusta e acalma ser portadora de várias almas de um só som comum eco ser reverberante espelho, semelhante ser a boca ser a dona da palavra sem dono de tanto dono que tem.
Esse Deus sabe que alguém é apenas o singular da palavra multidão Eh mundão todo mundo beija todo mundo almeja todo mundo deseja todo mundo chora alguns por dentro alguns por fora alguém sempre chega alguém sempre demora.
O Deus que cuida do não-desperdício dos poetas deu-me essa festa de similitude bateu-me no peito do meu amigo encostou-me a ele em atitude de verso beijo e umbigos, extirpou de mim o exclusivo: a solidão da bravura a solidão do medo a solidão da usura a solidão da coragem a solidão da bobagem a solidão da virtude a solidão da viagem a solidão do erro a solidão do sexo a solidão do zelo a solidão do nexo.
O Deus soprador de carmas deu de eu ser parecida Aparecida santa puta criança deu de me fazer diferente pra que eu provasse da alegria de ser igual a toda gente
Esse Deus deu coletivo ao meu particular sem eu nem reclamar Foi Ele, o Deus da par-essência O Deus da essência par.
Não fosse a inteligência da semelhança seria só o meu amor seria só a minha dor bobinha e sem bonança seria sozinha minha esperança
Escolha Eu te amo como um colibri resistente incansável beija-flor que sou batedora renitente de asas viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto. Pingas na minha boca umas gotas poucas do que nem é uma vacina. Eu uma mulher, uma ave, uma menina… Assim chacinas o meu tempo de eremita: quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias as que vestiram meus pés quando caminhei as areias.
Eu te amo como quem esquece tudo diante de um beijo: as inúmeras horas desbeijadas os terríveis desabraços os dolorosos desencaixes que meu corpo sofreu longe do seu. Elejo sempre o encontro Ele é o ponto do crochê. Penélope invertida nada começo de novo nada desmancho nada volto
Teço um novo tecido de amor eterno a cada olhar seu de afeto não ligo para nada que doeu. Só para o que deixou de doer tenho olhos. Cega do infortúnio pesco os peixes dos nossos encaixes pesco as gozadas as confissões de amor as palavras fundas de prazer as esculturas astecas que nos fixam na história dos dias
Eu te amo. De todos os nossos montes fico com as encostas De todas as nossas indagações fico com as respostas De todas as nossas destilairias fico com as alegrias De todos os nossos natais fico com as bonecas De todos os nossos cardumes as moquecas.
Para um Amor na Rua Meu amor, vem pra casa que ouvi dizer que vai estourar a guerra Nostradamus previu Raimunda, nega Raimunda confirmou Por favor, ponha os pés na terra Chão firme cama da gente ouvi dizer que vai estourar a guerra. Você que é mundano convicto você que erra vai argumentar que não há perigo e o escambou que é apenas o "bicho" internacional. Vai confundir tudo com show vai dizer que tem Prince, Rock n'roll Gun's N'Roses e talvez Gal; É mau, meu bem tem também Sadam, Bushes e mesquinharias Vem pra casa guardar num cofre sua ingenuidade vem proteger da maldade sua fotografia. Aqui fiz cuscuz farofa e feijão fraldinho aqui pintei filosofia, comigo-ninguém-pode espada de São Jorge, jasmim, arruda, carinho. Tudo anti-míssil tudo bruxaria anti-crueldade bélica Lá fora alguns meninos querem experimentar a potência de seus terríveis brinquedos. Não tenha medo vem pra casa sem nem telefonar aqui tem ar, poesia, fé e tudo que a alegria da alma encerra.
Vem, meu amor que ouvi dizer que vai estourar a guerra.
O Amor de Dudu nas Águas Estou virando uma menina tornada mulherinha com tanta coleirinha de maturidade ainda assim me sinto parida agora tenra, maçã nova nova Eva novo pecado. Tudo gira e eu renasço menina vestido curto na alma de dentro... Deixo no mar os velhos adereços a velha cristaleira, os velhos vícios as caducas mágoas. Nasce a mulher-menina de se amar com água no ventre e no olhar. Nasce a Doudou das Águas.
Amanhecimento De tanta noite que dormi contigo no sono acordado dos amores de tudo que desembocamos em amanhecimento a aurora acabou por virar processo. Mesmo agora quando nossos poentes se acumulam quando nossos destinos se torturam no acaso ocaso das escolhas as ternas folhas roçam a dura parede. nossa sede se esconde atrás do tronco da árvore e geme muda de modo a só nós ouvirmos. Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos o pio de todas as asneiras todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha para um dia partirem em revoada. Ainda que nos anoiteça tem manhã nessa invernada Violões, canções, invenções de alvorada... Ninguém repara, nossa noite está acostumada. Elisa Lucinda
Dá Licença, Bastiana? Vim te pedir, mulher seu filho um pouquinha seu filho um cadinho pra brincar comigo. Ah, Bastiana é só por carinho que vim te implorar Juro! Não vou machucar Ai, Tiana tá danado Você pode compreender eu vim pedir emprestado esse fruto abusado de sua enorme paixão Eu não quero ter ele não Se tiver posso perder como já perdi a razão. Eu vim pedir teu curumim pra mim por uns tempos longos por dentro Quero ele só um pouquinho... O quê? Ele diz que pra mim não existe pouquinho? Mas tá mentindo, Tiana, você sabe, vou devolver... Quero fazer com ele um filme pra televisão Quero ir com ele cantar no Canecão e a gente vira cinema na cara de toda Nação Ai, Bastiana, não diga que não! Se ele chupou seus peitinhos eu também quero Lá em casa tem uma rede que é pra ninar ele Se ele dormiu no seu colo eu também quero Ai, Tiana como te venero! Parece apelação mas é mais desespero de nega enfeitiçada que sente no couro o que é pedir para si o filho dos outros.
Já sei: A gente grava junto um disco só pra tocar na sua vitrola. No domingo ele ia pra aí só pra comer do seu pudim e molhar a boca na sua galinha ensopada Eu deixava Cheia de felicidade Espalhada na cidade, num grande out-door Pedindo pros deuses pra que falte dor Ai, Tiana, open the door, por favor! Eu até prometia: a netinha, viria linda um dia se você tivesse a gentilieza de me emprestar essa represa que é onde foi dar o meu coração.
Entenda Tiana: Não quero tua solidão e tampouco quero a minha Essa é a situação. Mas a culpa é sua! Quem mandou fazer bem feito? Os olhinhos puxadinhos a boca, o umbiguinho. a mão suave de armarinho a voz e até o carinho. Podia até ser caprichosa, mulher sem precisar exagerar Mas você passou da dose fez acabamento e até na pele ton-sur-ton.
Vim pedir teu filho um cadinho pra brincar comigo até o sol nascer. Eu vim pedir o seu. Um dia vão levar o meu sem nem pedir, sem nada. Porque a gente é só mesmo mala dessa tal criação dessa tal criatura e não vês a verdura desse meu olhar?
Ai, Tiana, me desculpe, eu vou entrando... Me desculpe, eu vou levar.