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Os Olhos Vêem Sem Ver... - Da Costa e Silva

Os Olhos Vêem Sem Ver... 
 
Quando te quero ver, cerro as pálpebras e,
Concentrando a visão, fico a pensar em ti.

Aos olhos vem-me assim, num sonho ingênuo e doce,
A tua imagem fiel, como se viva fosse.

E eu sinto bem que és tu, que emerges do meu ser,
Numa névoa fugaz, para eu te poder ver.

Névoa que se faz luz, sombra que se ilumina,
Vens espiritualmente assomar à retina...

Surges no coração, onde hoje vives, pois
Sobes ao pensamento e ao olhar vens depois.

Tens em tudo a expressão que no mundo tiveste,
Tenha embora a beleza um encanto celeste.

Mas, em forma incorpórea, és tu mesma, porque
Como te vi em vida a alma em sonho te vê.

E é tão viva a impressão que ninguém se persuade
De que a vida se extinga, existindo a saudade...

Não pode ser engano a visão interior
Que os olhos vêem sem ver, por milagre do amor.

Quem sabe há no meu ser um espelho encantado,
Onde indelével se reflete o meu passado!

Acaso há dentro em mim uma fonte de luz,
Que a tua vida em minha vida reproduz!

É por isso, talvez, que em vago encantamento,
Eu me deixo levar pelo meu pensamento.

E, se te quero ver, fecho os olhos e, então,
Em silêncio me entrego a essa amada ilusão...

Da Costa e Silva

Sombra e Névoa - Da Costa e Silva

Sombra e Névoa 
 
Cai o crepúsculo. Chove.
Sobe a névoa... A sombra desce...
Como a tarde me entristece!
Como a chuva me comove!

Cai a tarde, muda e calma...
Cai a chuva, fina e fria...
Anda no ar a nostalgia,
Que é névoa e sombra em minh’alma.

Há não sei que afinidade
Entre mim e a natureza:
Cai a tarde... Que tristeza!
Cai a chuva... Que saudade!

Da Costa e Silva

Saudade - Da Costa e Silva

Saudade
 
Saudade - olhar de minha mãe rezando
e o pranto lento deslizando em fio
saudade amor da minha terra... o rio
cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho. O caboré com frio,
ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
e à noite as folhas lívidas cantando
a saudade infeliz de um sol de estio.

Saudade - asa de dor do pensamento|
gemidos vãos de canaviais ao vento...
Ai, mortalhas de neve sobre a serra.

Saudade - o Parnaíba - velho monge
as barbas brancas alongando... e ao longe
o mugido dos bois da minha terra...


Da Costa e Silva

Entre Céu e Abismo - Da Costa e Silva

Entre Céu e Abismo 
 
A minha vida é um abismo
De dúvida e pessimismo,
Quando ouço o meu coração.

Mas se ouço o meu pensamento,
É também um firmamento
De fé e resignação.

Por isso, entre o céu e o abismo,
Com as nuvens do Cepticismo,
Meus dias correndo vão...

Da Costa e Silva

Da Costa e Silva - Diálogo Interior...

Diálogo Interior... 
 
Ante o infinito,
Cismo e medito.

Mas vou pensando
E interrogando.

Dialogo a esmo
Comigo mesmo.

— Tudo convida
A amar a vida.

— E amar se deve
A um bem tão breve?

A vida é bela
No que revela...

— Mas como existe
O homem tão triste?

— A vida é a luta
Divina e bruta.

— Onde o heroísmo:
Páramo ou abismo?

— A vida encerra
Os bens da terra.

— Se esses dons temos,
Por que sofremos?

— A vida inquieta
É a mais completa.

— Mas por que a alma
Aspira à calma?

— A vida é intensa
Para quem pensa.

— E onde a esperança,
Que não descansa?

— A vida é pura
Quando há ventura.

— E por que sinto
A ânsia do instinto?

— A vida é chama,
Que apura e inflama.

— Por que a resumo
Em névoa e fumo?

— A vida é a glória
Sempre ilusória.

— Mas como é insano
O sonho humano?

— A eterna esfinge
Ninguém atinge...

— Que reticências
Nas existências!

Da Costa e Silva

O Sinal da Cruz - Da costa e Silva

O Sinal da Cruz 
 
Se é preciso lutar para ser forte,
Se é preciso sofrer para ser puro,
Em luta e sofrimento a vida apuro,
Para tranqüilo merecer a morte.

Hei lutado e sofrido de tal sorte
Que, a tantas provações, meu ser impuro
Sonha atingir a perfeição que auguro
Em resignado e místico transporte.

A existência de lutas e de penas,
Como um cardo florindo entre os abrolhos,
Vou bendizendo pelo bem que faço.

E quando a morte vier, resta-me apenas
Juntar as mãos e levantar os olhos
Para o que exista em luz além do espaço.

Da costa e Silva

Da Costa e Silva - Não Desejes, Nem Sonhes...

Não Desejes, Nem Sonhes... 
 
Não desejes, nem sonhes, alma incauta,
Que a ilusão tem o encanto da sereia,
Que em noites aromais de lua cheia
Seduz e perde, em alto-mar, o nauta.

Feliz daquele que os seus atos pauta
Dentro dos dons da vida que o rodeia,
E acha o leito macio e a mesa lauta
Na indiferença da fortuna alheia.

Feliz de quem, da vida para a morte,
Embora pobre, de pobreza triste,
Se contenta, afinal, com a própria sorte.

Se há ventura no mundo, essa consiste,
Talvez, em suportar, de ânimo forte,
A renúncia de um bem que não existe.

Da Costa e Silva

Noturno - Da Costa e Silva

Noturno 
 
Estava a sonhar contigo,
Mas acordo de repente...
Ouço bater ao postigo
Lentamente...longamente...

Penso que és tu, morta ausente,
Que voltas ao teu abrigo.

Corro, impaciente, à janela.
Olho a noite. Ermo profundo...
O vento frio e iracundo
As árvores arrepela...

E eu pergunto às sombras: — E Ela?
Não voltará mais ao mundo?

O chão de folhas se junca
Ao vento que as solta e leva...
E ouço, em silêncio, na treva:
— Quem morre não vem mais nunca.

O CORVO de Poe se ceva,
Cravando-me a garra adunca.

— Ai! que saudade! — Maldigo
A vida, triste e descrente:
— Se eu dormisse eternamente...
E volto a sonhar contigo.

Bate o vento no postigo...
Cai a chuva lentamente...

Da Costa e Silva


As Horas - Da Costa e Silva

As Horas
 
As Horas cismam no ar parado:
— Passado.

As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.

As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.

Da Costa e Silva

O Eterno Mistério - Da Costa e Silva

O Eterno Mistério 
 
Desde a tarde violácea em que partiste
Para tão longe, para não sei onde,
Eu vivo a interrogar, calado e triste,
A natureza que me não responde.

Falo à estrela no espaço, à flor na fronde,
A perguntar em vão se o céu existe;
E tudo que a luz mostra e a treva esconde
À voz da minha súplica resiste.

Se há um mundo divino, além do humano,
Indago; e o vento, as águas, o arvoredo,
Têm o mesmo mistério soberano...

A vida não revela esse segredo,
Que a morte oculta num sombrio arcano,
Que enche os homens de dúvida e de medo.

Da Costa e Silva

Da Costa e Silva - O Homem que Volta

O Homem que Volta 
 
Quando fui, com o meu sonho ingênuo e lindo,
Pelas estradas amplas, luminosas,
Vinham as Graças desfolhando rosas.

Ergui os olhos para os céus, sorrindo,
A beleza da vida pressentindo...

Quando vim, com o meu tédio miserando,
Pelos estreitos e áridos caminhos,
Iam as Parcas espalhando espinhos...

Baixei o olhos para o chão, chorando,
E fiquei para sempre meditando...

Da Costa e Silva

Fez-me Poeta o Destino - Da Costa e Silva

Fez-me Poeta o Destino 
 
Quando nasci, o Destino
Fez-me poeta, ainda no berço;
Tanto assim que, pequenino,
Minha mãe, rezando o terço,
Pensava no meu destino,
Entre os vaivéns do meu berço...

Da Costa e Silva
Na Tarde Azul e Triste... 
 
O meu jardim amanhecera
Constelado de brancas margaridas,
Que orvalhadas, ao sol, eram estrelas
Desencantadas e pensativas...

Depois, na tarde azul e triste,
A terra abriu-se para receber-te!

Adormeceste para sempre,
Baixando à terra com as margaridas...
E à noite o céu era um jardim do Oriente
Florindo em luzes pela tua vinda!

Anoitecia no meu pensamento...

Da Costa e Silva

Sob o Ritmo do Tempo - Da Costa e Silva

Sob o Ritmo do Tempo
 
A areia, grão a grão, escoa na ampulheta...
Sob o ritmo do tempo, em silêncio medito:
Ai de quem, a sofrer, passou pelo planeta
Sem realizar o seu instante de infinito!

A água cai, gota a gota, a oscilar na clepsidra...
Atento ao seu rumor, penso inquieto e tristonho:
Ai de quem não arou com pranto a terra anidra,
Para atirar ao mundo a semente de um sonho!

A sombra leve azula a pedra do quadrante...
Cismo, absorto, a seguir-lhe o tardo movimento:
Ai de quem, a viver como uma sombra errante,
Não roçou pelo céu a asa de um pensamento!

Da Costa e Silva

Adeus à Vida - Da Costa e Silva

Adeus à Vida 
 
É, então, isso a vida: a nau perdida,
Sem bússola e sem leme, aos temporais?
A flórea escarpa, de íngreme subida,
Da montanha dos risos e dos ais?

É, então, isso a vida: a flor colhida
Sobre abismos ocultos e fatais?
A quimera da Terra Prometida,
No êxodo eterno para o Nunca-Mais?

É, então, isso a vida: o sonho obscuro
Dos Ícaros, Jasões e Prometeus,
Perdido na celagem do futuro?

É, então, isso a vida? — Vida, adeus!
Não é esse o caminho que procuro...
Mas seja tudo pelo amor de Deus.

Da Costa e Silva

Verônica - Da Costa e Silva

Verônica 
 
O sangue que ilumina o pensamento,
Em forma eterna a vida reproduz;
Assim, a imagem do meu pensamento
Se não em sangue, há de gravar-se em luz.

Então, vereis ao vivo refletida,
Entre uma auréola de esplendor cristão,
A sombra interior da minha vida
A projetar-se do meu coração...

Sob esse aspecto místico e profundo,
Terei a transparência do cristal,
Ampliando a visão múltipla do mundo
Para uma vida sobrenatural.

E o que tenho de humano e de divino
Ante olhares profanos hei de expor,
Nas ascensões e quedas do destino,
Que foram meu Calvário e meu Tabor.

Mas, cauteloso, o espírito tristonho,
Ocultando seu trágico avatar
Sob a névoa translúcida do sonho,
Há de ser como a espuma sobre o mar.

E a luz, que vibra em iris no meu canto,
Revelará, talvez, sem eu querer,
Aos vossos olhos lúcidos de espanto
A beleza intangível do meu ser.

 Da Costa e Silva

Síntese - Da Costa e Silva

Síntese 
 
Tornei-me espelho do mundo,
Desde que o meu pensamento
Ficou límpido e profundo
Como o azul do firmamento.

Da Costa e Silva


Elogio da Morte - Da Costa e Silva

Elogio da Morte

A morte não me assombra, nem me assusta,
Não me causa arrepio, medo ao menos,
Pois, vendo-a como os mártires, não custa
Vê-la também como os heróis helenos.

É a mesma deusa redentora e augusta
De sorriso velado e olhos serenos,
Impassível e fria, porque é justa,
Mas amável e bela como Vênus.

Sob o véu de mistério em que se encobre,
Para dos homens se tornar temida,
Vêem-na o rude, o mau, o triste, o pobre...

Mas eu a vejo em mármore esculpida,
Com o eterno semblante calmo e nobre,
Que não muda de aspecto como a vida.

Da Costa e Silva

Da Costa e Silva - O Último Sonho...

O Último Sonho... 
 
Quando eu dormir o derradeiro sono,
As frias mãos de cera sobre o peito,
Quero que, pela alvura do meu leito,
Tombem as rosas pálidas do outono.

Quando, num chão de paz e de abandono,
Eu me for repousar no último leito,
Quero que cubram meu caixão estreito
Todas as folhas lívidas do outono.

Quando eu sonhar, no meu eterno leito,
Quero que as frias lágrimas do outono
Sobre mim rolem num vapor desfeito,

Para que tu, junto ao celeste trono,
Com ar sublime de anjo satisfeito,
Saibas velar meu derradeiro sono!

Da Costa e Silva

Da Costa e Silva - Vivo Como Um Sonâmbulo...

Vivo Como Um Sonâmbulo... 
 
Eu vi o Amor adormecido aos pés da Morte,
Na curva mais suave da minha vida...
Foi quando o coração que sonha, mas não dorme,
Ao perder-te, ficou incontentado e triste.

Desde esse tempo, indiferente ao meu destino,
Vivo como um sonâmbulo que sofre;
Como um fantasma doloroso de mim mesmo,
Seguindo as sombras vacilantes do caminho...

Mas, antes de esquecer-te, espero a morte,
Para o sono de amor de uma noite sem termo

Da Costa e Silva