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Riso e Lágrima - Cassiano Ricardo

RISO E LÁGRIMA

Morre na alma um sorriso e a lágrima, sentida,
surge, treme, de leve, e traz à vossa face
o signo natural da tristeza que nasce
e não pode viver tão secreta, escondida.

Muitas vezes, porém, nas horas em que a vida
alegre se vos faz, como se se ocultasse
viverá - quem o sabe? - inútil, esquecida.

E assim, quando esqueceis a vossa desventura
a tristeza se esvai e a lágrima procura
ocultar-se, qual flor que nasceu entre abrolhos.

No entanto, para mim, há destas variedades:
passo a vida a cantar para matar saudades,
vivo sempre a sorrir com lágrimas nos olhos...

Cassiano Ricardo


Cassiano Ricardo - A rua

A rua

Bem sei que muitas vezes,
o único remédio
é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
a dívida, o divertimento,
o pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
de contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é a figura de mulher
do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo - Manhã de caça

Manhã de caça
Mal entrava eu no mato
era um delírio. Os papagaios
se reuniam em bando, protestando.
Como em verde comício.

Por que tanto barulho? eu indagava
de mim mesmo, da minha malvadez.
Como se não soubesse
que era justo o protesto
dos papagaios ásperos, verde-gaios.

Araras, canindés, maitacas
mais ensurdecedoras que matracas,
reunidas em bando,
também gritavam, me acusando.

Mas por que tanto horror? por que, de súbito,
tanto medo insensato?

Como se eu não soubesse,
com absoluta certeza, que era o mato
contra a minha maueza.

Maracanãs, tiribas, periquitos,
que eram asas aos gritos,
papagaios, enfim, de vários nomes
e de vária plumagem,
que eram os donos do país selvagem
e confuso,
lavravam seu protesto contra o intruso,
gritando, gritando.

Um morro de cabelo verde pixaim
começava a pensar.
Se encolhia a pensar numa coisa sem fim.

Por que pensar assim?
Como se eu não soubesse dos motivos
de tanta guerra, de tanta algazarra.

Conferenciavam, graves, os tucanos.
Saltavam rãs e gafanhotos,
junto a meus pés, a meus sapatos rotos.
O caapora acendia o fogo do cachimbo.
A mãe-d'água - se é que a mãe-d'água existe -
saltava como louca, a face oculta
em seu cabelo verde - se é verdade
que o seu cabelo é verde.

Como se eu não soubesse que no mato
tudo é cabelo verde, é susto, é graça,
é surpresa, é protesto
(quando não é a solidão selvagem).

Mas por que tanta atoarda?

E eu apontava o cano da espingarda
e bumba! um papagaio verde-gaio
caía ao solo e os outros, com assombro,
se reuniam em bando, gritando.
Uma chuva de garras e de bicos
despencava do céu sobre o meu ombro.

Os ecos proferiam, pelas grotas,
outros protestos, como se a distância
também caísse ao chão, de bruços,
com a boca cheia de soluços!

Mas pra quê tanto medo?

E - último eco - uma voz, enroscada
num cipoal em flor, numa barba-de-bode,
ficava protestando:
não pode!
não pode!

Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo - Poema implícito

Poema implícito 
O que a vida nos faz
supor esteja atrás dos objetos.
A presença do oculto,
o que a fotografia não nos diz.
As coisas
que não chegou a me dizer Lenora
a que foi
morar no reino dos pássaros mudos.
E que mais me feriram justamente
porque não chegaram a ser ditas.
Os gritos, esculpidos na boca
das figuras de pedra.
Tudo o que é implícito.
Tudo o que é tácito.

Não gosto dos explícitos
Gosto dos tácitos.
Daqueles que me dizem tudo
sem me dizer uma única palavra.
Não amo os lógicos,
os socráticos.
Amo os lunáticos,
os de cabeça virgem
e lírica.

Não amo os pássaros que cantam,
amo os pássaros mudos.

Cassiano Ricardo - A sintaxe do adeus

A sintaxe do adeus

O frio que a morte traz
quem o sente não é o morto.
O morto apenas esfria.
É o frio do calafrio...

E são os vivos que sentem.
Também os vivos têm medo
de olhar nos olhos do morto.
Ah, o terrível segredo.

E alguém, com dedos de rosa
vem e automaticamente
pra que o morto não nos veja,

lhe fecha as pálpebras como
a duas pétalas e adeus.
A-deus quer dizer sem Deus.

Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo - Você e o seu retrato

Você e o seu retrato

Por que tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais recente?

E por que um simples retrato,
mais que você, me comove,
se você mesma está presente?

Talvez porque o retrato
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.

Talvez porque o retrato
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.

Talvez porque o retrato
(exato, embora malicioso)
revele algo de criança
(como, no fundo da água,
um coral em repouso)

Talvez pela idéia de ausência
que o seu retrato faz surgir
colocado entre nós-dois

(como um ramo de hortênsia)

Talvez porque o seu retrato,
embora eu me torne oblíquo,
me olha, sempre, de frente

(amorosamente)

Talvez porque o seu retrato
mais se parece com você
do que você mesma (ingrato).

Talvez porque, no retrato
você está imóvel,

(sem respiração...)

Talvez porque todo retrato
é uma retratação.

Cassiano Ricardo