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José Bonifácio - Elevo

Elevo

Se invejo as coroas, os cantos perdidos
Dos bardos sentidos, que altivos ouvi,
Bem sabes, donzela, que os loucos desejos,
Que os vagos almejos, são todos por ti.

Bem sabes que, às vezes, teu pé sobre o chão,
No meu coração faz eco, passando;
Que sinto e respiro teu hálito amado;
E, mesmo acordado, só vivo sonhando!

Bem sabes, donzela, na dor ou na calma,
Que é tua a minha alma, que é meu o teu ser,
Que vivo em teus olhos; que sigo teus passos;
Que quero em teus braços viver e morrer.

A luz do teu rosto - meu sol de ventura,
Saudade, amargura, não sei o que mais -
Traduz meu destino, num simples sorriso,
Que é meu paraíso, num gesto de paz.

Se triste desmaias, se a cor te falece,
A mim me parece que foges pro céu,
E eu louco murmuro, nos amplos espaços,
Voando a teus braços: - És minhas!... Sou teu!...

Da tarde no sopro suspira baixinho,
No sopro mansinho suspira... Quem és?
Suspira... Hás de ver-me de fronte abatida,
Sem força, sem vida, curvado a teus pés.

José Bonifácio


José Bonifácio - Calabar

Calabar

Oh! não vendeu-se, não! - Ele era escravo
Do jugo português. - Quis a vingança;
Abriu sua alma às ambições de um bravo
E em nova escravidão bebeu a esperança!
Combateu... pelejou... entre a batalha
Viu essas vidas que no pó se somem;
Enrolou-se da pátria na mortalha,
Ergueu-se - inda era um homem!

Calabar! Calabar! Foi a mentira
Que a maldição cuspiu em tua memória!
Amaste a liberdade; era uma lira
De loucos sonhos, de elevada glória!
Alma adejando neste Céu brilhante
- Sonhaste escravo reviver liberto;
Subiste ao largo espaço triunfante,
Voaste - era um deserto!

A quem traíste, herói? - Na vil poeira
Que juramento te prendia à fé?!
Escravo por escravo essa bandeira
Foi de um soldado lá - ficou de pé!...
Viu o sol entre as brumas do futuro
- Ele que por si só nada podia;
Quis vingar-se também - no sonho escuro

Quis ter também seu dia!
O pulso roxo da fatal cadeia
Brandiu uma arma, pelejou também,
Viram-no erguido na refrega feia,
- Sombrio vulto que o valor sustém!
Respeitai-o - que amou a heroicidade!
Quis erguer-se também do raso chão!
Foi delírio talvez - a eternidade
Teve no coração!

Oh! que o Céu era lindo e o sol se erguia,
Como um incêndio nas brasílias terras;
Da cimeira da selva a voz surgia,
E o som dos ventos nas remotas serras!
Adormeceu... à noite em funda calma
Ouviu ao longe os ecos da floresta;
Bateu-lhe o coração - triste sua alma
Sorriu-se - era uma festa!

Homem - sentiu na carne desnudada
O açoite do algoz nodoar a honra,
E o sangue sobre a face envergonhada
Mudo escreveu o grito da desonra!
Era escravo! Deixai-o que combata;
Livre nunca ele foi - quer sê-lo agora,
Como o peixe no mar, a ave na mata,
Como no Céu a aurora!

Oh! deixai-o morrer - deste martírio!
Não alceis a calúnia ao grau da história!
Que fique a lusa mão em seu delírio
- Já que o corpo manchou, manchar a glória!
Respeitemos as cinzas do guerreiro
Que no pó sacudira a alteira fronte!
Quem sabe esse mistério segredeiro
Do sol lá no horizonte?!

Não se vendeu! Infâmia... era um escravo!
Sentiu o estigma vil, horrendo selo;
Pulsou-lhe o coração, viu que era um bravo;
Quis despertar do negro pesadelo!
Tronco sem folhas, triste e solitário,
Debalde o vento assoberbar tentou,
Das asas do tufão ao sopro vário
Estremeceu, tombou!

Paz ao sepulcro! Calabar morreu!
Sobre o topo da cruz fala a verdade!
Quis ser livre também - ele escolheu,
Entre duas prisões - quis ter vontade!
E a mão heróica que susteve a Holanda
A covardia entrega desarmada!
Vergonha eterna a Providência manda
À ingratidão manchada!

Morreu! Mas lá no marco derradeiro
O coração de amor bateu-lhe ainda!
Minha mãe! murmurou... era agoureiro
Esse queixume de uma dor infinda!
Morreu, o escravo se desfaz em pó...
Ferros lançai-lhe agora, se o podeis!
Vinde, tiranos - ele está bem só,
Ditai-lhe agora as leis!

José Bonifácio