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Milagre - Artur de Azevedo

Milagre

Com cinco pães o Cristo
Deu de comer a cinco mil pessoas!
Eu não me assombro disto,
Pois tu, que o meu espírito magoas,
Tens um só coração,
E amas, contudo, uma população!

Artur de Azevedo


Intimidade - Fernando Namora

Intimidade

Que ninguém hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao
[mundo.
Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não o afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

Fernando Namora

A mãe das mágoas - Luís Delfino

A mãe das mágoas

Parece a imagem da inocência; é vê-la
Chorosa adrede, e derramando em fráguas
Serpes de oiro de lágrimas; esmago-as:
Ressurgem: uma só não há prendê-la.

A intriga tece, sabe concebê-la:
Tem a perfídia das profundas águas;
É a mãe, que amamenta as grandes mágoas;
É a luzerna, parecendo estrela...

Ri de mim minha austera consciência,
Sei que este amor é tortuoso espinho,
Que tem em si uma letal essência.

Mas... não posso viver sem seu carinho:
Ela caiu-me dentro da existência,
Como uma vespa dentro do meu vinho...

Luís Delfino

Se soubesses - Félix Pacheco

SE SOUBESSES...

Ah se soubesses quanto choro ao vê-las,
Estas lembranças do passado extinto!...
São visões de necrópole que sinto.
Fugiu-me o sol, fugiram-me as estrelas.

Estes cartões terníssimos; aquelas
Cartas cheias de amor, nas quais não minto
E onde infantil e ingenuamente pinto
Inventadas, fantásticas querelas;

Se tu soubesses com que dor enorme
Estes papéis amarelados leio,
A mágoa que me oprime ao ver que dorme

Toda a antiga paixão de que te esqueces;
Se imaginasses o meu duro anseio
E visses o que sofro, ah! se soubesses...

 Félix Pacheco


Lamento - João de Deus

Lamento

Senhor! Senhor! que um ai nunca me ouviste
Na minha dôr!
Ai vida, vida minha, como és triste!...
Senhor! Senhor!

Quando eu nasci, o sol cobriu o rosto
Mal que eu o vi!
Tingiu-se o céo de sangue, e era sol-posto,
Quando eu nasci!

Pela manhã, a rosa era mais alva
Que a alva lã!
E o cravo desmaiou á estrella-d'alva,
Pela manhã!

Ao longe, o mar se ouviu, leão piedoso,
Um ai soltar!
Pelas praias, se ouviu gemer ancioso,
Ao longe, o mar!

Oh roixinol! a ti, nasce-te o dia
Ao pôr do sol!
Mostre-me a campa a luz que te alumia,
Oh roixinol!

João de Deus

Eterna Dor - Auta de Souza

Eterna Dor

Alma de meu amor, lírio celeste,
Sonho feito de um beijo e de um carinho,
Criatura gentil, pomba de arminho,
Arrulhando nas folhas de um cipreste.

Ó minha mãe! Por que no mundo agreste,
Rola formosa, abandonaste o ninho?
Se as roseiras do Céu não têm espinhos,
Quero ir contigo, ó lírio meu celeste!

Ah! se soubesses como sofro, e tanto!
Leva-me à terra onde não corre o pranto,
Leva-me, santa, onde a ventura existe...

Aqui na vida - que tamanha mágoa! -
O próprio olhar de Deus encheu-se d’água...
Ó minha mãe, como este mundo é triste!