Paulo Setúbal - Uma história simples

Uma história simples

Eu com saudades, muita vez me lembro,
De quando, nos bons tempos de estudante,
Passei as grandes férias de dezembro,
Numa fazenda amiga, bem distante.

Lá - quem diria? - lá, nesse abandono;
Perdi meu coração nesta cegueira:
Amei, com fúria, a filha dum colono,
Que era a mais bela da colônia inteira.

Eu, rapazola ingênuo e ventoinha,
Que então vivia nas regiões aéreas,
Sonhei fazer da humilde caipirinha
A musa que inspirasse as minhas férias.

E ela, a vaidosa, no ermo da fazenda,
Fina e matreira, com gentil desvelo,
Vestia sempre muita fita e renda,
Botava sempre rosas no cabelo

Para estreitar essa aventura doce,
Tecer com ela um tosco romancinho,
Eu, indo à vila, certa vez lhe trouxe
Um corte de vestido azul-marinho.

Ao receber meu tímido presente,
A moça, olhos no chão, o sangue em lava,
Disse-me apenas, com a voz tremente:
"Que incômodo lhe dei! Não precisa..."

Assim, unidos por tão bela chama,
Vivíamos os dois em mútua estima,
Quando um dia chegou, sem telegrama,
Minha formosa e tentadora prima.

Com seu donaire fino e romanesco,
Veio à procura de melhor saúde,
Beber na serra um leite gordo e fresco,
Haurir no campo a luz dum sol bem rude.

Eis porque, de manhã, nós dois saímos
— Ambos a rir da madrugada nossa! -
Mostrando a todos como um par de primos
Sabe gozar as distrações da roça.

Ela, espantando aquela pobre gente,
Molhando os caros borzeguins no orvalho,
Vinha embuçada, friorentamente,
Num fofo, moderníssimo agasalho.

E a estrada, e os bois e os carros indo e vindo.
E a ponte velha, e os canaviais, e a moenda,
Tudo nós vimos, papagueando e rindo,
Pela rural simpleza da fazenda.

Quando voltamos, pálida e severa,
Com um ar de furor, nada indeciso,
A caipirinha estava à minha espera.
Tinha nos lábios um cruel sorriso.

"É aquela?" perguntou, com frio orgulho,
Mostrando a prima que subia a escada.
E atirando, com raiva, estranho embrulho,
Partiu, correndo, sem dizer mais nada.

Parei... Que é isto? Que pesar tamanho
Fê-la explodir nesse rancor sentido?
Abri, ansioso, aquele embrulho estranho.
— Pus-me a sorrir: o corte de vestido!

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