Gonçalves Dias - Agora e sempre

Agora e sempre

Ponham-me embora na crestada Líbia,
Ou lá nas zonas em que o gelo mora
Ali tua alma viverá comigo
Ali teu nome!

Ponham-me em terras que leões só ceiam,
Nas altas serras que o condor habita;
Ali ainda viverá contigo
Minha alma ardente.

Faminto e triste na região deserta,
Co’os pés em sangue de esfarpada estilha.
Cortado o rosto de gelado vento,
Mádida a coma:

Ali aos urros do leão sedento,
Aos crebros gritos do condor alpestre,
Ardendo em chamas d|este amor sem termo,
Direi? Eu te amo!

Duros ferrolhos de prisão medonha
Escute embora sepultar-me em vida;
Embora sinta roxear-me os pulsos
Férreas algemas;

Embora malhos de tortura infame
Quebrem-me os ossos no medroso equúleo:
Agudos dentes de tenaz raivosa
Mordam-me as carnes:

Nas feias sombras de cruel masmorra,
Nos duros tratos da tortura bruta,
Quer só comigo, quer em meio às gentes.
Direi: Eu te amo!

Mas nunca o gelo, nem a frágua ardente,
Nem brutas feras, nem crueza humana
Farão que eu sofra mais agudas dores,
Nem mais penadas!

Reclina-se outro em teu nevado seio,
Cinge-te o corpo em divinais carícias,
Beija-te o colo, beija-te o sorriso,
Goza-te e vive!

E eu no entanto esforço-me com dores!
Praguejo o inferno que nos pôs tão longe,
Louco bravejo, misero soluço...
Desejo e morro!



Gonçalves Dias

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