por Luís da Gama
Envolto na pobreza que me oprime;
Da fatal ignorância ao duro peso,
Qual réu que comete horrendo crime.
Ao mundo não lembrado, como a sombra
De ignorado Pastor em ermos vales;
Sofrendo da miséria atroz reveses,
Do meu fado curtindo acerbos males:
Prostrado à sonolência que domina
A turba dos mortais assim rendidos,
De repente desperto ao som medonho
De brados estridentes — alaridos!
Impávido, correndo, me encaminho,
Em busca do sucesso não cuidado,
Que, os ares atroando, se anuncia,
Qual fero Adamastor, bramindo irado!
A trancos e barrancos, tropeçando,
De súbito deparo fronte a fronte,
— Não de susto falece comovido,
Com feio, desgrenhado e sujo Bronte!
Era hirsuta a melena, esfiapada,
Que nos ombros vergados se esparzia;
A boca retorcida, os dentes verdes,
Rotunda era a cabeça, mas vazia.
Trajava uma casaca que invejara
Um judas, ou magriço gafanhoto,
Presente que lhe dera, em despedida,
O seu velho patrão, que era piloto.
Com denodo, montava, um grã tonel,
Tinha a frente, de parras, enfeitada;
Empunhando na destra uma seringa,
E na sestra uma vinha, já curada.
Diante do herói vinham, saltando,
Uma chusma de Bacos, de cornetas;
Também vinha Príapo, enfurecido,
Entre velhas zanagas, e cambetas!
D’espanto dominado, lhe pergunto:
Quem és tu, ó mortal, que assim caminhas?
Responde-me o colosso, insano e forte:
“O grande curador do mal das vinhas!!”
E soprando-me a testa, d’improviso,
Por pouco me não deixa sem juízo!
Aos ares se elevou, empavesado,
As abas da casaca abrindo ousado;
E, logo que da terra se apartou,
Sobre as nossas cabeças espalhou:
Um chuveiro de anúncios, em gazetas,
Retumbantes artigos, grossas petas;
A caparrosa, a galha, a t’rebentina,
Essência de tabaco, e de quinina;
Pontinhas de charutos já fumados,
Ratos mortos, em vinho conservados;
Pomposos elogios, em jornais,
Sementes p’ra o fabrico de animais;
Um tratado das coisas reunidas,
E mais outras cousitas esquecidas!
Nem César, Bonaparte, nem Mavorte,
E outros em quem poder não teve a morte,
Igualam, no saber, o pregoeiro,
Que das vinhas se aclama — curandeiro.
Por ele se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos
— Que nas grimpas da glória repimpado
Um abraço vai dar no sol dourado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário