Capítulo 1
- Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
- Abraão gerou a Isaque; Isaque gerou a Jacó; Jacó gerou a Judá e a seus irmãos;
- Judá gerou de Tamar a Perez e a Zara; Perez gerou a Esrom; Esrom gerou a Arão;
- Arão gerou a Aminadabe; Aminadabe gerou a Naassom; Naassom gerou a Salmom;
- Salmom gerou de Raabe a Boaz; Boaz gerou de Rute a Obede; Obede gerou a Jessé,
- e Jessé gerou ao rei Davi. Davi gerou a Salomão daquela que fora mulher de Urias;
- Salomão gerou a Roboão; Roboão gerou a Abias; Abias gerou a Asa;
- Asa gerou a Josafá; Josafá gerou a Jorão; Jorão gerou a Uzias;
- Uzias gerou a Jotão; Jotão gerou a Acaz; Acaz gerou a Ezequias
- Ezequias gerou a Manassés; Manassés gerou a Amom; Amom gerou a Josias,
- e Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos no tempo do exílio em Babilônia.
- Depois do exílio em Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; Salatiel gerou a Zorobabel;
- Zorobabel gerou a Abiúde; Abiúde gerou a Eliaquim; Eliaquim gerou a Azor;
- Azor gerou a Sadoque; Sadoque gerou a Aquim; Aquim gerou a Eliúde;
- Eliúde gerou a Eleazar; Eleazar gerou a Matã; Matã gerou a Jacó,
- e Jacó gerou a José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.
- Assim todas as gerações desde Abraão até Davi são catorze gerações; também desde Davi até o exílio em Babilônia, catorze gerações; e desde o exílio em Babilônia até o Cristo, catorze gerações.
- Ora o nascimento de Jesus Cristo foi desta maneira: Estando Maria, sua mãe, já desposada com José, antes que se ajuntassem, ela se achou grávida por virtude do Espírito Santo.
- José, seu marido, sendo reto e não a querendo infamar, resolveu deixá-la secretamente.
- Quando, porém, pensava nestas coisas, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher; pois o que nela foi gerado, é por virtude do Espírito Santo.
- Ela dará à luz um filho, a quem chamarás JESUS; porque ele salvará o seu povo dos pecados deles.
- Ora tudo isto aconteceu, para que se cumprisse o que dissera o Senhor pelo profeta:
- Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, E ele será chamado Emanuel, que quer dizer, Deus conosco.
- José, tendo despertado do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu sua mulher;
- e não a conheceu enquanto ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de JESUS.
Capítulo 2
- Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia no tempo do rei Herodes, vieram do oriente uns magos a Jerusalém, perguntando:
- Onde está aquele que nasceu Rei dos Judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos adorá-lo.
- O rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e com ele toda Jerusalém;
- e reunindo todos os principais sacerdotes e os escribas do povo, perguntava-lhes onde havia de nascer o Cristo.
- Eles lhe disseram: Em Belém da Judéia; pois assim está escrito pelo profeta:
- E tu Belém, terra de Judá, Não és de modo algum o menor entre os lugares principais de Judá; Porque de ti sairá um condutor, Que há de pastorear meu povo de Israel.
- Então Herodes chamou secretamente os magos, e deles indagou com precisão o tempo em que a estrela tinha aparecido;
- e enviando-os a Belém, disse-lhes: Ide informar-vos cuidadosamente acerca do menino; e quando o tiverdes achado, avisai-me, para eu também ir adorá-lo.
- Os magos, depois de ouvirem o rei, partiram; e eis que a estrela, que viram no oriente, ia adiante deles, até que foi parar sobre o lugar onde estava o menino.
- Ao avistarem a estrela ficaram extremamente jubilosos.
- Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, adoraram-no; e abrindo os seus cofres, fizeram-lhe ofertas de ouro, incenso e mirra.
- Sendo em sonhos avisados por Deus que não voltassem a Herodes, seguiram por outro caminho para a sua terra.
- Depois de haverem partido, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, dizendo: Levanta-te, toma contigo o menino e sua mãe, foge para o Egito, e fica ali até que eu te chame; pois Herodes há de procurar o menino para o matar.
- José levantou-se, tomou de noite o menino e sua mãe e partiu para o Egito,
- e ali ficou até a morte de Herodes; para que se cumprisse o que dissera o Senhor pelo profeta: Do Egito chamei a meu Filho.
- Herodes, vendo-se iludido pelos magos, ficou muito irado e mandou matar todos os meninos que havia em Belem e em todo o seu termo, de dois anos para baixo, conforme o tempo que tinha com precisão indagado dos magos.
- Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias:
- Ouviu-se um clamor em Ramá, Choro e grande lamento; Era Raquel chorando a seus filhos, E não querendo ser consolada, porque eles já não existem.
- Mas tendo morrido Herodes, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José no Egito, dizendo:
- Levanta-te, toma contigo o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel; pois já morreram aqueles que procuravam tirar a vida ao menino.
- José, levantando-se, tomou o menino e sua mãe e voltou para a terra de Israel.
- Porém sabendo que Arquelau reinava na Judéia em lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá; e avisado em sonhos por Deus, retirou-se para os lados da Galiléia,
- e foi morar em uma cidade chamada Nazaré; para se cumprir o que foi dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.
Capítulo 3
- Naqueles dias apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia:
- Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.
- Pois é a João que se refere o que foi dito pelo profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas.
- Ora o mesmo João usava uma veste de pêlo de camelo, e uma correia em volta da cintura; e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.
- Então ia ter com ele o povo de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a circunvizinhança do Jordão;
- e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados.
- Mas vendo João que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos recomendou que fugísseis da ira vindoura?
- Dai, pois, frutos dignos do vosso arrependimento,
- e não queirais dizer dentro de vós mesmos: Temos como pai a Abraão; porque vos declaro que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão.
- O machado já está posto à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não dá bom fruto, é cortada e lançada no fogo.
- Eu, na verdade, vos batizo com água para o arrependimento; mas aquele que há de vir depois de mim, é mais poderoso do que eu, e não sou digno de levar-lhe as sandálias; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.
- A sua pá ele a tem na sua mão, e limpará bem a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível.
- Depois veio Jesus da Galiléia ao Jordão ter com João, para ser batizado por ele.
- Mas João objetava-lhe: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?
- Respondeu-lhe Jesus: Deixa por agora; porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele anuiu.
- Batizado que foi Jesus, saiu logo da água; eis que se abriram os céus, e veio o Espírito de Deus descer como pomba e vir sobre ele; e uma voz dos céus disse:
- Este é o meu Filho dileto, em quem me agrado.
Capítulo 4
- Então foi levado Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo.
- Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.
- Chegando o tentador, disse-lhe: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.
- Mas Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
- Então o Diabo o levou à cidade santa, e o colocou sobre o pináculo do templo,
- e disse-lhe: Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque escrito está: Aos seus anjos ordenará a teu respeito, E eles te susterão nas suas mãos, Para não tropeçares em alguma pedra.
- Tornou-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
- De novo o Diabo o levou a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles,
- e disse-lhe: Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.
- Respondeu-lhe Jesus: Vai-te, Satanás; pois está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto.
- Então o Diabo o deixou; e eis que vieram anjos, e o serviam.
- Quando Jesus soube que João fora preso, partiu para a Galiléia.
- Deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum, situada à beira-mar, nos confins de Zebulom e Naftali,
- para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías:
- A terra de Zebulom e a terra de Naftali, Caminho do mar, além do Jordão, A Galiléia dos gentios,
- O povo que jazia nas trevas, Viu uma grande luz, E aos que estavam de assento na região e sombra da morte, A estes raiou a luz.
- Desde esse tempo começou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.
- Andando ao longo do mar da Galiléia, viu dois irmãos, Simão, também chamado Pedro, e André, lançarem a rede ao mar; porque eram pescadores.
- Disse-lhes: Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens.
- Imediatamente eles deixaram as redes, e o seguiram.
- Jesus, passando adiante, viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam na barca com seu pai, consertando as suas redes; e os chamou.
- Eles, deixando logo a barca e seu pai, o seguiram.
- Andava Jesus por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
- A sua fama correu por toda a Síria; trouxeram-lhe todos os enfermos, acometidos de várias doenças e sofrimentos, endemoninhados, epiléticos e paralíticos, e ele os curou.
- Muita gente o seguiu da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia e dalém do Jordão.
Capítulo 5
- Vendo Jesus a multidão, subiu ao monte; depois de se ter sentado, aproximaram-se seus discípulos,
- e ele começou a ensiná-los, dizendo:
- Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.
- Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
- Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.
- Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.
- Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.
- Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.
- Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.
- Bem-aventurados os que têm sido perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
- Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.
- Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que existiram antes de vós.
- Vós sois o sal da terra; se o sal se tiver tornado insípido, como se poderá restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
- Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
- ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo do módio, mas no velador, e assim alumia a todos os que estão na casa.
- De tal modo brilhe a vossa luz diante dos homens, que eles vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.
- Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim revogar, mas cumprir.
- Porque em verdade vos digo: Enquanto não passar o céu e a terra, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, sem que tudo se cumpra.
- Aquele, pois, que violar um destes mínimos mandamentos, e assim ensinar aos homens, será chamado mínimo no reino dos céus; mas aquele que os observar e ensinar, esse será chamado grande no reino dos céus.
- Pois vos digo que se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.
- Tendes ouvido que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar, estará sujeito a julgamento.
- Mas eu vos digo que todo aquele que se ira contra seu irmão, estará sujeito a julgamento; e quem chamar a seu irmão: Raca, estará sujeito ao julgamento do sinédrio; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito à geena de fogo.
- Se estiveres, pois, apresentando a tua oferta no altar, e aí te lembrares que teu irmão tem contra ti alguma coisa,
- deixa ali a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta.
- Harmoniza-te sem demora com o teu adversário, enquanto está no caminho com ele; para que não suceda que o adversário te entregue ao juiz, o juiz ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão.
- Em verdade te digo que não sairás dali, até pagares o último ceitil.
- Tendes ouvido que foi dito: Não adulterarás.
- Eu, porém, vos digo que todo o que põe seus olhos em uma mulher, para a cobiçar, já no seu coração adulterou com ela.
- Se o teu olho direito te serve de pedra de tropeço, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém mais que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na geena.
- Se a tua mão direita te serve de pedra de tropeço, corta-a e lança-a de ti; pois te convém mais que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo vá para a geena.
- Também foi dito: Quem repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio.
- Eu, porém, vos digo que todo o que repudia sua mulher, a não ser por causa de infidelidade, a faz ser adúltera; e qualquer que se casar com a repudiada, comete adultério.
- Também tendes ouvido que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás para com o Senhor os teus juramentos.
- Eu, porém, vos digo que absolutamente não jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus;
- nem pela terra, porque é o escabelo dos seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei;
- nem jures pela tua cabeça, porque nem um só cabelo podes tornar branco ou preto.
- Mas seja o vosso falar: Sim, sim; Não, não; pois tudo o que passa disto, vem do maligno.
- Tendes ouvido que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
- Eu, porém, vos digo: Não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te dá na face direita, volta-lhe também a outra;
- ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
- e quem te obriga a andar mil passos, vai com ele dois mil.
- Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.
- Tendes ouvido que foi dito: Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo.
- Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem,
- para que vos torneis filhos de vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos.
- Pois se amardes aos que vos amam, que recompensa tendes? não fazem os publicanos também o mesmo?
- Se saudardes somente aos vossos irmãos, que fazeis de especial? não fazem os gentios também o mesmo?
- Sede vós, pois, perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.
Capítulo 6
- Guardai-vos, não façais as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles; de outra sorte não tendes recompensa junto de vosso Pai que está nos céus.
- Quando, pois, deres esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem honrados dos homens; em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.
- Tu, porém, quando dás esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita,
- para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te retribuirá.
- Quando orardes, não sejais como os hipócritas; porque eles gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos dos homens; em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.
- Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te retribuirá.
- Quando orais, não useis de repetições desnecessárias como os gentios; porque pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos.
- Não sejais, pois, como eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que lho peçais.
- Portanto orai vós deste modo: Pai nosso que estás nos céus; santificado seja o teu nome;
- venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra, como no céu.
- O pão nosso de cada dia nos dá hoje;
- e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também temos perdoado aos nossos devedores;
- e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.
- Pois se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará;
- mas se não perdoardes aos homens, tão pouco vosso Pai perdoará as vossas ofensas.
- Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas; porque eles desfiguram os seus rostos, para fazer ver aos homens que estão jejuando; em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.
- Tu, porém, quando jejuas, unge a cabeça e lava o rosto,
- para não mostrar aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te retribuirá.
- Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões penetram e roubam;
- mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não penetram nem roubam;
- porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.
- A candeia do corpo são os olhos. Se estes, pois, forem simples, todo o teu corpo será luminoso;
- mas se forem maus, todo o teu corpo ficará às escuras. Se, portanto, a luz que há em ti, são trevas, quão densas são as trevas!
- Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou há de unir-se a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.
- Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos da vossa vida pelo que haveis de comer ou beber, nem do vosso corpo pelo que haveis de vestir; não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido?
- Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas?
- Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura?
- Por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam,
- contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.
- Se Deus, pois, assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
- Assim não andeis ansiosos, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir?
- (Pois os gentios é que procuram todas estas coisas); porque vosso Pai celestial sabe que precisais de todas elas.
- Mas buscai primeiramente o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
- Não andeis, pois, ansiosos pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã a si mesmo trará seu cuidado; ao dia bastam os seus próprios males.
Capítulo 7
- Não julgueis, para que não sejais julgados;
- porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e a medida de que usais, dessa usarão convosco.
- Por que vês o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que tens no teu?
- Ou como poderás dizer a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?
- Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão.
- Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis as vossas pérolas diante dos porcos, para que não suceda que as calquem aos pés e, voltando-se, vos despedacem.
- Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á.
- Pois todo o que pede, recebe; o que busca, acha; e a quem bate, abrir-se-lhe-á.
- Qual de vós dará a seu filho uma pedra, se ele lhe pedir pão?
- Ou uma serpente, se pedir peixe?
- Ora se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus, dará boas coisas aos que lhas pedirem?
- Portanto tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o assim também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas.''Texto em itálico'
- Entrai pela porta estreita (larga é a porta e espaçosa a estrada que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela),
- porque estreita é a porta e apertada a estrada que conduz à vida, e poucos são os que acertam com ela.
- Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestes de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes.
- Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?
- Assim toda a árvore boa dá bons frutos, porém a árvore má dá maus frutos.
- Uma árvore boa não pode dar maus frutos, nem uma árvore má dar bons frutos.
- Toda a árvore que não dá bom fruto, é cortada e lançada no fogo.
- Logo pelo seus frutos os conhecereis.
- Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.
- Naquele dia muitos hão de dizer-me: Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?
- Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.
- Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as observa, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha.
- Desceu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela não caiu; pois estava edificada sobre a rocha.
- Mas todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as observa, será comparado a um homem néscio, que edificou a sua casa sobre a areia.
- Desceu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos e bateram com ímpeto contra aquela casa, e ela caiu: e foi grande a sua ruína.
- Tendo terminado Jesus este discurso, as turbas admiravam-se do seu ensino;
- porque ele as ensinava como quem tinha autoridade, e não como os escribas do povo.
Capítulo 8
- Quando Jesus desceu do monte, acompanharam-no grandes multidões.
- Aproximando-se um leproso, adorava-o, dizendo: Senhor, se quiseres, bem podes tornar-me limpo.
- Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; fica limpo. No mesmo instante ficou limpa a sua lepra.
- Disse-lhe Jesus: Olha, não o digas a alguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e fazer a oferta que Moisés ordenou, para lhes servir de testemunho.
- Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, chegou-se a ele um centurião e rogou-lhe:
- Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico, padecendo horrivelmente.
- Disse-lhe ele: Eu irei curá-lo.
- Mas o centurião respondeu: Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; porém dize somente uma palavra, e o meu criado há de sarar.
- Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens, e digo a um: Vai ali, e ele vai; a outro: Vem cá, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz.
- Jesus, ouvindo isto, admirou-se e disse aos que o acompanhavam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei tamanha fé.
- Digo-vos que muitos virão do oriente e do ocidente, e hão de sentar-se com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus;
- mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá o choro e o ranger de dentes.
- Disse Jesus ao centurião: Vai-te e como creste, assim te seja feito. Naquela mesma hora sarou o criado.
- Tendo entrado Jesus na casa de Pedro, viu que a sogra deste estava de cama e com febre;
- e tocando-lhe a mão, a febre a deixou. Ela se levantou, e o servia.
- À tarde trouxeram-lhe muitos endemoninhados; ele com a sua palavra expeliu os espíritos, e curou todos os doentes;
- para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.
- Vendo Jesus uma multidão ao redor de si, mandou passar para a outra margem do lago.
- Chegou um escriba e disse-lhe: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores.
- Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu pousos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.
- Um outro discípulo disse-lhe: Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar meu pai.
- Porém Jesus respondeu-lhe: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos.
- Entrando ele na barca, seus discípulos acompanharam-no.
- Eis que se levantou no mar tão grande tempestade, que as ondas cobriam a barca; mas Jesus dormia.
- Os discípulos, aproximando-se, acordaram-no, dizendo: Salva-nos, Senhor, que perecemos.
- Ele lhes disse: Por que temeis, homens de pouca fé? Então erguendo-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança.
- Todos se maravilharam, dizendo: Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?
- Tendo ele chegado à outra banda, à terra dos gadarenos, dois endemoninhados, em extremo furiosos, de modo que ninguém podia passar por aquele caminho, saindo dos túmulos, vieram-lhe ao encontro.
- Eles gritaram: Que temos nós contigo, Filho de Deus? vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?
- Ora a alguma distância deles pastava uma grande manada de porcos.
- Os demônios rogavam-lhe: Se nos expeles, envia-nos para a manada de porcos.
- Disse-lhes Jesus: Ide. Tendo eles saído, passaram para os porcos; toda a manada precipitou-se pelo declive no mar, e ali se afogaram.
- Os pastores fugiram, foram à cidade e contaram todas estas coisas, e o que tinha acontecido aos endemoninhados.
- Então a cidade toda saiu ao encontro de Jesus; e ao verem-no, rogaram-lhe que se retirasse daqueles termos.
Capítulo 9
- Jesus entrou numa barca, atravessou para o outro lado e foi à sua cidade.
- Trouxeram-lhe um paralítico, deitado em um leito. Vendo Jesus a fé que eles tinham, disse ao paralítico: Tem ânimo, filho; perdoados são os teus pecados.
- Alguns escribas disseram consigo: Este homem blasfema.
- Mas Jesus, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Por que pensais mal nos vossos corações?
- Pois qual é mais fácil, dizer: Perdoados são os teus pecados, ou dizer: Levanta-te, e anda?
- Para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados-disse então ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa.
- Ele se levantou e foi para sua casa.
- Vendo isto as multidões, temeram e glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens.
- Jesus, partindo dali, viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. Ele se levantou e o seguiu.
- Estando ele à mesa em casa, vieram muitos publicanos e pecadores e sentaram-se com Jesus e com seus discípulos.
- Os fariseus, vendo isto, perguntavam aos discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores?
- Mas Jesus, ouvindo-o, disse: Os sãos não precisam de médico, mas sim os enfermos.
- Porém ide aprender o que significa: Misericórdia quero, e não holocaustos; pois não vim chamar os justos, mas os pecadores.
- Depois o procuraram os discípulos de João, e lhe perguntaram: Por que é que nós e os fariseus jejuamos, mas teus discípulos não jejuam?
- Respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? porém dias virão, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias jejuarão.
- Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque o remendo tira parte do vestido, e fica maior a rotura.
- Nem se põe vinho novo em odres velhos; de outro modo arrebentam os odres, e derrama-se o vinho, e estragam-se os odres. Mas vinho novo é posto em odres novos, e ambos se conservam.
- Enquanto assim lhes falava, veio um chefe da sinagoga e adorava-o, dizendo: Neste momento acaba de expirar minha filha; mas vem, põe a tua mão sobre ela, e viverá.
- Jesus, levantando-se, o foi seguindo com seus discípulos.
- Uma mulher, padecendo há doze anos de uma hemorragia, veio por detrás dele e tocou-lhe a fímbria da capa;
- porque dizia consigo: Se eu lhe tocar somente a capa, ficarei curada.
- Jesus, voltando-se e vendo-a, disse: Tem ânimo, filha; a tua fé te sarou. Desde aquela hora a mulher ficou sã.
- Quando Jesus chegou à casa do chefe da sinagoga, vendo os tocadores de flauta, e a multidão em alvoroço,
- disse: Retirai-vos; pois a menina não está morta, mas sim dormindo. Riam-se dele.
- Mas retirada a multidão, entrou Jesus, tomou a menina pela mão, e ela se levantou.
- A fama deste fato correu por toda aquela terra.
- Saindo Jesus dali, seguiram-no dois cegos, clamando: Tem compaixão de nós, filho de Davi!
- Tendo ele entrado em casa, vieram a ele os cegos; Jesus perguntou-lhes: Credes que posso fazer isso? Responderam eles: Cremos, Senhor.
- Então lhes tocou os olhos, dizendo: Faça-se-vos conforme a vossa fé.
- Abriram-se-lhes os olhos. Jesus advertiu-lhes com energia, dizendo: Vede que ninguém o saiba.
- Eles, porém, saíram e lhe divulgaram a fama por toda aquela terra.
- Quando se retiravam, foi-lhe trazido um mudo endemoninhado.
- Expulso o demônio, falou o mudo; e a multidão maravilhou-se, dizendo: Nunca tal se viu em Israel!
- Mas os fariseus afirmavam: É pelo príncipe dos demônios que ele expele os demônios.
- Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades.
- Vendo ele as turbas, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas sem pastor.
- Então disse a seus discípulos: A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos;
- rogai, pois, ao Senhor da seara, que envie trabalhadores para a sua seara.
Capítulo 10
- Depois de reunir Jesus os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expelirem, e para curarem todas as doenças e enfermidades.
- Ora os nomes dos doze apóstolos são estes: O primeiro, Simão, que também se chama Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João, filhos de Zebedeu;
- Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
- Simão o zelote e Judas Iscariotes, que o traiu.
- A estes doze enviou Jesus, dando-lhes estas instruções: Não ireis aos gentios, nem entrareis nas cidades dos samaritanos;
- mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel.
- Pondo-vos a caminho, pregai que está próximo o reino dos céus.
- Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os demônios; de graça recebestes, de graça dai.
- Não vos provereis de ouro nem de prata, nem de cobre nas vossas bolsas;
- nem de alforge para o caminho, nem de duas túnicas, nem de calçado, nem de bordão; pois digno é o trabalhador do seu alimento.
- Em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, indagai quem nela é digno; e aí ficai até vos retirardes.
- Ao entrardes na casa, saudai-a;
- se ela for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas se o não for, torne para vós a vossa paz.
- Se alguém não vos receber, nem ouvir as vossas palavras, ao sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés.
- Em verdade vos digo que no dia de juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma e de Gomorra, do que para aquela cidade.
- Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes, e simples como as pombas.
- Guardai-vos, porém, dos homens; porque vos entregarão aos tribunais, e vos açoitarão nas suas sinagogas;
- por minha causa sereis levados à presença dos governadores e dos reis, para lhes servir de testemunho a eles e aos gentios.
- Mas quando vos entregarem, não cuideis como ou o que haveis de falar; porque naquela hora vos será dado o que haveis de dizer.
- Pois não sois vós os que falais, mas é o Espírito de vosso Pai o que fala em vós.
- Irmãos entregarão à morte a irmãos, e pais a filhos; filhos se levantarão contra seus pais, e os farão morrer.
- Sereis odiados de todos por causa do meu nome; mas quem perseverar até o fim, esse será salvo.
- Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, antes que venha o Filho do homem.
- Não é o discípulo mais que o seu mestre, nem o servo mais que o seu senhor.
- Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo como o seu senhor. Se chamaram Belzebu ao dono da casa, quanto mais aos seus domésticos?
- Portanto não os temais: pois nada há encoberto, que se não venha a descobrir; nem oculto, que se não venha a saber.
- O que vos digo às escuras, dizei-o às claras; e o que se vos diz ao ouvido, proclamai-o dos eirados.
- Não temais aos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer na geena tanto a alma como o corpo.
- Não se vendem dois passarinhos por um asse? e nenhum deles cairá no chão senão pela vontade de vosso Pai.
- Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
- Não temais, pois; mais valeis vós que muitos passarinhos.
- Portanto todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus;
- mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.
- Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.
- Pois vim causar divisão entre o filho e seu pai, entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra,
- assim os inimigos do homem serão os da sua própria casa.
- Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim;
- e aquele que não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.
- O que acha a sua vida, perdê-la-á; mas o que perde a sua vida por minha causa, achá-la-á.
- Aquele que vos recebe, a mim me recebe; e aquele que me recebe, recebe aquele que me enviou.
- Quem recebe um profeta, por ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo, por ser justo, receberá a recompensa de justo.
- Aquele que der de beber ainda que seja um copo de água fria a um destes pequeninos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá a sua recompensa.
Capítulo 11
- Tendo acabado Jesus de dar estas instruções a seus doze discípulos, partiu dali a ensinar e a pregar nas cidades deles.
- Como João no cárcere tivesse ouvido falar das obras do Cristo, mandou pelos seus discípulos perguntar-lhe:
- És tu aquele que há de vir, ou é outro o que devemos esperar?
- Respondeu-lhes Jesus: Ide contar a João o que estais ouvindo e observando:
- os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, aos pobres anuncia-se-lhes o Evangelho;
- e bem-aventurado aquele que não achar em mim motivo de tropeço.
- Ao partirem eles, começou Jesus a falar ao povo a respeito de João: Que saístes a ver no deserto? uma cana agitada pelo vento?
- Mas que saístes a ver? um homem vestido de roupas finas? Os que vestem roupas finas, assistem nos palácios dos reis.
- Mas para que saístes? para ver um profeta? Sim, vos digo, e ainda mais do que profeta.
- Este é aquele de quem está escrito: Eis aí envio eu ante a tua face o meu anjo, Que há de preparar o teu caminho diante de ti.
- Em verdade vos digo que não tem aparecido entre os nascidos de mulher outro maior que João Batista; mas o que é menor no reino dos céus, é maior do que ele.
- Desde os dias de João Batista até agora o reino dos céus é tomado à força, e os que se esforçam, são os que o conquistam.
- Pois todos os profetas e a lei até João profetizaram;
- e se quereis recebê-lo, ele mesmo é Elias que há de vir.
- O que tem ouvidos, ouça.
- Mas a que hei de comparar esta geração? É semelhante aos meninos sentados nas praças, que gritam aos seus companheiros:
- Nós vos tocamos flauta, e vós não dançastes; Entoamos lamentações, e não pranteastes.
- Pois veio João não comendo nem bebendo, e dizem: Ele tem demônio.
- Veio o Filho do homem comendo e bebendo, e dizem: Eis um homem glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Contudo a sabedoria é justificada pelas suas obras.
- Então começou a increpar as cidades onde se operara a maior parte dos seus milagres, por não se terem arrependido.
- Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque se em Tiro e em Sidom se tivessem operados os milagres que em vós se fizeram, há muito elas se teriam arrependido em saco e em cinza.
- Eu vos digo, contudo, que no dia de juízo haverá menos rigor para Tiro e Sidom, do que para vós.
- Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até o céu? descerás até o Hades; porque se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, ela teria permanecido até o dia de hoje.
- Eu vos digo, contudo, que menos rigor haverá no dia de juízo para a terra de Sodoma, do que para ti.
- Naquela ocasião exclamou Jesus: Graças te dou a ti, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos;
- assim é, Pai, porque assim foi do teu agrado.
- Todas as coisas me foram entregues por meu Pai: e ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
- Vinde a mim todos os que andais em trabalho e vos achais carregados, e eu vos aliviarei.
- Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas.
- Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo leve.
Capítulo 12
- Naquele tempo, em um sábado, passou Jesus pelas searas; e seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas e a comer.
- Os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: Teus discípulos estão fazendo o que não é lícito fazer nos sábados.
- Ele, porém, lhes disse: Não lestes o que fez Davi, quando ele e seus companheiros tiveram fome?
- como entrou na casa de Deus, e como eles comeram os pães da proposição, os quais não lhe era lícito comer, nem aos seus companheiros, mas somente aos sacerdotes?
- Ou não lestes na Lei que aos sábados os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa?
- Digo-vos, porém: Aqui está o que é maior que o templo.
- Mas se vós tivésseis conhecido o que significa: Misericórdia quero, e não holocaustos, não teríeis condenado os inocentes.
- Pois o Filho do homem é senhor do sábado.
- Tendo Jesus partido daquele lugar, entrou na sinagoga deles.
- Achava-se ali um homem que tinha seca uma das mãos. Para poderem acusar a Jesus, perguntaram-lhe: É lícito curar nos sábados?
- Ele respondeu: Qual de vós, tendo uma ovelha, se ela ao sábado cair em uma cova, não lançará mão dela para tirá-la?
- Ora quanto mais vale um homem que uma ovelha! Logo é lícito fazer o bem nos sábados.
- Então disse ao homem: Estende a mão. Ele a estendeu, e a mão ficou sã como a outra.
- Mas os fariseus saíram dali e tramaram o modo de tirar-lhe a vida.
- Jesus, sabendo isto, retirou-se daquele lugar. Muitos o acompanharam;
- e ele curou a todos, advertindo-lhes que não o dessem a conhecer;
- para se cumprir o que foi dito, pelo profeta Isaías:
- Eis aqui o meu servo que escolhi, O meu amado em quem a minha alma se agrada; Sobre ele porei o meu Espírito, E ele anunciará o juízo aos gentios.
- Não contenderá nem clamará, Nem ouvirá alguém a sua voz nas ruas.
- Não esmagará a cana quebrada, Nem apagará a torcida que fumega, Até que faça triunfar o juízo.
- Em seu nome esperarão os gentios.
- Então lhe trouxeram um endemoninhado, cego e mudo; e ele o curou, de modo que o mudo falava e via.
- Toda a multidão, admirada, dizia: É este, porventura, o filho de Davi?
- Mas os fariseus, ouvindo isto, disseram: Este não expele os demônios senão por Belzebu, chefe dos demônios.
- Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Todo o reino dividido contra si mesmo será desolado, e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá.
- Se Satanás expele a Satanás, está dividido contra si mesmo; como, então, subsistirá o seu reino?
- Se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os expelem vossos filhos? por isso eles mesmos serão os vossos juízes.
- Mas se pelo Espírito de Deus eu expulso os demônios, logo é chegado a vós o reino de Deus.
- Como pode alguém entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens, sem primeiro amarrá-lo? e então lhe saqueará a casa.
- Quem não é comigo, é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha.
- Por isso vos declaro: Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoada.
- Ao que disser alguma palavra contra o Filho do homem, isso lhe será perdoado; porém ao que falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro.
- Reconhecei que a árvore é boa e o seu fruto bom, ou que a árvore é má e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore.
- Raça de víboras, como podeis falar coisas boas, sendo maus? porque a boca fala o de que está cheio o coração.
- O homem bom tira boas coisas do seu bom tesouro, e o homem mau tira más coisas do seu mau tesouro.
- Digo-vos que de toda a palavra ociosa que falarem os homens, dela darão conta no dia de juízo;
- porque pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado.
- Então alguns escribas e fariseus disseram: Mestre, queremos ver algum milagre feito por ti.
- Ele, porém, replicou: Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal se lhe dará, senão o do profeta Jonas.
- Pois assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra.
- Os ninivitas se levantarão no juízo juntamente com esta geração, e a condenarão, porque se arrependeram com a pregação de Jonas; e aqui está quem é maior do que Jonas.
- A rainha do sul se levantará no juízo juntamente com esta geração, e a condenará, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e aqui está quem é maior do que Salomão.
- Mas quando o espírito imundo tiver saído de um homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o acha.
- Então diz: Voltarei para minha casa donde saí; e ao chegar, acha-a desocupada, varrida e ornada.
- Depois vai e leva consigo mais sete espíritos piores do que ele, e ali entram e habitam; e o último estado daquele homem fica sendo pior do que o primeiro. Assim também acontecerá a esta geração perversa.
- Enquanto ele ainda falava à multidão, achavam-se da parte de fora sua mãe e seus irmãos, procurando falar-lhe.
- Alguém lhe disse: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e procuram falar-te.
- Mas ele respondeu ao que lhe falava: Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?
- Estendendo a mão para seus discípulos, exclamou: Eis minha mãe e meus irmãos!
- Pois aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe.
Capítulo 13
- Naquele dia saindo Jesus de casa, sentou-se junto ao mar;
- chegaram-se a ele grandes multidões, de modo que entrou numa barca e se assentou; e todo o povo ficou em pé na praia.
- Muitas coisas lhes falou em parábolas, dizendo: O semeador saiu a semear.
- Quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e comeram-na.
- Outra parte caiu nos lugares pedregosos, onde não havia muita terra; logo nasceu, porque a terra não era profunda,
- e tendo saído o sol, queimou-se; e porque não tinha raiz, secou-se.
- Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram.
- Outra caiu na boa terra e dava fruto, havendo grãos que rendiam cem, outros sessenta, outros trinta por um.
- Quem tem ouvidos, ouça.
- Chegando-se a ele os discípulos, perguntaram: Por que lhes falas em parábolas?
- Respondeu-lhes: Porque a vós vos é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é isso dado.
- Pois ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem, ser-lhe-á tirado.
- Por isso lhes falo em parábolas, porque vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem, nem entendem.
- Neles se está cumprindo a profecia de Isaías, que diz: Certamente ouvireis, e de nenhum modo entendereis; Certamente vereis, e de nenhum modo percebereis.
- Pois o coração deste povo se fez pesado, E os seus ouvidos se fizeram tardos, E eles fecharam os olhos; Para não suceder que, vendo com os olhos E ouvindo com os ouvidos, Entendam no coração e se convertam, E eu os sare.
- Mas ditosos são os vossos olhos, porque vêem; e os vossos ouvidos, porque ouvem.
- Pois em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não no viram; e ouvir o que ouvis, e não no ouviram.
- Ouvi, pois, vós a parábola do semeador.
- Quando alguém ouve a palavra do reino e não a entende, vem o maligno e tira o que tem sido semeado no seu coração: este é o que foi semeado à beira do caminho.
- O que foi semeado nos lugares pedregosos, é quem ouve a palavra e logo a recebe com alegria;
- mas não tem em si raiz, antes é de pouca duração; e sobrevindo tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo se escandaliza.
- O que foi semeado entre os espinhos, é quem ouve a palavra, mas os cuidados do mundo e a sedução das riquezas abafam a palavra, e ela fica infrutífera.
- O que foi semeado na boa terra, é quem ouve a palavra e a entende, e verdadeiramente dá fruto, produzindo a cento, a sessenta e a trinta por um.
- Jesus lhes propôs outra parábola: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo.
- Mas enquanto os homens dormiam, veio um inimigo dele, semeou joio no meio do trigo e retirou-se.
- Porém quando a erva cresceu e deu fruto, então apareceu também o joio.
- Chegando os servos do dono do campo, disseram-lhe: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? pois donde vem o joio?
- Respondeu-lhes: Homem inimigo é quem fez isso. Os servos continuaram: Queres, então, que vamos arrancá-lo?
- Não, respondeu ele, para que não suceda que, tirando o joio, arranqueis juntamente com ele também o trigo.
- Deixai crescer ambos juntos até a ceifa; e no tempo da ceifa direi aos ceifeiros: Ajuntai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar, mas recolhei o trigo no meu celeiro.
- Mais outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo;
- o qual grão é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas depois de crescido, é a maior das hortaliças e faz-se árvore, de tal modo que as aves do céu vêm pousar nos seus ramos.
- Ainda outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao fermento, que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar toda ela levedada.
- Todas estas coisas falou Jesus ao povo em parábolas, e nada lhes falava sem parábolas;
- para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Abrirei em parábolas a minha boca, E publicarei coisas escondidas desde a criação.
- Então tendo deixado as turbas, entrou Jesus em casa. Chegando-se a ele seus discípulos, disseram: Explica-nos a parábola do joio do campo.
- Ele respondeu: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem;
- o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do maligno;
- o inimigo que o semeou, é o Diabo; a ceifa é o fim do mundo, e os ceifeiros são anjos.
- Pois assim como o joio é ajuntado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo.
- O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles ajuntarão do seu reino tudo o que serve de pedra de tropeço e os que praticam a iniqüidade,
- e lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá o choro e o ranger de dentes.
- Então os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.
- O reino dos céus é semelhante a um tesouro que, oculto no campo, foi achado e escondido por um homem, o qual, movido de gozo, foi vender tudo o que possuía e comprou aquele campo.
- O reino dos céus é também semelhante a um negociante que buscava boas pérolas;
- e tendo achado uma de grande valor, foi vender tudo o que possuía e a comprou.
- Finalmente o reino dos céus é semelhante a uma rede, que foi lançada no mar, e apanhou peixes de toda a espécie.
- Depois de cheia, os pescadores puxaram-na para a praia; e sentados, puseram os bons em cestos, mas deitaram fora os ruins.
- Assim será no fim do mundo: sairão os anjos e separarão os maus dentre os justos,
- e lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá o choro e o ranger de dentes.
- Entendestes vós todas estas coisas? Responderam-lhe: Entendemos.
- Então acrescentou: Por isso todo o escriba instruído no reino dos céus é semelhante a um pai de família, que do seu tesouro tira coisas novas e velhas.
- Tendo Jesus concluído estas parábolas, partiu dali.
- Chegando à sua terra, ensinava o povo na sinagoga, de modo que muitos se admiravam e diziam: Donde lhe vem esta sabedoria, e estes milagres?
- Não é este o filho do carpinteiro? sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas?
- Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isso?
- Ele lhes servia de pedra de tropeço. Mas disse-lhes Jesus: Um profeta não deixa de receber honra, senão na sua terra e na sua casa.
- Não fez ali muitos milagres por causa da incredulidade do povo.
Capítulo 14
- Naquele tempo o tetrarca Herodes soube da fama de Jesus,
- e disse aos seus familiares: Este é João Batista; ele ressuscitou dos mortos, e por isso nele operam virtudes sobrenaturais.
- Pois Herodes havia mandado prender a João, atá-lo e pô-lo no cárcere, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe;
- porque João lhe havia dito: Não te é lícito tê-la por esposa.
- Herodes, embora quisesse matá-lo, temia ao povo, porque este o tinha como profeta.
- Chegado, porém, o dia natalício de Herodes, a filha de Herodias dançou diante de todos e agradou a Herodes,
- pelo que este prometeu sob juramento dar-lhe o que ela pedisse.
- Ela, instigada por sua mãe, disse: Dá-me num prato a cabeça de João Batista.
- O rei, embora entristecido, contudo por causa dos seus juramentos e também dos convivas mandou dar-lha,
- e ordenou que degolassem a João no cárcere.
- Foi trazida a sua cabeça num prato, e dada à moça; e ela a levou à sua mãe.
- Vieram os discípulos de João, levaram o corpo e sepultaram-no; e foram dar a notícia a Jesus.
- Jesus, ouvindo isto, retirou-se dali numa barca para um lugar deserto, à parte; quando as multidões o souberam, seguiram-no das cidades por terra.
- Ele, ao desembarcar, viu uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos.
- À tarde aproximaram-se dele os discípulos, dizendo: Este lugar é deserto e a hora é já passada; despede, pois, as multidões, para que, indo às aldeias, comprem alguma coisa para comer.
- Mas Jesus lhes disse: Não precisam ir; dai-lhes vós de comer.
- Replicaram-lhe: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.
- Disse-lhes ele: Trazei-mos cá.
- Tendo mandado à multidão que se assentasse sobre a relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, erguendo os olhos ao céu, deu graças e, partindo os pães, entregou-os aos discípulos, e os discípulos entregaram-nos à multidão.
- Todos comeram e se fartaram; e do que sobejou levantaram doze cestos cheios de pedaços.
- Ora os que comeram, foram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças.
- Em seguida obrigou os discípulos a embarcar e passar primeiro do que ele para o outro lado, enquanto ele despedia o povo.
- Depois de despedi-lo, subiu só ao monte para orar. À tardinha achava-se ali só.
- Entretanto a barca já estava a muitos estádios da terra, açoitada pelas ondas; porque o vento era contrário.
- À quarta vigília da noite foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar.
- Os discípulos, vendo-o andar sobre o mar, perturbaram-se e exclamaram: É um fantasma! e de medo gritaram.
- Mas Jesus imediatamente lhes falou: Tende ânimo, sou eu; não temais.
- Disse Pedro: Se és tu, Senhor, ordena que eu vá por cima das águas até onde estás.
- Ele disse: Vem. E Pedro, saindo da barca, andou sobre as águas e foi para Jesus.
- Quando, porém, sentiu o vento, teve medo e, começando a submergir-se, gritou: Salva-me, Senhor!
- No mesmo instante Jesus, estendendo a mão, segurou-o e disse-lhe: Por que duvidaste, homem de pouca fé?
- Entrando ambos na barca, cessou o vento.
- Os que estavam na barca, adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente és Filho de Deus.
- Tendo passado para o outro lado, desembarcaram em Genesaré.
- Os homens daquele lugar, conhecendo-o, enviaram mensageiros a toda a circunvizinhança, e trouxeram-lhe todos os que se achavam doentes;
- e lhe rogavam que os deixasse tocar somente na fímbria da sua capa. Os que nela tocaram, ficaram sãos.
Capítulo 15
- Então vieram de Jerusalém a Jesus alguns fariseus e escribas e perguntaram-lhe:
- Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos quando comem pão.
- Respondeu-lhes: E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?
- Pois Deus disse: Honra a teu pai e a tua mãe, e também: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe, seja morto; mas vós ensinais:
- Se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que eu te poderia dar, já ofereci a Deus;
- o tal não precisará mais honrar a seu pai nem a sua mãe. Assim invalidais a palavra de Deus por causa da vossa tradição.
- Hipócritas, bem profetizou de vós Isaías:
- Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim;
- Adoram-me, porém, em vão, Ensinando doutrinas que são preceitos de homens.
- Chamando a si a multidão, disse-lhe: Ouvi e entendei:
- Não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, é isso o que o contamina.
- Então os discípulos, aproximando-se de Jesus, perguntaram-lhe: Sabes que os fariseus, ouvindo o que disseste, ficaram escandalizados?
- Mas ele respondeu: Toda a planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada pela raiz.
- Deixai-os; são cegos, guias de cegos. Se um cego guiar outro cego, cairão ambos no barranco.
- Disse-lhe Pedro: Explica-nos a parábola.
- Respondeu Jesus: Também vós não entendeis ainda?
- Não sabeis que tudo o que entra pela boca, desce ao ventre e é lançado em lugar escuso?
- Mas tudo o que sai da boca, vem do coração, e isto contamina o homem.
- Pois do coração procedem maus pensamentos, homicídios, adultérios, fornicações, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias.
- Estas coisas são as que contaminam o homem; porém o comer sem lavar as mãos não o contamina.
- Tendo saído Jesus dali, retirou-se para os lados de Tiro e de Sidom.
- Uma mulher cananéia, que tinha vindo daquelas regiões, clamava: Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim! minha filha está horrivelmente endemoninhada.
- Todavia ele não lhe respondeu palavra. Chegando seus discípulos, rogaram-lhe: Despede-a, porque vem clamando atrás de nós.
- Mas Jesus respondeu: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.
- Contudo ela, aproximando-se, o adorou, dizendo: Senhor, socorre-me!
- Ele respondeu: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos.
- Ela, porém, replicou: Assim é, Senhor; mas até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos.
- Então lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! faça-se contigo como queres. E desde aquela hora sua filha ficou sã.
- Partiu Jesus daquele lugar e voltou ao mar da Galiléia; e tendo subido ao monte, ali se assentou.
- Veio a ele uma grande multidão, trazendo consigo coxos, aleijados, cegos, mudos, e outros muitos, e puseram-lhos aos pés; ele os curou,
- de modo que a multidão se maravilhou, ao ver mudos falar, aleijados ficar sãos, coxos andar, cegos ver; e glorificaram ao Deus de Israel.
- Chamando Jesus a seus discípulos, disse: Tenho compaixão deste povo, porque há três dias que estão sempre comigo e nada têm que comer. Não quero despedi-los em jejum, para que não desfaleçam no caminho.
- Disseram-lhe os discípulos: Onde encontraremos neste deserto tantos pães para fartar tão grande multidão?
- Perguntou-lhes Jesus: Quantos pães tendes? Responderam: Sete, e alguns peixinhos.
- Tendo mandado ao povo que se assentasse no chão,
- tomou os sete pães e os peixes e, dando graças, partiu-os e entregou aos discípulos, e os discípulos entregaram-nos ao povo.
- Todos comeram e se fartaram; e do que sobejou levantaram sete alcofas cheias de pedaços.
- Ora os que comeram, foram quatro mil homens, além de mulheres e crianças.
- Despedido o povo, Jesus entrou na barca e foi para os confins de Magadã.
Capítulo 16
- Chegaram os fariseus e saduceus e, para experimentar a Jesus, pediram que lhes mostrasse um sinal do céu.
- Mas ele respondeu: À tarde dizeis: Teremos bom tempo, porque o céu está avermelhado;
- e pela manhã: Hoje teremos tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. Sabeis, na verdade, discernir o aspecto do céu, e não podeis discernir os sinais dos tempos?
- Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal se lhe dará, senão o de Jonas. Deixando-os, retirou-se.
- Quando os discípulos passaram para o outro lado, esqueceram-se de levar pão.
- Disse-lhes Jesus: Olhai e guardai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus.
- Eles, porém, discorriam entre si, dizendo: É porque não trouxemos pão.
- Jesus, percebendo-o, prosseguiu: Por que estais discorrendo entre vós, por não terdes pão, homens de pouca fé?
- Não compreendeis ainda, nem vos lembrais dos cinco pães para cinco mil homens, e de quantos cestos levantastes?
- Nem dos sete pães para quatro mil, e de quantas alcofas levantastes?
- Como não compreendeis que não vos falei a respeito de pão? Mas eu vos disse: Guardai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus.
- Então entenderam que lhes não dissera que se guardassem do fermento dos pães, mas sim da doutrina dos fariseus e dos saduceus.
- Indo Jesus para as bandas de Cesaréia de Filipe, perguntou a seus discípulos: Quem diz o povo ser o filho do homem?
- Responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias, ou algum dos profetas.
- Mas vós, continuou ele, quem dizeis que sou eu?
- Respondeu Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
- Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és, Simão Bar-Jonas, porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus.
- Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.
- Dar-te-ei as chaves do reino dos céus: o que ligares sobre a terra, será ligado nos céus; e o que desligares sobre a terra, será desligado nos céus.
- Então ordenou a seus discípulos que a ninguém dissessem que ele era o Cristo.
- Desde esse tempo começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário ir a Jerusalém e padecer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
- Pedro, chamando-o à parte, começou a admoestá-lo, dizendo: Deus tal não permita, Senhor; isso de modo algum te acontecerá.
- Mas ele, voltando-se, disse a Pedro: Sai de diante de mim, Satanás; tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não cuidas das coisas de Deus, mas sim das dos homens.
- Então disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.
- Pois o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e o que perder a sua vida por minha causa, achá-la-á.
- Que aproveitará o homem, se ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida? ou que dará o homem em troca da sua vida?
- Pois o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos, e então retribuirá a cada um segundo as suas obras.
- Em verdade vos digo que alguns dos que estão aqui, de modo algum morrerão, até que vejam o Filho do homem vir no seu reino.
Capítulo 17
- Seis dias depois tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos, Tiago e João, e levou-os a sós a um alto monte.
- Foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
- Eis que lhes apareceram Moisés e Elias falando com ele.
- Pedro disse a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tabernáculos: um para ti, outro para Moisés e outro para Elias.
- Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e da nuvem saiu uma voz, dizendo: Este é o meu Filho dileto, em quem me agrado; ouvi-o.
- Os discípulos, ouvindo-a, caíram de bruços e ficaram com muito medo.
- Aproximando-se Jesus, tocou-os e disse: Levantai-vos, e não temais.
- Eles, erguendo os olhos, a ninguém viram mais senão só a Jesus.
- Enquanto desciam do monte, ordenou-lhes Jesus: A ninguém conteis esta visão, até que o Filho do homem ressuscite dentre os mortos.
- Perguntaram-lhe os discípulos: Por que dizem, então, os escribas que Elias deve vir primeiro?
- Respondeu ele: Na verdade Elias há de vir, e restaurará todas as coisas;
- declaro-vos, porém, que Elias já veio, e não o conheceram, antes fizeram-lhe tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do homem há de padecer às suas mãos.
- Então os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista.
- Quando chegaram à multidão, procurou a Jesus um homem que, ajoelhando-se diante dele, disse:
- Senhor, compadece-te de meu filho! porque é epilético, e vai mal; pois muitas vezes cai no fogo, e muitas outras na água.
- Eu o trouxe a teus discípulos, e eles não puderam curá-lo.
- Jesus exclamou: Ó geração incrédula e perversa! até quando estarei convosco? até quando vos sofrerei? Trazei-me aqui o menino.
- Jesus ameaçou o demônio, o qual saiu do menino; e desde aquela hora ficou o menino curado.
- Então se chegaram os discípulos a Jesus em particular, e perguntaram: Por que não pudemos nós expulsá-lo?
- Respondeu-lhes: Por causa da vossa pouca fé. Pois em verdade vos digo que se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível.
- {Mas esta casta de demônios não se expele senão à força de oração e de jejum.}
- Enquanto eles se reuniam na Galiléia, disse-lhes Jesus: O Filho do homem há de ser entregue às mãos dos homens;
- Tirar-lhe-ão a vida, e ele ao terceiro dia ressuscitará. Os discípulos entristeceram-se em extremo.
- Tendo chegado a Cafarnaum, dirigiram-se a Pedro os que cobravam as duas dracmas, e perguntaram: Não paga vosso Mestre as duas dracmas?
- Respondeu ele: Paga. Ao entrar Pedro em casa, antes que falasse, perguntou-lhe Jesus: Que te parece, Simão? de quem recebem os reis da terra tributo ou imposto? de seus filhos ou dos estranhos?
- Respondendo ele: Dos estranhos, concluiu Jesus: Logo são isentos os filhos.
- Mas para que os não escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro peixe que subir, tira-o; e abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Toma-o e entrega-lhes por mim e por ti.
Capítulo 18
- Naquela hora chegaram-se os discípulos a Jesus e perguntaram: Quem é, porventura, o maior no reino dos céus?
- Jesus, chamando para junto de si um menino, pô-lo no meio deles
- e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.
- Quem, pois, se tornar humilde como este menino, esse será o maior no reino dos céus.
- Aquele que receber um menino, tal como este, em meu nome, a mim é que recebe;
- mas quem puser uma pedra de tropeço no caminho de um destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e que fosse lançado no fundo do mar.
- Ai do mundo por causa dos tropeços! porque é necessário que apareçam tropeços; mas ai do homem por quem vem o tropeço!
- Se a tua mão ou o teu pé te serve de pedra de tropeço, corta-o e lança-o de ti; melhor é entrares na vida manco ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno.
- Se o teu olho te serve de pedra de tropeço, arranca-o e lança-o de ti; melhor é entrares na vida com um só dos teus olhos, do que, tendo dois, seres lançado na geena de fogo.
- Vede não desprezeis um destes pequeninos; porque vos digo que os seus anjos nos céus vêem incessantemente a face de meu Pai celestial.
- {Porque o Filho do homem veio salvar o que havia perecido.}
- Que vos parece? se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixa as noventa e nove e vai aos montes procurar a que se extraviou?
- Se acontecer achá-la, em verdade vos digo que se regozija mais por causa desta, do que pelas noventa e nove que não se extraviaram.
- Assim não é da vontade de vosso Pai que está nos céus, que pereça um destes pequeninos.
- Se teu irmão pecar, vai repreendê-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhado terás teu irmão;
- mas se não te ouvir, leva ainda contigo uma ou duas pessoas, para que por boca de duas ou três testemunhas toda a questão fique decidida.
- Se ele recusar ouvi-los, dize-o à igreja; e se também recusar ouvir a igreja, considera-o como gentio e publicano.
- Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu; e tudo o que desligardes sobre a terra, será desligado no céu.
- Ainda vos digo mais que se dois de vós sobre a terra concordarem em pedir alguma coisa, ser-lhes-á feita por meu Pai que está nos céus.
- Pois onde dois ou três estão congregados em meu nome, ali estou eu no meio deles.
- Então Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, quantas vezes pecará meu irmão contra mim, que lhe hei de perdoar? será até sete vezes?
- Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
- Por isso o reino dos céus é semelhante a um rei, que resolveu ajustar contas com os seus servos.
- Tendo começado a ajustá-las, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos.
- Não tendo, porém, o servo com que pagar, ordenou o seu senhor que fossem vendidos-ele, sua mulher, seus filhos e tudo quanto possuía, e que se pagasse a dívida.
- O servo, pois, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Tem paciência comigo, que te pagarei tudo.
- O senhor teve compaixão daquele servo, deixou-o ir e perdoou-lhe a dívida.
- Tendo saído, porém, aquele servo, encontrou um dos seus companheiros, que lhe devia cem denários; e segurando-o, o sufocava, dizendo-lhe: Paga o que me deves.
- Este, caindo-lhe aos pés, implorava: Tem paciência comigo, que te pagarei.
- Ele, porém, não o atendeu; mas foi-se embora e mandou conservá-lo preso, até que pagasse a dívida.
- Vendo, pois, os seus companheiros o que se tinha passado, ficaram muitíssimo tristes, e foram contar ao seu senhor tudo o que havia acontecido.
- Então o seu senhor, chamando-o, disse-lhe: Servo malvado, eu te perdoei toda aquela dívida, porque me pediste;
- não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive de ti?
- Irou-se o seu senhor e o entregou aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia.
- Assim também meu Pai celestial vos fará, se cada um de vós do íntimo do coração não perdoar a seu irmão.
Capítulo 19
- Tendo Jesus dito estas palavras, deixou a Galiléia e foi para os confins da Judéia além do Jordão.
- Seguiram-no grandes multidões, e ali curou os doentes.
- Vieram a ele alguns fariseus, e o experimentaram, perguntando: É lícito a um homem repudiar sua mulher por qualquer causa?
- Respondeu Jesus: Não tendes lido que o Criador desde o princípio os fez homem e mulher,
- e disse: Por esta razão o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne?
- Assim já não são dois, mas uma só carne. Portanto o que Deus ajuntou, não o separe o homem.
- Replicaram-lhe: Por que, então, mandou Moisés dar carta de divórcio e repudiar a mulher?
- Respondeu Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas não foi assim desde o princípio.
- Eu vos digo que aquele que repudiar sua mulher, exceto por infidelidade, e casar com outra, comete adultério.
- Disseram-lhe os discípulos: Se tal é a condição de um homem para com sua mulher, não convém casar.
- Mas ele respondeu: Nem todos podem aceitar este conceito, mas somente aqueles a quem é dado.
- Pois há eunucos, que nasceram assim; há outros, a quem os homens fizeram tais: e outros há, que se fizeram eunucos por causa do reino dos céus. Quem pode aceitar isto, aceite-o.
- Então lhe trouxeram alguns meninos, para que lhes impusesse as mãos e orasse por eles; e os discípulos repreenderam aos que os trouxeram.
- Jesus, porém, disse: Deixai os meninos, e não os impeçais de virem a mim; porque dos tais é o reino dos céus.
- Depois de lhes impor as mãos, partiu dali.
- Chegou um moço e perguntou-lhe: Mestre, que coisa boa farei para ter a vida eterna?
- Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas sobre o que é bom? Um há que é bom; mas se queres entrar na Vida, guarda os mandamentos.
- Ele inquiriu: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho,
- honra a teu pai e a tua mãe, e amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
- Replicou-lhe o moço: Tudo isso tenho guardado; que me falta ainda?
- Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai vender tudo o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois vem seguir-me.
- O moço, porém, ouvindo estes preceitos, retirou-se triste; porque tinha muitos bens.
- Jesus declarou a seus discípulos: Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus.
- Também vos digo que mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.
- Ouvindo isto, ficaram os discípulos muito admirados e perguntaram: Quem pode, porventura, ser salvo?
- Jesus, volvendo os olhos para eles, respondeu: Aos homens é isto impossível, mas a Deus tudo é possível.
- Então Pedro lhe disse: E nós que deixamos tudo e te seguimos; que receberemos?
- Respondeu-lhe Jesus: Em verdade vos digo que vós que me seguistes, quando na Regeneração o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, sentar-vos-eis também em doze tronos, para julgardes as doze tribos de Israel.
- Todo o que tem deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou terras por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e herdará a vida eterna.
- Porém muitos que são primeiros, serão os últimos; e muitos que são últimos, serão os primeiros.
Capítulo 20
- Pois o reino dos céus é semelhante a um proprietário, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha.
- Feito com os trabalhadores o ajuste de um denário por dia, mandou-os para a sua vinha.
- Tendo saído cerca da hora terceira, viu estarem outros na praça desocupados,
- e disse-lhes: Ide também vós para a minha vinha, e vos darei o que for justo. Eles foram.
- Saiu outra vez cerca da hora sexta e da nona, e fez o mesmo.
- Cerca da undécima, saiu e achou outros que lá estavam, e perguntou-lhes: Por que estais aqui todo o dia desocupados?
- Responderam-lhe: Porque ninguém nos assalariou. Disse-lhes: Ide também vós para a minha vinha.
- À tarde disse o dono da vinha ao seu administrador: Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos e acabando pelos primeiros.
- Tendo chegado os que tinham sido assalariados cerca da undécima hora, receberam um denário cada um.
- Vindo os primeiros, pensavam que haviam de receber mais; porém receberam igualmente um denário cada um.
- Ao receberem-no, murmuravam contra o proprietário,
- alegando: Estes últimos trabalharam somente uma hora, e os igualaste a nós, que suportamos o peso do dia e o calor extremo.
- Mas o proprietário disse a um deles: Meu amigo, não te faço injustiça; não ajustaste comigo um denário?
- Toma o que é teu, e vai-te embora; pois quero dar a este último tanto como a ti.
- Não me é lícito fazer o que me apraz do que é meu? Acaso o teu olho é mau, porque eu sou bom.
- Assim os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos.
- Estando Jesus para subir a Jerusalém, chamou à parte os doze, e em caminho lhes disse:
- Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas; eles o condenarão à morte,
- e o entregarão aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado, e ao terceiro dia ressuscitará.
- Então se chegou a ele a mulher de Zebedeu com seus filhos, adorando-o e pedindo-lhe um favor.
- Jesus perguntou-lhe: Que queres? Ela respondeu: Manda que estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e outro à tua esquerda, no teu reino.
- Mas ele replicou: Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que eu estou para beber? Responderam eles: Podemos:
- Ele lhes disse: Na verdade haveis de beber o meu cálice; mas o tomar assento à minha direita ou à minha esquerda, não me pertence concedê-lo, porém será dado àqueles para quem está destinado por meu Pai.
- Ouvindo isto os dez, indignaram-se contra os dois irmãos.
- Mas Jesus chamou-os a si, e disse: Sabeis que os governadores dos gentios dominam os seus vassalos, e sobre eles os grandes exercem autoridade.
- Não é assim entre vós. Mas quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;
- e quem quiser ser o primeiro entre vós, será esse o vosso servo.
- É assim que o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.
- Saindo eles de Jericó, acompanhou a Jesus uma grande multidão.
- Dois cegos, sentados à beira do caminho, sabendo que Jesus passava, clamaram: Senhor, filho de Davi, tem compaixão de nós!
- A multidão mandou que se calassem, mas eles clamavam cada vez mais: Tem compaixão de nós, Senhor, filho de Davi!
- Jesus, parando, chamou-os, e perguntou-lhes: Que desejais que eu vos faça?
- Responderam: Senhor, que se nos abram os olhos.
- Jesus, condoído, tocou-lhes os olhos; no mesmo instante recuperaram a vista, e seguiram-no.
Capítulo 21
- Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao monte das Oliveiras, enviou Jesus dois discípulos,
- dizendo-lhes: Ide à aldeia que está em frente de vós, e achareis logo uma jumenta presa, e com ela um jumentinho: desprendei-a, e trazei-mos.
- Se alguém vos disser alguma coisa, respondei-lhe que o Senhor precisa deles; e logo deixará trazê-los.
- Ora isto aconteceu, para se cumprir o que foi dito pelo profeta:
- Dizei à filha de Sião: Eis que vem a ti o teu rei, Manso e montado em uma jumenta, E em um jumentinho, filho de jumenta.
- Indo os discípulos, fizeram como Jesus lhes ordenara;
- trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram sobre eles as capas, e fizeram-no montar.
- A maior parte da multidão estendia as suas capas pela estrada, e outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam no caminho.
- As turbas que lhe precediam e as que o seguiam, clamavam: Hosana ao filho de Davi! Bendito aquele que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!
- Ao entrar ele em Jerusalém, agitou-se a cidade inteira, perguntando: Quem é este?
- A multidão respondia: Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia.
- Jesus entrou no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam, derribou as mesas dos cambistas, e as cadeiras dos que vendiam as pombas;
- e disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores.
- No templo cegos e coxos o procuraram, e ele os curou.
- Mas vendo os principais sacerdotes e os escribas as maravilhas que ele fez, e os meninos que clamavam no templo: Hosana ao filho de Davi, indignaram-se,
- e perguntaram-lhe: Ouves o que estes estão dizendo? Respondeu-lhes Jesus: Sim; nunca lestes: Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor?
- Tendo-os deixado, saiu da cidade para Betânia, onde passou a noite.
- Pela manhã, ao voltar à cidade, teve fome.
- Vendo uma figueira à beira do caminho, dela se aproximou, e não achou nela senão folhas; e disse-lhe: Nunca jamais nasça fruto de ti. No mesmo instante secou a figueira.
- Vendo isto os discípulos, maravilharam-se e perguntaram: Como é que repentinamente secou a figueira?
- Respondeu-lhes Jesus: Em verdade vos digo que se tiverdes fé e não duvidardes, fareis não só o que foi feito à figueira, mas até se disserdes a este monte: Levanta-te e lança-te no mar, isso será feito;
- e tudo o que com fé pedirdes em vossas orações, haveis de receber.
- Tendo Jesus entrado no templo, quando estava ensinando, vieram a ele os principais sacerdotes e os anciãos do povo, perguntando: Com que autoridade fazes estas coisas? quem te deu tal autoridade?
- Respondeu-lhes Jesus: Também eu vos farei uma só pergunta; se me responderdes, então vos direi com que autoridade faço estas coisas.
- Donde era o batismo de João? do céu ou dos homens? Eles discorriam entre si: Se dissermos: Do céu, dir-nos-á: Por que, então, não lhe destes crédito?
- Mas se dissermos: Dos homens, tememos o povo; porque todos consideram João como profeta.
- Responderam a Jesus: Não sabemos. Ele por sua vez lhes declarou: Nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas.
- Mas que vos parece? Um homem tinha dois filhos; chegando ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha.
- Ele respondeu: Irei, senhor; e não foi.
- Chegando ao segundo, disse-lhe o mesmo. Porém este respondeu: Não quero; mais tarde, tocado de arrependimento, foi.
- Qual dos dois fez a vontade do pai? Responderam eles: O segundo. Declarou-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entrarão primeiro do que vós no reino de Deus.
- Pois João veio a vós no caminho da justiça, e não lhe destes crédito, mas os publicanos e as meretrizes lho deram; e vós, vendo isto, nem vos arrependestes depois, para lhe dardes crédito.
- Ouvi outra parábola. Havia um proprietário, que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou ali um lagar, edificou uma torre e arrendou-a a uns lavradores, e partiu para outro país.
- Ao aproximar-se o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os frutos que lhe tocavam.
- Estes, agarrando os servos, feriram um, mataram outro, e a outro apedrejaram.
- Enviou ainda outros servos em maior número; e trataram-nos do mesmo modo.
- Por último enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito a meu filho.
- Mas os lavradores, vendo-o, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança;
- e agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
- Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?
- Responderam-lhe: Fará perecer horrivelmente a estes malvados, e arrendará a vinha a outros, que lhe darão os frutos no tempo próprio.
- Perguntou-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os edificadores rejeitaram, Essa foi posta como a pedra angular; Isto foi feito pelo Senhor, E é maravilhoso aos nossos olhos?
- Portanto vos declaro que o reino de Deus vos será tirado e oferecido a uma nação que dará os frutos dele.
- O que cair sobre esta pedra, far-se-á em pedaços; mas aquele sobre quem ela cair, será reduzido a pó.
- Os principais sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que era deles que Jesus falava;
- e ainda que procurassem prendê-lo, temeram o povo, porque este o considerava como profeta.
Capítulo 22
- De novo começou Jesus a falar em parábolas, dizendo-lhes:
- O reino dos céus é semelhante a um rei, que celebrou as bodas de seu filho.
- Enviou os seus servos a chamar os convidados para a festa, e estes não quiseram vir.
- Enviou ainda outros servos com este recado: Dizei aos convidados: Tenho já preparado o meu banquete; as minhas reses e os meus cevados estão mortos, e tudo está pronto; vinde às bodas.
- Mas eles não fizeram caso e foram, um para o seu campo, outro para o seu negócio;
- e os outros, agarrando os servos, os ultrajaram e mataram.
- Irou-se o rei, e mandou as suas tropas exterminar aqueles assassinos e incendiar a sua cidade.
- Então disse aos servos: As bodas estão preparadas, mas os convidados não eram dignos;
- ide, pois, às encruzilhadas dos caminhos e chamai para as bodas a quantos encontrardes.
- Indo aqueles servos pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons; e a sala nupcial ficou cheia de convivas.
- Mas entrando o rei para ver os convivas, notou ali um homem que não trajava veste nupcial,
- e perguntou-lhe: Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial? Ele, porém, emudeceu.
- Então o rei disse aos servos: Atai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá o choro e o ranger de dentes.
- Pois muitos são chamados, mas poucos escolhidos.
- Então os fariseus se retiraram e consultaram como apanhariam a Jesus em alguma palavra.
- Enviaram os seus discípulos, juntamente com os herodianos, a perguntar: Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, e não se te dá de ninguém, porque não te deixas levar de respeitos humanos;
- dize-nos, pois, qual é o teu parecer; é lícito ou não pagar o tributo a César?
- Porém Jesus, tendo percebido a malícia deles, respondeu-lhes: Por que me experimentais, hipócritas?
- Mostrai-me uma moeda de tributo. Trouxeram-lhe um denário.
- Ele perguntou: De quem é esta efígie e inscrição?
- Responderam: De César. Então lhes disse Jesus: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
- Ao ouvirem isto, admiraram-se e, deixando-o, foram-se.
- Naquele dia vieram alguns saduceus, afirmando não haver ressurreição, e fizeram-lhe esta pergunta:
- Mestre, Moisés disse: Se alguém morrer sem deixar filhos, seu irmão casará com a viúva e dará sucessão ao falecido.
- Ora havia entre nós sete irmãos: o primeiro, depois de ter casado, morreu e, não havendo sucessão, deixou sua mulher a seu irmão;
- do mesmo modo também o segundo e o terceiro, até o sétimo.
- Depois de todos eles morreu a mulher.
- Na ressurreição, pois, a qual dos sete pertencerá a mulher? porque todos foram casados com ela.
- Respondeu-lhes Jesus: Errais, não sabendo as Escrituras, nem o poder de Deus.
- Pois na ressurreição nem os homens casam, nem as mulheres são dadas em casamento porém são como os anjos no céu.
- Quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos disse:
- Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos, mas de vivos.
- Ouvindo isto, o povo admirava-se da sua doutrina.
- Mas os fariseus, sabendo que ele fizera calar os saduceus, reuniram-se;
- e um deles, doutor da lei, para o experimentar, fez-lhe esta pergunta:
- Mestre, qual é o grande mandamento da Lei?
- Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.
- Este é o grande e primeiro mandamento.
- O segundo semelhante a este é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
- Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os profetas.
- Como estivessem reunidos os fariseus, perguntou-lhes Jesus:
- Que idéia fazeis do Cristo? de quem é filho?
- Responderam-lhe: De Davi. Replicou Jesus: Como é, então, que Davi pelo Espírito lhe chama Senhor, dizendo:
- Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha mão direita, Até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés?
- Portanto se Davi lhe chama Senhor, como é ele seu filho?
- Ninguém podia responder-lhe palavra, nem mais ousou alguém desde aquele dia fazer-lhe perguntas.
Capítulo 23
- Então falou Jesus ao povo e a seus discípulos:
- Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e os fariseus.
- Fazei e observai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem.
- Atam fardos pesados e põem-nos sobre os ombros dos homens, entretanto eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.
- Praticam, porém, todas as suas obras para serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas fímbrias,
- e gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas,
- das saudações nas praças, e de serem chamados mestres pelos homens.
- Mas vós não queirais ser chamados mestres; porque só um é vosso mestre, e todos vós sois irmãos.
- A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está no céu.
- Nem queirais ser chamados mestres, porque só um é vosso mestre, o Cristo.
- Mas o maior dentre vós será vosso servo.
- Quem se exaltar, será humilhado; e quem se humilhar, será exaltado.
- Mas ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque fechais aos homens o reino dos céus; pois nem vós entrais, nem deixais entrar os que estão entrando.
- {Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque devorais as casas das viúvas sob pretextos de longas orações; por isso recebereis maior condenação.}
- Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque rodeais o mar e a terra para fazerdes um prosélito; e depois de feito, o tornais em dobro mais filho da geena do que vós.
- Ai de vós, guias cegos! que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso nada é; mas quem jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado ao que jurou.
- Néscios e cegos! pois qual é maior, o ouro ou o santuário que santifica o ouro?
- Quem jurar pelo altar, isso nada é; mas quem jurar pela oferta que está sobre o altar, fica obrigado ao que jurou.
- Cegos! pois qual é maior, a oferta ou o altar que santifica a oferta?
- Quem, pois, jura pelo altar, jura por ele, e por tudo o que está sobre ele;
- quem jura pelo santuário, jura por ele, e por aquele que nele habita;
- e quem jura pelo céu, jura pelo trono de Deus, e por aquele que nele se assenta.
- Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei, que são a justiça, a misericórdia e a fidelidade; estas coisas, porém, devíeis fazer sem omitirdes aquelas.
- Guias cegos! que coais um mosquito e engolis um camelo.
- Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes por dentro estão cheios de rapina e de intemperança.
- Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior se torne limpo.
- Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros branqueados, que por fora parecem realmente vistosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia.
- Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade.
- Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque erigis os sepulcros dos profetas e adornais os túmulos dos justos,
- e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas.
- Assim testificais contra vós mesmos que sois filhos daqueles que mataram os profetas.
- Enchei, pois, a medida de vossos pais.
- Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação da geena?
- Por isso é que eu vos envio profetas, sábios e escribas: a uns matareis e crucificareis, a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade;
- para que venha sobre vós todo o sangue dos justos derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar.
- Em verdade vos digo que tudo isto virá sobre esta geração.
- Jerusalém, Jerusalém! que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar teus filhos, como uma galinha ajunta os do seu ninho debaixo das suas asas, e tu não o quiseste!
- Eis aí vos é deixada a vossa casa.
- Declaro-vos, pois, que desde agora não me vereis mais, até que digais: Bendito aquele que vem em nome do Senhor.
Capítulo 24
- Tendo saído Jesus do templo, ia-se retirando, quando se chegaram a ele seus discípulos para lhe mostrarem os edifícios do templo.
- Mas ele lhes disse: Vedes tudo isto? em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra, que não seja derribada.
- Estando ele sentado no monte das Oliveiras, chegaram seus discípulos em particular, dizendo-lhe: Declara-nos, quando sucederão estas coisas, e qual o sinal da tua vinda e do fim do mundo?
- Respondeu Jesus: Vede que ninguém vos engane.
- Pois muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e enganarão a muitos.
- Haveis de ouvir falar de guerras e rumores de guerras: olhai não vos assusteis; porque é necessário que assim aconteça, mas não é ainda o fim.
- Pois se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes e terremotos em diversos lugares;
- porém tudo isto é o princípio das dores.
- Então sereis entregues à tribulação, e vos matarão; sereis odiados por todas as nações por causa do meu nome.
- Nesse tempo muitos hão de se escandalizar e trair-se uns aos outros, e uns aos outros se odiarão;
- hão de se levantar muitos falsos profetas, e a muitos enganarão;
- e por se multiplicar a iniqüidade, resfriar-se-á o amor da maior parte dos homens.
- Todavia quem persevera até o fim, esse será salvo.
- Será pregado este Evangelho do reino por todo o mundo em testemunho a todas as nações, e então virá o fim.
- Quando, pois, virdes a abominação de desolação, predita pelo profeta Daniel, estabelecida no lugar santo (quem lê, entenda),
- então os que estiverem na Judéia, fujam para os montes;
- o que se achar no eirado, não desça a tirar as coisas de sua casa,
- e o que estiver no campo, não volte para tomar a sua capa.
- Mas ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias!
- Rogai que a vossa fuga não suceda no inverno, nem no sábado;
- porque haverá então grande tribulação, tal como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem haverá jamais.
- Se não se abreviassem aqueles dias, ninguém seria salvo; mas por amor dos escolhidos esses dias serão abreviados.
- Então se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! ou: Ei-lo ali! não acrediteis;
- porque se hão de levantar falsos cristos e falsos profetas, e mostrarão tais sinais e milagres que, se fora possível, enganariam até os escolhidos.
- Vede que de antemão vo-lo tenho declarado.
- Se, pois, vos disserem: Ei-lo que está no deserto! não saiais: Ei-lo no interior da casa! não acrediteis;
- porque assim como o relâmpago sai do oriente, e se mostra até o ocidente, assim será a vinda do Filho do homem.
- Onde estiver o cadáver, aí se juntarão os corvos.
- Logo depois da tribulação daqueles dias o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do céu e as potestades dos céus serão abaladas.
- Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as tribos da terra se hão de lamentar, e verão o Filho do homem vir sobre as nuvens do céu com poder e grande glória.
- Ele enviará os seus anjos com grande trombeta, os quais ajuntarão os escolhidos dos quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus.
- Aprendei esta parábola tirada da figueira: quando os seus ramos já estiverem tenros e brotarem folhas, sabeis que está próximo o verão;
- assim também vós, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo, às portas.
- Em verdade vos digo que não passará esta geração, sem que todas estas coisas se cumpram.
- Passará o céu e a terra, mas não passarão as minhas palavras.
- Mas daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão só o Pai.
- Pois assim como foi nos dias de Noé, assim será a vinda do Filho do homem.
- Pois assim como naqueles dias antes do dilúvio comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca,
- e não o perceberam senão quando veio o dilúvio, e os levou a todos; assim será também a vinda do Filho do homem.
- Naquele dia de dois homens que estiverem no campo, um será tomado e o outro será deixado;
- de duas mulheres que estiverem moendo em um moinho, uma será tomada e a outra será deixada.
- Portanto vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor;
- mas considerai que se o dono da casa tivesse sabido a que hora da noite havia de vir o ladrão, teria vigiado e não haveria deixado arrombar a sua casa.
- Por isso estai vós também apercebidos; porque a hora que não pensais, virá o Filho do homem.
- Quem é, pois, o servo fiel e prudente, ao qual o seu senhor confiou a direção da sua casa, para que a tempo dê a todos o sustento?
- Feliz aquele servo a quem o seu senhor, quando vier, achar assim fazendo.
- Em verdade vos digo que lhe confiará todos os seus bens.
- Mas se aquele servo, sendo mau, disser no seu coração: Meu senhor demora-se,
- e começar a espancar os seus companheiros, e a comer e beber com os ébrios,
- virá o senhor daquele servo no dia em que este o não espera e na hora que não sabe,
- e cortá-lo-á pelo meio e pô-lo-á com os ímpios; ali haverá o choro e o ranger de dentes.
Capítulo 25
- Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo.
- Cinco dentre elas eram néscias, e cinco prudentes.
- As néscias, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo;
- mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas juntamente com as lâmpadas.
- Tardando o noivo, toscanejaram todas e adormeceram.
- Mas à meia-noite ouviu-se um grito: Eis o noivo! saí ao seu encontro.
- Então se levantaram todas aquelas virgens e prepararam as suas lâmpadas.
- Disseram as néscias às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão-se apagando.
- Porém as prudentes responderam: Talvez não haja bastante para nós e para vós; ide antes aos que o vendem, e comprai-o para vós.
- Enquanto foram comprá-lo, veio o noivo; as que estavam apercebidas, entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta.
- Depois vieram as outras virgens e disseram: Senhor, Senhor, abre-nos a porta.
- Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço.
- Portanto vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora.
- Pois é assim como um homem que, partindo para outro país, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens:
- a um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade; e seguiu viagem.
- O que recebera cinco talentos, foi imediatamente negociar com eles e ganhou outros cinco;
- do mesmo modo o que recebera dois, ganhou outros dois.
- Mas o que tinha recebido um só, foi-se e fez uma cova no chão e escondeu o dinheiro do seu senhor.
- Depois de muito tempo voltou o senhor daqueles servos e ajustou contas com eles.
- Chegando o que recebera cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que ganhei.
- Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito; entra no gozo do teu senhor.
- Chegou também o que recebera dois talentos, e disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que ganhei.
- Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito, entra no gozo do teu senhor.
- Chegou por fim o que havia recebido um só talento, dizendo: Senhor, eu soube que és um homem severo, ceifas onde não semeaste, e recolhes onde não joeiraste;
- e, atemorizado, fui esconder o teu talento na terra; aqui tens o que é teu.
- Porém o seu senhor respondeu: Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei, e que recolho onde não joeirei?
- devias, então, ter entregado o meu dinheiro aos banqueiros e, vindo eu, teria recebido o que é meu com juros.
- Tirai-lhe, pois, o talento e dai-o ao que tem os dez talentos;
- porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem, ser-lhe-á tirado.
- Ao servo inútil, porém, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá o choro e o ranger de dentes.
- Quando vier o Filho do homem na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono de sua glória.
- Todas as nações serão reunidas diante dele, e separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;
- porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda.
- Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí como herança o reino que vos está destinado desde a fundação do mundo.
- Pois tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era forasteiro, e recolhestes-me;
- estava nu, e vestistes-me; enfermo, e visitastes-me; preso, e viestes ver-me.
- Então perguntarão os justos: Senhor, quando te vimos faminto, e te demos de comer; ou com sede, e te demos de beber?
- Quando te vimos forasteiro, e te recolhemos; ou nu, e te vestimos?
- Quando te vimos enfermo, ou preso, e fomos visitar-te?
- O Rei responderá: Em verdade vos digo que quantas vezes o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes.
- Dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, destinado ao Diabo e seus anjos.
- Pois tive fome, e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber;
- era forasteiro, e não me recolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo e preso, e não me visitastes.
- Também eles perguntarão: Senhor, quando te vimos faminto, com sede, forasteiro, nu, enfermo, ou preso, e não te servimos?
- Então lhes responderá: Em verdade vos digo que quantas vezes o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer.
- Irão estes para o suplício eterno, porém os justos para a vida eterna.
Capítulo 26
- Tendo Jesus acabado todo este discurso, disse a seus discípulos:
- Sabeis que de hoje a dois dias celebrar-se-á a páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado.
- Depois se reuniram os principais sacerdotes e os anciãos do povo no pátio da casa do sumo sacerdote, chamado Caifás;
- e deliberaram prender a Jesus à traição e tirar-lhe a vida.
- Mas diziam: Durante a festa, não; para que não haja tumulto entre o povo.
- Estando Jesus em Betânia, na casa de Simão o leproso,
- chegou-se a ele uma mulher que trazia um vaso de alabastro com precioso perfume, e lho derramou sobre a cabeça, quando ele estava à mesa.
- Vendo isto, seus discípulos indignaram-se e disseram:
- Para que este desperdício? Pois o perfume podia ser vendido por muito dinheiro, e ser este dado aos pobres.
- Mas Jesus, percebendo isto, disse-lhes: Por que molestais essa mulher? ela me fez uma boa obra.
- Pois os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes;
- derramando ela este perfume sobre o meu corpo, fê-lo para a minha sepultura.
- Em verdade vos digo que onde quer que for pregado em todo o mundo este Evangelho, será também contado para memória sua o que ela fez.
- Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, procurou os principais sacerdotes
- e lhes disse: Que me quereis dar e eu vo-lo entregarei? Eles lhe pesaram trinta moedas de prata.
- Desde então Judas buscava oportunidade para o entregar.
- No primeiro dia dos pães asmos vieram os discípulos a Jesus perguntar-lhe: Onde queres que façamos os preparativos para comeres a páscoa?
- Respondeu-lhes: Ide à cidade ter com certo homem, e dizei-lhe que o Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com meus discípulos.
- Eles fizeram como Jesus lhes havia ordenado, e prepararam a páscoa.
- À tarde estava ele sentado à mesa com os doze discípulos.
- Enquanto comiam, declarou Jesus: Em verdade vos digo que um de vós me trairá.
- Eles, muitíssimo contristados, começaram um por um a perguntar-lhe: Porventura sou eu, Senhor?
- Ele respondeu: O que põe comigo a mão no prato, esse é o que me trairá.
- O Filho do homem vai-se, segundo está escrito a seu respeito, mas ai daquele por quem o Filho do homem é traído! melhor fora para esse homem se não houvesse nascido.
- Judas, que o traiu, perguntou: Porventura sou eu, Mestre? Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste.
- Estando eles comendo, tomou Jesus o pão e, tendo dado graças, partiu-o e deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei; este é o meu corpo.
- Tomando o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos;
- porque este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão de pecados.
- Mas digo-vos que desta hora em diante não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber novo convosco no reino de meu Pai.
- Tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras.
- Então lhes disse Jesus: A todos vós serei esta noite uma pedra de tropeço: pois está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas;
- mas depois que eu ressuscitar, irei adiante de vós para a Galiléia.
- Disse-lhe Pedro: Ainda que sejas para todos uma pedra de tropeço, nunca o serás para mim.
- Declarou-lhe Jesus: Em verdade te digo que esta noite, antes de cantar o galo, três vezes me negarás.
- Replicou-lhe Pedro: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. Todos os discípulos disseram o mesmo.
- Em seguida foi Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Sentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar.
- Levando consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e angustiar-se.
- Então lhes disse: A minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui, e vigiai comigo.
- Adiantando-se um pouco, prostrou-se com o rosto em terra e orou: Pai meu, se é possível, passe de mim este cálice; todavia não seja como eu quero, mas como tu queres.
- Depois voltou para seus discípulos e, encontrando-os dormindo, perguntou a Pedro: Nem ao menos uma hora pudestes vigiar comigo?
- Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.
- Tornando a retirar-se, orou: Pai meu, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a tua vontade.
- Voltando outra vez, encontrou-os dormindo, porque estavam com os olhos pesados.
- Deixando-os novamente, foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras.
- Então voltou para os discípulos, dizendo-lhes: Agora dormi e descansai; está próxima a hora, e o Filho do homem está sendo traído nas mãos de pecadores.
- Levantai-vos, vamo-nos; pois o que me trai, se aproxima.
- Enquanto ele ainda falava, chegou Judas, um dos doze, e com ele uma grande multidão armada de espadas e varapaus, enviada pelos principais sacerdotes e pelos anciãos do povo.
- O traidor lhes havia dado um sinal, dizendo: Aquele a quem eu beijar, esse é que é; prendei-o.
- No mesmo instante chegou-se a Jesus e disse: Salve, Mestre! e o beijou.
- Jesus perguntou-lhe: Amigo, a que vieste? Nisto se aproximou a escolta e, pondo as mãos em Jesus, prendeu-o.
- Um dos que estavam com Jesus, estendeu a mão, puxou da espada e, dando um golpe no servo do sumo sacerdote, decepou-lhe uma orelha.
- Então Jesus lhe disse: Embainha a tua espada; pois todos os que tomam a espada, morrerão à espada.
- Acaso pensas que não posso rogar a meu Pai, e que ele não me mandará neste momento mais de doze legiões de anjos?
- Como, pois, se cumpririam as Escrituras que dizem que assim deve acontecer?
- Naquela hora disse Jesus à multidão: Viestes armados de espadas e varapaus para me prender, como se eu fora salteador? Todos os dias, sentado no templo, eu ensinava, e não me prendestes.
- Mas tudo isto aconteceu, para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. Então todos os discípulos o deixaram e fugiram.
- Aqueles que tinham prendido a Jesus, levaram-no à casa de Caifás, sumo sacerdote, onde se haviam reunido os escribas e os anciãos.
- Pedro, porém, o ia seguindo de longe até o pátio da casa do sumo sacerdote e, entrando, sentou-se entre os oficiais de justiça para ver o fim.
- Os principais sacerdotes e todo o sinédrio buscavam algum falso testemunho contra Jesus, para o entregarem à morte;
- e não o acharam, não obstante se terem apresentado muitas testemunhas falsas. Mas afinal compareceram duas, afirmando:
- Ele disse: Posso destruir o santuário de Deus e reedificá-lo em três dias.
- Levantando-se o sumo sacerdote, perguntou: Nada respondes? que é o que estes depõem contra ti?
- Jesus, porém, conservou-se calado. O sumo sacerdote disse-lhe: Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus.
- Respondeu Jesus: Tu o disseste; contudo vos declaro que vereis mais tarde o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.
- Então o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou: acabais de ouvir agora mesmo a blasfêmia;
- que vos parece? Responderam eles: É réu de morte.
- Então uns lhe cuspiram no rosto e lhe deram punhadas, e outros o esbofetearam,
- dizendo: Adivinha-nos, ó Cristo, quem é o que te deu?
- Entretanto Pedro estava sentado fora no pátio; e uma criada, aproximando-se, disse-lhe: Também tu estavas com Jesus o Galileu.
- Mas ele o negou diante de todos, exclamando: Não sei o que dizes.
- Saindo para o alpendre, uma outra viu-o e disse aos que ali se achavam: Este também estava com Jesus o Nazareno.
- Outra vez Pedro o negou com juramento: Não conheço esse homem.
- Logo depois se aproximaram de Pedro os que ali estavam e disseram-lhe: Também tu és certamente um deles, pois até a tua fala o revela.
- Então começou a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem. Imediatamente cantou o galo.
- Pedro lembrou-se das palavras que Jesus proferira: Antes de cantar o galo, três vezes me negarás; e saindo dali, chorou amargamente.
Capítulo 27
- Pela manhã todos os principais sacerdotes e os anciãos do povo entraram em conselho contra Jesus, para o entregarem à morte;
- e tendo-o maniatado, levaram-no e entregaram ao governador Pilatos.
- Então Judas, que o traiu, vendo que Jesus fora condenado, tocado de remorso, tornou a levar as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e aos anciãos,
- e disse: Pequei, traindo sangue inocente. Mas eles responderam: Que nos importa? isso é lá contigo.
- Judas, depois de arremessar as moedas de prata no santuário, retirou-se e foi enforcar-se.
- Os principais sacerdotes, tomando as moedas, disseram: Não é lícito deitá-las no tesouro sagrado, porque é preço de sangue.
- Depois de deliberarem em conselho, compraram com elas o Campo do Oleiro, a fim de servir de cemitério para os forasteiros.
- Por isso aquele campo tem sido chamado até o dia de hoje Campo de sangue.
- Assim se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias: E tomaram as trinta moedas de prata, preço daquele que foi avaliado, a quem alguns dos filhos de Israel apreçaram;
- e deram-nas pelo Campo do Oleiro, assim como me ordenou o Senhor.
- Jesus estava em pé perante o governador; e este assim o interrogou: És tu o Rei dos Judeus? Respondeu-lhe Jesus: Tu o dizes.
- Mas enquanto os principais sacerdotes e os anciãos o acusavam, ele nada disse.
- Então lhe perguntou Pilatos: Não ouves quantas acusações te fazem?
- Jesus não respondeu sequer uma palavra, de modo que Pilatos muito se maravilhou.
- Por ocasião da festa costumava o governador dar liberdade a um preso, à vontade do povo.
- Naquela ocasião tinham eles um preso famoso, chamado Barrabás.
- Estando, pois, o povo reunido, perguntou-lhe Pilatos: Qual dos dois quereis que eu vos solte, Barrabás, ou Jesus chamado Cristo?
- Pois sabia que por inveja lho tinham entregado.
- Estava Pilatos sentado no tribunal, quando sua esposa mandou dizer-lhe: Não te envolvas na questão deste justo; porque hoje em sonhos muito padeci por causa dele.
- Os principais sacerdotes e os anciãos persuadiram à multidão que escolhesse a Barrabás e fizesse morrer a Jesus.
- O governador perguntou: Qual dos dois quereis que eu vos solte? Responderam eles: Barrabás.
- Replicou-lhes Pilatos: Que hei de fazer, então, de Jesus, a quem chamam Cristo? Bradaram todos: Seja crucificado!
- Pilatos continuou: Pois que mal fez ele? Mas eles clamavam cada vez mais: Seja crucificado!
- Vendo Pilatos que nada conseguia, e que ao contrário o tumulto aumentava, mandando vir água, lavou as mãos diante da multidão e declarou: Sou inocente deste sangue, isso é lá convosco.
- Todo o povo disse: O sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos.
- Então Pilatos soltou a Barrabás; e mandando açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado.
- Depois os soldados do governador, conduzindo Jesus ao Pretório, reuniram em torno dele toda a corte.
- Despindo-o, vestiram-lhe um manto carmesim.
- Em seguida tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e uma cana na mão direita; e ajoelhando-se diante dele, escarneciam-no, dizendo: Salve, Rei dos Judeus!
- E cuspindo nele, tomaram a cana, e davam-lhe com ela na cabeça.
- Depois de o terem escarnecido, tiraram-lhe o manto, vestiram-lhe as vestes e levaram-no para ser crucificado.
- Ao saírem, encontraram um homem cirineu, chamado Simão, a quem obrigaram a levar a cruz de Jesus.
- Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer, Lugar da Caveira,
- deram-lhe a beber vinho com fel; e ele, tendo-o provado, não o quis beber.
- Depois de o crucificarem, repartiram entre si as vestes dele, deitando sortes;
- e sentados, ali o guardavam.
- Puseram-lhe sobre a cabeça a sua acusação escrita: ESTE É JESUS O REI DOS JUDEUS.
- Então foram crucificados com ele dois salteadores, um à sua direita e outro à sua esquerda.
- Os que iam passando, blasfemavam dele, meneando a cabeça,
- e dizendo: Ó tu que destróis o santuário, e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz.
- Do mesmo modo os principais sacerdotes com os escribas e anciãos, escarnecendo, diziam:
- Ele salvou aos outros, a si mesmo não se pode salvar; Rei de Israel é ele! desça agora da cruz, e creremos nele.
- Confia em Deus; Deus que o livre agora, se lhe quer bem; pois disse: Sou Filho de Deus.
- Também os salteadores que foram crucificados com ele, dirigiram-lhe os mesmos impropérios.
- Desde a hora sexta até a hora nona houve trevas sobre toda a terra.
- Cerca da hora nona deu Jesus um alto brado: Eli, Eli, lamá sabactâni? que quer dizer, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
- Alguns daqueles que estavam presentes, ouvindo isto, disseram: Ele chama por Elias.
- No mesmo instante um deles correu, tomou uma esponja, ensopou-a em vinagre e, pondo-a numa cana, deu-lhe de beber.
- Mas os outros disseram: Deixa, vejamos se Elias vem salvá-lo.
- De novo dando Jesus um alto brado, expirou.
- O véu do santuário rasgou-se em duas partes de alto a baixo, tremeu a terra, fenderam-se as rochas,
- abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, já falecidos, foram ressuscitados;
- e saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
- O centurião e os que com ele guardavam a Jesus, vendo o terremoto e o que se passara, tiveram muito medo e disseram: Verdadeiramente este era Filho de Deus.
- Estavam ali muitas mulheres, observando de longe, as quais desde a Galiléia tinham seguido a Jesus para o servir;
- entre elas se achavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mulher de Zebedeu.
- À tarde veio um homem rico de Arimatéia, chamado José, que era também discípulo de Jesus;
- ele foi a Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que lho entregassem.
- José levou o corpo, envolveu-o em pano limpo de linho
- e depositou-o no seu túmulo novo, que fizera abrir na rocha; e pondo uma grande pedra à entrada do túmulo, retirou-se.
- Achavam-se ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro.
- No outro dia, que era o seguinte a Parasceve, reunidos os principais sacerdotes e os fariseus, dirigiram-se a Pilatos
- e disseram-lhe: Senhor, lembramo-nos de que aquele embusteiro, ainda em vida, afirmou: Depois de três dias ressuscitarei.
- Ordena, pois, que se faça seguro o sepulcro até o terceiro dia, para não suceder que, vindo os discípulos, o furtem e depois digam ao povo que ele ressuscitou dos mortos; e será o último embuste pior que o primeiro.
- Disse-lhes Pilatos: Aí tendes uma guarda; ide segurá-lo, como entendeis.
- Partiram eles e tornaram seguro o sepulcro, selando a pedra e deixando ali a guarda.
Capítulo 28
- No fim do sábado, ao alvorecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro.
- Eis que tinha havido um grande terremoto; pois um anjo do Senhor descera do céu e, chegando-se ao sepulcro, removera a pedra, e sentara-se sobre ela.
- A sua aparência era como um relâmpago, e a sua veste branca como a neve.
- Os guardas, receosos dele, tremeram e ficaram como mortos.
- Mas o anjo disse às mulheres: Não temais vós; porque sei que procurais a Jesus, que foi crucificado.
- Ele não está aqui, porque ressuscitou, como disse; vinde e vede o lugar onde ele jazia.
- Ide depressa dizer a seus discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e vai adiante de vós para a Galiléia; lá o vereis. Olhai que vo-lo tenho dito.
- Elas deixaram apressadamente o túmulo, tomadas de medo e grande gozo, e foram correndo avisar os discípulos.
- Eis que Jesus as encontrou e lhes disse: Salve! Elas aproximando-se, abraçaram-lhe os pés e adoraram-no.
- Então lhes disse Jesus: Não temais; ide avisar a meus irmãos que se dirijam à Galiléia, e lá me hão de ver.
- Enquanto elas iam, vieram à cidade alguns soldados da guarda, e contaram aos principais sacerdotes tudo o que havia sucedido.
- Estes, reunidos com os anciãos, tendo consultado entre si, deram bastante dinheiro aos soldados,
- recomendando-lhes que dissessem: Os seus discípulos vieram de noite e furtaram-no, enquanto nós dormíamos.
- Se isto chegar aos ouvidos do governador, nós o persuadiremos, e vos livraremos de cuidado.
- Os soldados receberam o dinheiro e fizeram como lhes haviam recomendado; e esta notícia se há divulgado entre os judeus até o dia de hoje.
- Partiram os onze discípulos para a Galiléia, para o monte que Jesus lhes designara;
- e vendo-o, adoraram-no, mas alguns tiveram suas dúvidas.
- Jesus, aproximando-se, disse-lhes: Foi-me dado todo o poder no céu e na terra.
- Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo;
- instruindo-as a observar todas as coisas que vos tenho mandado. Eis que eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo.
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