Intimidade - Miguel Torga

Intimidade

Meu coração tem quantos versos quer; 
É só pulsá-los com medida e rumo. 
É só erguer-se a pino a um céu qualquer, 
E desse alado azul cair a prumo. 

Logo se desvanece o negro encanto 
Que os tinha ocultos no condão da bruma; 
Logo o seu corpo esguio rasga o manto, 
E mostra a humanidade que ressuma. 

Mas quanto ele sangra para os orvalhar 
De ternura, de sonho e de ilusão, 
São outros versos. . . para segredar 
A quem é seu irmão.

Miguel Torga