Esperança - Machado de Assis



Pobre romeiro da poente estrada,
Cantei passando pelo val da vida
       Ao sopro do aquilão
Ouvi-te um canto. Minha voz cansada
Vem modular-te a saudação sentida,
       Como de irmão a irmão!

Aos sons acordes da tua harpa ardente
Venho juntar uma canção saudosa
       Deste alaúde em flor...
A poesia é um dom onipotente;
Não desmintamos a missão gloriosa, 
       Profetas do Senhor!

Beijarei essa túnica sagrada
Que sobre os ombros o Senhor te dera
       Como um manto real;
Irei contigo do porvir na estrada,
Onde rebenta em flor a primavera
       Das pontas do espinhal.

Irmão de crença! eu irei contigo
Sonhar nas tendas que ao passar entrarão
       Extintas gerações;
Rezarei junto a ti no altar antigo,
Onde muitos outr’ora ajoelharão
       Em salmos e orações.

Quando o porvir em fúlgido horizonte
Estende-se arraiado de venturas
       E convida a esperar,
Deve-se erguer de entusiasmo a fronte,
Venha embora o luar das sepulturas
       A esperança gelar!

O sonho em que o espírito se embala
Vem do céu como angélico segredo
       À fronte do cantor;
Mas precoce o coração estala
É que Deus julgou bem erguê-lo cedo
       Para um mundo melhor!

Sonhemos pois! Meu tímido alaúde
Da tua harpa unirei à nota ardente
       Em uma só canção
Este afeto fraterno é uma virtude,
Deixo-te aqui a saudação de um crente
       Como de irmão a irmão.

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